6. NA TRILHA DOS PROJETOS DE JOVENS PARA JOVENS
6.5. Um convite para entrar na dança
Os anos de 2012 e 2013 foram intensos para o “grupo cultural de danças afro-brasileiras que dança a força a coragem a beleza da mulher negra que compõe a história do nosso Brasil negro”, como o Afro Arte é definido em sua página no Facebook. Parecia estar crescendo, com a divulgação de fotos em evento de orixás na praia, fotos de uma oficina de danças afro-brasileiras para crianças e a divulgação do espetáculo Coisas de Negras, que levou ao palco danças, músicas e poesias que cantam e contam histórias de mulheres negras no Brasil.
O espetáculo teve coreografias novas criadas por Márcio e trouxe um arranjo artístico elaborado com cenário, pausas para a leitura de poesias e efeitos de som, além da reprodução de canções gravadas. Apresentaram-se em espaços culturais da cidade, tais como o Mocó Estúdio, na Praia de Iracema, transitando por outros pontos da cidade, frequentados por outros públicos. Essas participações se deram em eventos do que poderíamos chamar de “circuito negro” de Fortaleza, e foram possíveis através de inserções construídas por Jane e Márcio, inseridos em redes já estabelecidas, e também por Luiza, a partir dos grupos de capoeira que foi conhecendo106.
Nesse sentido, podemos entender circuito com José Guilherme Magnani:
Com relação a circuito, trata-se de uma categoria que descreve o exercício de uma prática ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos, equipamentos e espaços que não mantêm entre si uma
106 Um resultado direto desse “intercâmbio” foi um convite para apresentação na Associação dos
relação de contigüidade espacial; ele é reconhecido em seu conjunto pelos usuários habituais. A noção de circuito também designa um uso do espaço e dos equipamentos urbanos – possibilitando, por conseguinte, o exercício da sociabilidade por meio de encontros, comunicação, manejo de códigos [...] (MAGNANI, 2005, p. 178-179)
Circuito é uma categoria que tenta apreender a dinamicidade de práticas, lugares e pessoas que se aproximam por encontros, comunicação e códigos comuns. Compreendemos que, dentre esses códigos, estão os valores morais, que orientam uma ética compartilhada que faz sentido nos fluxos de um dado circuito. Compreendemos, também, que os circuitos são capazes de incorporar o jogo social de reputações no sentido de Bailey (1971), uma vez que este autor toma comunidade como pessoas que compartilham valores.
Em outubro de 2013, quando retomo contato com Luiza, me deparo com esse cenário à primeira vista promissor, mas ela também compartilha que, apesar de terem recebido cachê por algumas das apresentações, o grupo se mantinha principalmente pelo trabalho voluntário de todos e buscava
profissionalização. De minha parte, fiz uma dupla proposta: acompanhar o grupo
em alguns encontros e facilitar um processo de criação de um zine feito por elas, no qual eu me responsabilizaria financeiramente por gerar cópias. A criação do zine se constituiria em um processo de pesquisa gerador de um material de divulgação do grupo e das suas questões.
No primeiro ensaio de meu retorno ao grupo, apresentei essa minha proposta para Isabela e Liana, que a aceitaram, junto com Luiza. O ensaio aconteceria após uma aula de capoeira, que Luiza e Isabela acompanhavam atentamente, pois eram ambas praticantes. Haviam conhecido Julia num desses momentos de transição entre a aula de capoeira e o ensaio do Afro Arte – assistiu, interessou-se, começou a ensaiar, participou de apresentações, mas não frequentava regularmente.
Nesse dia, fui convidado a entrar na roda para dançar jongo. Com a minha participação, seriam quatro pessoas na roda, o que possibilitaria o desenrolar da coreografia, e aceitei o desafio. Para mim foi definitivamente uma experiência de aprender e sentir a coreografia tomando o corpo.
Em momentos iniciais da pesquisa, quando tirei fotografias e gravei vídeos das atividades dos microprojetos, ou de quando dedilhei o violão no
Tambores usando o instrumento cowbell, senti-me, sim, partícipe dos projetos, sentindo a dinâmica de execução, fazendo-me parte dos rumos da atividade,
muito mais que apenas na posição de observador. Aceitar o chamado para a dança, embora soe bastante simples como um chamado em si, para a pesquisa foi de intensa relevância. Senti aceitação da minha presença entre elas, ao invés de estarmos em atividades separadas – elas dançam, eu observo-pesquiso – e por isso fizeram desse gesto “simples” de chamado para dançar um desafio de pesquisa, questionando a diferença entre elas e eu. Foi custoso pegar o ritmo, mas procurei não atrapalhar o andamento da dança. Minha preocupação era com a harmonia da coreografia, o tempo e o ritmo dos passos em sintonia com o coletivo. Estávamos num momento suspenso, em que, para um observador externo, a despeito da diferença de gênero, éramos “nós”, dançando, em contornos borrados na velocidade do movimento da coreografia.
Sentir o corpo suar, mover-me em ritmo e em busca de sintonia – sobressaiu uma alegria pelo corpo em movimento. Seria a liberação de endorfina? Adrenalina? Naquele momento, senti ter alcançado a sensação delas durante os ensaios e apresentações. O cansaço era, na verdade, um bem-estar que parecia maior que o bem-estar físico. Senti a potência dos projetos culturais com o corpo e no corpo, tal como um vetor (LE BRETON, 2007) de mediação daquela experiência. Empurrar a perspectiva da observação participante ao extremo permitiu perceber limitações à técnica de observação junto aos projetos culturais para jovens. Ao entrar na roda e dançar, foi possível apreender, pelo corpo, uma influência sinestésica dos projetos culturais junto aos jovens.