2 SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO, CIDADANIA E BOM GOVERNO
2.2 QUEM É O CIDADÃO NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
2.2.3 A consciência da cidadania como elemento transformador
18 Para Costa (2010, p.178), “a efetividade da autonomia ocorre com a construção de alternativas, de opções, para superação dos entraves que limitam o pleno desenvolvimento do homem. Para superar a pobreza, é necessário superar o uso instrumental da razão, colocada a serviço da recriação ampliada do capital. A razão colocada como instrumento de valorização do capital busca subordinar a ciência e a tecnologia à lógica da produção capitalista. É preciso construir a razão emancipatória e colocar a produção a serviço do homem e desenvolver a razão como fonte de autonomia, capaz de superar a situação de opressão em que vive parte da humanidade.”. 19 Não se trata aqui do conhecimento voltado apenas para a inovação competitiva, mas o que se volta a
A participação do indivíduo nas decisões políticas que afetam sua vida não se apresenta de modo abrangente para todos, desde a Antiguidade, pelo contrário, na época, a participação era um direito de poucos, reservado àqueles que tinham melhores conhecimentos e posses.
Esse pensamento ainda se perpetua no presente como um mito, em que a participação nas decisões está reservada a poucos com habilidades especiais.
A cidadania, como se colocou anteriormente, se apresenta como um “círculo de capacidades conferido pelo Estado aos cidadãos”, cujo conteúdo foi construído por meio de lutas (BONAVIDES, 2003, p. 77). No entanto, não é possível ignorar que há uma tendência a imobilização, ao não comprometimento. A crescente burocratização da atividade política, coloca os cidadãos na condição de clientes das políticas desenvolvidas de forma centralizada. Isto colabora para uma despolitização das ações públicas, podendo afastar a política do cotidiano da população. Com esta despolitização, discussões extremamente técnicas passam a dominar o debate, o que acaba por acentuar o desinteresse dos cidadãos que não dominam esta técnica no debate político (OFFE, 1984).
Segundo Bauman (2007), a apresentação de seus membros como indivíduos é a marca registrada da sociedade moderna. O indivíduo é, segundo o autor, o pior inimigo do cidadão, pois o cidadão busca seu próprio bem-estar através da cidade, enquanto o indivíduo costuma ser cético ou prudente em relação à causa comum. O exercício da cidadania então não estaria entre as prioridades do indivíduo na atualidade? A literatura das ciências sociais,20 em resposta a este questionamento, tem apontado o surgimento de movimentos emancipatórios poderosos que são denominados novos movimentos sociais, cujo diferencial, na visão de Santos (2013), está no fato de se constituírem como uma crítica aos excessos de regulação do socialismo e do capitalismo. Estes movimentos têm apontado outras formas de opressão e também outras formas de emancipação, além daquelas atinentes às relações de produção.21 Segundo Santos (2013, p. 260), os novos movimentos sociais apontam para um alargamento da política além do marco liberal da distinção entre sociedade civil e Estado. Coloca que o princípio da comunidade rosseauniana é o mais apropriado para fundar estas novas energias emancipatórias pela ideia de política horizontal entre cidadãos e de participação e solidariedade concretas na formulação da vontade geral.
20 A bibliografia é diversificada e apontam-se Scott (1990) e Laranjeira (1990).
21 Santos (2013) aponta que tais movimentos não podem ser explicados por uma teoria unitária e que seus objetivos são variados como críticas ao consumo, ou ausência de consumo, fome, defesa igualdade de gênero e de orientação sexual, defesa do meio ambiente etc.
Santos (2013, p. 279) dá ênfase à questão da emancipação para a criação de “um novo senso comum político” onde a nova cidadania se constitui em uma obrigação política vertical entre os cidadãos e o Estado e também uma política horizontal entre cidadãos o que valorizaria o princípio da comunidade e como consequência o da igualdade, a ideia de autonomia e também de solidariedade.
A perspectiva culturalista vem apontando a importância das associações civis enquanto espaço de formação da opinião coletiva, alertando, contudo, para a necessidade de se evitar a institucionalização destas associações pelo perigo de se tornarem um espaço paraestatal.
Segundo Avritzer (1997), haveria três tipos de associações com desenhos formais distintos: a) associações não conflitivas, que não tematizam problemas, tais como as recreativas, religiosas, que não estabelecem um campo ético-cultural; b) associações conflitivas, tais como os sindicatos, associações profissionais, educacionais, de saúde, entre outros que se institucionalizam em campos predefinidos de ação, burocratizando-se com temas fixos do passado; c) novo associativismo, com desenhos solidários, democráticos e identitários ao mesmo tempo, como o movimento de mulheres, negros, indígenas, ecológicos, direitos humanos, configurando um campo ético-político-cultural que aponta para uma esfera pública democrática.
