A ECONOMIA CRIATIVA E O DESENVOLVIMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 78-83)

O PLANEJAMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A ECONOMIA

3. A ECONOMIA CRIATIVA E O DESENVOLVIMENTO DE POLÍTICAS PÚBLICAS

A Organização das Nações Unidas – ONU, ao definir o ano de 2021 como o Ano Internacional da Economia Criativa para o Desenvolvimento Sustentável, pretendeu estimular o compromisso dos governantes em

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senvolver essa indústria, reconhecendo que a comunidade internacional também deve apoiar os esforços nacionais dos países em desenvolvimento para aumentar sua participação e se beneficiar de setores dinâmicos e para fomentar, proteger e promover suas indústrias criativas.

Nesse contexto, necessário pontuar que o planejamento das políticas públicas destinadas à economia criativa deve considerar que as frequentes modificações tecnológicas e sociais demandam uma constante capacitação dos profissionais ligados a esses setores, inclusive para redirecionar os pro-fissionais que atuam em setores fadados a serem substituídos por máquinas ou cujas funções não mais serão necessárias em um futuro próximo.

Além disso, os governantes devem analisar as particularidades desse setor, como, por exemplo, o surgimento de novos tipos de relações de trabalho e o expressivo número de trabalhadores que se utilizam do que se convencionou chamar de “pejotização”, artifício segundo o qual o tra-balhador cria uma pessoa jurídica para ser contratado e prestar serviços à empresa integrante da indústria criativa, no caso, não constituindo relação de emprego e não garantindo ao trabalhador o amparo da proteção social legalmente estabelecida, mas, por outro lado, permitindo maior flexibi-lidade para a empresa e para o próprio trabalhador, que poderá trabalhar para diversas empresas.

A despeito de todos os prós e contras, o fato é que o mundo está mudando, tornando-se mais conectado e, com isso, as relações de trabalho vêm-se alterando. Como era de se esperar, a Indús-tria Criativa se comporta como uma catalisadora desse processo e já apresenta evidências de consolidação e aumento da “pejotiza-ção”. Dentro da Indústria Criativa, os PJs já constituem um tipo de contratação muito mais difundido e usual: para cada cinco em-pregados formais criativos, existe uma pessoa jurídica que trabalha formalmente com criatividade. Esse volume é bem superior ao do total da economia brasileira – em que a relação é de 18 empregados para apenas um PJ. Essa prática é bastante recorrente na Indústria Criativa devido à natureza dos projetos, que não necessariamente ocorrem em um fluxo contínuo de produção (mas sim por deman-da, de maneira mais flexível), no qual diferentes etapas do proces-so produtivo são executadas por profissionais com especialidades

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distintas. Essa especificidade da Indústria Criativa vem-se consoli-dando com firmeza. Nas áreas criativas, os PJs crescem muito mais do que no total da economia: são +4,4% de PJs criativos no biênio 2015-2017, frente a +0,9% de PJs no total da economia brasileira.

(SISTEMA FIRJAN, 2019, p. 14-15).

Ademais, as políticas públicas devem ser concebidas considerando-se o impacto social e econômico potencial de pequenos projetos culturais em uma determinada região. No sistema capitalista em que vivemos, a lógica mercadológica tende a favorecer projetos que promovam o maior retorno lucrativo para seus patrocinadores, não considerando o impacto social que adviria do consumo de produtos específicos da indústria cultural. Nesse cenário, as produções das grandes empresas contam com maior divulgação, crítica direcionada e paga, dentre outros fatores que lhe permitem maior alcance e, consequentemente, maior retorno econômico, enquanto as pro-duções culturais regionais são fortemente prejudicadas nesse sistema, tanto no que se refere à viabilização de acesso aos seus produtos como na qualida-de do material produzido em comparação com as empresas qualida-de maior porte.

Sem a necessária intervenção estatal, restaria prejudicada também a diversidade dos projetos culturais, uma vez que, nessa conjuntura, para garantir a sobrevivência do empreendimento e daqueles que dependem do retorno financeiro daquele negócio, os artistas acabariam por sucumbir à lógica mercadológica e produziriam o conteúdo que repercutiria com maior facilidade e aceitabilidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ante o exposto, resta patente a importância do papel dos governos como fomentadores da indústria cultural, a qual é convertida em renda e desenvolvimento para uma expressiva coletividade. Nesse contexto, cum-pre realçar que a economia da cultura engloba não apenas obras literá-rias, musicais ou cinematográficas, mas também moda, design, turismo e os diversos outros ramos relacionados à cultura e que produzem impacto econômico.

Ademais, é nítido que as ações governamentais para aumentar a efi-ciência da economia criativa devem considerar não apenas as

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ticas desse sistema no presente momento, mas as possibilidades futuras, equilibrando a necessária flexibilidade da indústria criativa com pontuais intervenções governamentais para estimular o desenvolvimento sustentá-vel, benéfico para todos os cidadãos.

O estímulo governamental pode ser, em grande parte, direcionado a promover maior diversidade na indústria e, consequentemente, ampliar a inclusão e as externalidades positivas em pontos específicos daquela eco-nomia, que representa o meio de sobrevivência e uma perspectiva de fu-turo mais digno para milhares de integrantes de regiões e comunidades economicamente desfavorecidas, amenizando uma possível concentração de demanda por determinados produtos e bens construída a partir de vo-lumosos investimentos midiáticos privados, outra poderosa instituição que compõe esse sistema.

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