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A competição

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3. EXISTENCIALISMO SARTREANO E SAPIENCIALIDADE COELETIANA:

3.7 A competição

A situação do ser, Deus, em permanecer enquanto ser, não gera e não se constitui em sujeito-objeto provocador da opressão diante do homem; justamente porque ele é ser; por si mesmo ele está em totalidade e é indiferente ao homem em sapiencialidade ou em existencialidade.

O homem sapiencial ou existencial é compreendido como sujeito-homem; a saber, o outro como sujeito-objeto.

O sujeito-existente é o próprio homem, o outro é o sujeito-não-existente, com condições de existência e sapiencialidade. Ambos tendem a manipular a si mesmo - é o caso da má-fé -, as coisas e objetos em mundanidade e Deus.

O homem não escapa da presença do ser, pois o ser o provoca justamente àsapiencialidade e à existencialidade. O homem ao percebê-lo estimula a sua cons- ciência sapiencial ou existencial.

O homem tende a relacionar-se com o ser intencionalmente, em prol do de- sejo de exercer a opressão. O ser por si mesmo não oprime, está em positividade.

O ser, o Deus, os objetos, o mundo são o que são. O ser existencial ou sapi- encial do homem, o homem em intencionalidade, é quem os utiliza para provocar a opressão.

Para Coélet, o ser, personificado nos palácios (Ecl 2,4) e nas obras construí- das (Ecl 9;14) as quais compõem e expressam o mundo dos dominadores, perma- nece como é.

O ser por si só não é capaz de exercer qualquer opressão sobre outro deter- minado ser e, nem a si mesmo. Necessita da manipulação do sapiencial do homem, que se intenciona sobre as obras.Conforme a significância dada a estas obras, elas se constituem em mediadoras da opressão sobre o outro.

Assim sendo, o ser-objeto é acionado como fator de opressão pelo homem, sobre o outro ser-homem.

A este respeito Coélet enfatiza: “[havia] uma cidade pequena com poucos ha- bitantes. Um grande rei veio contra ela, cercou-a e levantou contra ela obras de as- sédio (Ecl 9,14). Estas são atitudes de opressão, ou seja, de tentar uma nulidade aquilo que o ser já se constitui uma competição.

A competição implica uma sapiencialidade do homem na existência; se o ho- mem procura usufruir dos bens produzidos aqui está acontecendo uma competição. Mas, há competição em que a subjetividade do outro que tem consciência é anula- da. Por exemplo, incutir no outro-sujeito a ideia de que trabalhar por trabalhar,para agradar a Deus, até se fatigar (Ecl 5,18) é continuar em positividade; negar a condi- ção de humano é negar o dom de Deus (Ecl 5,18).

Coélet, ciente de que o homem está sob o jugo dos Ptolomeus, está oprimido por conta da competição entre quem governa e o ser que está no mundo, compre-

endido com as obras e a própria ideia de Deus, afirma: “[observo] também que todo trabalho e todo êxito se realiza porque há uma competição entre companheiros. Isso também é vaidade e correr atrás do vento!” (Ecl 4,4).

Coélet descobre a rivalidade agressiva do homem que busca riqueza e reco- nhecimento social em seus empreendimentos; esta busca da riqueza e do reconhe- cimento social gera uma competição sem medida e a anulação da subjetividade do outro. Na competição, o outro necessariamente precisa ser vencido que se aniqui- lando e tirando de si mesmo esta subjetividade. Tem-se, portanto, a competição que se operada na obra perceptível, mas que atinge a possibilidade de o homem se pro- jetar no mundo, no conhecer a Deus.A obra é o elemento mediador entre os sujeitos, entre o homem de consciência e o outro.

Assim sendo, competição só existe se em cada obra produzida o ser existente em sapiencialidade não descobrir para si mesmo, o seu significado. A este respeito Vílchez Líndez (1999, p. 255) sustenta que no contexto que o texto coeletiano foi escrito é possível detectar que “[em] todo homem [sem sapiencialidade] vê-se um rival que preciso vencer; a vida é estádio de competição e campo de batalha”.

