3. EXISTENCIALISMO SARTREANO E SAPIENCIALIDADE COELETIANA:
3.8 A violência e a morte
A violência só se manifesta mediante a situação intencional do homem contra si mesmo ou contra o objeto observável. É um ato possuído de intenções dentro da existência humana. No pensamento sapiencial coeletiano, ela é encontrada em con- traste com a sabedoria.
Palavras calmas de sábios são mais ouvidas do que gritos de quem coman- da insensatos. Mais vale sabedoria do que armas, mas um só pecado anula muita coisa boa [...]Mosca morta estraga o perfume do perfumista, um pou- co de insensatez conta mais que sabedoria e glória (Ecl 9,17-18; 10,1).
Segundo Vílchez Líndez (1999, p. 368), Coélet ao referir a armas quis literal- mente fazer memória ao poder, obviamente, ao poder dos reis Ptolomeus, concluin- do que a sabedoria é mais valiosa do que as armas de guerra, embora o homem possa utilizar a sabedoria para construir as armas de guerra. É por esta razão que se afirma que a violência é intencional, faz parte da projeção do homem no mundo e uma opção do ser existencial do homem, embora ele possa optar pelo uso da vio- lência o que se supõe que optou por projetar-se na mundanidade dos objetos em sapiencialidade ou existencialidade.
O homem é este constante encontro com os objetos em mundanidade, este ato é que lhe traz significado pretendido.
Esta relação só é constante, porque o mundo já se encontra posto antes de ser conhecido pelo homem; adentrá-lo só é possível por meio dos atos intencionais da consciência sapiencial ou existencial.
Sobremaneira, na relação homem mundo, a violência se constitui uma opção do homem em desejar algo que ainda não é apreciado pela consciência sapiencial ou existencial.
O mundo é o que é. Diante dele o homem opta ou não em fazer as suas esco- lhas; pode escolher provocar uma violência de significados a si mesmo; por exem- plo, ao utilizar da má-fé ou do ódio intencionalmente provoca um ato de violência contra o outro-sujeito. A violência acontece quando o homem em sua sapiencialida-
de ou existencialidade desmerece o mundo como umconjunto de fenômenos. Enfati- zando:
o mundo deve ser considerado como um conjunto de fenômenos que apa- rece para a consciência sem a suposição de que haveria, por trás dessa manifestação, outro mundo das coisas em si, cuja realidade não podería- mos atingir. Os fenômenos nos dão a ‘carne’ do mundo, e a fenomenologia nos mostra como esse mundo é vivido antes de ser conhecido (SILVA apud SASS, 2011, p. 114).
Enquanto o homem existe, a sua condição é de existencialidade face ao per- ceptível.
O que é perceptível é passível a ser conhecido, como Coélet defende, é pas- sível de ser contemplado pela sabedoria (Ecl 1, 13). O que não é perceptível no mundo não é conhecido, portanto, não é passível de ser nem causa da violência porque não existe; não é possível ser anulado porque não tem nenhum significado para a consciência existencial, a consciência sapiencial. A consciência age indepen- dente se a sua ação é causa ou não de violência; mas o homem, mediante o seu ser existencial ou sapiencial, pode agir desqualificando o real significado das coisas con- tra si mesmo ou contra os objetos perceptíveis; isto é a violência, tanto expressa no pensamento de Coélet (Ecl 9,18) quanto enfatizada por Sartre ao inferir sobre a li- berdade da consciência a partir do Para-si (FERREIRA, 1978, p. 140).
Sartre oferece margem à compreensão de que a violência se evidencia quando o homem se relaciona com o ser-para-outro, o que causa a morte do outro, evidentemente; “[...] todas as relações com o outro, na inexorável dilucidação sartre- ana, aparecem-nos sob o signo do combate: o conflito é o sentido original do ser- para-outrem [...]Cada consciência procura a morte do outro” (FERREIRA, 1978, p. 140).
Em Coélet, este dado da morte também existe para o outro - objeto, para o outro-sujeito. Obviamente, viver sem existenciar a vida, viver sob o jugo dos Ptolo- meus é melhor dizer-lhes que“[mais] vale o bom nome do que o bom perfume; o dia da morte do que o dia do nascimento” (Ecl 7,1).
Não que Coélet orienta-se e orienta o homem a buscar a morte. Ele denuncia a totalização e positivação do poder do grupo do Ptolomeu II Filadelfo, 280 a 240, que explora a subjetividade do homem na construção de grandes palácios (Ecl 2,4) e na produção do vinho e do azeite (Ecl 2,5). Explorar o outro e permanecer em ab-
solutização é não permitir o homem de sapienciar na própria existência; por isto que Coéletafirma que os bens produzidos têm queser usufruídosem porção, em fuga às intenções do próprio modo de ser dos dominadores e é um modo da consciência sapiencial destotalizar a ideia de morte como ser absoluto e reconhecer que ela só existe para o outro.
