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O trotskismo, a IV Internacional e sua ala mandelista

CAPÍTULO II O Direito de Tendências no Partido dos Trabalhadores:

3.1. O trotskismo, a IV Internacional e sua ala mandelista

Enquanto ideário político, o trotskismo busca dar continuidade ao bolchevismo, reivindicando o método do materialismo histórico-dialético elaborado por Marx e Engels, e as contribuições de Lenin nos campos da organização política e da ação revolucionária. Entre as elaborações teórico-políticas de León Trotsky que particularizam o trotskismo em relação a outras vertentes do marxismo, destacamos: a “teoria da revolução permanente”, que buscava refutar as concepções etapistas da revolução proletária (TROTSKY, 2010a); a defesa intransigente do internacionalismo operário, em contraposição à teoria de Nikolai Bukharin sobre as possibilidades de construir o “Socialismo em um só país”, adotada por Josef Stalin (TROTSKY, 2010b); a estratégia da “revolução política” como alternativa

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para restaurar a democracia operária diante da burocratização da União Soviética, mantendo a defesa da socialização dos meios de produção (TROTSKY, 2005; 2011); e o método de reivindicações transitórias para a revolução socialista, materializado no “Programa de Transição”. (TROTSKY, 2008.)

Já enquanto corrente política internacional, pode-se falar em trotskismo a partir de 1924, quando começa a se formar o que seria a Oposição de Esquerda ao estalinismo dentro do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Em 1926, a oposição trotskista já tinha vínculos internacionais com comunistas ocidentais insatisfeitos com a política de Stalin e Bukharin. (KUN, 1994. p. 99) A derrota da oposição no XV Congresso do PCUS em 1927 marca a consolidação definitiva do estalinismo à frente do Estado Operário; Trotsky é expulso do partido, e mandado ao exílio em janeiro do ano seguinte. Com o avanço do processo de degeneração da III Internacional e dos partidos comunistas em escala mundial sob a influência da burocracia soviética, os trotskistas passam a defender a necessidade da fundação de uma nova internacional a partir de agosto de 1933. Um ano e meio depois, em sua “Carta aberta pela IV Internacional”, Trotsky expunha:

A ascensão do poder de Hitler, que não enfrentou a menor resistência da parte dos dois “poderosos” partidos da classe operária [o Partido Social-Democrata Alemão (SDAP) e o Partido Comunista Alemão (KPD)] – um dos quais, além disso, respaldado pela USSR – expôs de maneira decisiva a putrefação interna da Segunda e da Terceira Internacionais. (TROTSKY, 1935. Trad. Minha.)

A IV Internacional é oficialmente fundada em um Congresso que teve lugar em Paris, em setembro de 1938. Composta principalmente por minorias egressas/expulsas de partidos comunistas estalinizados, não teve um crescimento tão rápido no movimento operário mundial quanto previsto em seus prognósticos mais otimistas. O assassinato de Trotsky em 1940 privou a IV Internacional de seu mais experiente e renomado líder revolucionário. A penetração incipiente da organização em bases operárias, somada à juventude e inexperiência de sua direção, conduziram ao rápido surgimento de crises internas.

Em 1943, o grego Michel Raptis, pseudônimo Michel Pablo, assumiu a secretaria geral da IV Internacional, cargo que ocuparia pelos dezessete anos seguintes. A linha política implementada pela Internacional a partir de 1950, da qual Pablo foi o principal elaborador, rapidamente gerou forte oposição dentro da organização. Pablo partia da caracterização da eminência de uma III Guerra Mundial a ser travada entre dois grandes blocos antagônicos, o “mundo estalinista” e o “mundo capitalista”. Gostassem os trotskistas ou não, a esmagadora maioria das forças que se opunham ao

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capitalismo se encontraria sob a liderança ou influência da burocracia soviética, que ao se colocar em choque frontal contra o bloco capitalista, cumpriria um papel revolucionário.

