M E D I C A M E N T O S V E G E T A I S D E O R I G E M P O P U L A R E S U A S I M P L I C A -Ç Õ E S N A A S S I S T Ê N C I A E E N S I N O D E E N F E R M A G E M *
Zaida Aurora Sper li Geraides ** Therezinha Ávila Lim ***
Maria Madalena Januário Leite **** Regina Cavalcante Albuquerque Lemmi***** Maria A parecida Fernandes *****
G E R A L D E S , Z. A . S . ; L I M , T. A . ; L E I T E , M . M . J . ; L E M M I , R. C . A . ; F E R N A N D E S , M . A . M e d i c a m e n t o s vegetais de o r i g e m p o p u l a r e suas implicações n a assistência e ensino de e n f e r m a g e m . Rev. Esc. Enf. USP, S ã o P a u l o , 7 5 ( 3 ) : 2 4 7 - 2 5 5 , 1 9 8 1 .
O presente trabalho contém comentários sobre um estudo a respeito do uso de medi-camentos vegetais pela população. As autoras apresentam inicialmente a fundamentação teórica sobre o assunto e desenvolvem o trabalho com análise crítica da utilização desse recurso terapêutico na assistência e ensino de enfermagem.
I N T R O D U Ç Ã O
A m e d i c i n a t r a d i c i o n a l p r o c u r a n a n a t u r e z a os m e i o s necessários p a r a trata-m e n t o , utilizando-se dos vegetais q u e s e r v e trata-m de a l i trata-m e n t o o u trata-m e d i c a trata-m e n t o , des-p r e z a n d o a m a i o r i a dos des-p r o d u t o s q u í m i c o s 3.
S e g u n d o F O N T E N E L L E 7, os p r i m e i r o s h o m e n s v i v e r a m de a c o r d o c o m as leis da n a t u r e z a , t e n t a n d o c u r a r seus m a l e s utilizando-se:
— do f e t i c h i s m o , e m p r e g a n d o t a l i s m ã s e a m u l e t o s , a c r e d i t a n d o q u e pos-s u í a m o p o d e r de a f a pos-s t a r o m a l e a pos-s pos-s e g u r a r a pos-s a ú d e ;
— da m a g i a , u s a n d o certos r i t u a i s p a r a a f u g e n t a r o d e m ô n i o , g e r a d o r de doenças;
— da a s t r o l o g i a , dirigindo-se aos astros p a r a l h e s s u p l i c a r a c u r a ; — do e m p r e g o de e l e m e n t o s da n a t u r e z a , a á g u a , o fogo, a t e r r a e os v e -getais.
F O N T E N E L L E7 a f i r m a , a i n d a , q u e nossos ancestrais n ã o p o s s u í a m m e d i -c a m e n t o s p a r a -c u r a r suas doenças e então r e -c o r r i a m aos p r o d u t o s vegetais, basean-do seus c o n h e c i m e n t o s sobre as v i r t u d e s das p l a n t a s n o i n s t i n t o , i n s p i r a ç ã o , ob-s e r v a ç ã o do c o m p o r t a m e n t o doob-s a n i m a i ob-s , a n a l o g i a ob-s de c o r , f o r m a , goob-sto etc. C o m
* Extraído do trabalho, com o mesmo titulo, apresentado no Curso de Pós-Graduação — Mestrado — da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, na disciplina Influência dos Fa-tores Farmacodinâmicos na Assistência de Enfermagem, 1980.
** Auxiliar de Ensino do Departamento de Enfermagem Materno-Infantll e Psiquiátrica da EEUSP, disciplina Enfermagem Obstétrica e Neonatal.
*** Enfermeira-chefe da Unidade de Internação do Instituto Dante Pazzaneze de Cardiología, São Paulo. **** Auxiliar de Ensino do Departamento de Orientação Profissional da EEUSP, disciplina
Adminis-tração aplicada à Enferamgem.
o e v o l v e r dos tempos, o h o m e m foi desenvolvendo sua capacidade de seleção, es-colhendo as p l a n t a s certas e descartando as i n ú t e i s .
