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LIVRO II – DOS CANTOS NOS ABRIGOS

Assunto 3 º – Corpos Indóceis

§

Entrei no quarto de Diamante. Ele me mostrava orgulhoso o “dever-de-casa” em seu caderno. No canto, ao lado da sequência de sílabas separadas, havia um desenho. O desenho era de uma grande ursa abraçando o seu filhote. Perguntei: “Quem desenhou isto?” Ele: “Eu, tia”. Jamais esqueci aquele “desenho de abraço”, aquele desenho da grande ursa enlaçando o pequeno urso. O abraço que Diamante não conseguia nos dar... Seu corpo enrijecia com a nossa intromissão. Naquele dia, Diamante estava extrovertido e se pôs a falar. (Se eu soubesse que aquele seria o único momento em 3 anos que Diamante falaria sobre a sua mãe, eu o teria congelado no tempo, para poder acessá-lo (Diamante) outra vez). Se pôs a falar sobre a mãe: “Ela não presta tia! Olha o que ela me fez!” Mostrou o braço e as marcas de corte de faca e de furo de garfo. Contava mais um episódio e mostrava o joelho, o pescoço, os pés... Depois daquele dia, Diamante se tornou cada vez mais hermético, fechado, bruto...

etnógrafa Favret-Saada, em seu artigo Ser afetado revela o interesse em “reabilitar a sensibilidade” no campo da pesquisa em Antropologia, afirmando que esta parece ter se mantido no “estudo dos aspectos intelectuais da natureza humana”165. Assim, ir a campo para Favret-Saada teve o propósito de efetivamente “participar”, o que implicou o questionamento quanto à prática de se distinguir habitualmente o objeto de pesquisa e o observador – etnógrafo. Quando resolve pesquisar os rituais de feitiçaria na área rural de

Bocage, Favret-Saada opta por “ser enfeitiçada”. Reconhece seu temor diante do risco de ter

sua pesquisa transformada em uma “aventura pessoal”, mas também avalia com crítica, a probabilidade de ir a campo, “observar” e coletar material meramente ilustrativo e pouco aprofundado, em sua pesquisa. Até mesmo porque, em razão de sofrerem constantemente julgamentos ideológicos por parte de instituições da Imprensa e Igreja, os camponeses do

Bocage tornaram-se cada vez mais herméticos, chegando a afirmarem que “feitiço, quem não

pegou não pode falar disso”. Esta situação, de fato, influenciou a imersão de Favret-Saada.166 Da mesma forma ao que ocorreu à etnógrafa Favret-Saada, percebi que a relação com os jovens não permitia uma observadora neutra e inatingível. A própria prática teatral

165 FAVRET-SAADA. J. Ser afetado. Tradução Paula de Siqueira Lopes. Cadernos de Campo, São Paulo, n. 13,

p. 155-161, 2005. Disponível em: <http://goo.gl/GlurD2>.

166 Ibid., p. 157.

evidencia a nossa condição relacional. Uma aproximação da prática teatral com as descrições da cultura matrística, tão bem elaboradas por Maturana e Verden-Zöller em Amar e Brincar:

Fundamentos esquecidos do humano167, permiti enxergar pontos de convergência, tais como a

participação, a cooperação e o companheirismo. Não se trata de mistificar a prática teatral e levá-la a uma condição da “convivência ideal”, mas refletir sobre as possibilidades que esta arte coletiva implica, inclusive sob o aspecto do trabalho do ator.

[...] o conhecimento de si no trabalho do ator sempre conduziu para uma relação mais profunda com o outro ou com os outros, tanto colegas de cena e/ou grupo, quanto com o público. Sendo assim, analisar a consciência no trabalho do ator significa entende-la no seu funcionamento e não como algo estático.168

Acesso novamente Favret-Saada e intuo que a experiência teatral com os jovens foi

como feitiçaria, na qual o ato de falar a respeito, não corresponde ao vivenciado. A feitiçaria e

o teatro surgem como “modo humano de vida”,169 em que permeiam as possibilidades de se viver em uma rede de conversações coordenadas entre ações e emoções, como sustenta a

Biologia do Conhecer.

Neste trajeto, encontra-se a emoção. A emoção é uma dinâmica corporal que se vive como um domínio de ações, em que se está em uma emoção ou não. A análise elaborada sobre a expressão de uma emoção, automaticamente implica em negá-la, pois instala uma dicotomia entre o viver e o parecer.170 Isto ocorre porque a emoção se vive, e não

simplesmente se aprecia. Assim como o teatro, o território das emoções e sensações, implica

um espaço onde se convive.

