COMPLIANCE TRIBUTÁRIO: ELEMENTAR PRIMÁRIA PARA MUDANÇA DE HÁBITOS NA RELAÇÃO

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 156-161)

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O COMPLIANCE TRIBUTÁRIO

2. COMPLIANCE TRIBUTÁRIO: ELEMENTAR PRIMÁRIA PARA MUDANÇA DE HÁBITOS NA RELAÇÃO

FISCO-CONTRIBUINTE

Quando analisamos o perfil das empresas que não lograram êxito na continuidade de suas atividades, é possível observar que o elemento

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mum entre muitas delas é a instabilidade gerencial em torno dos encargos impostos por força de lei, especialmente com relação ao impacto tributá-rio que todas elas sofrem com seus compromissos fiscais. A ausência de planejamento gerencial, seja através dos procedimentos adotados para sua administração, seja por decorrência dos pagamentos de haveres tributá-rios, trabalhistas, fiscais e financeiros, gera uma instabilidade nas contas e um endividamento consequente que tornam impossível a manutenção da empresa no mercado. Isso porque, “apriorizaçãodo cumprimento tri-butário não serve apenas como instrumento de mobilização de recursos, mas também influencia a eficiência e a equidade do sistema tributário”.

(VIOL, 2015, n.p.).

Por dado motivo, o compliance não representa apenas uma obediência aos aspectos formais de instrumentos legislativos, mas uma série de absor-ções culturais e padrões de condutas éticas; é, portanto, uma nova concep-ção comportamental que deve ser emanada dos gestores aos empregados.

Em termos tributários, é um instrumento que maximiza o cumprimento fiscal, o que aproxima a arrecadação em potencial e estreita a quantidade de recursos a serem tributados de acordo com a legalidade de cada jurisdi-ção gerando uma funcionalidade ética da máquina corporativa. Quanto aos efeitos decorrentes da sonegação fiscal, vale ressaltar a preocupação dessa entidade ao explicitar que essa prática- representada pelo abandono de al-guns membros da sociedade de suas responsabilidades sociais em detrimen-to dos outros- afeta a igualdade e quando essa desigualdade atinge um nível em que alguns membros da sociedade têm negado o acesso a necessidades básicas, há ameaça aos direitos humanos (NELSON, 2020, n.p.).

Em discussão apartada, salienta-se que o compliance é um meio de nor-matizar as ações estatais alinhadas as gestões públicas e ao estímulo educa-tivo, vez que as empresas enfrentam uma série de procedimentos regula-tórios e burocracias que intimidam a gestão irresponsável e necessitam de uma compreensão apurada de todos os setores da organização; com isso, a redução de gastos e custos operacionais, evidentemente, tornam a empresa proativa no cumprimento de suas obrigações tributárias. Isso porque:

[...] a grande maioria dos contribuintes comportam-se honesta-mente, portanto, reduzir a significância dos instrumentos sancio-natórios para coerção dos indivíduos uma forma de educar o mal

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pagador – a cumprir suas obrigações tributárias não pode ser o único mecanismo hábil para isso.

As recompensas podem estimular a observância das normas tri-butárias de forma positiva. O Fisco que oferta uma recompensa positiva, gera nos indivíduos um sentimento mais forte de repú-dio a evasão fiscal, elevando a percepção de risco do contribuinte, aumentando o nível de cumprimento voluntário. (VECCHIO;

VIEIRA, 2020, p. 162).

Um programa de compliance elaborado com sucesso em uma organi-zação empresarial é semelhante a um raio-x bem executado de tudo o que existe em suas dependências. Um planejamento excepcional é capaz de mitigar os riscos empresariais e, assim, garantir que se torne mais íntegra, o que não significa, necessariamente, dizer que um programade compliance é suficiente para eliminar todos os riscos de uma empresa, mas funciona de forma satisfatória, muito semelhante a um programa de reeducação alimentar: uma vez eliminados os péssimos hábitos, adquirindo-se novos e melhores, fomentando-se uma análise bem feita dos problemas edosris-cos,aorganização(tanto quanto o reeducando alimentar) tende a agir de maneira mais dinâmica, revitalizando-se:

[...] é fundamental uma eficiente ação fiscalizadora que se comple-menta e se torna efetiva com ações ágeis de fiscalização, punindo e repreendendo aqueles que não cumprem com suas obrigações tributárias. Entretanto, recompensar aqueles que honram os seus compromissos, neste momento, também possui significativa im-portância, e um programa eficiente de Compliance tributário no âmbito da organização empresarial pode ser a resposta. (VEC-CHIO; VIEIRA, 2020, p. 164).

A numerosa e complexa legislação aumenta os custos de conformi-dade majorando o gasto com recursos necessários para que as obrigações tributárias sejam cumpridas. Para além do valor do tributo, o contribuin-te contribuin-terá gastos para preencher declarações de forma adequada, apurar o montante a ser recolhido, prestar informações ao fisco, atentar às alte-rações legislativas e jurisprudenciais, contratar profissionais para realizar

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essas funções e para atuar em processos na esfera administrativa ou judicial (BERTOLUCCI; NASCIMENTO, 2002, p. 64). Os custos de confor-midade podem ser: custos monetários, custos temporais e custos psicoló-gicos, todos representando entraves à performance econômica (CÉSAR, 2014, p. 157). Isso porque, além dos critérios de racionalidade humana, como a injustiça tributária e a falta de transparência dos recursos públicos, a segregação mental também se manifestam diante de alguns fatores:

(a) a complexidade do sistema e da legislação fiscal, que normal-mente permite “aberturas” interpretativas, além de acarretar o aumento dos custos de cumprimento; (b) a demora na resolução definitiva da controvérsia tributária no âmbito administrativo e judicial, gerando insegurança jurídica e violações à livre concor-rência; (c) a concessão de parcelamentos periódicos que estimulam o não pagamento tempestivo dos tributos em razão dos descontos concedidos, além de distorcer a concorrência; (d) os escândalos de corrupção e a má gestão administrativa, que deixam no contri-buinte a sensação de constante desvio dos recursos públicos; (e) o caráter regressivo do sistema tributário, que impõe custos maiores aos economicamente desfavorecidos; e (f) os altos índices de evasão fiscal ou planejamento fiscal abusivo, que minam a confiança do contribuinte na administração tributária e no sistema fiscal como um todo, diante do sentimento de flagrante injustiça fiscal. (VI-TALIS, 2019)

Não podemos dispensar de fazer menção a elementar primária para mudança de hábitos na relação Fisco-Contribuinte, e apostamos que, a relevância entre punição vs. recompensa é o fator predominante se qui-sermos perquirir uma moral fiscal e melhor adimplemento dos tributos (fator essencial para justiça fiscal mais equânime). Qualquer política que aprimore o comportamento dos contribuintes deve exigir uma estratégia do poder público, além do foco na atuação positiva – os contribuintes não podem receber tratamento igual, visto que cada um reage de forma dife-rente a cada estímulo:

Quanto mais transparente o sistema tributário, maior a moral fis-cal. Além disso, a simplicidade do sistema tributário conduz

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bém a uma maior moral tributária, sendo que a complexidade está correlacionada com a evasão. Um bom sistema tributário deve ser simples e fácil de entender. Complexidade pode resultar em des-cumprimento não intencional.

O cumprimento ou o descumprimento da norma são, algumas vezes, uma questão de oportunidade, além de relacionar-se com a vontade do contribuinte de pagar o tributo ou evadir a norma.

As pessoas cumprem a norma por diferentes razões. Aqueles que pagam seus tributos fazem-no porque o querem ou porque têm medo das consequências. Comportam-se de determinado modo, porque são influenciados pelas normas sociais e por suas crenças.

Outro ponto interessante na questão das recompensas são as normas sociais. Elas consistem em uma forma que amolda o comportamento das pessoas, aprovando-o ou reprovando-o. As normas sociais são regras de comportamento baseadas na crença compartilhada pela sociedade e punidas por sanções sociais. Se outras pessoas agem de acordo com um modelo social aceito, um indivíduo agirá apropriadamente. Assim, o indivíduo vai cumprir com a lei e pagar os tributos tanto quanto ele acredi-tar que está cumprindo com as normas sociais. (MARTINEZ, 2014, p. 332).

É complemente plausível afirmar que os custos desnecessários para fiscalização, apuração e recolhimento de obrigações fiscais e o próprio tri-buto em si onera toda a população – pessoas físicas e organizações empre-sariais –, além de gerar o sentimento de desconfiança. O que sugerimos transição de um relacionamento tradicional, marcado pela hostilidade e falta de confiança (que já se mostrou ineficiente para ambas as partes) e inicia-se com posturas de transparência e confiança em que não se colo-cam em contraposição. Desse modo, acredita-se que é plenamente pos-sível a oferta de um tratamento personalizado a cada tipo de inconformi-dade fiscal, em que seja permitido um tratamento adequado, desfazendo a cultura de que todo contribuinte pode ser um sonegador por natureza.

Um programa de compliance bem delimitado estimula uma cultura in-tegra afetando a todos aqueles que contribuem para o erário. Isso porque

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a administração tributária constitui-se de atividade integradas que visem o cumprimento pela sociedade da legislação tributária em prol da adim-plência das obrigações fiscais além da construção de uma percepção de riscos sobre os contribuintes faltosos – preocupados com as recompensas positivas, estimulando o maior cumprimento.

3. A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO ELEMENTO

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 156-161)