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considera q u e a m e d i c i n a e m p í r i c a s e m p r e exerceu g r a n d e fascínio n a h u m a n i d a d e ; e m todas as sociedades existem pessoas q u e adotam, e m m a i o r o u m e n o r g r a u , crenças e práticas médicas p o p u l a r e s e acreditam nos r e m é d i o s caseiros; r e l a t a t a m b é m q u e , a t u a l m e n t e , o consumo de p l a n t a s medicinais está a u m e n t a n d o , m e s m o nos países m a i s desenvolvidos; as populações estão questio-n a questio-n d o os perigos do uso abusivo e i r r a c i o questio-n a l de produtos f a r m a c ê u t i c o s e procu-r a m substituiprocu-r p a procu-r c i a l m e n t e os p procu-r o d u t o s medicamentosos industprocu-rializados p o procu-r p l a n t a s m e d i c i n a i s ; o c o n h e c i m e n t o da utilização terapêutica de vegetais está es-tendendo-se a l é m das regiões o n d e é c o m u m e n t e p r a t i c a d a e tem suscitado o in-teresse de pesquisadores p e l a demonstração de m u i t o s resultados positivos.
Na C o n f e r ê n c i a I n t e r n a c i o n a l sobre Cuidados P r i m á r i o s de S a ú d e , realizada e m A l m a - A t a , e m 1 9 7 8 5
, foi declarado ser i n a c e i t á v e l a situação de saúde da m a i o r i a das populações, p r i n c i p a l m e n t e nos países subdesenvolvidos e em desenv o l desenv i m e n t o , cabendo aos g o desenv e r n o s a responsabilidade pela saúde de seu p o desenv o ; r e -cohecendo q u e o s u p r i m e n t o de m e d i c a m e n t o s essenciais r e p r e s e n t a m u m a par-cela significativa de despesas n o setor da saúde, r e c o m e n d a q u e os governos for-m u l e for-m política e n o r for-m a s nacionais de i for-m p o r t a ç ã o , p r o d u ç ã o local, v e n d a e distri-buição de drogas e t a m b é m i n c o r p o r e os remédios tradicionais de eficiência com-p r o v a d a .
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consideram q u e o uso de produtos ve-getais c o m f i n a l i d a d e c u r a t i v a r e q u e r conhecimentos sobre as p l a n t a s n o que se r e f e r e a seleção, coleta, conservação, dose a ser a d m i n i s t r a d a e preparações m a -n i p u l a d a s . A s co-ndições -necessárias, segu-ndo esses autores, p a r a a utilização das p l a n t a s medicinais são abaixo r e l a t a d a s .
1 — Seleção
É necessário distinguir a p l a n t a ú t i l da n o c i v a e g e r a l m e n t e essa i n f o r m a -ção é conseguida p o r m e i o de r e f e r ê n c i a s da p o p u l a ç ã o q u e as utiliza, da prática t r a n s m i t i d a p o r gerações e p e l a observação constante e criteriosa das p l a n t a s .
A l g u m a s p l a n t a s são p r ó p r i a s de determinados países e regiões; é m a i s con-v e n i e n t e a utilização dos con-vegetais p r ó p r i o s do l u g a r onde se Vicon-ve, decon-vido à m a i o r facilidade de r e c o n h e c i m e n t o dos mesmos.
