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A melancolia e a heterossexualidade compulsória

No documento A diferença dos sexos: Lacan e o feminismo (páginas 138-141)

2 GÊNERO E LACAN

2.4 Butler e a problemática lacaniana

2.4.4 A melancolia e a heterossexualidade compulsória

Butler aponta que, assim como os vínculos primários da criança que participam de sua constituição subjetiva estão sujeitos a relações de poder, seus investimentos amorosos — tratados, agora, a partir da noção de ‘pulsão sexual’ — também estão. Cabe notar que a pulsão sempre se liga a um objeto. Na visão butleriana de Freud, aqueles investimentos são ordenados ao redor da proibição internalizada da pulsão (BUTLER, 1997, p. 22). Tais proibições funcionam como normas regulatórias que controlam investimentos libidinais, sendo a foraclusão [foreclosure] um dos mecanismos psíquicos em jogo. A foraclusão delimitaria quais são os objetos passíveis de investimento pulsional, ao mesmo tempo impedindo radicalmente que outros o sejam; por fim, decretando as formas de amor possíveis e impossíveis26.

26 Há de se distinguir ‘foraclusão’ de ‘repressão’. Para Butler, enquanto a repressão diz respeito a um desejo vivido ao lado de sua concomitamente proibição, com a foraclusão o desejo é estritamente barrado e o sujeito é constituído a partir de uma perda preemptiva. Butler adota o conceito lacaniano, cujo ponto de partida é a Verwerfung freudiana. “Butler claramente usa a foraclusão no sentido lacaniano de exclusão psíquica fundante que não pode ser representada no interior da economia simbólica do sujeito” (CAMPBELL, 2001, p. 43). Se na tradição da psicanálise lacaniana a foraclusão é o mecanismo determinante da psicose — marcada pela foraclusão do significante Nome-do-Pai, que acarretaria a inexistência da significação fálica e a consequente falha de inscrição do sujeito em uma posição sexuada —, Butler usa a foraclusão para indicar o mecanismo que regula a instalação das normas heterossexuais e dos investimentos libidinais; e a constituição, na sequência, do sujeito melancólico.

Retomando o tema do gênero sexual e seu papel na constituição do sujeito, Butler aponta que o ideal regulatório é a heterossexualidade, ao passo que a homossexualidade é foracluída. Segundo Campbell, para Butler

a proibição fundacional que forma o sujeito não é a que barra o desejo edípico incestuoso que alicerça a psicanálise clássica, para a qual o desejo já é heterossexual e, por isso, baseado na foraclusão do desejo homossexual. Antes, a proibição fundante impede os investimentos homossexuais que seriam dirigidos aos objetos do mesmo sexo [do sujeito] A identidade heterossexual é então erigida a partir da proibição primária que incide sobre os investimentos homossexuais. (CAMPBELL, 2001, p. 38; trad. nossa)

Consequentemente, a homossexualidade foracluída, vivida com uma perda preemptiva, incita a melancolia, sendo tal processo parte fundamental da constituição do sujeito. É interessante que Butler propõe reelaborar sua concepção de gênero como ato performativo a partir de sua teoria do sujeito melancólico, fruto de uma perda impossibilitada de ser sofrida ou enlutada. Butler passa a considerar que nem tudo é passível de ser performatizado, que há um resto foracluído — no caso, a homossexualidade primordial, impedida até mesmo de ser concebida como possibilidade.

Butler parece ter sido sensível a uma diferença ontológica fundamental entre recalque e foraclusão. Se, no primeiro caso, o que é negado no simbólico retorna no simbólico; no segundo, o que não é inscrito no simbólico retorna no real. Ou seja, a escolha da foraclusão aponta para o interesse nesses fenômenos verificados na descompressão entre os registros.

Recorrendo aos desenvolvimentos freudianos a respeito do luto e da melancolia, Butler sustenta que a identidade heterossexual é constituída a partir da foraclusão da homossexualidade primária, e tal perda nunca pôde ser reconhecida como tal, legitimada, nomeada e, principalmente, enlutada. Por esse motivo, a melancolia surge como efeito do não enlutamento do desejo e amor homossexuais.