Já refleti antes, precisamente no Assunto 1º, Canto III do Livro I – Dos Cantos do

Mundo, que sob o enfoque da Biologia do Conhecer, nosso mundo ocidental valoriza a razão

e a racionalidade em demasia, afastando a aceitação de que as emoções também possuem sua parcela formativa em nós, seres vivos.171

No es cierto que los seres humanos somos seres racionales por excelência. Somos, como mamíferos, seres emocionales que usamos la razón para justificar y ocultar las emociones em las cuales se dan nuestras acciones.172

167 MATURANA, Humberto R.; VERDEN-ZOLLER, Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do

humano. São Paulo: Editora Palas Athenas, 2004.

168 ICLE, Gilberto. O ator como xamã: configurações da consciência no sujeito extracotidiano. São Paulo:

Perspectiva, 2006. p. 15.

169MATURANA, VERDEN-ZOLLER, op. cit., p. 34. 170 Ibid. p. 39.

171 Ibid., p. 221.

172 Tradução: “Não é certo que os seres humanos são seres racionais por excelência. Somos, como mamíferos,

Os estudos de Maturana e Gerda Verden-Zöller173 revelam que a criança cria o seu espaço relacional a partir do espaço psíquico onde viveu em intimidade e em contato corporal com sua mãe. O termo “mãe”, de acordo com o que propõe especialmente Maturana, é entendido em uma acepção mais ampla, ou seja, tanto para o masculino ou feminino. Como menciona o biólogo, “as diferenças entre homem e mulher fazem deles seres de sexos diferentes, mas não seres humanos diversos”.174 Neste sentido, ambos estão capacitados para o contato e o cuidado com a vida humana175. Considerando os nossos processos de aculturação e o desenvolvimento social e cultural de crianças, Maturana discorre sobre a existência humana como um acontecimento próprio do espaço relacional do conversar. Assim, fluímos em contato sob uma trajetória eminentemente emocional, mencionando o biólogo que a disponibilidade de recursos naturais, valores e símbolos não existem por si próprios, mas sim, a partir do momento em que os desejamos como tais176.

Foucault dedica um capítulo de sua obra Vigiar e Punir aos corpos dóceis. O pesquisador parte das concepções cartesianas e mecanicistas presentes em obras e estudos preponderantes no século XIX, os quais contribuíram para o levante de uma espécie de teoria

geral do adestramento, cujo interior abriga a noção de docilidade – um corpo útil e inteligível177. Assim, de acordo com Foucault, o entendimento do corpo como um mecanismo

analisável o conduz a um corpo manipulável.178

O corpo dócil é um corpo obediente e que dispõe às limitações sociais. Estes limites estão calcados na “disciplina”. Para Foucault, as disciplinas tornaram-se maneiras de dominação, no decorrer dos séculos XVII e XVIII179. Argui que a disciplina dos corpos assume o cenário, até mesmo em substituição à “relação custosa e violenta” presente na escravidão, à “relação de dominação constante” da vassalidade; ao “ascetismo” e disciplinas monásticas, partindo para uma “anatomia política”, onde não se trata de se fazer o que se pede, mas sim de se funcionar “como se quer” agregando técnica, rapidez e eficácia180.

Palestra intitulada “Nosso presente”. Ocorrida na programação do II Congresso del Futuro. Ciencia, Tecnología, Humanidades y Ciudadanía. Congreso Nacional. Sede Santiago. Catedral 1158. Chile. 19 de janeiro de 2013. Duração 31 min. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=sPDMXLdseIs>. Acesso em: 20 ago. 2015.

173MATURANA, VERDEN-ZOLLER, op. cit, p. 12. 174 Idem, p. 252.

175 Ibid., p. 252. 176 Ibid, p. 11.

177 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987. p. 126.

178 Neste sentido, Foucault menciona brevemente a obra do médico La Mettrie, o qual, a partir da publicação de

sua obra O Homem-máquina (1865), defende a concepção materialista do corpo, sendo este um mecanismo de onde insurgem suas próprias explicações, prescindindo por isto de outras instâncias como a alma.

