CAPÍTULO II O Direito de Tendências no Partido dos Trabalhadores:
3.13. A Democracia Socialista e o “Fora Collor”
O debate sobre a crise política do governo Collor desenvolvido pelo PT em seu I Congresso, bem como o plano de oposição ao governo por ele encaminhado eram, conforme vimos, avaliados como insuficientes pela DS. Em abril, a palavra de ordem “Fora Collor!” já era tema de um debate incontornável: é nesse sentido que a corrente mandelista afirmava que não haver definido claramente a “contestação do mandato de Collor como eixo globalizador da atuação do PT” fora um dos problemas do congresso. (Em Tempo, nº 259, 1991, p. 3.)
Acompanharemos a maneira pela qual a DS buscou disputar os rumos da política petista nesse contexto por considerarmos que ela é emblemática da opção pela manifestação de divergências dentro dos limites estabelecidos pela regulamentação. Além disso, permite que vislumbremos em que medida a estratégia de “movimento em pinça” começava a influir sobre as táticas da DS, a partir da avaliação do papel que poderiam cumprir as instituições do regime democrático-burguês nesse caso concreto. A partir disso, teremos um a base mais sólida para efetuarmos a comparação com as concepções e táticas escolhidas pela CS, e que acarretaram na sua exclusão.
A crítica da DS à “Resolução de Julho” do DN, sobre a tática da qual o partido deveria se utilizar para enfrentar o governo Collor, é exemplar de uma atuação que buscava exprimir a adequação da tendência à regulamentação, postura que buscou adotar desde o V EN e que havia reafirmado no I
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Congresso. A nota da DS, publicada sob o editorial do Em Tempo nº 260 (julho/1992), parte da afirmação do mérito da resolução do DN, “de fazer o partido se reencontrar com seu papel de oposição radicalmente democrática ao governo”, ao traduzir o anseio popular pelo impeachment na bandeira “Fora Collor”. Tal e qual a resolução, a nota não aponta diretamente os limites da CPI, ou os da “constitucionalidade”; em outra matéria da mesma edição, “Depois do fim, o que?”, assinada por Carlos Henrique Árabe, a própria instauração da Comissão Parlamentar de Inquérito é definida como uma vitória petista, uma vez que “a firme atuação do PT” no sentido de exigir a CPI teria sido o obstáculo que “impediu que a disputa de quadrilha, no interior do círculo mais íntimo do governo, fosse resolvida nos moldes tradicionais”. (Em Tempo, nº 260, 1992. p. 4.)
Voltando à nota da DS sobre a “Resolução de Julho”, percebe-se que o texto busca indicar a permanência de polêmica dentro do Diretório Nacional, em torno de um tema constitucionalmente incontroverso: “A polêmica principal foi se o partido já deveria assumir a defesa da convocação de eleições presidenciais”. Em seguida, complementa:
Os que defenderam a perspectiva de luta por eleições, acreditam que devemos manter a aliança partidária e o objetivo de criminalizar Collor na Câmara dos Deputados, mas temos que apresentar para a sociedade a nossa alternativa ao pós-Collor. Pois a posse do vice, só pode ser tida como provisória, uma vez que o governo Collor é ilegítimo desde as eleições e a alternativa é a nossa, democrática e popular. (Em Tempo, nº 260, jul/1992, p. 3)
Além dos traços “estilísticos”, como o uso da segunda pessoa do plural (“devemos manter”, “temos que apresentar”), o próprio desenho de uma política mais arrojada, que apresenta uma “alternativa (...) nossa, democrática e popular”, indicam não apenas a demarcação de diferenças com a resolução aprovada, mas as possibilidades de participação ativa e de disputa sobre os rumos do partido mantendo sua atuação unitária – traços característicos da linha e da caracterização da DS sobre o PT. Também vale destacar que a expressão “democrático e popular” como síntese do programa petista, tomada como insuficiente pela DS em 1986, em 1992 era incorporada no uso corrente sem maiores problematizações, justamente com o objetivo de salientar a unidade, a “nossa alternativa”.
Um argumento do qual a DS lança mão para fundamentar a viabilidade de eleições imediatas, o da ilegitimidade do governo Collor desde as eleições, acaba por aproximá-la da linha que foi implementada pela Convergência Socialista, bem como por outros grupos que aderiram ao Fora Collor muito antes da resolução de julho do DN. O mesmo argumento acaba aparecendo sob outra roupagem no já citado artigo de Árabe, “Depois do fim, o quê?”:
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... é possível entender porque não se formou ainda uma vontade popular, majoritária e ativa, que exija o fim imediato de um governo que já não existe. As razões não residem propriamente numa „insuficiência de provas‟. As demonstrações e evidências de responsabilidade de Collor já liquidaram qualquer credibilidade, que é a condição mínima para se defender. O problema está muito mais na insuficiência das saídas para o pós-Collor. (Em Tempo, nº 260, 1992, p. 4.)
