4. AS REDES DE PROPONENTES E SUAS ARTICULAÇÕES COM O
4.8. A eficácia e o impacto dos projetos em debate
Ao longo do mestrado, participei de dois eventos realizados na capital nacional, Brasília: a VIII Conferência brasileira de Mídia Cidadã - Mídia, cidadania
e políticas públicas, em setembro de 2012, e a Escola Regional MOST UNESCO Brasil - Juventude, Participação e Desenvolvimento Social na América Latina e Caribe, em dezembro de 2013. Nas duas ocasiões, além de ter conhecido
pesquisas e iniciativas do Brasil e da América Latina, pude acompanhar discussões que contribuíram para visualizar a dimensão “global” dos projetos “sociais” para jovens, com suas semelhanças e diferenças. Para a nossa
discussão sobre o mundo de projetos, mostram-se relevantes as críticas e os debates feitos por proponentes e pesquisadores.
Na VIII Conferência Brasileira de Mídia Cidadã, uma mesa sobre arte, educação e comunicação desdobrou-se para um debate sobre projetos sociais. No palco, a pedagoga e rapper Vera Verônika falou dos projetos que integrava, que tomavam o rap como um meio de conscientização e realizavam apresentações em escolas e penitenciárias no Distrito Federal. Ressaltou dificuldades na realização dessas atividades, num contexto de escolas de atuação “limitada” e os pequenos impactos percebidos com o projeto, a partir das histórias de jovens específicos.
Da plateia, Laize Guazina, professora de Música na Universidade Estadual do Paraná trouxe sua experiência de doutorado82, pesquisando o ensino
de música em projetos sociais para questionar o que chamou de processo de “patologização” de jovens de periferia. Guazina percebeu um forte componente moral em projetos culturais (e os “sociais”, como um todo) que propunham “salvação” e “transformação social”, marcados pelo uso dos verbos “resgatar" e “salvar”, bem como das expressões “o esporte me salvou”, “o projeto me resgatou” e “tirar o menino da rua”, em análise semelhante à nossa.
Vera Verônika concordou, mas atentou para a linguagem dos editais: “Você tem que ler os editais. Ele pergunta: ‘Quantas crianças foram retiradas da rua?’. [Perguntam] ‘quantos participaram?’ Não. [Eles perguntam] ‘quantos resgatados?’.” “O edital te amarra”, de modo que os proponentes devem se adequar à linguagem do documento dos financiadores se quiserem vencer os editais.
Em linha semelhante à discussão do jovem “com patologia”, que precisa ser salvo, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, outro membro da mesa no palco, ponderou quanto às mudanças de legislação e de políticas públicas para a educação, especialmente para a educação de jovens de famílias pobres. Segundo ele, em comparação à Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1961, que dispensava os pais de famílias pobres a
82Sua tese, intitulada “Práticas musicais em Organizações Não Governamentais: uma etnografia
sobre a (re)invenção da vida”, foi defendida em 2011. No mesmo ano, deu início, como professora, ao projeto de pesquisa “Práticas musicais, ação social e o enfrentamento da vulnerabilidade e violência que atingem jovens e crianças: o ensino de música em ONGs, a formação superior e a garantia de direitos sociais” na Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).
matricularem seus filhos na escola, atualmente também temos uma diferenciação do status de pobreza, com o que chamou de “atestado de pobreza”. O recebimento de benefícios governamentais, como o Programa Bolsa Família, e o atendimento em hospitais públicos estarem condicionados a uma sujeição na condição de pobreza. Chamou esse processo de “inclusão pela exclusão”, que exerce uma “cidadania do não”.
No segundo dia do evento, a pesquisadora de estudos culturais e professora de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Liv Sovik, também discutiu projetos culturais em periferias, ressaltando tais experiências, como do Nós do Morro, Afroreggae, Olodum e Ilê-Ayê como “ambientes simbólicos amenos”, que podem ser respostas em “ambientes de violência e repressão”, numa “cultura dominante simbolicamente violenta”. Uma de suas questões, também semelhante à nossa, era: “Até que ponto esses projetos podem ser trabalhados como educacionais”.