179 FOUCAULT, Michel, op. cit, p. 126. 180 Ibid., p. 127.

Foucault menciona que se antes havia a apropriação dos corpos pela escravidão ou a imposição de castigos, a partir do século XVIII, assiste-se a introdução de formas sutis de controle minucioso dos corpos, por intermédio da disciplina que os torna mais úteis. A disciplina dos corpos os torna mais “submissos e exercitados”, e, portanto, dóceis. Com isto há o aumento da força do corpo, gerando utilidade econômica, ao mesmo tempo em os torna mais obedientes, diminuindo-lhe sua força política.181

A esta dinâmica, Foucault atribui uma “autonomia política”, em que os processos mínimos de controle possuem localizações esparsas, mas que é possível situá-las em instituições como escolas, fábricas, hospitais e presídios, por exemplo182.

Se posso me arriscar a uma referência, que não pretende aqui ensejar oposições teóricas, considero os corpos dos jovens com características indóceis. São corpos com

características indóceis, porque por suas ações parecem possuir mais coerência com o que sentem a cada momento. A condução em uma rede de ações e emoções entrelaçadas parece

mais clara e evidente nos corpos dos meninos da UNIDADE e o temor que causam a nós, corpos adultos assumidamente docilizados, ou em constante esforço para docilizar, parecia incomodar. Sim, pareciam-me corpos que se assumem como conduzidos pelo emocionar.

Na atualidade, vivemos imersos numa cultura que diminui o valor das emoções e que, ao mesmo tempo em que nos mergulha em emoções contraditórias, pede que as neguemos ou que as controlemos.183

É importante evidenciar o que entendo por “nós”. Refiro-me a todos nós, o cuidador

vigilante, a sociedade pautadamente imersa em um regime patriarcal, movida por controle e

apropriação. Os corpos indóceis continuavam interagindo e assumindo sua aculturação, pois a cada contato traziam novos repertórios de ações e comportamentos. Dentro da estrutura física da UNIDADE ou do abrigo, opunham-se diante de uma massa de corpos dóceis – corpos obedientes e úteis, que também querem se relacionar, ora docilmente ora indocilmente, de acordo com seus desejos-emoções.

Vivemos cada vez mais imersos em uma contradição emocional de base. Queremos manter o consumismo de nossa cultura, mas ao mesmo tempo desejamos conservar o mundo natural; pretendemos preservar o viver na apropriação, mas desejamos gerar solidariedade; ansiamos por certezas e segurança, mas ao mesmo tempo queremos liberdade; queremos autoridade, mas também respeito mútuo; pretendemos viver em competição, mas também em cooperação; ambicionamos a possibilidade de ficar muito ricos,

181 Idem, p. 127. 182 Idem, p. 127.

mas também almejamos acabar com a pobreza; desejamos ser amados, mas ao mesmo tempo obedecidos...184

Se há uma mecânica de poder que vislumbra controlar os sujeitos e torná-los também propagadores de discursos disciplinadores, enxergo que os jovens que resolvem habitar os

cantos das ruas, encontram-se à margem, são corpos indóceis porque estão marginalizados e revelam desejo de serem emocionalmente afecções. Toda a intensidade de viver está em seus

corpos. Acredito que, por este motivo, as atividades teatrais lhes serviam tão bem. Tratava-se de uma forma expressiva e expansiva de ser e estar no mundo. “Essa urgência de criação explica a coragem anormal dessas crianças e sua intensa necessidade de beleza. É preciso viver agora, é preciso maravilhar-se hoje, depressa, antes da morte tão próxima.”185

Os jovens ostentam com orgulho suas marcas – cicatrizes de maus-tratos e conflitos, tatuagens, inclusive aquelas que tenham a figura do “palhaço”186, e bodypiercings. São troféus de suas experiências com a família, as ruas e os abrigos. Estas marcas e acessórios adornam seus corpos, transportando-os para zonas de risco, de enfrentamento.

Acredito que o Estado desenvolve mecanismos para apreendê-los para emoldurá-los nos parâmetros do homem comum. A família não conseguiu mantê-los. Portanto, faz-se necessário que alguém o consiga, caso a escola ou o abrigo não o faça, a polícia e o presídio se encarregarão de atuar.

Quanto às famílias dos jovens da UNIDADE, principalmente aquelas pautadas sob a perspectiva de relações e conversações preponderantemente patriarcais de apropriação187, percebi uma espécie de “desistência” do convívio, o que contribuiu para uma disponibilidade dos jovens, tanto para a rua quanto para a institucionalização pelo Estado, seja em unidades de internação ou unidades de acolhimento. Estes processos pareciam ocorrer, seja pelo histórico familiar hostil – episódios de violência doméstica e abandono, por exemplo, – ou ainda, por questões econômicas – no caso de jovens que saem para a rua à procura de melhor condição econômica para suas famílias.

