RevBrasCiêncEsporte.2015;37(1):104---106
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Revista
Brasileira
de
CIÊNCIAS
DO
ESPORTE
RESENHA
Uma
visão
internalista
para
desfrutar
plenamente
o
desporto
An
internalist
view
to
fully
enjoy
sport
Una
visión
internalista
para
disfrutar
el
deporte
por
completo
Torres,C.R. Gol demedia cancha: Conversaciones para disfrutardeldeporteplenamente.BuenosAires:Mi˜noy Dávila,2011.
Goldemediacancha,obradeCésarTorres,docentee inves-tigadoremTheCollegeatBrockport,StateUniversityofNew York,eex-presidentedaAssociac¸ãoInternacionalde Filoso-fiadoDesporto,proporcionaaoleitorcomumaexperiencia filosóficadequestionamentoe dediálogoabertoque ofe-recenãosóumconhecimentomaisprofundo dodesporto, mastambémdenósmesmosenquanto‘‘desfrutadores’’da realidadedesportiva.
Pequenodedimensão,constituídoporseiscapítulos pro-cedentes da introduc¸ão, mas de enorme relevo no modo comoabordaquestõescentraisdodesportoenquanto reali-dadesocial,olivropossui,em comparac¸ãoàgeneralidade depublicac¸õesnessecampodeestudos,aparticularidadede adotarumestilodialoganteatravésdoqualexpressaoseu modoprópriodeolharodesporto,contrapondo-o,contudo, rigorosaehonestamente,àssuasmúltiplaspossibilidadese perspetivas.
O recurso a diversas fontes de perspetivac¸ão do des-porto, especificamente filósofos, escritores, jornalistas, ou até desportistas, bem como o confronto que esti-mula entre elas, confere ao livro uma natureza holística e complexa, constituindo uma peculiaridade diferencia-dora da publicac¸ão em relac¸ão a outras publicac¸ões na área,quefrequentementerestringemassuasfontesa teó-ricas ou práticas, tendo em vista uma clarificac¸ão mais fácil datônica dotrabalho: científico-teóricaou praxioló-gica.
Contemplarodesportoembuscadosmodosdasuaplena fruic¸ãoconstitui oprincipaldesafio destelivro,queCésar Torresempreendepeloestímuloàreflexãosobreodesporto e,pormeiodela,àpromoc¸ãodoprazerdasuaprática:‘‘Lo
queguíaestelibroeseldeseodevivirmejorel deporte’’ (p.16).
ComGoldemediacancha,oautorpretendenãosó sis-tematizarumitineráriopessoaldebuscapelarelac¸ãoplena comodesporto,mastambémservirdeestímuloparaqueos seusleitorestambémofac¸am.
Oprimeirocapítulointitula-se‘‘Eldeporte’’.No pano-rama bibliográficoatual sobre a definic¸ão de desporto, a dificuldade --- ou até impossibilidade --- de uma definic¸ão completa,suficientementeinclusivaeexclusivadedesporto pareceserumdospoucospontosamplamenteconsensuais. Contudo,talfatonãoconstituiumabarreirarobustao sufi-cienteparadeterodestemidoautor,oqueresultaemuma enormecontribuic¸ãoliterária paraocampodeestudoem questão.
Torresdesenvolveatemáticaapartirdanoc¸ãodejogo e,nestafasedolivro,contemplaasatividadesdesportivas demodopredominantementeanalítico, circunscrevendoa especificidadedecadadesportoàshabilidadesfísicas con-cretasqueexige.Se,porumlado,talabordagemcontribui paraumamelhordelimitac¸ãodasfronteirasdecada moda-lidade desportiva, por outro lado --- e tendo em conta a circularidade corpo/mente requerida pelo desporto, pos-tulada até em capítulos posteriores --- seria mais fácil e resultariamaisfavorávelparaoleitorcomuma compreen-sãododesportoenquantorealidadeglobale complexa,se areferênciaàinterdependênciaeindivisibilidadedas com-petênciasfísicas,mentaiseintuitivasfossefeitalogodesde oprimeirocapítulodolivro,enãoapenasposteriormente.