2 — Coleta
Existem a l g u m a s n o r m a s gerais p a r a a coleta das p l a n t a s :
— c o l h e r as f o l h a s antes d a f l o r a ç ã o , as flores n o início da floração, os f r u t o s n o início da m a t u r a ç ã o , as raízes q u a n d o o talo m u r c h a o u antes que rebrote e as sementes q u a n d o p e r f e i t a m e n t e m a d u r a s ;
— c o l h e r os vegetais m e n o r e s ( p o r q u e possuem m a i o r v i t a l i d a d e ) , sadios, sem m a n c h a s e n ã o atacados p o r insetos;
— n ã o c o l h e r as p l a n t a s que crescem nos terrenos inclinados das estradas ( d a n i f i c a d a s pelos gases dos tubos de escapamento dos a u t o m ó v e i s ) , à beira dos campos ( c o n t a m i n a d a s pelos p r o d u t o s químicos da a d u b a ç ã o ) ou as que crescem p r ó x i m a s de f u n g o s ;
— n ã o c o l h e r p l a n t a s e m épocas de epidemias a n i m a i s , possivelmente são c o n t a m i n a d a s pela deposição dos dejetos dos mesmos;
— c o l h e r , de p r e f e r ê n c i a , a p e n a s u m a v a r i e d a d e de p l a n t a p o r v e z , o u então guardá-las, s e p a r a n d o e m locais diferentes d u r a n t e a coleta; não comprimi-las p a r a q u e n ã o m u r c h e m .
3 — Conservação
A p ó s a coleta, deve ser feita a l i m p e z a das p l a n t a s e a p r e p a r a ç ã o p o r desse-cação, p a r a e v i t a r b o l o r e f e r m e n t a ç ã o . A p l a n t a fresca é s u p e r i o r à dessecada, m a s , às vezes, é necessário g u a r d a r a p l a n t a colhida, depois de e v a p o r a d a a água con-tida n o vegetal.
T e r m i n a d a a dessecação as p l a n t a s d e v e m ser g u a r d a d a s e m recipientes her-m é t i c a her-m e n t e fechados, l i her-m p o s e secos, pois, o pó, o c a l o r e a u her-m i d a d e p o d e her-m alte-r a alte-r os palte-rincípios ativos das p l a n t a s . Os alte-recipientes d e v e m sealte-r colocados e m local fresco e seco, a n o t a n d o e m cada u m o n o m e d a p l a n t a contida. G e r a l m e n t e os r e -cipientes usados p a r a conservação são os d e c e r â m i c a ou de v i d r o ( v i d r o e s c u r o , louças f i n a s , louças de a r g i l a ) e latas ( p a r a f l o r e s ) .
4 — Dosagem
A p l a n t a dessecada t e m seu p o d e r medicamentoso elevado, h a v e n d o u m a rela-ção de 2 : 7 e n t r e a p l a n t a dessecada e a p l a n t a fresca.
É necessário f i x a r a q u a n t i d a d e do p r o d u t o vegetal a ser a d m i n i s t r a d o , sendo l e v a d a e m consideração a pessoa q u e o recebe; d e v e m ser observados idade, sexo, peso e superfície de atuação n o m o m e n t o da a d m i n i s t r a ç ã o . G e r a l m e n t e , é necessá-r i a dose m e n o necessá-r p a necessá-r a a supenecessá-rfície gástnecessá-rica d o q u e p a necessá-r a a intestinal o u p a necessá-r a a p e l e .
Os m e d i c a m e n t o s são a d m i n i s t r a d o s a q u a l q u e r h o r a , q u a n d o são desejados efeitos imediatos; antes ou após as refeições, q u a n d o utilizados p a r a a u x i l i a r a di-gestão. G e r a l m e n t e , a utilização é m a i s eficaz pela m a n h ã , e m j e j u m , ou à noite, antes da pessoa d e i t a r .
5 — Preparações
P a r a a p r o v e i t a r os p r i n c í p i o s ativos das p l a n t a s , é necessário m a n i p u l a ç ã o . A s preparações q u e p o d e m ser usadas, são citadas a seguir:
— decocção ou cozimento: o cozimento é r e s u l t a n t e d a decocção, q u e cons-t i cons-t u i a ação de f e r v e r u m a subscons-tância. S ã o ucons-tilizadas p r i n c i p a l m e n cons-t e as p a r cons-t e s dos vegetais q u e n ã o p e r d e m sua eficácia c o m o calor ( e x . as s e m e n t e s ) . A decocção pode ser l e v e , se d u r a r a l g u n s m i n u t o s ou concentrada, se d u r a r a l g u m a s h o r a s . A p ó s a decocção, o l í q u i d o é coado o u f i l t r a d o .