§

Lívia: Quem sou eu? Pelezinho: Minha professora de teatro. [...] Lívia: Violência doméstica, o que é? Por que esse nome: “doméstica”? Pelezinho: Porque é violência

184 Ibid., p. 255.

185 CYRULNIK, Boris. Os patinhos feios. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 127

186 A tatuagem de palhaço é popular entre os jovens em situação de rua. Ela significa que o seu portador é

“matador de policiais” e, portanto, os jovens gostam de mencionar que a possuem como forma de demonstrar sua coragem ao enfrentarem policiais. Há um vídeo que mostra um policial obrigando um adolescente a raspar de sua perna uma tatuagem de palhaço disponibilizado na internet. A cena é de extrema violência, colaborando também para a depreciação da imagem da Instituição Policial. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=i-KxuU9Lv-U>.

doméstica. Lívia: O que é “doméstica”? Pelezinho: “Doméstica” é a mesma coisa que “caseiro”. Lívia: “Caseiro”? Pelezinho: Pessoa que fica só em casa: dona de casa. Lívia: Mas é só dona de casa? Pelezinho: Filho também. Lívia: Você conhece violência doméstica? Pelezinho: Conheço, porque eu já vivi. Lívia: Você já viveu violência doméstica? Qual é a sua história com violência doméstica? Pelezinho: Oxi, a história toda? Lívia: Não, a história toda não. Um episódio que você viveu com violência doméstica. Pelezinho: Eu chegava da escola e apanhava. Lívia: Por que você apanhava quando chegava da escola? Pelezinho: Sei lá! Lívia: Por que você apanhava? Pelezinho: Porque sujava o uniforme. Lívia: Você apanhava porque sujava o uniforme? [...] Lívia: E como é que ele te batia? Pelezinho: Violentamente. Lívia: E como é bater violentamente? Pelezinho: Com coisa desnecessária, tipo pedaço de pau, rodo, fio, coisa assim [...] Lívia: Como é que foi esse dia do fio de poste? Jovem: Quase todo dia era assim.

De acordo com a avaliação da especialista Irene Rizzini188 as pesquisas da contemporaneidade parecem ter voltado o foco para a investigação das causas que levaram as crianças a se abrigarem em instituições, com a observância de que, se antes as crianças eram internadas pela própria família, o que se observa hoje é o maior trânsito de crianças e jovens entre casa, abrigos e ruas. Nestes espaços-tempos de ausência da família e da escola, por exemplo, surge a atuação do Estado e suas instituições como opções de convívio, onde as pretensas políticas públicas, assumem aspectos correicionais de controle e vigilância dos

corpos. São corpos a se docilizar...

Ainda sob a avaliação de Irene Rizzini, a especialista menciona que o discurso de proteção à infância se manteve notadamente imerso na proposição de se defender a sociedade da proliferação de vagabundos e criminosos, contra a instauração da indisciplina e da

desordem, que não correspondiam ao avanço das relações capitalistas em curso.189

Em certa ocasião, resolvi levar os jovens da UNIDADE para assistirem o espetáculo

Amadeo190, um dos trabalhos que desenvolvi na Companhia de Teatro Pátria Amada (CTPA) da Suproc. Como pessoa informada191 acerca do universo dos jovens de abrigo, percebi que

eles se sentiam incomodados por estarem ali entre os alunos. Ao final, um deles me confessou: “Professora, a gente não é igual a eles não!”

188 RIZZINI, Irene; RIZZINI, Irma. A institucionalização de crianças no Brasil: Percurso histórico e desafios

do presente. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2004.

189 RIZZINI, Irene. A infância perigosa (ou “em perigo de o ser…”). Idéias e práticas correntes no Brasil na

passagem do século XIX para o XX. Rio de Janeiro: Ciespi, 2005. p. 6.

190 “Amadeo” foi um espetáculo teatral, apresentado em escolas públicas do Distrito Federal, no decorrer dos

anos de 2013 e 2014, cujo texto e encenação foram construídos por mim e pelo ator Genivaldo Sampaio e levada ao diretor de teatro Ricardo Barbosa, há época em que fiz parte da Companhia de Teatro Pátria Amada, programa da Suproc, vinculada à Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social – SSP/DF. Atualmente, tanto a Companhia de Teatro como a Subsecretaria foram extintas. A estrutura atual da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social criou a Subsecretaria de Segurança Cidadã – SUSEC/DF para tratar dos assuntos em pauta na extinta SUPROC.

