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Rev. Bras. Anestesiol. vol.67 número6

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REVISTA

BRASILEIRA

DE

ANESTESIOLOGIA

PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologia

www.sba.com.br

ARTIGO

CIENTÍFICO

Avaliac

¸ão

de

hiperglicemia

na

sala

de

recuperac

¸ão

pós-anestésica

Vinicius

Rodovalho

Pereira,

Rodrigo

Akio

Azuma,

Bruno

Emanuel

Oliva

Gatto,

João

Manoel

Silva

Junior

,

Maria

Jose

Carvalho

Carmona

e

Luiz

Marcelo

Malbouisson

UniversidadedeSãoPaulo(USP),FaculdadedeMedicina,HospitaldasClínicasdeSãoPaulo,SãoPaulo,SP,Brasil

Recebidoem22defevereirode2015;aceitoem17deagostode2015 DisponívelnaInternetem20demarçode2016

PALAVRAS-CHAVE

Cirurgiaeletiva; Hiperglicemia; Prevalência; Fatoresderisco; Saladerecuperac¸ão anestésica

Resumo

Justificativaeobjetivos: Hiperglicemia em pacientes cirúrgicos pode ocasionar graves pro-blemas. Nesse contexto, analisar essa complicac¸ão contribui para o melhor manejodesses pacientes. O objetivo do estudo foi avaliar a prevalência de hiperglicemia na sala de recuperac¸ãopós-anestésica(SRPA)empacientesnãodiabéticossubmetidosacirurgiaseletivas eanalisarospossíveisfatoresderiscoassociadosaessacomplicac¸ão.

Métodos: Foramavaliadospacientesnãodiabéticossubmetidosacirurgiaseletivaseadmitidos naSRPA.Osdadosforamcoletadosdosprontuáriospormeiodequestionáriopré-codificado.Foi consideradahiperglicemiaquandoaglicemiaera>120mg.dL−1.Pacientescomhiperglicemia foramcomparadoscomosnormoglicêmicosparaavaliarfatoresassociadosaoproblema.Foram excluídosospacientescomdistúrbiosendócrino-metabólicos,diabéticos,menoresde18anos, índicedemassacorpórea(IMC)menordoque18oumaiordoque35,gestac¸ão,puerpérioou aleitamentomaterno,antecedentedeusodedrogasecirurgiasdeurgência.

Resultados: Foramavaliados837pacientes.Amédiadeidadefoi47,8±16,1anos.A prevalên-ciadehiperglicemianopós-operatóriofoide26,4%.Naanálisemultivariada,idade(OR=1,031; IC95%1,017-1,045);IMC(OR=1,052;IC95%1,005-1,101);tempocirúrgico(OR=1,011;IC95% 1,008-1,014);antecedentedehipertensão(OR=1,620;IC95%1,053-2,493)eusodecorticoides intraoperatório(OR=5,465;IC95%3,421-8,731)representaramfatoresderiscoindependentes parahiperglicemianopós-operatório.

Conclusão:Hiperglicemia apresentou alta prevalência na SRPA e fatores como idade, IMC, corticoides, hipertensão arterial e tempo de cirurgia são fortemente relacionados a essa complicac¸ão.

©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigo OpenAccess sobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](J.M.SilvaJunior).

http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2015.08.003

(2)

KEYWORDS

Electivesurgery; Hyperglycemia; Prevalence; Riskfactors; Post-anestheticcare unit

Hyperglycemiaassessmentinthepost-anesthesiacareunit

Abstract

Backgroundandobjectives: Hyperglycemiainsurgical patientsmay cause seriousproblems. Analyzingthiscomplicationinthisscenariocontributestoimprovethemanagementofthese patients.Theaimofthisstudywastoevaluatetheprevalenceofhyperglycemiainthe post-anestheticcareunit(PACU)innon-diabeticpatientsundergoingelectivesurgeryandanalyze thepossibleriskfactorsassociatedwiththiscomplication.

