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6. NA TRILHA DOS PROJETOS DE JOVENS PARA JOVENS

6.2. Jovens em movimento pela cidade

Cerca de um mês após o Painel Ashoka, Carla, uma das proponentes do projeto Sonho de Retalho, “retornou” ao meu horizonte de forma indireta e inesperada cerca de um mês depois, na outra ponta da cidade de Fortaleza, em uma circunstância que, à primeira vista, não considerei como sendo de pesquisa.

Estive na Associação de Moradores do Titanzinho em novembro de 2012, localizada de frente à praia do Titanzinho, no bairro Serviluz, uma entidade que tem sido dirigida nos últimos anos por jovens moradores, em substituição aos associados mais antigos. No local, participei de uma sessão de criação de zine como parte da pesquisa In(ter)venções Audio-visuais com Juventudes em

Gorczevski, da Universidade Federal do Ceará99. A pesquisa construiu diversas

atividades com os membros da associação de moradores e outros jovens, que produziam vídeos e filmes no Titanzinho.

Logo no início, fizemos uma rodada de apresentações, e, na minha vez, falei brevemente de minhas atividades com zines e de minha pesquisa sobre projetos culturais no Grande Bom Jardim. Éramos mais de dez pessoas, e nesse dia foi produzido um zine sobre os encontros e as produções da pesquisa.

Durante o processo de criação, um dos rapazes presentes, chamado Jorge, perguntou se eu pesquisava o Centro Cultural Bom Jardim. Respondi que não, mas que tinha trabalhado lá e que ia com certa frequência. Perguntei se ele já havia ido, e ele disse que não, mas que tinha muita vontade e tinha amigos no Bom Jardim. Uma amiga dele morava em frente ao centro cultural e sempre o chamava para ir – essa amiga era justamente Carla, do projeto Sonho de Retalho. Jorge contou que os dois haviam se conhecido na Escola de Artes e Ofícios, durante um curso sobre memória e patrimônio chamado Patrimônio para Todos. A Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho fica localizada no bairro Jacarecanga e, de forma similar ao CCBJ e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, é coordenada pelo Instituto de Arte e Cultura do Ceará (IACC) e recebe fundos do Governo do Estado.

Imaginar essa movimentação, do Bom Jardim e do Titanzinho, em duas extremidades do município de Fortaleza, rumo a esse encontro no bairro Jacarecanga, me fez dar conta de um aspecto talvez simples, porém relevante: os trajetos que jovens participantes de projetos constroem na cidade. Jovens moradores de periferias não mantêm seus trajetos circunscritos aos seus bairros; pelo contrário, circulam pela cidade, como representado no desenho abaixo (FIGURA 13):

Figura 13 - Representação dos pontos de origem e os trajetos para a Escola de Artes e Ofícios.

99 Projeto realizado de 2011 a 2013. Para mais detalhes, sugiro uma consulta à página online da

pesquisa: http://pesquisaintervencoes.blogspot.com.br/. Colaborei de forma voluntária com atividades do projeto entre 2012 e 2013.

Fonte: Desenvolvida pelo autor (2014)

A movimentação de jovens moradores de periferia é discutida em outras pesquisas, tais como a pesquisa de graduação em Ciências Sociais de Tiago Araújo (2011)100, em que acompanhou jovens frequentadores da Praça

Portugal, que cruzavam a cidade de Fortaleza, muitas vezes tomando duas linhas de ônibus para ir e duas para voltar para se encontrarem na praça com diversos outros jovens, numa região considerada nobre, no “coração” do bairro Aldeota.

Carla e Jorge, com quem estive apenas uma vez em momentos e locais diferentes, contribuem para a pesquisa ao apresentarem esse trajeto além- bairro, que os possibilitou constituir laços e fluxos de trocas “entre periferias”, a partir da participação em um projeto na Escola de Artes e Ofícios. Ingressam nessa iniciativa após terem participado anteriormente de outros projetos e iniciativas, por já serem “jovens de projeto”, no sentido destacado por Regina Novaes (2006), e assim constituírem uma trajetória em projetos, num movimento que a autora chama de “um projeto chama outro”.

Na medida em que os “projetos chamam outros”, os jovens ampliam sua mobilidade espacial, que é, também, uma “mobilidade simbólica”. Para além do “bairro” ou da “comunidade”, jovens constituem redes e conexões a partir dos projetos, que os leva a sair de seus bairros e transitar, na verdade, pela cidade. Constituem, assim, redes de sociabilidade e vínculos de amizade com jovens

100 Refiro aqui a uma comunicação científica de Tiago Araújo, intitulada “Aldeia, Aldeota, estou

batendo na porta prá lhe aperriá: estudo da sociabilidade juvenil na Praça Portugal”, cujo resumo foi publicado nos anais do III Seminário Internacional Violência e Conflitos Sociais: ilegalismos e lugares morais, de 2011. A defesa de sua monografia está prevista o segundo semestre de 2014.

moradores de outros bairros. Ampliam não apenas os seus horizontes territoriais, mas seus itinerários simbólicos, tomando a cidade para si.

Essa compreensão nos remete à discussão sobre disciplina e protagonismo. Ao abordarem projetos como disciplinares e docilizantes, Danziato (1998) e Costa (1998) trazem diversos questionamentos à prática de intervenção de projetos com jovens e crianças, mas parecem perder de vista o modo como o aprendizado de valores e disposições também é criador. Há um processo educativo em curso nos projetos, no sentido de que contribuem para a formação de sujeitos. Tal como Luiza se sente orgulhosa ao se dizer protagonista, Carla e Jorge demonstraram estar construindo uma trajetória em projetos, tanto em seus bairros, como pela cidade. Se, por um lado, projetos ensinam direcionamentos e valores, seria insensato considerar que os jovens participantes serão meros corpos dóceis reproduzidos. O que vamos discutir a seguir é que, especialmente quando os projetos possibilitam trânsitos e conexões com jovens e pessoas de outras partes do bairro e da cidade, há um alargamento do “mapa de navegação social” (BARREIRA, 2009) dos jovens participantes, que assumem uma postura criativa e inventiva com o que aprendem.

Essa percepção instigou um retorno da pesquisa ao projeto Afro Arte, reabrindo essa porta de pesquisa, uma vez que pude acompanhar diversas publicações na página do projeto na plataforma Facebook, demonstrando que continuavam em funcionamento mesmo após meses desde o fim de vigência obrigatória dos microprojetos premiados pelo MinC.