A conclusão lógica desse argumento poderia muito bem ser a de que a CPI não deveria ser superestimada na estratégia petista – se não por sua heterogeneidade, ou por quaisquer outros limites que pudessem caracterizar a CPI, pelo menos porque o cerne da crise política, reconhecia a DS, não passava por comprovar a culpa de Collor, mas por consolidar uma “vontade popular, majoritária e ativa” e canalizá-la para uma “alternativa”. Mas o texto de Árabe não se presta a confusões:
Esta ideia não significa que o PT deva arrefecer o trabalho na CPI ou retirar o foco de atenção de Collor. Ao contrário. A extensão e a profundidade das evidências que comprovam a responsabilidade de Collor podem produzir fatos mais explosivos ainda. E isto não acontecerá se o PT não estiver à frente dos trabalhos da CPI. (Em Tempo, nº 260, 1992, p. 4.)
A questão com a qual se debatem os militantes da DS nesse momento tem contornos nítidos: buscam uma maneira de conciliar, por um lado, a posição majoritária no partido e aprovada pelo DN, de que o “afastamento e a sucessão devem se dar nos marcos constitucionais”, o que conduziria à posse de Itamar, e por outro, a necessidade de apresentar uma alternativa legítima e radicalmente oposta à política econômica neoliberal, verdadeira responsável pelo repúdio crescente das camadas populares a Collor. A posse de Itamar significaria a continuidade do governo Collor “sem Collor”, com a mesma política econômica e a mesma ausência de legitimidade. Resultava que o melhor cenário para a apresentação da alternativa petista, na opinião da DS, seria o da convocação de novas eleições:
... a luta democrática – e a legitimidade que conquistamos para dirigi-la nos dá condições de ter ousadia – não pode se deter numa apuração radical da corrupção e na responsabilização de Collor. É preciso ser igualmente radical na defesa das saídas mais democráticas, o que remete à defesa de novas eleições presidenciais e de um novo governo para o país. (Em Tempo, nº 260, 1992, p. 4.)
O Em Tempo também publicou uma avaliação elogiosa da “Vigília pela Ética na Política”, realizada em 23 de junho de 1992 no Auditório Petrônio Portela do Senado Federal, por iniciativa conjunta da CNBB, OAB, entidades de pesquisa, centrais sindicais e partidos políticos da oposição ao governo Collor. A DS caracterizava a iniciativa como “um bom começo”, ressaltando que representava um esforço por demonstrar à opinião pública que “a CPI não se esgota numa briga parlamentar”. Bastante afinado tanto com a linha do DN do PT quanto com o estilo discursivo do Movimento Ética
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na Política, o artigo de Raul Pont frisa que a Vígilia estaria “resgatando a ética, a moralidade e o respeito à coisa pública na administração”. (Em Tempo, nº 260, 1992, p. 4.)
No mesmo artigo em que comenta a Vigília, assinado por Raul Pont, a DS reafirma mais um aspecto da linha votada na reunião de julho pelo DN, o de que também a renúncia do presidente significaria uma vitória do movimento de massas. Segundo o artigo, a bandeira “Renúncia já!” unificava outras forças presentes nas mobilizações de rua, com as quais era necessário garantir ações comuns, ampliando a pressão sobre Collor. A eventual renúncia do presidente era encarada como um cenário superior ao do prolongamento das tramitações entre Congresso e Senado por vários meses. Pont é enfático: “o país não aguenta mais meio ano de desgoverno”. (Em Tempo, nº 260, 1992, p. 4.)
Nesse sentido, toda a política da DS para o momento da definitiva adesão petista ao “Fora Collor!” envolvia vincular o prosseguimento da luta institucional via CPI com a ampliação das mobilizações de rua, no que não se diferenciava da posição do DN; mas a intenção de antecipar o calendário eleitoral, apresentada pela corrente como a melhor resposta para a crise, embora apareça o tempo todo nas páginas do Em Tempo, não se traduz em palavras de ordem ou chamados para a ação. Aqui se encontra a principal diferença em relação à tática da qual lançou mão a Convergência, conforme detalharemos no próximo capítulo.