— infusão: visa obter u m a bebida m a i s l e v e q u e a decocção, utilizando as p a r t e s das p l a n t a s q u e p o d e m ser p r e j u d i c a d a s pelo cozimento ( f o l h a s , flores, raí-z e s ) . 0 vegetal é cortado, esmiuçado, sendo v e r t i d o sobre ele água f e r v e n t e e é t a m p a d o e m seguida. A p ó s cerca de 1 5 m i n u t o s , a i n f u s ã o é espremida e coada, p a r a q u e s e j a m obtidos todos os p r i n c í p i o s ativos das p l a n t a s .
— contusão: a p l a n t a é colocada e m u m recipiente e reduzida a pó, p a r a que seja destruida a coesão das m o l é c u l a s .
— maceração: visa obter p r i n c í p i o s ativos solúveis, e m toda a sua integridade; as p l a n t a s são colocadas e m u m recipiente c o m água f r i a , álcool, v i n a g r e ou o u t r o l í q u i d o e aí deixadas a m a c e r a r n a t e m p e r a t u r a ambiente p o r h o r a s , dias ou se-m a n a s , sendo, depois, coadas. T e se-m o i n c o n v e n i e n t e do risco de decose-mposição, q u a n d o a m a c e r a ç ã o é d e m o r a d a , o q u e é evitado pelo uso do álcool, v i n a g r e ou v i n h o , p a r a a m a c e r a ç ã o .
— filtração: visa s e p a r a r do l í q u i d o , as p a r t í c u l a s nele suspensas, sendo p a r a isso utilizados papel f i l t r o , pedaços de algodão, l ã etc.
— sucos: são p r o d u t o s líquidos, extraídos dos vegetais. P o d e m ser sucos áci-dos, q u a n d o extraídos dos f r u t o s e sucos aquosos q u a n d o retirados de outras p a r t e s das p l a n t a s .
— vinhos medicinais: são utilizados v i n h o s de ó t i m a q u a l i d a d e , p a r a a disso-l u ç ã o de substâncias vegetais; o v i n h o tinto é utidisso-lizado p a r a dissodisso-lver princípios tô-nicos o u adstringentes e o b r a n c o , p a r a as preparações d i u r é t i c a s .
— chá: é a infusão servida g e r a l m e n t e c o m fatia de l i m ã o , l a r a n j a , c r a v o ou pedaços de c a n e l a .
— tintura: é a m a c e r a ç ã o das p l a n t a s a f r i o , e m álcool a 6 0 , 7 0 ou 9 0 g r a u s . P a r a uso i n t e r n o são usadas doses pequenas ( a l g u m a s g o t a s ) . S ã o m e d i c a m e n t o s q u e c o n s e r v a m d u r a n t e anos as m a t é r i a s solúveis.
— ungüento: é r e s u l t a n t e da m i s t u r a das e r v a s ou sucos com u m a substân-cia g o r d u r o s a ( v a s e l i n a , l a n o l i n a ou o u t r a g o r d u r a a n i m a l ) .
— tisanas: n o m e dado genericamente às soluções, infusões e decocções. S ã o c h a m a d a s poções q u a n d o utilizadas e m xaropes, t i n t u r a s e extratos.
A bibliografia sobre p l a n t a s medicinais é m u i t o extensa. Os diversos a u t o r e s B A L M E 3
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I M P L I C A Ç Õ E S P A R A A E N F E R M A G E M
C o m base n a f u n d a m e n t a ç ã o teórica exposta, consideramos i m p o r t a n t e ana-l i s a r as impana-licações q u e o uso de p ana-l a n t a s m e d i c i n a i s pode ter n a assistência de en-f e r m a g e m e c o m o o e n en-f e r m e i r o p o d e r i a e m p r e g a r esse r e c u r s o t e r a p ê u t i c o .
P a r a esse f i m p r o c u r a m o s v e r i f i c a r a utilização de remédios caseiros e n t r e 5 0 f a m í l i a s de u m a população r u r a l e u r b a n a de u m a p e q u e n a cidade do i n t e r i o r de S ã o P a u l o . E l a b o r a m o s u m p e q u e n o q u e s t i o n á r i o contendo os seguintes dados:
• Usa r e m é d i o c a s e i r o ? • C o m q u e m a p r e n d e u a u s a r ? • P a r a q u e u s a ?