Methods:Weevaluated non-diabeticpatients undergoingelectivesurgeriesandadmittedin thePACU.Datawerecollectedfrommedicalrecordsthroughprecodedquestionnaire. Hyper-glycemiawasconsideredwhenbloodglucosewas>120mg.dL−1.Patientswithhyperglycemia werecomparedtonormoglycemiconestoassessfactorsassociatedwiththeproblem.We exclu-dedpatientswithendocrine-metabolicdisorders,diabetes,childrenunder18years,bodymass index(BMI)below18orabove35,pregnancy,postpartumorbreastfeeding,historyofdruguse, andemergencysurgeries.

Results:Weevaluated837patients.Themeanagewas47.8±16.1years.Theprevalenceof hyperglycemiainthepostoperativeperiodwas26.4%.Inmultivariateanalysis,age(OR=1.031, 95%CI1.017-1.045);BMI(OR=1.052,95%CI1.005-1.101);durationofsurgery(OR=1.011,95%CI 1.008-1.014),historyofhypertension(OR=1.620,95%CI1.053-2.493),andintraoperativeuseof corticosteroids(OR=5.465,95%CI3.421-8.731)wereindependentriskfactorsforpostoperative hyperglycemia.

Conclusion:TheprevalenceofhyperglycemiawashighinthePACU,andfactorssuchasage, BMI,corticosteroids,bloodpressure,anddurationofsurgeryarestronglyrelatedtothis compli-cation.

©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).

Introduc

¸ão

Anteriormente, apesar de níveis glicêmicos de até

220 mg.dL−1 em pacientes graves serem considerados

aceitáveis,1 complicac¸õesinfecciosase metabólicasforam

relatadascomoconsequênciadahiperglicemia.2,3

Ahiperglicemiaresultantedoestressecirúrgicofoi

con-siderada por longo tempo como resposta adaptativa e

benéfica.1 Entretanto, a lesão causada pelo ato

cirúr-gico desencadeia uma série de outros eventos, que em

associac¸ão com a hiperglicemia podem ser deletérios.

Nopacientecirúrgico,ocorremrespostasneuroendócrinas,

como liberac¸ão de catecolaminas,hormônios deestresse,

ativac¸ão da cascata inflamatória e resposta inflamatória

sistêmica, que causamaumento no catabolismo proteico,

mobilizac¸ãodostecidosadiposos,neoglicogênesee

glicoge-nólise.

Outrofenômenocentralnagênesedahiperglicemia

pós--operatória é o desenvolvimentode resistência à insulina

induzidopeloestressecirúrgico.4Asomadessesefeitosgera

umarecuperac¸ão pós-operatória prolongada, aumento do

estressemetabólico e risco decomplicac¸ões.4 Noperíodo

pós-operatórioimediato,o adequadocontrole da

hipergli-cemiaresulta em recuperac¸ão cirúrgicamaisrápida, com

menor incidência de complicac¸ões e menores custos

hos-pitalares em pacientes submetidos a cirurgias de grande

porte.5---8

A relac¸ão entre hiperglicemia e prognóstico tem sido

investigadarecentementeempacientescomdoenc¸a

neuro-lógicaaguda,9,10infartoagudodomiocárdio,11,12trauma13e

doenc¸aarterial periférica.14 Ahiperglicemia

intraoperató-riaestácorrelacionadacommorteesignificativadisfunc¸ão

orgânicaem pacientessubmetidosàcirurgiacardíaca.15---17

Entretanto,dadosquecompreendam pacientesnão

diabé-ticos de cirurgias eletivasenviados à saladerecuperac¸ão

pós-anestésica(SRPA)sãoescassos.

Portanto, o objetivo deste estudo foi avaliar a

pre-valência de hiperglicemia em pacientes não diabéticos

submetidosacirurgias eletivasenviadosàSRPA everificar

fatoresderiscoparaessagravecomplicac¸ão.

Material

e

métodos

Após aprovac¸ão doComitêde Éticado HCFMUSP,que

dis-pensouotermodeconsentimento,poissetratadeestudo

semintervenc¸ão,foramavaliadosretrospectivamente

paci-entessubmetidosacirurgiaeletivaentreagostode2012e

setembrode2014noHospitaldasClínicasdaFaculdadede

MedicinadaUniversidadedeSãoPaulo.Todosospacientes

queforamadmitidosnaSaladeRecuperac¸ãoPós-Anestésica

(SRPA)eeramsubmetidosaexamedeglicemiaforam

incluí-dosnoestudo.

