A ECONOMIA CRIATIVA NO CENÁRIO BRASILEIRO

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 72-76)

O PLANEJAMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A ECONOMIA

1. A ECONOMIA CRIATIVA NO CENÁRIO BRASILEIRO

No intuito de elucidar ainda mais sobre a abrangência da economia criativa, o Sistema Firjan (2016) desenvolveu uma classificação engloban-do as diversas atividades que compõem a cadeia da indústria criativa no Brasil, dividindo-as em três grandes grupos: núcleo (subdividido nas clas-sificações consumo, cultura, mídia e tecnologia), atividades relacionadas (subdivididas em serviços e indústrias) e apoio.

Sobre as subdivisões do núcleo da indústria cultura, segundo a classi-ficação retromencionada, o consumo seria composto pelas atividades di-retamente relacionadas a publicidade, arquitetura, design e moda, ao passo que a cultura englobaria expressões culturais, patrimônio e artes, música e artes cênicas, enquanto a mídia seria integrada pelo editorial e pelo audio-visual e a tecnologia abarcaria as atividades vinculadas à pesquisa e desen-volvimento – P&D e à Tecnologia de Informação e Comunicação – TIC.

Por seu turno, os serviços das atividades relacionadas abrangeriam registros de marcas e patentes, serviços de engenharia, venda das mar-cas audiovisuais, comércio varejista de moda, cosméticos e artesanato, suporte técnico de TI, operadores de televisão por assinatura e livrarias.

A subcategoria indústria das atividades relacionadas englobaria produção de materiais para publicidade, confecção de roupas, fabricação de apare-lhos de transmissão de som e imagem, de instrumentos musicais, de equi-pamentos de informática, de cosméticos, de madeira e mobiliário e de equipamentos de laboratório, impressão de livros, metalurgia de metais preciosos, curtimento e outras preparações do couro.

Por fim, o apoio adviria das diversas ramificações que integram a in-dústria criativa, incluindo serviço de tradução, agenciamento de direitos autorais, representação comercial, telecomunicações, construção civil, re-paração e manutenção de computadores, tecelagem, capacitação técnica, dentre outras.

Nota-se, portanto, que a economia criativa engloba diversos setores, sendo necessário que a mensuração de seu impacto considere todas as

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vidades relacionadas e de apoio que a compõem. A chamada indústria cria-tiva impulsiona o crescimento a partir da criação de valor e do estímulo às inovações, ferramenta bastante utilizada nessa economia, além de pro-porcionar ideias e processos transformadores. A indústria criativa fomenta externalidades positivas, preservação de herança cultural e diversidade no cenário interno e, no cenário externo, cria novas dinâmicas de comércio e possibilidades de crescimento para países que encontravam maiores difi-culdades para competir no comércio internacional tradicional.

Evidencia-se o potencial de um desenvolvimento mais inclusivo e de-mocrático originado dessa economia, uma vez que se baseia na criativida-de humana, razão pela qual, nessa indústria, a capacidacriativida-de criativa tem um peso tão determinante que pode, muitas vezes, driblar o porte do capital a partir do conteúdo e do meio, utilizando-se da inventividade e da inova-ção, beneficiando aqueles que não dispõem de muitos recursos.

Cumpre destacar que todos os países, mas especialmente os conside-rados em desenvolvimento, beneficiam-se bastante da diversificação da produção e das exportações proporcionadas pela indústria criativa, inclu-sive em novas áreas de crescimento sustentável, além do desenvolvimento tecnológico e em inovação propiciados por essa indústria.

Ciente do potencial transformador da economia criativa, a 74ª As-sembleia Geral das Nações Unidas declarou o ano de 2021 como o Ano Internacional da Economia Criativa para o Desenvolvimento Sustentável.

A economia criativa é um dos setores de maior crescimento em todo o mundo e que contribui com parcela considerável do PIB mundial, sendo movida por um recurso renovável, sustentável e ilimitado, que é compar-tilhado por todas as pessoas: a criatividade. Ademais, o crescimento eco-nômico propiciado por essa indústria, se bem orientado pela gestão pú-blica através de políticas púpú-blicas inclusivas, contribui significativamente para reduzir as desigualdades e promover o desenvolvimento sustentável.

Ressalte-se o potencial econômico e dessas atividades: a título de exemplo, no Brasil, em 2017, havia 837,2 mil profissionais criativos for-malmente empregados e a participação no PIB nacional da economia cria-tiva era 2,61% (SISTEMA FIRJAN, 2019). Além disso, ressalta-se que a indústria criativa é de crescimento expressivo, como destacou o relatório produzido pela ONU (2018), no qual consta que o tamanho do merca-do global por produtos e serviços criativos mais que merca-dobrou de tamanho

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entre o período compreendido entre os anos de 2002 e 2015, passando de 208 bilhões de dólares para 509 bilhões de dólares.

Cientes dos benefícios econômicos e sociais advindos da indústria cultural, os governantes destinam parcela das verbas públicas a esse setor.

É evidente que os incentivos governamentais que beneficiam a economia criativa não se restringem aos especificamente destinados a essa indústria, uma vez que ela se beneficia dos estímulos concedidos à economia como um todo, mas também podem ser direcionados a setores específicos da cultura, consubstanciando-se através de insumos públicos ou interven-ção no mercado no intuito de incentivar o consumo ou a produinterven-ção dessa economia.