• Quais as p l a n t a s u s a d a s ? • C o m o as p r e p a r a ?
• Q u a l a dosagem e m p r e g a d a ? ( q u a n t i d a d e e n ú m e r o de v e z e s ) .
Constatamos q u e , todas as f a m í l i a s consultadas, e m m a i o r ou m e n o r escala, f a z i a m uso de p r o d u t o s vegetais n o p r e p a r o de r e m é d i o s caseiros. C o n f o r m e as in-formações p o r nós recebidas, as mães de f a m í l i a , q u e f o r a m as pessoas consultadas, t i n h a m a p r e n d i d o a p r e p a r a r e e m p r e g a r as p l a n t a s com f i n a l i d a d e terapêutica com f a m i l i a r e s ( a v ó s , t i a s ) , v i z i n h a s , comadres e o u t r a s pessoas conhecidas n a po-p u l a ç ã o onde v i v e m .
Essas pessoas n o s f o r n e c e r a m "receitas" de cerca d e 4 5 0 p r e p a r a ç õ e s , n a s q u a i s são usadas 3 2 2 vegetais diferentes, n o combate a distúrbios diversos. Obtive-m o s p r i n c i p a l Obtive-m e n t e "receitas" p a r a p r e p a r a ç õ e s de colírios, v e r Obtive-m í f u g o s , diuréti-cos, a n t i d i a r r ê i c o s , analgésidiuréti-cos, expectorantes, l a x a t i v o s , a n t i t é r m i c o s , antieméti-cos etc. E m p r e g a v a m t a m b é m , e m m e n o r escala, m e d i c a m e n t o s caseiros p a r a tra-t a r ansiedade, a s m a , d i s m e n o r r é i a , e n x a q u e c a , f a d i g a psicossomátra-tica, f u r ú n c u l o s , abcessos, h e m o r r o i d a s , h i p e r t e n s ã o , insônia, odontalgia, picada d e insetos, quei-m a d u r a s e quei-m u i t o s o u t r o s s i n t o quei-m a s , apesar de r e f e r i r e quei-m p r o c u r a r assistência quei-médica e m casos m a i s g r a v e s .
C o m relação às p l a n t a s e m p r e g a d a s , f i z e r a m r e f e r ê n c i a à utilização de partes de vegetais ( f r u t o s , f o l h a s , r a í z e s ) conhecidos e usados l a r g a m e n t e n a refeição diária de nosso p o v o , c o m o t a m b é m a vegetais m e n o s utilizados, dos quais con-s e g u i a m dicon-stinguir o efeito, ocon-s cuidadocon-s n o p r e p a r o e a aplicação.
Os remédios caseiros e r a m empregados p r i n c i p a l m e n t e como infusões e decoc-ções, a p e s a r de s e r e m p r e p a r a d o s t a m b é m e m f o r m a de c a t a p l a s m a , u n g ü e n t o , m a c e r a ç ã o , p ó etc.
A dose a d m i n i s t r a d a v a r i a v a de acordo com a indicação, desde u m a dose diária até v á r i a s ingestões e aplicações p o r dia.
Os dados f o r a m coletados e n t r e 7 3 pacientes i n t e r n a d o s , sendo q u e , deste total, 6 4 pacientes ( 8 7 , 7 % ) r e f e r i r a m fazer uso de vegetais c o mo m e d i c a m e n t o . Utili-z a v a m as p l a n t a s p r i n c i p a l m e n t e como d i u r é t i c o , h i p o t e n s o r , c a l m a n t e e n o com-bate a a l g u n s disturbios c o m o i n s o n i a , f e b r e , tosse, f u r ú n c u l o , g r i p e , p r o b l e m a s do fígado e estómago etc., p r e p a r a n d o - o s p r i n c i p a l m e n t e sob a f o r m a de i n f u s ã o e p a r a aplicação l o c a l .