Outro ponto importante de sua reflexão foi quanto ao futuro desses projetos, uma vez que são atividades que necessitam de um financiamento. Com a saída de agências de cooperação internacional pela melhoria de indicadores sociais no país, Sovik argumentou que os projetos precisariam recorrer a empresas brasileiras e suas iniciativas de responsabilidade social, além dos editais e programas de governo. Implica-se um questionamento da lógica de financiamento dos projetos face às especulações de que as reiteradas políticas para melhoria dos indicadores sociais possam reduzir, em médio ou longo prazo, o montante de financiamento nacional a essas intervenções. Retomaremos essa discussão mais à frente.
Outro evento em que pesquisadores e proponentes debateram sobre foi a Escola MOST, realizada em dezembro de 2013, que reuniu pesquisadores, funcionários do governo, estudantes e integrantes de coletivos e movimento sociais do Brasil e de países da América Latina. Entre os de pesquisadores de juventude renomados nacional e internacionalmente, estavam Regina Novaes, Helena Abramo, do Brasil, e José Manuel Valenzuela, do México. Organizado por palestras, grupos de trabalho e plenárias, um dos temas mais discutidos no evento foram os jovens “Nem Nem”, expressão tomada da versão em língua castelhana: “jóvenes ni ni” – ou os jovens que nem estudam e nem trabalham.
Um dos convidados do evento foi o sociólogo e professor Léo Voigt, do Rio Grande do Sul, que compartilhou o artigo “Potencialidades e Riscos de Projetos com Juventude”. No texto, ele apresenta um “testemunho autobiográfico, de quem muito participou de projetos e processos propostos para e realizados com jovens”, com o objetivo de discutir formação para o desenvolvimento, participação e protagonismo juvenis:
Ao longo da minha vida pessoal, profissional e como militante de causas públicas, entre tantas descobertas, foi se construindo a convicção de que todo o investimento realizado em projetos com juventude resulta em dois impactos distintos e, aparentemente, contraditórios. (VOIGT, 2013, p. 2)
Voigt busca demonstrar o êxito de projetos, visando a “reprodução” e continuidade deles, através de exemplos de trajetórias individuais singulares, tanto de si como de seus vizinhos. Com seu texto e com a apresentação pessoal na Escola MOST, almejou encarnar a comprovação do exemplo exitoso.
Relaciona, ademais, os aspectos de celeridade e de intensidade das experiências juvenis. A característica dos projetos e programas com juventude, salvo exceções, é de ser um eterno recomeçar, mas argumenta que, no tempo de vida juvenil, qualquer “pouco tempo” é muito para a intensidade de experiências:
Como ser jovem é uma transição algo célere (I), os programas e projetos juvenis padecem estruturalmente da devida continuidade e permanência, dada a volatilidade da população. Sempre que se dá início a um programa, de qualquer natureza, os proponentes, os financiadores ou suas lideranças tem a exata sensação de que tudo deve recomeçar a cada nova etapa [...] Perante um percentual relevante de jovens, notadamente aqueles com maior liderança, estes tempos de projeto podem se revelar demasiados perante a dinâmica da sua faixa etária. (VOIGT, 2013, p. 2) Por outro lado (II), é na juventude que se absorve o maior volume de insumos que a vida oferece. Um jovem é como uma espoja seca em um ambiente úmido. (p. 3)
Voigt discute a noção de liderança proporcionada pelos projetos como um aspecto positivo, capaz de se tornar uma disposição incorporada (BOURDIEU, 1996) pelos jovens participantes. Como alguém que atribui à participação em projetos a sua educação e formação como sujeito, enfatiza aspectos positivos dessa experiência, algo que também pode ser explicado por ser um profissional de projetos, especializado em gestão de projetos de responsabilidade social em empresas. Seu testemunho é, nesse sentido, uma forma de legitimação das práticas e dos agentes dos projetos “sociais”.
O autor também tenta dar conta de críticas ao caráter efêmero dos projetos, que podem levantar questionamentos à eficácia e ao êxito das iniciativas de intervenção social. Apesar dos períodos curtos e das pausas entre um financiamento e outro – o que pode acarretar afastamento dos jovens participantes – Voigt ressalta, como pesquisador e com base em suas experiências próprias, o impacto de cada momento durante os anos intensos da juventude, que ele visualiza como uma “esponja seca em um ambiente úmido”, como se fosse capaz de apreender tudo o que está ao redor.