RevBrasAnestesiol.2017;67(3):311---313
REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologia www.sba.com.brINFORMAC
¸ÃO
CLÍNICA
Bloqueio
do
gânglio
esfenopalatino
para
cefaleia
pós-punc
¸ão
dural
em
contexto
de
ambulatório
José
Miguel
Cardoso
∗,
Miguel
Sá,
Rita
Grac
¸a,
Hugo
Reis,
Liliana
Almeida,
Célia
Pinheiro
e
Duarte
Machado
CentroHospitalardeTrás-os-MonteseAltoDouro,DepartamentodeAnestesiologiaeTerapêuticadaDor,VilaReal,Portugal
Recebidoem7dejulhode2016;aceitoem12desetembrode2016 DisponívelnaInternetem30demarçode2017
PALAVRAS-CHAVE
Bloqueiodogânglio
esfenopalatino;
Cefaleiapós-punc¸ão
dural
Resumo
Justificativaeobjetivos: Cefaleiapós-punc¸ão dural(CPPD) éumacomplicac¸ãocomum após bloqueiosubaracnoideoesuaincidênciavariadeacordocomotamanhoedesenhodaagulha usada.Geralmente,aterapiadeapoioéaabordageminicial.Otampãosanguíneoperidural (TSP) éo padrãode terapiaquandoa terapiade apoiofalha, mas tem riscossignificativos associados.Obloqueiodogânglioesfenopalatino(BGEP)podeserumaopc¸ãomaissegura.
Relatodecaso: Atendemosumapacientede41anos,comCPPDapósbloqueiosubaracnoideo umasemanaantes.Administramoscristaloides(1L),dexametasona(4mg),parecoxib(40mg), acetaminofeno(1g)ecafeína(500mg),semalíviosignificativoapós2horas.Fizemosum blo-queio bilateraldogânglioesfenopalatino,comumaplicadorcompontadealgodãosaturada comlevobupivacaínaa0,5%sobmonitorac¸ãopadrãoASA.Oalíviodossintomasfoirelatado 5minutosapósobloqueio.Apacientefoimonitoradaporumahoraedepoisrecebeualtacom prescric¸ãodeacetaminofeno(1g)eibuprofeno(400mg)acada8horasparaosdoisdias seguin-tes.Apacientefoicontatadanodiaseguinteenovamenteapósumasemanae,emambosos contatos,relatounãosentirdor.
Conclusões: OBGEPpodeteratenuadoavasodilatac¸ãocerebralinduzidapeloestímulo paras-simpáticotransmitidoatravésdosneurôniosquetêmsinapsesnogânglioesfenopalatino.Esse mecanismoestariadeacordocomoconceitodeMonro-Kellieeexplicariaporqueacafeínae osumatriptanopodemteralgumefeitonotratamentodaCPPD.
Aparentemente,oBGEPtemuminíciomaisrápidodoqueodoTSP,comummelhorperfilde seguranc¸a.SugerimosqueospacientesqueseapresentamcomCPPDdevamserconsiderados primeiroparaBGEP.OspacientespodemsersubmetidosaumTSPderesgate,casonecessário. ©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigo OpenAccess sobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](J.M.Cardoso). http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2017.02.003
312 J.M.Cardosoetal.
KEYWORDS
Sphenopalatine
ganglionblock;
Postduralpuncture
headache
Sphenopalatineganglionblockforpostduralpunctureheadacheinambulatorysetting
Abstract
Backgroundandobjectives: Postduralpuncture headache (PDPH) isa common complication followingsubarachnoidblockadeanditsincidencevarieswiththesizeoftheneedleusedand theneedledesign.Supportivetherapyistheusualinitialapproach.Epiduralbloodpatch(EBP) isthegold-standardwhensupportivetherapyfailsbuthassignificantrisksassociated. Spheno-palatineganglionblock(SPGB)maybeasaferalternative.
Casereport: Weobserved a41year-old femalepatient presentingwithPDPH aftera suba-rachnoidblockadeaweekbefore.Weadministrated1lofcrystalloids,Dexamethasone4mg, parecoxib40mg,acetaminophen1gandcaffeine500mgwithoutsignificantreliefafter2hours. WeperformedabilateralSPGBwithacotton-tippedapplicatorsaturatedwith0.5% Levobupiva-caineunderstandardASAmonitoring.Symptomsreliefwasreported5minutesaftertheblock. Thepatientwasmonitoredforanhourafterwhichshewasdischargedandprescribed aceta-minophen1gandibuprofen400mgevery8hoursforthefollowing2days.Shewascontacted onthenextdayandagainafteraweekreportingnopaininbothsituations.
Conclusions:SPGBmayattenuatecerebralvasodilationinducedbyparasympatheticstimulation transmittedthroughneuronsthathavesynapsesinthesphenopalatineganglion.Thiswouldbe inagreementwiththeMonro-Kellieconceptandwouldexplainwhycaffeineandsumatriptan canhavesomeeffectinthetreatmentofPDPH.
Apparently,SPGB hasafasteronset thanEBPwithbetter safetyprofile.Wesuggestthat patientspresentingwithPDPHshouldbeconsideredprimarilyforSPGB.Patientsmayhavea rescueEBPifneeded.
©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Justificativa
e
objetivos
Cefaleia pós-punc¸ão dural (CPPD) é uma complicac¸ão comumapósobloqueiosubaracnoideo.Suaincidênciavaria muitodeacordocomotamanhoedesenhodaagulhausada. Geralmente,manifesta-se como intensacefaleiafrontal e occipital,masoutrasáreastambémpodemserafetadas.1A doréexacerbadapelaposic¸ãoeretaealiviadaemrepouso, acaracterísticadistintiva.2Outrossintomastambémforam relatados e incluem náusea, vômito, vertigem, perda de audic¸ão e distúrbios visuais. Embora 90% dos casos de CPPD acontec¸am nos primeiros três dias após uma punc¸ão dural, seu início pode ser adiado por quase duas semanas.1
AagulhasubaraquinoideaQuinckeéumadasmaisusadas emtodoomundoetemumbiseladelgac¸adoecortante.A incidênciadeCPPDcomousodeagulhasQuinckepodevariar de0,4% a36%, dependedeseu tamanho. As agulhascom biselempontadelápispodemresultaremmenorincidência deCPPD.1 Reidratac¸ão, anti-inflamatórios nãoesteroides, acetaminofeno,corticosteroidesem dose baixa,cafeína e sumatriptano,todosfazempartedaterapiadeapoio,oque podedispensaranecessidadedeumaterapiamaisagressiva, apesardoalívioincompleto.3
Tampãosanguíneoperidural(TSP)éatualmenteo trata-mentopadrãoapós terapiasfarmacológicas malsucedidas, mas não está isento de riscos significativos (meningite, convulsões,déficits motorese sensoriaisetc.).4 Háalguns relatosdebloqueiodogânglioesfenopalatino(BGEP) trans-nasalparaotratamentodeCPPD.5
Relato
de
caso
Observamosumapacientede41anosqueapresentouCPPD apósobloqueiosubaracnoideocomumaagulhaQuinckede calibre27Gparacirurgiacomfita vaginaltransobturatória sem tensão (Sling) uma semana antes. A intensa dor de cabec¸a holocraniana teveiníciona noitedacirurgia, com pioria ao levantar-se e alívio ao deitar-se. A paciente tambémse queixou denáusea e vômito durantea última semana. Não observamos rigidez cervical. Propusemos uma tomografia computadorizada (TC) do cérebro, que a pacienterecusouporterumbebêemcasaenãosesentir confortávelemseparar-sedele.
Bloqueiodogânglioesfenopalatinoparacefaleiapós-punc¸ãodural 313
acada8hduranteosdoisdiasseguintes.Apacientefoi con-tatadanodiaseguinteenovamenteapósumasemanaenão relatoudoremambososcontatos.
Conclusão
Embora a CPPD geralmente seja um diagnóstico claro a partir da história de uma punc¸ão dural e dos acha-dos clínicos, outros diagnósticos devem ser considerados, variam deenxaqueca a meningite, hemorragia intracrani-ana,trombosevenosacentraloutumorcerebral.1Nãohavia históriapréviadeenxaqueca.Oaparecimentoeaausência deprogressão desintomas neurológicosdesfavoreceramo diagnóstico demeningite e umahemorragia intracraniana provavelmente apresentaria características mais dramáti-cas. Propusemosuma TC cerebral paraexcluir por outras causas,masnossapacienterecusou.
OconceitodeMonro-Kellieafirmaqueovolume intracra-nianodevepermanecerinalterado.Portanto,sehouverum vazamento de líquido cefalorraquidiano devido à punc¸ão dural, os outros constituintes intracranianos (sangue e tecidocerebral)precisariamaumentarseuvolumeparaque a pressão intracraniana e a pressão de perfusão cerebral permanecessemdentrodavariac¸ãonormal.Comootecido cerebral é um constituinte sólido, com baixa capacidade paraexpandirseuvolumedeformaaguda,apossibilidade restanteéqueovolumesanguíneointracranianoaumente, secundárioàvasodilatac¸ão.1
UmahipóteseéqueoBGEPpodeatenuaravasodilatac¸ão cerebral induzida pela estimulac¸ão parassimpática trans-mitida através de neurônios que têm sinapses no gânglio esfenopalatino. Isso estaria deacordo com o conceito de Monro-Kellie e também explicaria por que a cafeína e o sumatriptano podem ter algum efeito no tratamento da CPPD.
Emrelac¸ãoaoquejáfoidescritoemoutrosestudos,4,5 BGEP aparentemente tem um início mais rápido do que TSP com melhor perfil de seguranc¸a. Apesar da contraindicac¸ão óbvia em pacientescom fraturasde crâ-niobasilar,podemosargumentarqueBGEPpodesuperaras muitascontraindicac¸õesparaEPD.Alémdisso,porseruma técnicanãoinvasiva,aspreocupac¸õessãopoucasemcasode pirexia,hiperleucemiaouinfecc¸ãoconhecidaemqualquer outrolugarquenãosejaanasofaringe.
SugerimosqueospacientescomCPPDdevemser consi-deradosprincipalmente paraBGEP,devidoà seguranc¸ado procedimento.OspacientespodemsersubmetidosaoTSP deresgate,casonecessário.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Referências
1.Turnbull DK, Shepherd DB. Post-dural puncture headache: pathogenesis, prevention and treatment. Br J Anaesth. 2003;91:718---29.
2.Weir EC. The sharp end of the dural puncture. Br Med J. 2000;320:127---8.
3.Flaatten H, Rodt S, Rosland J, et al. Postoperative heada-che in young patients after spinal anaesthesia. Anaesthesia. 1987;42:202---5.
4.Kardash K, Morrow F,Beique F.Seizures afterepidural blood patch withundiagnosed subdural hematoma.Reg Anesth Pain Med.2002;27:433---6.