V e r i f i c a m o s , nessa p e q u e n a amostra, q u e pacientes e m n ú m e r o significativo utilizam-se de preparações caseiras p a r a t r a t a r seus m a l e s ; c o n v é m l e v a r m o s e m conta q u e são pessoas submetidas a u m a terapêutica científica.
O u t r o f a t o r q u e p o n d e r a m o s f o i o fato dessa situação o c o r r e r e m u m g r a n d e c e n t r o u r b a n o , onde os recursos terapêuticos p o d e m ser conseguidos com m a i o r f a c i l i d a d e .
E m b o r a as p l a n t a s m e d i c i n a i s s e j a m a p r o v e i t a d a s a m p l a m e n t e pela p o p u l a ç ã o , n ã o e n c o n t r a m o s e m nosso l e v a n t a m e n t o bibliográfico estudos que a n a l i s e m a po-sição d o e n f e r m e i r o e m f a c e dessa situação.
A c r e d i t a m o s ser f u n ç ã o do e n f e r m e i r o assistir ao paciente, f a m í l i a e comu-n i d a d e , p l a comu-n e j a comu-n d o a assistêcomu-ncia de e comu-n f e r m a g e m c o m base comu-n a c u l t u r a d a população e e v i d e n c i a n d o e u t i l i z a n d o os r e c u r s o s disponíveis. 0 o b j e t i v o d e v e ser o de a j u d a r a c o m u n i d a d e a m e l h o r a r seu n í v e l de saúde e, p a r a isso, deve-se a p r e n d e r a com-p r e e n d e r c o m o as com-pessoas dessa c o m u n i d a d e com-p e n s a m .
É difícil nos l i b e r t a r m o s d a idéia q u e o nosso m o d o de v i d a é s u p e r i o r ao dos outros. A s s i m , m u i t a s vezes, o profissional de saúde sente d i f i c u l d a d e e m e n c a r a r a saúde como e l a é percebida pelo leigo, o u , pelo m e n o s , discutir os conceitos de saúde e d o e n ç a n a s diferentes camadas sociais d a p o p u l a ç ã o .
C o n s i d e r a m o s q u e o respeito à utilização i n ó c u a dos recursos que a c o m u n i d a -de possui e n o s quais acredita constitui u m f a t o r -decisivo n a elaboração -de u m p l a n e j a m e n t o d e saúde eficaz, o que n ã o significa que tais recursos d e v a m ser prestigiados i n t e g r a l m e n t e .
Sabese, a t r a v é s da f a r m a c o l o g i a e q u í m i c a , q u e é possível isolar v á r i o s p r i n -cípios ativos presentes nas diferentes p l a n t a s m e d i c i n a i s e c u j a s p r o p r i e d a d e s te-r a p ê u t i c a s são te-reconhecidas n o t te-r a t a m e n t o de divete-rsos s i n t o m a s .
Baseando-nos nessas considerações, j u l g a m o s imperioso q u e o e n f e r m e i r o ana-lise as implicações educacionais, éticas e legais q u e o e m p r e g o de p l a n t a s medici-n a i s possa p r o v o c a r .
A c r e d i t a m o s q u e as atividades do e n f e r m e i r o , n o q u e diz respeito aos p r o d u t o s medicamentosos vegetais, d e v a m concentrar-se n a á r e a de o r i e n t a ç ã o , abrangendo o paciente, f a m í l i a e c o m u n i d a d e nos seguintes aspectos:
— identificação e p r e p a r o de certas p l a n t a s m e d i c i n a i s ; — indicações do uso dessas p l a n t a s ;
C o n s i d e r a m o s q u e o e n f e r m e i r o deve estar consciente dos p r o b l e m a s q u e po-derão a d v i r do uso desregrado de p l a n t a s m e d i c i n a i s . P o d e h a v e r , p o r p a r t e da p o p u l a ç ã o , d e m o r a n a p r o c u r a do médico o u n a utilização dos recursos médicos disponíveis e, c o n s e q u e n t e m e n t e , negligência e m r e l a ç ã o ao t r a t a m e n t o terapêutico necessário.