191 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar

Foragidos do processo de escolarização, acredito que os jovens da UNIDADE tentam escapar do que Foucault chama em Vigiar e Punir de sanção normalizadora192, em

funcionamento nas instituições que operam o sistema disciplinar. Foucault menciona que se trata de um agrupamento de micropenalidades com o objetivo de reduzir desvios, sendo portanto, essencialmente corretivo.193

As relações que consideramos como capitalistas, a disciplina e os corpos dóceis possuem ampla relação. Foucault continua a análise dos corpos dóceis mencionando que o tempo no qual os corpos disciplinados atuam é um “tempo disciplinar” e que deve transcorrer com “boa qualidade”, em que cabe ao corpo funcionar de forma aplicada ao seu exercício, seja na fábrica, no presídio, ou na escola. Dispõe que “a exatidão e a aplicação são, com a regularidade, as virtudes fundamentais do tempo disciplinar”194. Associando-se ao controle do tempo, o controle minucioso dos gestos ofusca cada vez mais a multiplicidade, a diversidade, sendo que o poder disciplinar, como aponta o filósofo, “tem por correlato uma individualidade não só analítica e celular, mas também natural e orgânica”195.

Os jovens com vivência de rua assimilaram o vocabulário gestual e a linguagem, a partir das interações que estabeleceram com os sujeitos, espaços e objetos de rua. São eles habitantes do outro lado dos muros das casas e das escolas. Ao iniciarem suas vivências nos

abrigos, há a tentativa de conseguir que, de alguma forma, se enquadrem em programas que

poderão oferecer bolsas de emprego e estudo.

Na oficina, na escola, no exército funciona como repressora toda uma micropenalidade do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da atividade (desatenção, negligência, falta de zelo), da maneira de ser (grosseria, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo (atitudes << incorretas>>, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia, indecência). Ao mesmo tempo é utilizada, a título de punição, toda uma série de processos sutis, que vão do castigo físico leve a privações ligeiras e a pequenas humilhações. Trata-se ao mesmo tempo de tornar penalizáveis as frações mais tênues da conduta, e de dar uma função punitiva aos elementos aparentemente indiferentes do aparelho disciplinar: levando ao extremo, que tudo possa servir para punir a mínima coisa: que cada indivíduo se encontre preso numa universalidade punível-punidora.196

Os gestos dos jovens em situação de rua sempre eram discutidos entre eles mesmos, pois tinham introjetado os costumes e hábitos de quem vive nas ruas e se vangloriavam ao

192 FOUCAULT, Michel, op. cit, p. 159. 193 Ibid, p. 160.

194 Idem, p. 137. 195 Idem, p. 141. 196 Idem, p. 141.

dizer que eram “bandidos”. Sua forma de andar, vestir-se e dialogar repercute não apenas em discriminação por parte da sociedade, mas também na atuação policial nos conhecidos “baculejos” – revista policial. Os episódios de “baculejo” eram tão numerosos entre os jovens da UNIDADE que em Meninos da Guerra (2015) realizamos a Cena do Baculejo, em que os jovens ao serem revistados por dois policiais cantavam a música do rapper Gog

Juro que eu não queria ir, mas tive que ir. Juro que eu não sou assim, mas agi assim. Eu nasci pro muro e o muro pra mim. Consciência limpa apaga o estopim. (Bala por Bala – Gog – Música criada para o espetáculo Meninos

da Guerra)

Figura 11 – Cena do Baculejo em Meninos da Guerra – 2015 – Teatro Newton Rossi

Fonte: Ricardo Padue.

A Criminologia Positivista, notadamente representada por Cesare Lombroso, Garófalo e Ferri, somava fatores antropológicos, físicos e sociais para explicar a pessoa do delinquente na “diversidade ou anomalia dos autores de comportamentos criminalizados”.197 Pautava-se em parâmetros biológicos e de comportamento social que justificariam a aplicação da pena em caráter indeterminado, pois se centrava no sujeito, e não no ato em si. Apesar de situada em certa época pelos livros de Criminologia, em verdade, a criminologia positivista exerce

197 BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal. 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas