4. A Estabilidade dos Dirigentes das Autarquias Federais na
4.1. Argumentos a favor da exoneração
4.1.2. A redação do inciso V do art 87 da CF/1946
Constituiu esse o principal argumento para justificar a alteração do posicionamento do STF diante da exoneração de cargos com prazo certo de mandato. Em resumo, alegava-se que o texto das Constituições de 1934 e 1937 dispunham, ao tratar da competência privativa do Presidente da República para provimento de cargos federais, que este deveria observar as ressalvas previstas na própria Constituição e nase nase nase nase nas leis.
leis. leis.
leis. leis. Eis o teor do dispositivo a que se refere a Constituição de 1934:
“Art. 56. Compete privativamente ao Presidente da República: (...)
14, prover os cargos federaes, salvas as excepções previstas na Constituição e nas leis;” 76
Praticamente idêntica era a redação da Constituição de 1937. Vejamos:
“Art. 74. Compete privativamente ao Presidente da República: (...)
l) prover os cargos federais, salvo as exceções previstas na Constituição e nas leis;” 77.
75 Não atentaram os Ministros do STF da época para um fato relevante. O próprio Código
Civil prevê o instituto do mandato irrevogável. Desta feita se houver realmente alguma relação entre o mandato e a nomeação a prazo certo, esta última estaria melhor identificada com o instituto da irrevogabilidade dos mandatos, só que por prazo determinado, tendo em vista os ditames da lei. Vide a esse respeito o art. 1.317 do CC/16.
76 CAMPANHOLE, Adriano; et CAMPANHOLE, Hilton Lobo. Constituições do Brasil. 10ª
ed. São Paulo: Atlas, 1992. p. 635.
Assim, interpretou-se que antes da Constituição Federal de 1946 o Presidente da República não poderia exonerar esse tipo de servidor público, pelo fato de a lei estabelecer expressamente uma ressalva à exoneração arbitrária, qual seja: a fixidez dos mandatos.
Após a CF/1946, a matéria em comento passou a ser tratada da seguinte forma:
“Art. 87. Compete privativamente ao Presidente da República: (...)
V- prover na forma da lei e com as ressalvas estatuídas por esta Constituição, os cargos públicos federais”78.
Conforme o voto do Min. Ribeiro da Costa:
“O que se entende e se deve compreender, em face dessas duas ressalvas [da CF/1934 e da CF/1937] é que, na vigência dessas Constituições, o Presidente da República poderia nomear e desnomear, respeitando as restrições constitucionais e também aquelas previstas em lei.
Foi este o caso do Dr. Demócrito Barreto Dantas, que, nomeado sob o império da lei, na Constituição de 37, estava garantido com aquilo que a lei outorgara: mandato de quatro anos. Êsse mandato não podia ser abolido, abrogado, por ato do Presidente da República. Êle não tinha, a êsse tempo, a faculdade de fazê-lo. Teria de respeitar a lei. O Presidente não respeitou a lei, a Justiça garantiu os proventos do servidor até o término do prazo do mandato. Mas a atual Constituição [de 1946] voltou ao princípio estatuído na Constituição de 1891, prescrevendo que compete privativamente ao Presidente da República prover, na forma da leina forma da leina forma da leina forma da leina forma da lei e com as ressalvas estatuídas nessa Constituição, os cargos públicos federais. Na forma da lei, quer dizer: prover para determinado fim, para êsse cargo de tal categoria, etc. Nomear vitalícios, nomear interinos, nomear por concurso, nomear para cargo isolado, para cargo definitivo, etc., os funcionários, mas com as ressalvas contidas na Constituição. Exclusivamente!
Ora, a Constituição não possui nenhuma ressalva impeditiva à desnomeação daqueles mandatários do anterior Presidente da República que estavam exercendo funções por prazo determinado. Assim, o novo Presidente da República podia livremente desnomear e
investir naqueles cargos pessoas de sua exclusiva confiança. E entendo que esse dispositivo é sábio e merece aplauso.” 79.
Ou seja, conferiu-se a este dispositivo constitucional interpretação questionável, de modo a afastar as restrições que a lei porventura viesse conferir ao poder de prover/exonerar cargos públicos federais do Presidente da República. Restaram, segundo o voto do Ministro Relator Ribeiro da Costa, apenas aquelas restrições outras de natureza constitucional, que, em verdade inexistiam.
O contra-argumento a essa tese partiu do Ministro Nunes Leal, que trouxe o real significado da expressão “na forma da lei” contida no dispositivo da Constituição de 1946. Segundo Victor Nunes Leal:
“Funda-se o argumento em que a vigente Constituição emprega o vocábulo restrições em correspondência com ela própria, fazendo supor que sômente as restrições constantes do texto constitucional seriam legítimas. O argumento, vênia concessa, não atenta para uma circunstância: o art. 87, n. V, da Constituição, o que define é competência do Presidente para prover cargos públicos. Em conseqüência, as limitações ali contidas, são endereçadas ao poder executivo, e não ao legislativo; em outros têrmos, a alusão, ali feita, às restrições estabelecidas na Constituição compreende os casos em que a competência para prover cargos públicos federais não pertence ao Presidente, mas a outros poderes, isto é, ao Congresso e aos Tribunais, no que se refere às respectivas secretarias.
Esta observação desloca o debate para a locução na forma da lei, que se lê na mesma norma constitucional: prover os cargos federais, na forma da lei. Pretende-se que esta expressão apenas significa: de acordo com as formalidades estabelecidas na lei. O argumento, data vênia, não procede, porque a expressão na forma da lei, segundo o entendimento correto e correntio, quer dizer: na conformidade da lei, consoante a lei, segundo a lei, segundo o que dispuser a lei...
É claro que a lei não pode dispor tudo, porque está, por sua vez, sujeita às limitações constitucionais, mas não é o art. 87, n. V, o dispositivo que regula tais limitações, e sim, todo o conjunto das normas constitucionais que estruturam nosso regime político-jurídico. O que transluz, portanto, do art. 87, n. V, é que o poder, que tem o Presidente
79 Cf. MS 8.693-DF, STF, Rel. Min. Ribeiro da Costa, Plenário, por maioria, julgado em 17/11/
da República, de prover os cargos públicos federais, se exercerá de conformidade com a lei. Pode, assim, o Legislativo condicionar o exercício dêsse poder, em têrmos compatíveis com os demais dispositivos da Constituição. A sua competência não é apenas para estabelecer as formalidades aplicáveis, mas também os pressupostos do provimento dos cargos públicos” 80.
Também refutou esse ponto o Min. Gonçalves de Oliveira, trazendo a lume a existência de precedentes da Excelsa Corte que julgou contrariamente à exoneração em hipóteses semelhantes depois da vigência da Constituição de 1946. Vale registrar, portanto, trecho do julgado que assim dispõe:
“Recordo-me que, em 1947, o Tribunal Pleno do Supremo Tribunal Federal julgou um mandado de segurança impetrado por Durval Cezar Magalhães, demitido pelo Presidente da República da presencia (sic) da Caixa de Aposentadoria e Pensões da Great Western para a qual tinha mandato por prazo certo; êste Tribunal, examinado o mandado de segurança interposto, concedeu a segurança, por unanimidade de votos (...) No caso a que me refiro, o mandato também era de cinco anos e Durval Cezar Magalhães havia sido exonerado pelo Presidente da República. Há igualmente, outros casos, como os da Caixa Econômica, de que diretores foram demitidos, na vigência da Constituição de 1937 e, também, depois desta, demissões ocorridas na vigência da Constituição de 1946”81.