A morte no pensar coeletiano se dá neste sentido intencional. Ora ele a com- para com a mulher quando o homem seduz pela dominação do outro (Ecl 7,26), ora quando denuncia que ela é o fim deste outro mesmo (Ecl 8,5).
Não há afirmação em Coélet de que o homem vai morrer para estar com Deus. O outro é quem morre e morre com as suas intenções e nas suas intenções porque ela não está na consciência do homem em existência. Ela é uma espécie de ser-para-o-outro porque permanece no exterior da consciência, com isto “ninguém é senhor do dia da morte” (Ecl 8,8).
Coélet quer livrar o homem da autossuficiência apoiado em outro ser. O ho- mem é suficiente para viver a vida sapiencialmente. Dentro desta compreensão, os outros seres, enquanto ser, morrem porque vivem a vida vivencialmente sob o ponto de vista da consciência sapiencial.
[Coélet] é um observador atento da vida normal e cotidiana, da natureza e dos seus fenômenos e de tudo ele tira lições para a sua vida. Vê as gera- ções passando e os movimentos cíclicos da natureza sucedendo-se super- ficialmente, mas a natureza permanece [...] chama a atenção para a provi- soriedade da vida [...] o homem não pode dar nome a nada [...] (MOREIRA, 2006, p. 22).
Com isto, ele instiga o homem a viver a vida em sapiencialidade livrando-se da insensatez. Entretanto, no tempo, quando sapiencia, o homem não morre, signifi- ca-se na própria existência mesmo na provisioriedade da vida.
Mas, se assim não proceder, se não sapienciar dentro da existência própria, o homem morrerá como um sábio ou morrerá como um insensato, como um animal qualquer.Morre como sábio ou como insensato porque o ato de sapienciar é dinâmi- co dentro da própria existência humana.
Ambos morrerão; neste sentido nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais. O pó da terra é a origem comum de ambos [...]; ambos são frutífe- ros e se multiplicam [...]; a perda do “fôlego da vida” marca o fim de suas existências na terra. O que sucede é a referência à morte (EATON, 2011, p. 93- 4).
Situação é que o ser já tem a sua totalidade; sendo assim ele é passível a qualquer momento da morte, desaparecer, dando o último fôlego da vida; neste sen- tido diz Coélet “ninguém é senhor do dia da morte” (Ecl 8, 8b).
Somente na consciência sapiencial do homem, que não se encontra o ser em totalidade, a morte não tem espaço, pois ela é uma totalidade absurda; ela pode até chegar à existência do homem sapiencial, só que quando ela chegar não haverá consciência sapiencial se projetando, nos objetos perceptíveis, presentes no mundo.
Sendo assim, o homem projetando-se na realidade perceptível em porção, em sapiencialidade, desconhece este lado insuficiente da vida, porque enquanto vive deseja a vida em sapiencialidade e não a morte. A morte, então, é a dimensão da perda da energia, da força de projetar-se.
Posto que a sapiencialidade da consciência humana não esteja acima da morte, ela se anula diante da morte; em Coélet se vê que entre existência e morte não há comunhão, ambas convivem por um fio em cisão (Ecl 12, 6).
Sob o ponto de vista de sua totalidade, a morte é um fenômeno invencível e natural. Enquanto está fora de sapiencialidade, a morte existe em si mesma; neste sentido, Coélet afirma que nenhum saberá o dia da morte (Ecl 8,8b).
Em Sartre, a ideia de morte se constrói em semelhante processo da reflexão coeletiana; obviamente, com uma dimensão existencialista. A morte para Sartre é um absurdo, pois ela não existe para o ser existencial do homem; a morte existe pa- ra a condição do ser-objeto, para o ser que não tem consciência, que representa a própria morte da consciência (SARTRE, 2007, p. 506), sendo assim, se a consciên- cia morre, morre o ser perceptível.
Fato é que o ser sapiencial do homem, em presença do mundo, de onde se manifesta o ser-Para-si, não é um ser para a morte e um ser para a existência.
Por assim compreendido, Deus não controla a morte do ser do homem, do ser sapiencial e existencial do homem.Deus é um ser em constante projeção neste mundo perceptível e reconhecido pela própria consciência sapiencial coeletiana epe- la consciência existencial sartreana. A morte sempre existe para o outro; em si mesma ela já é o bastante para o sábio e insensato, pois sempre pertence ao outro.