A fim de ilustrar a atuação mundial no incentivo à indústria cultu-ral, oportuno mencionar a experiência de alguns países, como destacaram Athias, Martins e Silva (2020) no trecho o a seguir:

Os investimentos público e privado na economia criativa se des-tacam em alguns países, como no Reino Unido e na Austrália, com esforço de retomar a atividade econômica em áreas desindus-trializadas, em que a produção possa ter migrado para países com menor custo de mão de obra. As cidades criativas (Landry, 2008) ganhariam dinamismo com uma classe criativa (Florida, 2002), pois a mão de obra envolvida nas empresas criativas tende a ter mais qualificação que o conjunto dos trabalhadores. Para além do investimento e aproveitar esses profissionais, eles podem estar em-pregados tanto em atividades criativas (como uma agência de pu-blicidade) ou serem os “criativos embutidos”, quer dizer, atuando em setores além do recorte das indústrias criativas: o exemplo clás-sico é o designer na indústria automobilística. Mesmo no Brasil, houve avanços para estudar e fomentar a economia criativa, por exemplo, com a criação da Secretaria de Economia Criativa no extinto Ministério da Cultura (Minc), além do estabelecimento de Observatórios de Economia Criativa, em diversos estados (GÓES;

ATHIAS; MARTINS; SILVA, 2020).

A participação dos governantes brasileiros no fomento à indústria criativa no Brasil deu-se a partir de experiências continuamente testadas

ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

e reformuladas, como esclarece Cerqueira (2018), nos excertos infra-transcritos:

Lia Calabre (2009, p.43) analisa que, entre as décadas de 1960 e 1970, as questões relacionadas à cultura ganharam maior impor-tância dentro da área de planejamento público e passaram a ser in-cluídas nas noções de desenvolvimento. Na década de 1960, antes do golpe de 1964, o governo federal implementou algumas ações visando estruturar uma política para o setor. Em 1961 foi criado o Conselho Nacional de Cultura (CNC), diretamente subordinado à Presidência da República, ocupada por Jânio Quadros.

[...]

A relativa retomada do papel ativo do Estado brasileiro nas po-líticas públicas culturais se dá nos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os anos 2003 e 2010 há um esforço no sentido de estabelecer um diálogo e compartilhar com a so-ciedade brasileira a revisão, formulação, estruturação e execu-ção das políticas setoriais. Nesse período, foram realizadas im-portantes iniciativas de sustentação e operacionalização, como o Sistema Nacional de Cultura (SNC), o Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) e o Programa de Desenvolvimento Econômico da Cultura (Prodec). Além disso, o slogan "Cultura para todos" procurou materializar a descentralização e diversi-dade cultural com o "Programa Cultura Viva", que institui os

"Pontos de Cultura", e o "Mais Cultura". Na gestão de Gilberto Gil estimulou-se um processo de discussão e reorganização do orçamento com objetivo de melhorar distribuição dos recursos destinados à cultura. Pela primeira vez foi proposta uma revisão pública para corrigir as limitações da Lei Rouanet.

Para aprofundar a tentativa de combate ao ciclo de descompro-metimento do Estado com a cultura, o governo Dilma Rousseff apresentou o planejamento em longo prazo do Plano Nacional de Cultura (PNC), formulado com a participação de consultas na-cionais e regionais por meio de fóruns e conferências realizados pelo país. Citam-se também o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC) e o Plano de Economia Criativa,

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assim como a aprovação e regulamentação do Vale-Cultura para trabalhadores. (CERQUEIRA, 2018).

Ante o exposto, verifica-se que, em regra, a gestão federal procura ativamente construir as bases para a consolidação das políticas públicas relacionadas à economia criativa no Brasil, utilizando-a como um ins-trumento de inclusão social. Convém ressaltar que a Lei Rouanet (Lei Federal nº 8.313/1991) criou o Programa Nacional de Apoio à Cultura – Pronac, que é o instrumento que informa os critérios e as formas de aplicação dos recursos dos mecanismos de financiamento cultural, sendo um de seus mecanismos o Fundo Nacional de Cultura.

Não obstante, no cenário brasileiro, a importância da economia cria-tiva destoa do conjunto de despesas públicas destinado ao setor, como é possível inferir a partir dos dados destacados a seguir:

Essas despesas, numa superestimação (pois os dados utilizadosnão excluem as transferências entre os entes), chegou a R$ 4,3 bilhões, na soma das três esferas de governo, representando 0,21% do total de despesas em 2018, com uma queda em relação a anos anterio-res, segundo a compilação do IBGE: a proporção era 0,3% em 2011 (IBGE, 2019b). A esse conjunto, soma-se a renúncia fiscal, que representou R$ 1,272 bilhão em 2018, montante similar ao início da série compilada (R$ 1,225 em 2011). (GÓES; ATHIAS;

MARTINS; SILVA, 2020).

Ante o exposto, urge maior atenção dos agentes públicos à econo-mia criativa, especialmente considerando-se a abrangência da indústria cultural, a significativa movimentação de recursos proporcionada por essa economia e o potencial transformador socioeconômico dessas atividades.

2. COVID-19 E A IMPORTÂNCIA DAS AÇÕES

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