Butler também demonstra que a melancolia tem papel central no processo de formação dos gêneros sexuais. Os gêneros masculino e feminino seriam adquiridos, pelo menos parcialmente, através do repúdio à homossexualidade, da proibição de sua entrada no universo discursivo e do estabelecimento do processo de luto:

Parece certo que as posições masculina e feminina, que Freud, nos “Três ensaios para a teoria da sexualidade” (1905), entendeu como

efeitos de uma conquista laboriosa e incerta, são estabilizadas em parte através de proibições que demandam a perda de certo tipo de vínculo sexual, e demandam tão bem que aquelas perdas não são nem declaradas, e nem enlutadas. Se a assunção da feminilidade e a assunção da masculinidade procedem da realização de uma sempre tênue heterossexualidade, nós podemos entender a força de tal realização como exigência de abandono dos investimentos homossexuais, ou talvez mais insistentemente, antecipando a possibilidade do investimento homossexual, uma foraclusão da possibilidade que produz o domínio da homossexualidade entendida como paixão a não ser vivida ou perda inelutável. (BUTLER, 1997, p. 135; trad. nossa)

Na perspectiva butleriana, no Édipo a menina tem de abrir mão de seu amor pelo pai e transferi-lo para outros homens; mas, inicialmente, o amor da menina é pela mãe — amor esse que deve ser renunciado de tal forma que tanto o objetivo quanto o objeto sejam foracluídos. A menina não só não deve deslocar aquele amor homossexual primordial para outra figura feminina, como deve também renunciar a toda possibilidade de estabelecimento de vínculos libidinais com mulheres (BUTLER, 1997, p. 137). Os gêneros sexuais, masculino e feminino, seriam formados, ou assumidos, através da incorporação da fantasia de que pessoas do mesmo sexo ou gênero do sujeito devam ser rechaçadas como possíveis objetos de amor.

Retornando à performatividade, Butler sugere que a performance faz alegoria de uma perda que não pode ser sofrida: “gênero poderia ser entendido, em parte, como o ‘acting-out’ de um sofrimento não resolvido” (BUTLER, 1997, p. 146).O que não seria performatizado como gênero seria fruto do repúdio-foraclusão de um tipo de amor impossibilitado de ser vivido ou reconhecidamente perdido — daí a origem da repetição que faz parte da gramática dos processos de retorno paródico.

Anos mais tarde, em Undoing gender (2004), Butler afirmará que “a proibição de certas formas de amor se instala como verdade ontológica a respeito do sujeito: o ‘sou’ de ‘eu sou um homem’ codifica a proibição ‘eu não devo amar um homem’” (BUTLER, 2004, p. 199). Ou seja, aqui se evidencia o papel da prática sexual na autodeterminação de gênero. Nessa obra, Butler esclarece que, para ela, a questão de que se a heterossexualidade é consequência, ou não, da repressão de um amor homossexual primordial não é seu principal foco de interesse. O que realmente importa é “mostrar como a teoria das disposições heterossexuais pressupõe o que lhe abate, notadamente a história erótica pré-heterossexual a partir da qual ela emerge”. Mesmo reconhecendo que a triangulação edípica é a condição do desejo, tal evento só ocorreria

a partir de proibições. “O que me interessa mais, no entanto, é desarticular o processo edípico da tese da heterossexualidade primária e universal” (BUTLER, 2004, p. 200).

Mas o sociólogo e ativista gay Javier Saez rebate, lendo o Édipo como fundador do desejo:

Porém, sabemos que, para Lacan, o desejo não é produzido a partir de uma instância positiva, mas precisamente a partir de uma impossibilidade estrutural do sujeito para encontrar um objeto que nunca esteve ali — objeto que, em Lacan, não tem nenhum gênero específico. Dificilmente podemos assumir, como faz Butler em Bodies that matter, que Lacan está decretando a heterossexualidade como modelo para o sujeito. (SAEZ, 2004, p. 183; trad. nossa)

Como forma de apresentar algumas maneiras que esse tipo de entendimento de ‘simbólico’ e de ‘sexo’ em Lacan foi recebido, passemos a algumas críticas feitas por autores do universo psicanalítico a interpretações como as de Butler. Num segundo momento, traremos as elaborações de Beatriz Preciado. Dessa forma, analisamos outras facetas desse debate: uma, trazendo respostas vindas do campo psicanalítico aos estudos de gênero; outra, interna aos estudos de gênero.

No documento A diferença dos sexos: Lacan e o feminismo (páginas 138-141)