M u i t a s vezes existe dificuldade n a identificação da p l a n t a c o r r e t a , que pode receber nomes d i f e r e n t e s , v a r i a n d o de local p a r a l o c a l . T a m b é m a l g u m a s indicações de uso são p r o d u t o s apenas de crenças e superstiindicações, não tendo f u n d a m e n t a -ção científica a l g u m a .
Todos esses p r o b l e m a s são bastante r e l e v a n t e s , e m b o r a possam ocorrer tam-b é m q u a n d o se utiliza a tam-b u s i v a m e n t e a medicação sintética e i n d u s t r i a l i z a d a e n ã o é f e i t a o r i e n t a ç ã o a d e q u a d a e prescrito o seu uso.
P a r a d a r orientação e f e t i v a sobre a utilização das p l a n t a s m e d i c i n a i s , o enfer-m e i r o necessita possuir conhecienfer-mentos das p r o p r i e d a d e s terapêuticas das p l a n t a s m a i s conhecidas e usadas e do seu p r e p a r o , indicação, cuidados e dosagem.
A c r e d i t a m o s q u e esses aspectos d e v e r i a m constar do c u r r í c u l o m í n i m o dos cursos de g r a d u a ç ã o e m e n f e r m a g e m , p a r a q u e o profissional possa t e r condições de o r i e n t a r .
J u l g a m o s t a m b é m q u e o e m p r e g o de p l a n t a s medicinais constitue u m campo vasto p a r a a pesquisa e m e n f e r m a g e m . Os resultados dessas pesquisas s e r v i r i a m de subsídio p a r a a sistematização das orientações feitas, v e r i f i c a ç ã o das p l a n t a s que são m a i s utilizadas e das crendices q u e a c o m p a n h a m o u s o etc.
Questionamos e m seguida q u a i s s e r i a m as implicações legais e éticas decorr e n t e s do f a t o da e n f e decorr m e i decorr a o decorr i e n t a decorr a p o p u l a ç ã o c o m decorr e l a ç ã o ao uso de p decorr o d u -tos vegetais com f i n a l i d a d e s terapêuticas.
O decreto n.° 5 0 3 8 7 / 6 1 , de 2 8 d e m a r ç o de 1 9 6 1 , que r e g u l a m e n t a o exer-cício da e n f e r m a g e m , e m seu artigo 1 5 estabelece o que é v e d a d o ao profissional de e n f e r m a g e m . E n t r e o u t r a s proibições e n c o n t r a m o s 1
:
" . . . a d m i n i s t r a r m e d i c a m e n t o s sem prescrição m é d i c a , s a l v o n o s casos de e x t r e m a u r g ê n c i a , r e c l a m a d a p e l a necessidade de e v i t a r o u c o m b a t e r acidentes g r a v e s q u e c o m p r o m e t a m a v i d a d o paciente, da p a r t u r i e n t e , do feto oü recém-nascido, até q u e chegue o médico, c u j a p r e s e n ç a deve ser i m e d i a t a m e n t e recla-m a d a . "
O Código de D e o n t o l o g i a de E n f e r m a g e m , a p r o v a d o pela Resolução COFEN9 , de 4 de o u t u b r o d e 1 COFEN9 7 5 , ao estabelecer n o artigo COFEN9.° as proibições ao e n f e r m e i -r o , cita a p-resc-rição de m e d i c a m e n t o s c o m o u m a delas e d e t e -r m i n a como -r e s s a l v a as ocasiões previstas n a legislação v i g e n t e e os casos de e x t r e m a u r g ê n c i a . A s pena-lidades p r e v i s t a s p a r a esta proibição v a r i a m da a d v e r t ê n c i a v e r b a l à suspensão do exercício p r o f i s s i o n a l .6
P r o i b i ç ã o s e m e l h a n t e pode ser e n c o n t r a d a n o a r t i g o 8.° do Código de Ética da Associação B r a s i l e i r a de E n f e r m a g e m .1
Estaria o e n f e r m e i r o i n f r i n g i n d o a lei e os códigos d e ética q u a n d o se propõe a o r i e n t a r u m a c o m u n i d a d e c o m relação à utilização de p l a n t a s medicinais q u e j á são de uso c o r r e n t e dessa m e s m a p o p u l a ç ã o ?