O autor afirma que esta última forma acaba por influenciar o sistema político e econômico, colocando questões temáticas tanto ao Estado como ao mercado. Para o autor, essas novas formas de manifestação no espaço público são capazes de gerar fluxos democratizantes, desde que tais associações possuam um status público, ou seja, abertas em sua organização e funcionamento, bem como democráticas, que evitem novas formas de desigualdade e adotem medidas constantes para evitar o uso particular e antidemocrático da entidade.
Nas últimas décadas, o vínculo entre cidadania e democracia é novamente revisitado, retomando o posicionamento de Marshall, mas avançando no sentido de averiguar as questões de legitimidade e confiança, isto porque as pessoas se encontram desmotivadas quanto ao agir politicamente. O mercado não é capaz de suprir as condições de bem-estar, as associações voluntárias não possuem aportes financeiros suficientes, pois são dependentes de agentes externos; as famílias não possuem recursos para garantir boas condições de vida a seus membros. Desse modo, há um vácuo que reclama a reconstrução das potencialidades.
A cidadania implica na reivindicação ao acesso, à inclusão, participação e pertencimento a um sistema político estabelecido no interior da sociedade, como parâmetro das relações sociais. Não se apresentando com um atributo formal, mas sim emancipador, liga-se a um processo de participação, de crítica da realidade e de criação que se repete continuamente.
Implica na construção de consensos a partir da problematização da realidade. Necessita que o indivíduo se perceba como ator e transformador de sua realidade, não apenas em relação ao Estado, mas de forma horizontal, em relação à sociedade em que vive.
Na medida em que esse processo se constrói e se reconstrói, as pessoas se percebem autoras de sua história e conquistam fatias de poder, que é partilhado porque resulta da formação de consensos e de valores como a solidariedade, a tolerância, a confiança.
O fomento da cidadania diz respeito ao tema da cultura política. Putnam (2000) aponta que os aspectos culturais são mais importantes para entender o desenvolvimento de uma região do que a situação das instituições. Na sua obra Comunidade e Democracia, busca verificar como alguns governos democráticos podem funcionar de maneira mais satisfatória que outros e quais seriam os desafios contemporâneos para o bom desempenho dos governos democráticos. O autor centra sua pesquisa na história política da Itália e testa sua hipótese de que são a cultura política e as tradições cívicas que determinam o bom desenvolvimento de dada região. Denomina de Capital Social (CS) as práticas sociais, normas e relações de confiança que existem entre cidadãos numa determinada sociedade, bem como sistemas de participação e associação que estimulam a cooperação. “As possibilidades de desenvolvimento de uma região dependem menos de seu potencial socioeconômico inicial do que de seu potencial cívico.” (PUTNAM, 2000, p.166).
Putnam (2000, p. 191) afirma, ainda, que nas comunidades cívicas há exigência de um bom governo, de serviços mais eficazes e a disponibilidade para agir coletivamente para alcançar tais objetivos, já nas regiões com capital social mais baixo, a comunidade costuma assumir o papel de suplicante ou de alienada.
Pesquisas semelhantes foram realizadas no Brasil (BANDEIRA, 2003; BOSCHI, 1999), que apontam posicionamentos semelhantes, verificando que nas regiões cuja matriz social é oriunda de imigrantes, com existência de pouca ou nenhuma escravidão e predomínio do minifúndio, acabaram colaborando para o desenvolvimento local pelo aumento de capital social. Ao contrário, outras regiões dominadas pelo uso extensivo de mão de obra escrava e pelo latifúndio e pelo domínio dos coronéis, guardariam ainda forte inclinação ao patrimonialismo e ao clientelismo.
Para Comparato (1996, p.10), a noção básica e elementar da cidadania reside em fazer com que o “povo se torne parte principal no processo de seu desenvolvimento e promoção: é a ideia de participação. Essa participação, para o autor, se apresenta em cinco níveis: a) na distribuição de bens materiais e imateriais necessários à existência social digna; b) na proteção
dos interesses difusos ou transindividuais; c) no controle do poder político; c) na administração da coisa pública e; e) na proteção dos interesses transnacionais.
Essas questões relacionam-se com o modelo de democracia adotado pelo Estado. A dinâmica e a evolução inerentes à cidadania norteiam-se pela democracia, como coloca Pinski (2003, p. 9-13), para quem a cidadania em sentido amplo é a “expressão concreta do exercício da democracia”. Neste mesmo sentido também, Vieira (2002, p.40) coloca que “a cidadania, definida pelos princípios da democracia, constitui-se na criação de espaços sociais de luta (movimentos sociais) e na definição de instituições permanente para a expressão política, significando necessariamente conquista e consolidação social e política”.
Desse modo, é necessário investigar quais as possibilidades da democracia nesta sociedade da informação, e se uso das tecnologias podem além de facilitar o acesso aos serviços do governo, permitir novas relações entre o Estado e o cidadão.
2.3 ESTADO DEMOCRÁTICO E SUAS POSSIBILIDADES NA SOCIEDADE DA