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O desejo como elemento de projeção da consciência para Sartre: um

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1. A GÊNESE DA CONSCIÊNCIA EXISTENCIALISTA A PARTIR

1.4 Sartre e o ateísmo em Freud

1.4.5 O desejo como elemento de projeção da consciência para Sartre: um

O desejo não é algo que está intrínseco à consciência. Sartre vai argumentar, inclusive referindo-se a Freud, que o desejo é uma atitude do homem na busca pe- las coisas exteriores ora por um sentimento de angústia, orapor um sentimento de prazer, porém jamais nascido nas estruturas mentais.

O homem é fundamentalmente desejo de ser, e a existência desse desejo- não deve se estabelecida por uma indução empírica; resulta de uma descri- ção apriorido ser do Para-si, posto que o desejo é falta, e o Para-si o ser que é para si mesmo, portanto, no projeto de ser; ou, se preferirmos, cada tendência empírica existe com o projeto original de ser em uma relação de

expressão e satisfação simbólica, tal como em Freud, as tendências consci- entes existem em relação aos complexos e à libido original. No que, por ou- tro lado, o desejo de ser primeiro seja para só depois expressar-se pelos desejos a posteriori, e sim que nada há à parte da expressão simbólica que encontra nos desejos concretos. Não há primeiro um desejo de ser e depois milhares de sentimentos particulares, mas sim que o desejo de ser só existe e se manifesta no e pelo ciúme, pela avareza, pelo amor à arte, pela covar- dia, pela coragem, as milhares de expressões contingentes e empíricas que fazem com que a realidade humana jamais nos apareça a não ser manifes- tada por tal homem em particular, por uma pessoa singular (SARTRE, 2007, p. 692).

Sendo assim, a figura de um ser exterior à consciência desperta no ser exis- tencial do homem o desejo de querer sê-lo; se a intenção é ser Deus, este desejo é intentado em proporções. Ao contrário do que defende Freud, este Deus, com seme- lhanças ao totem, pois este projeta o homem e o homem manifesta-lhe respeito (1948, p.474), é controlador de toda a situação do clã, podendo despertar neuroses no homem, que o adora, quando os seus anseios não são atingidos. Por exemplo, se o homem tem uma experiência de que a chuva virá, a partir do momento em que começa a ficar nublado e, posteriormente, não chove, aí é um momento crucial para que haja contradições internas na estrutura da mente das pessoas em busca de uma resposta. Sartre irá se posicionar dizendo que este tipo de atitude não vai de forma nenhuma agredir a mente, primeiro, porque ela, como consciência, não possui um conteúdo sem objeto; segundo, as neuroses são frutos de uma mente que não encontra o caminho da consciência reflexiva,relacionado aos objetivos, e não reflexi- va, que torna a consciência de algo como existente.

[...] a consciência reflexiva (réflexive) posiciona como seu objeto a consci- ência refletida: no ato de reflexão (reflexion), emito juízos sobre a consciên- cia refletida, envergonho-me ou orgulho-me dela, aceito-a ou a recuso, etc. A consciência imediata de perceber não me permite julgar, querer, envergo- nhar-me. Ela não conheceminha percepção, não a posiciona: tudo que há de intenção na minha consciência atual acha-se voltado para fora, para o mundo. Em outros termos, toda consciência posicional do objeto é ao mes- mo tempo consciência não-posicional de si(SARTRE, 2007, p. 24).

A consciência imediata ou pré-reflexivaé aquela que se apresentasomente com a ideia do objeto. É o que se chama de uma vaga ideia de algo. O homem só reconhece um objeto que lhe é apresentado porque antes já houve para si uma re- velação deste objeto.

Posto isto, as neuroses e doenças não estãooriginárias nas crenças em um ser, “[toda] crençaé crença insuficiente: não se crê naquilo que se crê” (SARTRE,

2007, p. 117); as crenças não são criadas e não são perpétuas na estrutura mental do homem se ele não as quiser; a consciência é livre e nenhum ser exterior ou mesmo interior lhe é superior; ela escolhe tal situação em operacionalidade; em pro- cessos.

[...] a consciência não-reflexiva torna possível uma reflexão [...] toda consci- ência existe como consciência de existir [não reconhecendo esta operacio- nalidade da consciência]seria fazer do evento psíquico uma coisa e qualifi- cá-lo de consciente, tal como, por exemplo, posso qualificar de cor-de-rosa este mata-borrão. O prazer não pode distinguir-se – sequer logicamente – da consciência do prazer. A consciência (de) prazer é constitutiva do prazer, como sendo o modo mesmo de sua existência, matéria de que é feito e não uma forma que se impusesse posteriormente a uma matéria hedonista. O prazer não pode existir “antes” da consciência de prazer – sequer em forma de virtualidade, potência. Um prazer em potência só poderia existir como consciência (de) ser em potência; não há virtualidades de consciência a não ser como consciência de virtualidades(SARTRE, 2007, p. 24-6).