Conforme protocolo estabelecido previamente na

instituic¸ão, todos ospacientes são submetidosa teste de

glicemia capilar e se duas medidas apresentarem valores

alterados,umaglicemiaséricaémensuradaparaconfirmar

osresultados.Ovalormaiordoque120mg.dL−1éadotado

(3)

naliteratura,18eovalorde200mg.dL−1comolimitepara

intervenc¸ãoterapêutica.

Oscritérios deinclusãoforamidademaiorde18 anos;

índice de massa corpórea (IMC) entre 18 e 35 kg.m−2 e

cirurgiaeletiva.Oscritériosdeexclusãoforamnecessidade

de internac¸ão em unidade de terapia intensiva no

pós--operatório;gestac¸ão,puerpériooualeitamentomaterno;

distúrbios endócrino-metabólicos, prévio diagnóstico de

diabete, história conhecida ou suspeita de abuso de

dro-gas.

O objetivoprimáriodoestudofoiavaliara prevalência

dehiperglicemianaSRPA.Secundariamente,foram

estuda-dos fatoresde risco para hiperglicemia.Com a finalidade

de encontrar amostra representativa e concordar para o

cálculodessaamostraqueahiperglicemiapodeafetarem

torno de4% a5% dapopulac¸ão,19 com estimativade erro

tipoIde5%epoderdaamostrade95%,consideramoscomo

hipótese opcional5%depacientesadmitidosna SRPA com

hiperglicemia e 2% como hipótese nula. Desse modo, no

mínimo 446 pacientes seriam necessários para o estudo.

Porém,conforme aprovado pelocomitê dainstituic¸ão, os

dados poderiam ser coletados por período de dois anos,

logooestudofoiapenasinterrompidoapóscompletaresse

período.

Foram analisados dados como sexo, idade, índice de

massacorpórea,técnicaanestésica,tempodecirurgia,uso

de glicose, uso de corticoide, necessidade de transfusão

ou uso de vasopressores no intraoperatório,

comorbida-des, tipo de cirurgia e o valor da glicemia, obtidos

por meio de revisão de prontuários dos pacientes na

SRPA.

Com a finalidade de encontrar fatores relacionados à

hiperglicemia,pacientescomglicemiaelevadaforam

com-parados com os considerados normoglicêmicos e ainda

regressão logísticafoi feitacomosdados maisrelevantes

dessaavaliac¸ão.

AanáliseestatísticafoifeitacomoprogramaSPSS15.0

(SPSS inc., EUA).As variáveis qualitativas foram testadas

com o teste do qui-quadrado, teste exato de Fischer e

testedarazão deverossimilhanc¸as.As variáveiscontinuas

paramétricas foram testadas com o teste t de Student.

Posteriormente, os dados foram submetidos ao teste de

regressãologística.

Foiconsideradosignificativoovalordep<0,05naanálise

bivariadaparainclusãodasvariáveisnomodelode

regres-são logística. A análise multivariada teve a finalidade de

identificarospreditoresindependentesdehiperglicemiana

SRPA.

Resultados

Duranteoperíodo,1.000pacientesapresentavam

possibili-dadesdeanálise,entretanto16,3%eramdiabéticoseforam

excluídos.Assim,837foram envolvidos,326dosexo

mas-culinoe511dofeminino.Aidadefoide47,8±16,1anos.

Amédiadosvaloresdeglicemiafoide108,6mg.dL−1.Em

média,ospacientes apresentaramIMC de 26,2kg.m−2.O

tempocirúrgicofoi137,2±76,5minutos(tabela1).

A incidência dehiperglicemia nopós-operatório foide

26,4%.

Hipertensão arterial foi observada nos pacientes

que apresentaram valores de glicemia maior do que

120 mg.dL−1. Além disso, pacientes que apresentaram

hiperglicemia no pós-operatório imediato receberam

mais anestesias gerais, corticoides ou vasopressores no

intraoperatório(tabela2).