O intento de Coélet é mostrar ao homem os meios para a superação da com- petição entre os seres sapienciais. O homem [ser sapiencial] deve buscar a felicida-

de em meio ao trabalho fatigante (Ecl 2, 24); cada ser em sapiencialidade desenvol-

ve o seu trabalho, e mediante este encontra uma significação para si mesmo.

Sartreanamente se posicionando, o homem em sua existencialidade se alarga em sua experiência de conhecer o mundo perceptível; vive em controle das obras produzidas, inclusive da vida do outro.

De fato, nossa experiência só nos apresenta indivíduos conscientes e vivos; mas, de direito, é preciso observar que o outro é objeto para mim porque é outro, e não porque apareça por ocasião de um corpo-objeto [...] Assim, o que é essencial ao outro enquanto outro é a objetividade e não a vida (SARTRE, 2007, p. 313).

Quem manipula as obras construídas e o outro, conduz-se desta forma por- que é um ser de consciência de si é “pura interioridade” (SARTRE, 2007, p. 313). O manipulador mantém sobre o mundo, as obras e os outros um domínio opres- sor.Éuma espécie de competição mesmo.

No entanto, há competição a partir do princípio de que o homem possui a condição do nada na consciência e do ser presente na mundanidade, só que esta

competição permite ao homem em sapiencialidade ter o conhecimento mútuo do outro porque as consciências estão situadas.Para Sartre (2007, p. 317),

O que me revela originalmente o ser do outro é o exame de meu ser na me- dida em que este me arremessa para fora de mim rumo a estruturas que, ao mesmo tempo, me escapam e me definem. Alem disso, notemos que o rea- lismo, o idealismo [...] o tipo de relação entre as consciências era o ser- para; o outro se me aprecia e até me constituía na medida em que ele era para mim ou que eu era para ele; o problema era o conhecimento mútuo de consciências situadas umas frente às outras, que apareciam no mundo e se enfrentavam.

Para Sartre quanto para Coélet,a consciência se descobre como consciência em contato com o mundo. Ao se relacionar com outro ser em existência, resguarda na proposta de que frente umas às outras se significam de formas diferentes e, con- sequentemente, o espaço da competição como um campo de batalha é anulado.

Por isto, o ser em sua existência ou em sapiencialidade não é um ser dado à competição no ato de realizar sua obra. O existente, o perceptível, em cada ser é único, ao mesmo tempo, no feitio de sua obra esta se torna única para si mesmo.

A saber, por mais que o outro ser se estabeleça em consciência diante da obra produzida pelo ser existente, uma vez sendo ser de consciência, ele se consti- tui um para outro como ser em positividade; como ser semelhante à obra produzida, se não intencioná-la. E, somente ao homem é dado ao ato de intencioná-la porque ele é existência, ele é sapiencial.

Sobremaneira é no ser sapiencial e existencial do homem que se inicia a ex- periência dominadora do outro ser, mesmo que seja na visibilidade dos palácios ou de outras obras construídas como refletiu Coélet ou no gênio de Proust como defen- deu Sartre. Estas obras se tornam agregadoras e geradoras de opressões sobre o outro porque estão sob a força de quem detém o poder político ou o poder intelectu- al.

Parafraseando Vílchez Líndez (1999, p. 255), sustenta-se que estas reflexões não são meros discursos prontos ou formas filosóficas de aproximar o pensamento de Coélet ao de Sartre. São reflexões sobre o homem inserido na realidade em que vive, são reflexões da influência de um ser humano sobre o outro na sociedade me- diante o dinheiro, o poder, o êxito, o outro e Deus; firmando-se como uma competi- ção. Seguramente,os modos como a consciência se projeta no perceptível são os-

mesmos em nosso tempo e no de Coélet, obviamente com possibilidades de conhe- cer a Deus.

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