Sartre argumenta acerca da consciência mostrando que ela não se faz sob o domínio do objeto ou que o objeto tem o domínio sob a consciência, ela já tem a sua estrutura, denominada de transcendente; nasce com um ser estranho lhe perten- cendo. Ela se faz consciência na relação com o objeto e o objeto se faz na relação com a consciência.

[...] ou a consciência é constitutiva do ser de seu objeto, ou então a consci- ência, em sua natureza mais profunda, é relação a um ser transcendente. Mas a primeira acepção da fórmula se autodestrói: ser consciência de al- guma coisa é estar diante de uma presença concreta e plena que não é a consciência. Sem dúvida por se ter consciência de uma ausência. Pois bem [...] a consciência é uma subjetividade real, e a impressão é plenitude subje- tiva. Mas esta subjetividade não pode sair de si para colocar um objeto transcendente conferindo-lhe a plenitude impressionável. Assim, se quiser- mos, a qualquer preço, que o ser do fenômeno dependa da consciência, se- rá preciso que o objeto se distinga da consciência, não por sua plenitude, mas pelo seu nada [...] A consciência é consciência de alguma coisa: signi- fica que a transcendência, quer dizer, a consciência nasce tendo por objeto um ser que ela não é [...]Dizer que a consciência é consciência de alguma coisa é dizer que deve se produzir como revelação-revelada de um ser que ela não é e que se dá como já existente (SARTRE, 2007, p. 33-5).

Freud jamais se encaixa nesta concepção de Sartre e, consequentemente, ideias de que a neurose é produzida no inconsciente reprimido pelo consciente são refutadas categoricamente. Isto, portanto, vale para as apologias de que a religião ou Deus é causa de cura ou neurose no ser humano. A razão está na defesa de que a subjetividade do homem lhe é negada quando se pensa a consciência a partir da sua estrutura mental; em Sartre, a subjetividade não se encaixa nesta dimensão es-

trutural da mente ou da consciência. Ela se faz mediante a descoberta de que todo e qualquer objeto que está à percepção da consciência se apresenta transcendente, ele é um ser transcendente para esta consciência; ela se relaciona com o ser trans- cendental dos fenômenos.

Entenda-se, o ser transcendental dos fenômenos, não um ser numênico que se mantivesse oculto atrás dele. O ser que a consciência implica é o ser desta mesa, deste maço de cigarros, desta lâmpada, do mundo em geral. A consciência exige apenas que o ser do que aparece não exista somente enquanto aparece. O ser transfenomenal do que existe para a consciência é, em si mesmo, em si (SARTRE, 2007, p. 35).

Assim sendo, a exigência da consciência é que o ser, as coisas, sempre se manifestem.“Um [existencialista] fenomenólogo íntegro, na teoria e na prática, reco- nhece o valor de Freud, agradece a ajuda que este Grande Homem deu à humani- dade, mas dispensa o divã, lhe basta uma consciência operante, antes, durante e depois da experiência” (PETRELLI, 2000, [s.p]).

Posto isto, a saída não é procurar as causas no interior da consciência que levaram o homem a adoecer, atribuindo à religião ou a Deus as suas motivações; não é a religião e muito menos Deus culpados por o homem se sentir triste e infeliz com a civilização, por exemplo. Esta é uma atitude que ele tomou para si, escolheu esta situação e por ela as coisas manifestas levaram-no descobrir os valores os quais lhe são perceptíveis. O homem descobriu-as porque é livre, ou seja, “[estou] condenado a existir para sempre para-além de minha essência, para além dos mó- beis42 e motivos de meu ato: estou condenado a ser livre” (SARTRE, 2007, p. 543).

Ora, se é livre então o homem procura a doença? A doença está na contin- gência na própria existência do homem em adoecer, pois ele não tem controle sobre aquilo que é o ser do seu corpo, se o tivesse ele não adoeceria, portanto. Enquanto vive o homem está susceptível às atrozes situações a que o (seu) corpo possa so- frer; até porque o corpo humano, para o existencialismo, é parte integrante da pró- pria noção de que na consciência nada se encontra. No corpo, o ser, existe o conte- údo que a consciência não tem domínio.

42 “O sentido profundo do determinismo é estabelecer em nós uma continuidade sem falha de exis- tência Em-si. O móbil concebido como fato psíquico, ou seja, como realidade plena e dada, articula- se na visão determinista sem solução de continuidade com a decisão e o ato, concebidos igualmente como dados psíquicos. O Em-si apoderou-se de todos estes “dados”; o móbil provoca o ato assim como a causa seu efeito; tudo é real, tudo é pleno” (SARTRE, 2007, p. 544).

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