Emadic¸ão,pacientescommaioresidade,IMCetempode

cirurgiaapresentarammaishiperglicemianopós-operatório

(tabela3).

Quandousado o modelo deregressão logística, a cada

aumentodeumanonaidadeháaumentode3,1%nachance

de hiperglicemia (OR=1,031) e o aumento de 1 kg.m−2

deIMC acarreta aumento de 5,2% na chance de

hipergli-cemia (OR=1,052). Ainda, o tempo cirúrgico apresentou

correlac¸ãosignificativaestatisticamentecomhiperglicemia.

Por fim, uso de corticoides no intraoperatório aumentou

em 5,46 vezeso risco de hiperglicemia nopós-operatório

(OR=5,465)(tabela4).

Interessantemente, a administrac¸ão de glicose

intrao-peratóriafoiobservadoem 14,1%daamostra, masnãose

correlacionoucomhiperglicemia.

No geral, 11 pacientes (1,2% da amostra)

apresenta-ram hipoglicemia, com valores entre 46 e 60 mg.dL−1, e

requereramtratamento e nove pacientes (0,9% da

amos-tra)apresentaramvaloresdeglicemiaentre200e299efoi

necessáriainsulinoterapianarecuperac¸ãopós-anestésica.

Discussão

Osprincipais achadosdesteestudoforamaalta

prevalên-cia de hiperglicemia na admissão de pacientes à SRPA e

o fato de idade, IMC, hipertensão arterial, uso de

corti-coidesnointraoperatório etempocirúrgicoseremfatores

deriscoindependentesparaocorrênciadehiperglicemiano

pós-operatórioimediato.

Tabela1 Característicasdospacientes

Variável Média DP Mediana Mínimo Máximo

Idade(anos) 47,8 16,1 47 18 90

Peso(Kg) 70,0 13,1 69 42 120

Altura(cm) 163,4 9,4 163 140 199

IMC(Kg.cm−2) 26,2 4,1 26,0 17 35

Tempodecirurgia(min) 137,2 76,5 120 10 555

Tempodeanestesia(min) 210,9 89,7 195 40 610

Glicemia(mg.dL−1) 108,7 29,7 105 46 299

(4)

Tabela2 Comparac¸ãodevariáveiscategóricasentrepacientescomesemhiperglicemia

Hiperglicemia

Variável Não Sim Total p

n % n % n %

Sexo 0,51

Feminino 372 60,4 139 62,9 511 61,1

Masculino 244 39,6 82 37,1 326 38,9

Tipodecirurgia 0,78

Abdominal 281 45,6 105 47,5 386 46,1

Cabec¸aepescoc¸o 88 14,3 37 16,7 125 14,9

Oftalmológica 86 14,0 32 14,5 118 14,1

Urológica 85 13,8 25 11,3 110 13,1

Plástica 56 9,1 17 7,7 73 8,7

Outros 20 3,2 5,0 2,3 25 3,0

Usodeglicoseintraoperatório 84 13,6 34 15,4 118 14,1 0,52

Usodecorticoideintraoperatório 339 55,1 193 87,3 532 63,6 <0,001

Anestesia 0,01

Geral 401 65,1 164 74,2 565 67,5

Neuroaxial 215 34,9 57 25,8 272 32,5

Vasopressorintraoperatório 41 6,7 25 11,3 66 7,9 0,03

Transfusãointraoperatória 2,0 0,3 0,0 0,0 2,0 0,2 0,54a

Comorbidades

Hipertensãoarterial 169 27,4 93 42,1 262 31,3 <0,001

Dislipidemia 36 5,8 16 7,2 52 6,2 0,46

Asma 12 1,9 9 4,1 21 2,5 0,08

Insuficiênciarenal 15 2,4 9 4,1 24 2,9 0,21

Cirrose 2,0 0,3 0,0 0,0 2,0 0,2 0,54a

Doenc¸adeCrohn 3,0 0,5 2,0 0,9 5,0 0,6 0,40a

ICC 3,0 0,5 2,0 0,9 5 0,6 0,40a

DPOC 5,0 0,8 5,0 2,3 10,0 1,2 0,09a

Hipotireoidismo 36 5,8 12,0 5,4 48 5,7 0,82

Hipertireoidismo 3,0 0,5 4,0 1,8 7,0 0,8 0,83a

Testequi-quadrado.

aTesteexatodeFisher;Outros:neurocirurgias,torácicas,vascular.

Umaavaliac¸ãodoimpactodahiperglicemianaadmissão

em unidades deterapia intensiva encontrouuma

incidên-ciadehiperglicemiaem27,5%de2.713pacientesincluídos

noestudo.Todavia,apopulac¸ãoestudadaeradepacientes

gravescomindicac¸ãodeinternac¸ãoemterapiaintensiva.19

Dessemodo,o presenteestudoéumdospoucos que

ava-liaramessacomplicac¸ãoempacientesdecirurgiaseletivas

enviadosparaasaladerecuperac¸ãoanestésica.

No geral, 26,4% dos pacientes apresentaram

hipergli-cemia neste estudo. O valor de corte foi maior do que

Tabela3 Comparac¸ãodevariáveiscontinuasentrepacientescomesemhiperglicemia

Variável Hiperglicemia p

Não Sim

Média DP Média DP

Idade(anos) 46,1 16,5 52,5 14,3 <0,001

Peso(Kg) 69,9 13,2 70,3 13,1 0,70

IMC(Kg.cm−2) 25,9 4,1 26,8 3,9 0,005

Tempodecirurgia(min) 121,2 67,6 181,6 82,1 <0,001

Tempodejejumpré-operatório(h) 16,2 3,9 16,6 3,4 0,21

(5)

Tabela4 Regressãologísticamúltipla

Variável OR 95%IC p

Inferior Superior

Idade(porcadaano) 1,031 1,017 1,045 <0,001

IMC(porcadakg.m−2) 1,052 1,005 1,101 0,03

Usodecorticoidesintraoperatório(porunidade) 5,465 3,421 8,731 <0,001

Anestesiageral(porunidade) 1,330 0,883 2,002 0,172

HAS(porunidade) 1,620 1,053 2,493 0,028

Usodevasopressorintraoperatório(porunidade) 1,238 0,678 2,258 0,487

Tempodecirurgia(pormin) 1,011 1,008 1,014 <0,001

IMC,índicedemassacorpórea;HAS,hipertensãoarterialsistêmica.

120 mg.dL−1, o qual é compatível com o usado pela

Associac¸ãoAmericanadeDiabete18epelosestudosque

pro-curamjustificarocontroleestritodaglicemiaempacientes

nopós-operatório.20,21

A hiperglicemia é potencialmente deletéria, pois age

como pró-coagulante,22 altera func¸ões neutrofílicas,

esti-mulaaliberac¸ãodecitocinasinflamatórias,aumentaorisco

de infecc¸ões, altera a cicatrizac¸ão e pode estar

associ-adacom aumentodamortalidade.23,24 Assim,avaliaressa

complicac¸ãoefatoresassociadoséimportantepara

melho-raromanuseiodesseproblema.

Emadic¸ão,foiobservadonesteestudoqueaidadeé

inde-pendentefatorderiscoparahiperglicemiadessapopulac¸ão.

Esse fato pode ser explicado ao verificarmos que com o

envelhecimento ocorrem alterac¸ões na secrec¸ão de

insu-lina e aumento daresistência periféricaaos seusefeitos,

oquepodedesencadearhiperglicemia.25 Apósos50 anos,

oníveldeglicemiadejejumaumenta6-14mg.dL−1acada

10anos.26

Alémdisso,oaumentodoIMCtambémsemostroufator

deriscoparaocorrênciadehiperglicemianopós-operatório,

acarretouaumentodoriscoem5,2%dechancesparacada

aumentode1kg.cm−2noIMC.Opacienteobesoapresenta

elevada incidência de diabete e intolerância à glicose. O

tecido muscular e adiposodos pacientes obesos responde

menosàs ac¸ões da insulina pordiminuic¸ão nonúmero de

receptoresemenorrespostacriadapelainterac¸ão

insulina--receptor.27 No obeso a produc¸ão de cortisol também se

encontraalterada,aumentaaresistênciaperiféricaà

insu-lina.Emestudofeitocom50.905adultosmostrou-sequeo

IMCépreditorindependenteparadiabete,naqualé3vezes

maisprevalenteempacientescomIMC>24.28

Outro fator que se correlacionou com a ocorrência

de hiperglicemia foi o uso de corticoides no

intraopera-tório. Dexametasona é frequentemente usada durante

procedimentoanestésicocomotratamentoadjuvante para

prevenir náuseas e vômitose inibirrespostainflamatória.

Todavia, seu uso, mesmo em dose única, pode

desenca-dear hiperglicemia ao estimular neoglicogênese e inibir

ac¸ão periférica da insulina. Um estudo29 mostrou que

10 mg de dexametasona nointraoperatório em pacientes

submetidos à cirurgia abdominal aumentou a glicemia

tanto em pacientes diabéticos como em não diabéticos.

Váriosoutrosestudostambémdemonstraramessesefeitos

proporcionadospelousodecorticoides.30,31

O tempocirúrgico também foi correlacionado a maior

riscodehiperglicemianaRPA.Essefatopodeserjustificado

pela resposta simpática associada ao estresse cirúrgico e

liberac¸ãodehormônioscontrarregulatóriosquedeterminam

menorsecrec¸ãodeinsulinaeresistênciaperiféricados

teci-dosàac¸ãodainsulinaeproduzemhiperglicemia.Aextensão

e a durac¸ão daintervenc¸ão cirúrgicadeterminam grande

variac¸ãonoaportedehormônioscontrarregulatórios,como

glucagon,epinefrina,norepinefrina,cortisoleGH,demodo

ainfluenciarhomeostaseglicêmica.32---34

Éimportantesalientarquenopresenteestudofoi

obser-vada incidência de hipoglicemia em 1,2% dos pacientes,

o que torna fundamental o controle intraoperatório da

glicemia,jáqueaanestesia mascaraossintomasda

hipo-glicemia. Um grande estudo35 chamou atenc¸ão para o

problema relacionado à hipoglicemia e às complicac¸ões

associadas.

Contudo, algumas limitac¸ões neste estudo devem ser

relatadas,comoafaltadeinformac¸ãoemalgumasvariáveis.

Primeiro,nãofoipossíveldistinguirelevac¸õestransitóriasde

glicemiaouintolerânciaàglicose.Amedidadahemoglobina

glicosiladaA1Cpoderiaajudarnessadiferenciac¸ão.19

Outrossim,nesteestudonãoforamavaliadosmedicac¸ões

de controle ambulatorial em pacientes asmáticos,

prin-cipalmente quanto ao uso de corticoides inalatórios ou

sistêmicos,eoperfildegravidadedospacientes.

Quanto ao uso de corticoides no intraoperatório, não

houvedistinc¸ãodotipodecorticoideusado(dexametasona

ouhidrocortisona)oucorrelac¸ãoentreadoseusadaeorisco

dehiperglicemia.

Aavaliac¸ãoquantoaotipodeanestesiaedoporte

cirúr-gicofoibemampla,semminuciaroefeitodecadaagente

anestésico e a correlac¸ão entre dose usada e tempo de

durac¸ão.Essaslimitac¸ões,todavia,sãoinerentesaestetipo

deestudo,quesetratadeumaanálisecommuitasvariáveis.

Contudo, notamos a alta prevalência de hiperglicemia

na RPA, a medida de glicemia quer seja capilar ou outro

métodoécrucial,pelagrandegamadefatores

correlacio-nadosàocorrênciadesse problemanopós-operatório. Por

outro lado, osdados mostraram uma prevalência

aumen-tadadehiperglicemianospacientesmaisvelhosecomIMC

elevado.Essesachadossãosignificativosesugerema

neces-sidadedemaisestudosarespeitodotema,principalmente

comfoconocontroleestritodaglicemianessetipode

paci-entes,dointraoperatórioatéaaltahospitalar.

Conflitos

de

interesse

(6)

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Tabela 1 Características dos pacientes
Tabela 3 Comparac ¸ão de variáveis continuas entre pacientes com e sem hiperglicemia
Tabela 4 Regressão logística múltipla

Referências

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