Também as regras assumem uma dimensão fundamen-tal na caracterizac¸ão decada desporto.Segundo o autor, parteimportantedaatratividadedodesportoassenta preci-samentenoequilíbrioentreadificuldadeeatangibilidade dos seusobjetivos, dado que tanto a excessiva facilidade quantoaexageradadificuldadepodemconduziro observa-dor ou o praticante ao tédio. Sãodefinidos dois tipos de regras:constitutivaseregulativas.Paraoautor,cada des-portopossuibensinternosidentitáriosquecaracterizamos seuspadrõesdeexcelência,sendoqueorespeitoàsregras, sobretudoasconstitutivas,enfatizaehonrademodo rele-vantetaisbens(p.22).
Essa perspetiva ‘‘internalista’’ conflitua com modelos paradigmáticos do desporto atual, nos quais o resultado detém total supremacia. Para que os bens internos do
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2013.05.001
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desporto sejam salvaguardados, a competência (título do segundo capítulo), é tanto maisevidenciada quanto mais ‘‘mutualista’’ for a performance, no sentido de associar os competidores na procura mútua de desempenhos de excelênciaquelhespermitamdarrespostaàsdificuldades impostaspelodesportoeevidenciarsuperioridade.
Noterceirocapítulo,‘‘Losbuenoscompetidores’’,César Torresdenunciaqueestasuaprocurapelafruic¸ãoplenado desportonãodizrespeitoapenasaquestõesdecariz esté-tico,queotornemmaisatrativooususcetívelàapreciac¸ão, mastambém,indissociavelmente, aumolharético.Deste modo,sãoquestionadosossignificadosdebemnodesporto, bem como os de bom competidor, aspetos representati-vos de uma experiência satisfatória e autêntica com o desporto.
De acordo com o mutualismo, existem, segundo Tor-res, três princípios básicos aos quais o bom competidor nãopodeestaralheio:o bomcompetidoraceita, respeita e adota asregras dodesporto que pratica;empreende a performancenomaisaltoníveldeexcelênciadassuas pos-sibilidades, eabstém-se deintencionalmentecausardano aos demais (p. 50). Isso não significa que não haja mais princípiosqueenriquec¸ameenobrec¸amaparticipac¸ão des-portivaecontribuamparaasuaexcelência.Torresdetém-se num conjunto particular de ac¸ões que parecem dar res-posta, de modo extraordinário, à aspirac¸ão de justic¸a e excelência do bom competidor. Para o autor, essas ac¸ões ‘‘ayudan a llevar a cabo fehacientemente el propósito central del deporte competitivo y a establecer una cul-tura en que la excelencia deportiva y la integridad de loscompetidoresestánporencima delresultado’’ (p. 53-54).Contudo,àpartedessasac¸õesque,sendovalorizadas, não são obrigatórias, os princípios anteriormente cita-dossãoconsideradoscomo indispensáveisaqualquer bom competidor.
Atendência‘‘internalista’’dever odesporto,adotada por César Torres, leva-o a dedicar o quarto capítulo à reflexão sobre a trapac¸a, que, segundo o autor, envolve habilidadesextralúdicas, foradodomíniodasregrasedos bens internos do desporto,constituindo ummodo inacei-tável deengano. A trapac¸aviola,por isso, oprincípio da imparcialidadeeigualdade decondic¸ões,indispensáveis à competênciadesportiva,pornegaralógicadegratuidade, osbens internos e ospadrões de excelência que definem cadadesporto(p.60).
Umaspetocentrale,dopontodevistadaautoradesta resenha, marcadamente inovador, é que, segundo Torres, contudo,evitaratrapac¸anãoésuficienteparaserespeitare promoverosbensinternosdodesporto.Oconhecimentoque delesetemenquanto fatosocialcomplexo,e nãoapenas enquanto mero somatório de regras constitutivas, repre-sentaumaspetofundamentalaorespeitopelasuanatureza. Époressemotivoqueoquintocapítuloédedicadoà temá-ticadosaberdesportivo.As diferentesabordagensque se podemfazerdodesportoevidenciamosdiferentessaberes que dele se podeter. Dessa maneira, apesardo olhar de umjogadorserdiferentedoolhardeumespectador,deum acadêmico,deumtreinadoroudeumjornalistaesportivo, oautordiscorresobreasuacomplementaridadenaprocura peloconhecimentosobreodesporto.
