1. A GÊNESE DA CONSCIÊNCIA EXISTENCIALISTA A PARTIR
2.5 Gêneros literários em Coélet? O existencialismo, um subgênero?
2.5.3 O pensamento de Coélet em poesia ou prosa?
A questão da poesia e da prosa coeletiana é um dos assuntos que dividem opiniões entre os estudiosos.
A este respeito existem reflexões de que o livro é escrito em poesias, embora não haja unanimidade para este formato.
[...] Hetzberg informa-nos de que “[...] Vaihinger encontrou forma poética no livro inteiro. [...] Grimme [...] mostra que o livro (exc. 12,13s) é composto em versos de quatro sílabas; [...] Haupt [...] encontra em tudo o antigo 2 x 3; [...] Bickel [...], dísticos e tetrásticos. Mais prudentes são [...] Sievers e Zapletel [...] que admite metro irregular; também adota algo semelhante a tradução de [...] Vischer [...] Um recente defensor do caráter poético de [Coélet] é [...] Lauha. Muitos de seus argumentos são novos, outros nem tanto; repete simplesmente a não muita antiga tradição entre os autores. Reconhece no- bremente que os massoretas não consideram que [Coélet] fosse livro poéti- co, apesar de apresentar sinais inequívocos de poesias hebraicas [...] O úl- timo testemunho que aduzimos é de [...] Ellul, que escreveu um 1987: “Por minha vez, reterei dois dados: trata-se de poema, e de poema sapiencial” (VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1999, p. 61- 2).
Já do lado dos que defendem que o livro de Coélet foi escrito em prosa, mas que reconhecem a presença sutil dos elementos poéticos.
F. Delitzsh já opinava que [Coélet] foi escrito “quase geralmente em prosa retórica”, com regularidades quanto ao estilo. Essa opinião em palavra de R. Kroeber, é compartilhada até hoje pela maior parte dos comentadores. [...]
R. Godis não admite que [Coélet] em sua totalidade tenha sido escrito em verso; concede, todavia, que algumas partes o foram. Por sua vez, A. Ba- rucq crê que “a parte central do livro [1,2-12,8] está em prosa, embora seja certo que nela se incluem numerosos meshalim com ritmo e mesmo estro- fes em verso [...] Por último N. Lohfink fala de “uma prosa filosófica, desco- nhecida até então em Israel”, devido à influência grega (VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1999, p. 62-3).
Independentemente se o texto coeletiano foi escrito em poesia ou em prosa retórica de boa ou má qualidade, se obedece à métrica poética ou à rítmica da pro- sa; o seu conteúdo é de uma excelência ímpar, pois coloca o homem como o centro das suas discussões permeadas pelo mundo que o circunda, configurado, segundo A Bíblia da Editora Vozes (1993, p.785), na cosmologia (1,1-3), na antropologia (1,12-3,15), na sociologia (3,16-4,16), na religião (4,17-5,6), na sociologia (5,7-6,10), na ideologia (6,11-9,6) e na ética (9,7-12,7).
2.6 A canonicidade entre polêmicas
Postas as críticas relacionadas à autoria, à datação, ao estilo literário o livro de Coélet se encontra entre os livros do cânone da bíblia hebraica. Mas, quais os artifícios utilizados para levar o Eclesiastes ao cânone? Que tipo de resistência à canonicidade o Eclesiastes enfrentou por parte dos rabinos ao logo dos séculos? Em que medida o livro do Eclesiastes se justifica em um silêncio normal no novo testa- mento? Quais os fatos que se acham para a boa canonicidade do Eclesiastes?
As abordagens em A Bíblia de Jerusalém (1985, p.2332-8) evidenciam a ca- nonicidade do livro de Coélet a partir do próprio livro coeletiano ao discutir a autoria salomônica (Ecl 1,1;1,2). É visto que esta premissa convenceu estudiosos por tem- pos justamente por remeter o seu conteúdo a Salomão, o rei Poderoso, sábio e te- mente a Deus (1Rs 3,1)85, sucessor do trono do seu pai, o poderoso rei Davi86, mas que com as pesquisas se verificou que a composição do Eclesiastes se deu mais ou menos setecentos e vinte anos depois da morte de Salomão87. Esta situação não
85 “Salomão tornou-se genro de Faraó, rei do Egito; tomou por esposa a filha de Faraó e introduziu-a na Cidade de Davi, até que acabasse de construir o seu palácio, o Templo de Iahweh e as muralhas em torno de Jerusalém” (1 Rs 3,1).
86 A maioria dos salmos é atribuída a Davi. “Os títulos atribuem 73 a Davi, doze a Asaf, onze aos fi- lhos de Coré, e salmos isolados a Emã, Etã (ou iditun), Moisés e Salomão. Os títulos da versão grega nem sempre coincidem com o hebraico e atribuem 82 salmos a Davi. A versão siríaca é ainda mais diferente” (A BÍBLIA DE JERUSALÉM, 1995, p. 945-6).
87
tirou a credibilidade do Eclesiastes como uma referência para povo judeu, ao contrá- rio, o texto coeletiano obteve mais credibilidade.
Já nos séculos II e I aC. esta autoridade salomônica é sustentada como a chave principal para entrada do livro de Coélet no cânone (EATON, 2011, p.29). En- tende-se aqui que há uma resistência enfrentada pelos rabinos face ao teor do pen- samento coeletiano, certo que Coélet prioriza o homem em ação no mundo em des- favor aos desígnios deterministas de Deus; nada é revelado de sua obra ao homem, o homem é que tem que buscá-la se desejar, por exemplo, a felicidade (GLASSER, 1975, p.65).
Apresentando elementos consonantes com outros textos da bíblia hebraica- texto de Coélet possui um dos critérios convincentes. Esta situação é atestada tam- bém pela comunidade de Qumran queaproximadamente em 150 aC. mantinha em circulação uma cópia dos fragmentos do livro hebraico (NOVO COMENTÁRIO, 2007, p.967).
A canonicidade do livro de Coélet se encontra em apreciação. O Concílio de Jâmbia, ano 90 dC., ocupa-se do Eclesiastes não em torno da canonicidade do livro, mas porque ele era canônico (EATON, 2011, p.31); os rabinos procuram conhecer melhor este livro tão estranho aos demais do cânone.
É visto que o livro de Coélet, em meio aos rabinos, encontrando resistência, por pouco não foi excluído do cânone por suas fortes contradições; seu conteúdo desperta homem para orientar-se perante o outro, o mundo a Deus, possui caráter antropológico. Ou seja, “[...]o Eclesiastes se dirigia principalmente contra a fé nas possibilidades ilimitadas do homem, especialmente a fé na capacidade de o homem alcançar a felicidade e sua capacidade de esquadrinhar a existência” (JONG, 1992, p.70).
Certo é que o seu discurso é contraditório em si mesmo, o homem está es- quadrinhando a própria existência. Este dado não nega ensinamentos em sapiencia- lidade, obviamente, afirma-os, colaborando para que os mestres rabinos incluíssem o texto coeletiano no cânone.
Entretanto, a mais forte razão se acha por ser um livro reverenciado pela sa- bedoria judaica somando-se às referências a outros livros sapienciais como Sl 7288.12789; Pr 1,190; Ct 1,191.
A liturgia sinogogal judaica passa a considerar como um dos principais livros que compunha os cinco rolos a ser relacionado na festa dos Tabernáculos.
Para Würthwein (apud VÍLCHEZ LÍNDEZ,1999, p.89),
O uso litúrgico dos Rolos, comparável desde o século XII dC., vincula o Cântico com a Páscoa..., Rut...com a festa das Semanas (Pentecostes), la- mentações com o dia 9 do mês Ab em agosto (recordações da destruição do Templo), Eclesiastes com a festa dos Tabernáculos (...),Ester com a fes- ta dos Purim (do décimo mês).
Considerado um dos principais livros da liturgia judaica, segundo Schu- ltz(2006, p.102), ligado à festa dos Tabernáculos, o Eclesiastes era lido no sábado.
Em suas razões, por ser canonizado, o pensamento de Coélet, para o rito li- túrgico da festa das tendas, concilia-se com o Deuteronômio92. A propósito, acha-se relacionado às temáticas como a felicidade, a alegria, o trabalho e a porção. Estas temáticas podem ser disponibilizadas nas seguintes passagens:
No livro do Eclesiastes No livro do Deuteronômio Eis que a felicidade do homem é comer e beber,
desfrutando do produto do seu trabalho; e vejo que também isso vem da mão de Deus, (Ecl 2,24).
E compreendi que não há felicidade para o ho- mem a não ser a de alegrar-se e fazer o bem durante sua vida (Ecl 3,12s).
Eis o que observo: a felicidade que convém ao homem é comer e beber, encontrando a felicida- de em todo trabalho que faz debaixo do sol, du- rante os dias da vida que Deus lhe concede. Pois esta é a sua porção (Ecl 5,17s).
Vai, come teu pão com alegria e bebe gostosa- mente o teu vinho, porque Deus já aceitou tuas obras (Ecl 9,7ss).
Reparte com sete e mesmo com oito, pois não sabes que desgraça pode vir sobre a terra (Ecl 11,2).
Celebrarás a festa das Tendas durante sete dias, após ter recolhido o produto da tua eira e do teu lagar. E ficarás alegre com a tua festa, tu, teu filho e tua filha, teu servo e tua serva, o levita e o estrangeiro, o órfão e a viúva que vivem nas tuas cidades. Durante sete dias festejarás em honra de Iahweh teu Deus, no lugar que Iahweh houver escolhido; pois Iahweh teu Deus vai te abençoar em todas as tuas colheitas e em todo trabalho da tua mão, para que fiques cheio de alegria (Dt 16,13-15).
Como a festa das tendas possui uma atmosfera outonal, Coélet passou a ser uma referência em seus ritos porque insinua um aspecto melancólico; isto o faz ser manuseado em prol da ocasião da festa das tendas judaica no ato do cumprimento 89 “Cântico das subidas. De Salomão. Se Iahweh não constrói a casa, em vão labutam os seus cons- trutores; se Iahweh não guarda a cidade, em vão vigiam os guardas” (Sl 127,1).
90 “Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel:” (Pr 1,1); Provérbios de Salomão. O filho sábio alegra o pai, o filho insensato entristece a mãe” (Pr 10,1).
91“O mais belo cântico de Salomão” (Cc 1,1). 92
O livro de Deuteronômio tem peso porque é um dos livros mais citados e significativos do cânone da bíblia hebraica.
dos votos feitos a Deus. Essa reflexão encontra respaldo na passagem coeletiana que diz:
Se fazes uma promessa a Deus, não tardes em cumpri-la, porque Deus não gosta dos insensatos. Cumpre o que prometeste. Mais vale não fazer uma promessa, do que fazê-la e não cumpri-la. Não deixes que a boca te leve ao pecado, nem digas ao Mensageiro: "Foi por engano". Por que iria Deus ficar irritado contra o que prometeste, arruinando a obra de tuas mãos? (Ecl 5,3- 5).
Ao ser lida na festa das tendas esta citação acentua em si as razões pelas quais o Eclesiastes é canônico.
Apesar destes argumentos relacionados aos textos bíblicos e a festa judaica, duas correntes rabínicas da literatura judaica, a escola Hilel e a escola Samai; se recusam a aceitar a canonicidade do livro de Coélet imputando-lhe a ideia de ser desfavorável à revelação. Com esta postura, ironicamente, o efeito se dá na afirma- ção da canonicidade coeletiana.
A escola de Samai, contemporâneo de Hillel93, em sua rigidez, primeiro sécu- lo dC., entra na discussão sustentando que o livro de Coélet não torna as mãos im- puras. Enquanto isto, a escola de Hilel, em sua visão liberal, mais ou menos entre os anos 60 aC. a 10 dC. apoiando-se nas passagens da Mishná, sustenta que é um livro que suja as mãos94 (MOREIRA, 2006, p.10); conserva-se um pensamento heré- tico95. Além disto, os rabinos costumam citar palavras contraditórias internas e com os outros livros, podendo ser disposta a seguir; segundo Vílchez Líndez (1999, p.86) isto reforça, mais uma vez, a canonicidade coeletiana, até porque o livro de Coélet já
93“Hillel, o Velho, Mestre fariseu, que viveu entre o séc. I a.C. e o séc. I d.C. (Sic). De origem babilôni- ca, em Jerusalém tornou-se presidente do Sinédrio. Ele e seu colega rival Samannay [Samai ] consti- tuem uma das maiores autoridades rabínicas do seu tempo. É lembrado pela sua paciência e mansi- dão, pela abertura com que interpretou a Torá, e pela ‘regra de ouro’: ‘Aquilo que você odeia, não faça aos outros. Esta é a Torá; o resto é comentário. Vá estude!’. São atribuídas a ele as sete regras da hermenêuticas de interpretação da Escritura. A doutrina de ‘Casa de Hillel’, isto é, da sua escola, apresenta notáveis pontos comuns com o ensinamento de Jesus” (VADEMECUM PARA O ESTUDO DA BÍBLIA, 2000, p. 49).
94 “Yodayim 3,5: ‘Todos os escritos santos tornam impuras as mãos. O Cânticos do cânticos e o Ecle- siastes tornam impuras as mãos mas com respeito ao Eclesiastes é controvertido. R. Yosé afirma, ao invés, que o Eclesiastes torna impuras as mãos, ao passo que com respeito ao Cântico dos cânticos é controvertido. R. Simeão diz que o Eclesiastes é uma das coisas a que a escola de Samai aplica a norma mais indulgente, e a escola de Hilel, a mais rigorosa [cf. Eduyot]”’ VÍLCHEZ LÍNDEZ , 1999, p. 85).
95 “R. Benjamim bem Levi disse: ‘Os sábios quereriam seqüestrar (Ignnws) o livro de [Coélet], porque encontraram nele questões que se podem tachar de heresia” (LEV. RAB; MERINO apud VÍLCHEZ LÍNDEZ , 1999, p.86).
se encontrava no cânone. Para tanto segue as contradições internas e externas do livro.
Palavras internas contraditórias:
No livro de Coélet No livro de Coélet
Do riso eu disse: "Tolice", e da alegria: "Para que serve? (Ecl 2,2).
Mais vale o desgosto do que o riso, pois pode-se ter a face triste e o coração alegre (Ecl 7,3). Do riso eu disse: "Tolice", e da alegria: "Para que
serve? (Ecl 2,2).
Então eu felicito os mortos que já morreram, mais que os vivos que ainda vivem (Ecl 4,2).
Contradições com outro livro sagrado:
No livro de Coélet No livro dos Números Alegra-te, jovem, com tua juventude, sê feliz nos
dias da tua mocidade, segue os caminhos do teu coração e os desejos dos teus olhos,saibas, porém, que sobre estas coisas todas Deus te pedirá contas (Ecl 11,9).
Trareis, portanto, uma borla, e vendo-a vos lem- brareis de todos os mandamentos de Iahweh. E os poreis em prática, sem jamais seguir os dese- jos do vosso coração e dos vossos olhos, que vos têm levado a vos prostituir (Nm 15,39). E, como foi mostrado acima, seja direta ou indiretamente, a relação com os outros textos se dá em afinidades acentuando-se a canonicidade coeletiana.
Conquanto, o novo testamento, engendrado a partir do judaísmo, contribui pa- ra reconhecer o livro de Coélet como sagrado.No entanto, o Eclesiastes não é citado em nenhuma das prédicas e práticas, desde os evangelistas, passando por Paulo e chegando ao João do Apocalipse. O que há de fato é um silêncio normal, entre am- bas as literaturas (STEINMMAN apud VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1999, p.90).
Neste ínterim, há discussões que colocam o Eclesiastes como um dos livros de pouca contribuição para a formação cristã vez que as “peculiaridades e o alcance do pensamento de [Coélet] foram comparados ocasionalmente com as modernas reflexões da literatura existencialista” (MORLA ASENSIO, 1997, p.184).
Coélet apresentando o homem é um constante projetar no mundo; para ele, o homem não espera pela intervenção de Deus mediante um oráculo, um canto épico; pode-se afirmar que a grande preocupação fundamental de Coélet são os temas que dizem respeito ao homem “desde os sumérios até os filósofos do século XX, prati- camente sem interrupção: o sentido da vida, do trabalho, da morte e da fadiga [...] Como também os grandes temas da reflexão humana: o nada, o tempo, a velhice, os filhos, etc” (RODRÍGUES GUTIÉRREZ, 1999, p. 55).
No entanto, com relações possíveis à prática cristã, Coélet evidencia o desa- pego ao dinheiro, o gosto pela beleza, o encantamento do mundo, o prazer em por- ção, típicos do que se encontra no sermão da montanha96.
Mas, para Steinmann (apud VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1999, p.90) seguramente, pe- lo fato de já ser canonizado, no livro de Coélet se encontra a contribuição para a construção do pensamento cristão; ele adquire o status de âncora para o primeiro testamento, acusando a possibilidade de uma relação entre ambos.
Mas, o silêncio normal foi rompido em favor das vozes encarnadas. As refle- xões de Coélet se tornaram às claras, mediante as citações do seu próprio livro por intermédio das reflexões dos primeiros cristãos, ao associar os valores do primeiro testamento com os valores sapiencialidade presentes no livro de Coélet.
Segundo Vílchez Líndez (1999, p. 90-2), o pastor Hermas, em suas prega- ções ao relatar a relação do homem para com Deus, cita “[fim] do discurso. Tudo foi ouvido. Teme a Deus e observa seus mandamentos, porque este é o dever de todo homem” (Ecl 12,13). São Justino se declina para a passagem “antes que o pó volte à terra de onde veio e o sopro volte a Deus que o concedeu” (Ecl 12,7) para acentu- ar que o homem neste mundo é um vazio, está propenso à insensatez e à vaidade se não viver a vida em sapiencialidade. Clemente de Alexandria se apoia em Ecl 7,12 ao relatar que “[pois] o abrigo da sabedoria é como o abrigo do dinheiro, e a vantagem do conhecimento é que a sabedoria faz viver os que a possuem”; esta passagem reafirma ao ser humano a necessidade de viver a vida de forma sapien- tee, não insensata e vivencialmente, como qualquer outro ser. Tertuliano, para fun- damentar a noção de tempo coeletiana e a reafirmação de que quem o cria é o ho- mem, sendo este ato de criação um dos pressupostos para felicidade do ser humano em sapiencialidade, ancora-se em Ecl 3,17 em que conclui:“e penso: ao justo e ao ímpio Deus os julgará, porque aqui há um tempo para todo propósito e um lugar pa- ra cada ação”.
96 “Vendo ele as multidões, subiu à montanha. Ao sentar-se, aproximaram-se dele os seus discípulos. E pôs- se a falar e os ensinava, dizendo: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão sacia- dos. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os pu- ros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão cha- mados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós” (Mt 5,1-12).
Encontrando resistência no Concílio de Constantinopla II97, mesmo já canôni- co, o livro do Eclesiastes é visto como um escrito dado pelas mãos dos homens. Es- ta convicção reforça a ideia de atribuir a Salomão a sua autoria, com a pretensão de negar-lhe a autoria da graça profética e afirmando-lhe a graça sapiencial e, por con- ta disto, o livro seria inferior aos demais em nível de canonicidade.
Teodoro de Mopsuéstia (350-428) não comunga com este conceito elaborado pelo concílio (VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1999, p.92). Para ele, o livro de Coélet, por ser uma voz revitalizadora da sapiencialidade humana, é um livro de valor, obviamente, res- guardando-se em suas peculiaridades, se comparado aos demais livros como os Proféticos, os Históricos e os que pertencem ao Pentateuco. Eclesiastes se constitui um livro inspirado pelo homem e, exclusivamente, voltado para a construção e vi- vência da própria humanização face aos desafios da existência humana.
Visando demonstrar a boa razão da canonicidade do Eclesiastes, acha-se, portanto, os primeiros cristãos, evocando a utilização do livro de Coélet para funda- mentar as suas elucubrações intelectuais e pastorais; este dado pode ser revisto nos,
[...] primitivos escritores cristãos que explicitamente mencionam o Eclesias- tes, em lista de livros canônicos das Escrituras, incluem-se Milito, bispo de Sardes (cerca de 170 A.D.), Orígenes (cerca de 185-225 A.D.), Epifânio, bispo de Sardes (Cerca de 315-403 A.D), Jerônimo (cerca de 347-419 A.D.) (EATON, 2011, p.30).
Por fim, para além destas obviedades e confirmando os fundamentos plausí- veis em apoio à canonicidade coeletiana, ter documentado a presença do livro de Coélet no cânone da bíblia hebraica é sem dúvida uma premissa plausível a sua ca- nonicidade.
2.7 Propostas de estruturas e implicações sapienciais
As discussões sobre autoria, data, fontes, estilo literário e canonicidade não garantem propor uma estrutura convincente para o livro do Eclesiastes. Mas, com
97 Ano de 553 dC. que diz “Os livros de Salomão, Provérbios, e Eclesiastes, devem-se contar entre aquilo que foi escrito conforme o espírito dos homens, uma vez que ele próprio e os compôs por sua própria iniciativa (ex sua persona) para utilidade dos demais, por não ter recebido a graça da profecia, mas a graça da prudência (MANSI apud VÍLCHEZ LÍNDEZ, 1999, p. 91).
um olhar atento se descobre as possibilidades de estruturas98 e, assim, visualizar melhor em que situação contextual o ser sapiencial coeletiano estava inserido.
Há pelo menos duas estruturas propostas por estudiosos as quais são nomi- nadas por concêntrica e planejada.
A hipótese de uma estrutura concêntrica ou quiástica é originária dos estudos de Lohfink, é a mais plausível e aceita por boa parte dos biblistas como Storniolo (2002, p.25), Anderson; Gorgulho (1991, p.94), assumida literalmente pela bíblia da Editora Vozes (1993) e reconhecida pela poética moderna como textohebraico sob “forte influência helenísticana atmosfera intelectual do seu tempo” (CAMPOS, 2004,p. 26).
A estrutura concêntrica é uma forma hebraica de apresentar o texto; ela ex- põe justamente no seu centro uma crítica à religião e com oito temas se correlacio- nando podendo ser assim disposta:
1,2s Moldura e versículo temático (vaidade)
A: 1,4-11- Cosmologia (poema)
B: 1,12-3,15 - Antropologia
C: 5,7-6,10 - Crítica da sociedade I D: 4,17-5,6- Crítica da religião (poema) C’: 5,7-6,10- Crítica da sociedade II B’: 6,11-9,6- Crítica da Ideologia
A’: 9,7-12,7- Ética (no final: poema)
12,8 Moldura e versículo temático (vaidade)
Conclusão (acréscimos posteriores):
12, 9-11 Primeiro epílogo
12,12-14 Segundo epílogo
Esta estrutura concêntrica possibilita a compreensão de que o homem neces- sita sapienciar a sua consciência no processo integral da existência abrangendo cin- co campos essenciais à vida do homem em sapiencialidade.
98
Stephanus (1993, p. 60-7) apresenta uma estrutura numérica baseando-se em dois artigos de A.