A tática que decorria dessa previsão era a da necessidade de praticar o entrismo nos partidos de massas que se deslocariam para o bloco socialista ou que já se encontravam sob influência do estalinismo. No caso francês, onde a IV tinha um de seus mais importantes partidos, o Partido Comunista Internacionalista (PCI) isto significava entrar no Partido Comunista Francês (PCF), completamente estalinizado e antitrotskista.63

Ao optar por uma visão campista da revolução, Pablo foi acusado de capitulação ao estalinismo por diversos setores da IV Internacional. Se o estalinismo ainda podia cumprir um papel progressivo, e mais que isso, ainda era capaz de dirigir revoluções, qual era o sentido da luta pela IV Internacional? Muitos trotskistas discordaram terminantemente da linha implementada por Pablo, que buscou impor suas visões, centralizando as seções nacionais a partir da direção da Internacional. O PCI francês não aceitou a resolução do secretariado que decretava o entrismo no PCF, e acabou por implodir em 1952. No ano seguinte, o Socialist Workers Party (SWP) norteamericano, um dos maiores partidos trotskistas de então, desligou-se do secretariado dirigido por Pablo, seguido pelo grupo britânico organizado em torno de Gerry Healy e do grupo argentino liderado por Nahuel Moreno. (STUTJE, 2009. pp. 99-102.)

O economista e revolucionário belga Ernest Mandel (1923-1995) já fazia parte do secretariado da IV Internacional desde 1946. Durante a década de 1950 defendeu as posições pablistas, que avançavam do catastrofismo (a iminência da III Guerra Mundial) para um pessimismo em relação às possibilidades da revolução socialista a curto prazo na Europa. A partir de 1956, com o avanço da luta pela independência argelina, o pablismo passa a defender que a IV Internacional priorizasse os conflitos anticolonialistas africanos e latinoamericanos.

Em 1960, Michel Pablo é preso pela polícia holandesa, acusado de promover atividades ilegais com vistas a promover a resistência argelina. Nesse momento, as relações entre Pablo e Madel já eram mais conturbadas; o economista belga, bem como a grande maioria dos membros do secretariado internacional, consideravam que Pablo exercia um controle personalista sobre a Internacional,

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A tática do entrismo foi defendida pela primeira vez no movimento trotskista ainda durante a década de 1930. Na ocasião, seu principal elaborador e defensor foi o próprio Trotsky. Mas variantes da tática seriam aplicadas em novos contextos políticos, gerando polêmicas como as sustentadas pela ala da IV Internacional que se recusou a aplicar o entrismo pablista. No capítulo IV, quando acompanharemos a trajetória de uma corrente que se identificava com esse setor do trotskismo, teremos oportunidade de analisar as principais características da formulação original de Trotsky sobre o entrismo, bem como as da versão proposta por Pablo na década de 1950.

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monopolizando informações vitais sobre a vida política da organização e tomando decisões baseadas em suas posições pessoais, em detrimento da discussão coletiva. Após a prisão de Pablo, a Internacional é brevemente dirigida pelo argentino Juan Posadas, defensor das ideias pablistas ao longo dos anos de 1950 e que aprofundou a linha “antieuropeia”, mas que romperia com a IV Internacional já em 1962. A partir daí, Mandel foi a principal referência teórica e política da ala majoritária do trotskismo internacional: conseguindo a reunificação com a ala encabeçada pelo SWP, formou o Secretariado Unificado da IV Internacional (SU) em 1963.

O SU não foi capaz de reunir todos os agrupamentos internacionais que reivindicavam o trotskismo. A partir de fins dos anos de 1960 começou a enfrentar fortes polarizações internas, processo que culminou em novas rupturas ao longo da década seguinte. Porém, a corrente mandelista permaneceu a maior no movimento trotskista internacional, principalmente a partir das seções construídas na Europa. É com essa ala que os trotskistas brasileiros da Democracia Socialista se identificavam. A seguir, passaremos à análise da formação da organização mandelista brasileira.

3.2. As origens da Democracia Socialista: os grupos gaúcho e mineiro, o Em Tempo e a adesão ao

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