A equipe de saúde aceitaria essa a t i v i d a d e de orientação como responsabilida-de do e n f e r m e i r o ?
C O N S I D E R A Ç Õ E S F I N A I S
O estudo das p l a n t a s usadas n a m e d i c i n a e m p í r i c a constitui u m a m p l o c a m p o de interesse p a r a a pesquisa.
Na m a i o r i a dos casos, a d i v u l g a ç ã o do uso das p l a n t a s com f i n a l i d a d e terapêutica é feita de m a n e i r a i n f o r m a l . M u i t a s vezes esses conhecimentos são t r a n s -m i t i d o s de geração a geração, tendendo a se r e s t r i n g i r a deter-minadas c u l t u r a s , se-m compromisso científico.
Os estudos realizados, de c a r á t e r científico, f i c a m n a sua m a i o r i a l i m i t a d o s às áreas de o r i g e m , n ã o sendo utilizados p o r profissionais de o u t r a s á r e a s . Isso tal-vez o c o r r a devido ao descrédito e n ã o valorização desse r e c u r s o terapêutico.
C o n s i d e r a n d o que os m e d i c a m e n t o s de o r i g e m vegetal são utilizados e m m a i o r ou m e n o r g r a u p o r g r a n d e p a r t e da p o p u l a ç ã o ; q u e existem áreas onde constituem o ú n i c o recurso existente e que sua utilização está sendo feita de f o r m a sistemática p o r exigência da p r ó p r i a situação sócio-econômica e c u l t u r a l d a popula-ção, acreditamos que h á necessidade de a d e q u a r a teoria à realidade e de e n c a r a r o estudo das p l a n t a s medicinais como u m recurso terapêutico f a c i l m e n t e utilizável e pouco oneroso.
S e j u l g a m o s q u e cabe ao e n f e r m e i r o o r i e n t a r a c o m u n i d a d e , é necessário r e v e r a legislação profissional, n o sentido de adequá-la a essa a t i v i d a d e .
A legislação q u e r e g u l a m e n t a o exercício da e n f e r m a g e m é c l a r a q u a n d o v e d a ao e n f e r m e i r o a a t i v i d a d e de p r e s c r e v e r . Q u a n d o o e n f e r m e i r o está o r i e n t a n d o a m e l h o r f o r m a de u t i l i z a r as p l a n t a s , q u e j á f a z e m p a r t e d o a r s e n a l t e r a p ê u t i c o de u m a c o m u n i d a d e , deve esta orientação ser considerada p r e s c r i ç ã o ? Q u a n d o o en-f e r m e i r o o r i e n t a sobre doses e cuidados n a a d m i n i s t r a ç ã o de r e m é d i o s caseiros, está p r e s c r e v e n d o ?
T e n d o e m vista o exposto, sugerimos que o estudo de medicamentos de o r i g e m vegetal seja i n c l u í d o nos c u r r í c u l o s m í n i m o s d e g r a d u a ç ã o e m e n f e r m a g e m , em v i r -t u d e da exis-tência de u m a -terapêu-tica l a r g a m e n -t e u-tilizada pela população.
C o n c l u i m o s , p o r t a n t o , q u e se t o r n a imperioso q u e o e n f e r m e i r o assuma u m a posição e m face dessa situação.
A s Associações de Classe, Escolas e Instituições de S a ú d e d e v e r i a m i n c l u i r n o s encontros da classe o tema "Implicações da utilização de m e d i c a m e n t o de o r i g e m vegetal n a assistência de e n f e r m a g e m " .
This paper discusses the popular use of medications of vegetas origin. The authors present the theoretical foundations of the subject, analyse the utilization of such medications and comment on its implications on the practice and teaching of nursing.
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