Para Torres, a porta de entrada do conhecimento é a experiência e, deste modo, o saber requer o
estabelecimentodeíntimascorrespondênciasentreo por-tadordoconhecimentoeoobjetoconhecido(p.72).Assim, sãoidentificadosdoistiposdeconhecimento:osaberteórico eosaberprático,correspondendo osegundoaum conhe-cimento pré-discursivo, encarnado, enraizado no corpo, específico do jogador ou praticante. Esse tipo de conhe-cimento aprende-se com a experiência, reafirmando as habilidadesprópriasdecada desporto,atéquesepossam tornar inconscientes e, muitas vezes, difíceis de explicar teoricamente (p. 77). É a aprendizagem do saberprático que desenvolvenos jogadoresa capacidade de responder aosconstrangimentosimprevisíveisdecadadesporto.
A imprevisibilidade depende danatureza de cada des-porto,podendoestasermaisabertaoufechadaemfunc¸ão das modalidades a que nos referimos. Sendo o futebol umamodalidadedeescalamundial,fazsentidoquegrande partedosexemplosilustrativosdolivroremetamparaessa modalidade,tornandoasuacompreensãomaisrapidamente acessível ao leitor comum. No entanto, o essencial dos princípiosexpostospeloautorpossuienormeaplicabilidade à diversidade de modalidades esportivas, sendo que uma referênciamaisamplaaummaiorlequededesportos for-taleceriaaaplicac¸ãouniversaldessasreflexõesaodesporto comoumtodo.
Afintaéapontadacomoexemploemblemáticoda impre-visibilidadedodesportoedacriatividadenecessáriaparalhe darresposta,porque‘‘materializalasorpresa,la esponta-neidadeyla improvisación’’(p.79). Noentanto,também umamudanc¸a de ritmo inesperada numa provade remo, ou a composic¸ão original de uma sequência de ginástica deelevada dificuldade, possuem o mesmo potencial ilus-trativo.
Há,portanto,naperformance desportiva,segundo Tor-res, uma unidade especial entre corpo e mente, onde pensamentoe ac¸ãosãoprocessos contínuosenvolvidos na totalidade da experiência do ser em desporto. E essa é umadasmaispreciosasvaliasdouniversododesporto,bem comodolivro,paraouniversodoconhecimentoemdesporto (p.81).
Masporquê anecessidadedeenvolvimento como des-porto?Qualovalordodesportoecomooreconhecemos?
Tradicionalmente,ovalordodesportoédestacadopelos efeitos benéficos que pode produzir na saúde. A própria investigac¸ão em desporto movimenta-se, como sabemos, maioritariamente no âmbito de perspetivas biologistas, médicas ou higienistas. Este aspeto constitui, segundo o autor,umproblema gravenoreconhecimento dovalordo desporto. Urge ultrapassar a visão instrumentalista, para que, do envolvimento com o desporto, possa sobressair a fruic¸ão. Assim, mais do que um fármaco curador dos males do corpo ou do espírito, ouainda um instrumento de educac¸ão ou ac¸ão cívica, o desporto deve ser con-templado e experienciado pelos bens internos que possui e pela experiência peculiar que a sua fruic¸ão possibilita (p.84).
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saibam ensinar-nos, formal ou informalmente, e com carinho,asatividadeseleitas(p.87).
A realizac¸ão do desporto não diz respeito, por isso, apenasa questões técnicas, massobretudo à experiência estética que proporciona, pela fruic¸ão da atividade que, simultaneamente,conduzàfruic¸ãodavida,aodiálogo con-noscoecomanatureza,aodesenvolvimentodacriatividade eaoexercíciodaliberdade,porserumaverdadeira experi-ênciahumanizadora,unitáriaeglobalentrecorpoemente (p.90).Concluindo,sãoessesaspetosque,segundoTorres, nosprendemrealmenteaodesporto,nosfazemvalorizá-lo eincluí-lonasnossasvidas,sendotodososrestantesfatores
externosapenasefeitoscolaterais.Porisso,é imprescindí-velalterar-seoparadigmáticodiscursoterapêuticosobreo desporto,substituindo-opelodeleite,peloenamoramento dassuaspossibilidadesinimagináveisdesignificado(p.95).
MariaLuísaBaratadaRochaGagliardiniGrac¸a
ProgramaDoutoralemCiênciasdoDesporto,Fundac¸ão
paraaCiênciaeTecnologia,FaculdadedeDesporto,
FaculdadedeDesportodaUniversidadedoPorto,
Porto,Portugal
E-mail:[email protected]