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Apêndice 3 – Extensão do modelo atualizado, com a inclusão de indicadores

2 A FALA DOS DADOS

2.4 A sacralidade do discurso estatístico

Mais preocupante, porém, é a tendência de ―sacralização‖ da estatística, de seu posicionamento como chancela de veracidade, de um certificado de que informações tratadas com rigor estatístico retratam fielmente a realidade. Um exemplo recente serve para ilustrar essa afirmação.

Em 2014, o IPEA8

publicou um estudo, em que se afirmava que 65% dos brasileiros concordavam com a frase “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser

atacadas”. Na celeuma que se seguiu, jornalistas e pesquisadores de várias áreas do

conhecimento procuraram hipóteses e explicações plausíveis para esse estranho resultado, sobre o qual não incidia, naquele momento, qualquer sombra de dúvida. Afinal, tratava-se um

8 Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas, fundação do governo brasileiro vinculada ao Ministério do

estudo estatístico, produzido por uma agência do governo de elevada credibilidade, elaborado com metodologia e planejamento amostral rigorosos. Dias depois, porém, o IPEA divulgou, uma errata9, explicando que houve um problema operacional na produção do referido dado. Curiosamente, o assunto, que tanta polêmica gerou quando de sua divulgação, caiu em completo esquecimento após a divulgação do engano.

A aceitação do resultado inicial da pesquisa do IPEA como verdadeiro é uma indicação da força que a estatística possui no campo das ciências humanas, porém é possível, também, perceber como essa força opera alhures. É notória, por exemplo, a obrigatoriedade dos estudos clínicos validados estatisticamente para que organismos de vigilância sanitária como a ANVISA10 e o FDA11 aprovem a comercialização de medicamentos. Tais estudos seguem protocolos determinados pela estatística: é ela quem determina o tamanho amostral, o procedimento experimental, aplicará os testes e modelos necessários para a análise dos dados, sempre sob a autoridade inquestionável das leis e teoremas matemáticos. Da mesma forma, são os testes de significância estatística que darão o veredito sobre a eficácia da droga e definirão ou não a sua adoção como prática terapêutica.

Não seria, portanto, um exagero afirmar que, ainda que as teorias do saber médico expliquem a cura por intermédio dos conhecimentos proporcionados pela bioquímica e pela farmacologia, será da estatística, formalmente, a palavra final para a inscrição ou não de novos métodos e drogas no rol dos protocolos de tratamento.

Cabe, então, indagar como se chegou a essa ―sacralização‖ do discurso da estatística. Para obtermos uma resposta, devemos inicialmente considerar que a estatística extrapolou a condição de ciência auxiliar de outras áreas do conhecimento e se tornou um discurso, ao estabelecer, como mediadora entre os dados e outras ciências, conexões com a cultura e o poder que são originárias de uma leitura do dado não como representação, mas como a

própria realidade. Em decorrência, a estatística assume o papel de mediadora entre o pesquisador e a realidade, ao oferecer uma organização do mundo que pode ser descrita

matematicamente, e que opera sob uma perspectiva positivista12.

9 Disponível em http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article

&id=21971&catid=10 &Itemid=9

10

Agência Nacional de Vigilância Sanitária, órgão do governo brasileiro responsável, entre outras atribuições, pelo controle dos medicamentos comercializados no país

11 Food and Drug Administration, órgão do governo dos Estados Unidos responsável pelo controle, entre outros,

dos alimentos e medicamentos comercializados no país

12

Estamos considerando, deste ponto em diante, salvo observação em contrário, o enfoque clássico da estatística, dito objetivista ou frequentista. Há um outro enfoque, o bayesiano ou subjetivista, que difere diametralmente do primeiro, ao estabelecer a probabilidade como uma medida pessoal de incerteza. Ver Finetti (1975)

Segundo Michael Lowy, a hipótese fundamental do Positivismo é a da regulação da sociedade humana por leis naturais, as quais operam sem qualquer intervenção deliberada e proposital dos seres humanos, que se colocam, desta forma, na posição de pacientes:

A pressuposição fundamental do Positivismo é a de que essas leis que regulam o funcionamento da vida social, econômica e política, são do mesmo tipo que as leis naturais e, portanto, o que reina na sociedade é uma harmonia semelhante à da natureza, uma espécie de harmonia natural (LOWY, 2006, p. 38).

Para Lowy, a conclusão epistemológica que decorre dessa hipótese é a de que a metodologia a ser utilizada na formação do conhecimento da sociedade não seria diferente da metodologia aplicada às ciências naturais. O autor chama essa conclusão de naturalismo

positivista:

Se a sociedade é regida por leis do tipo natural, a ciência que estuda essas leis naturais da sociedade é do mesmo tipo que a ciência que estuda as leis da astronomia, da biologia, etc. (LOWY, 2006, p. 38)

Outra conclusão, igualmente decorrente da hipótese fundamental do Positivismo, diz respeito à objetividade que o cientista social deveria manter em relação ao seu ―objeto de estudo‖:

(...) da mesma maneira que as ciências da natureza são ciências objetivas, neutras, livres de juízos de valor, de ideologias políticas, sociais e outras, as ciências sociais devem funcionar exatamente segundo esse modelo de objetividade científica. Isto é, o cientista social deve estudar a sociedade com o mesmo espírito objetivo, neutro, livre de quaisquer ideologias ou visões de mundo exatamente da mesma maneira que o físico, o químico, o astrônomo, etc. (...) Significa que a concepção positivista é aquela que afirma a necessidade e a possibilidade de uma ciência social completamente desligada de qualquer vínculo com as classes sociais, com as posições políticas, com os valores morais, as ideologias, as utopias, as visões de mundo. (LOWY, 2006, p. 39)

Portanto, o naturalismo positivista exige que o estudo das ciências sociais seja realizado com um distanciamento entre o estudioso e seu objeto de investigação. Esse distanciamento parte de uma premissa básica, como vimos: a de que o estudioso é ―desinteressado‖ nos resultados e implicações do fenômeno sob análise, não há conflitos de interesses e, em última análise, significa que o pesquisador não enfrentaria quaisquer pressões, intimidações ou limitações de ordem social, moral ou política para realizar seu trabalho.

Na tentativa de compreender melhor o que seria essa ―objetividade científica‖, busquemos outras definições. Por exemplo, Kerlinger (2007) enumera a objetividade como uma das características mais importantes da ciência. Reconhecendo a dificuldade que envolve a sua compreensão, o autor a define como

(...) um acordo entre juizes ―especialistas‖ relativo ao que é observado, ou o que deve ser ou o que foi feito em pesquisa. (...) A condição principal para satisfazer o critério de objetividade é, idealmente, que quaisquer observadores com um mínimo de competência concordem em seus resultados. (KERLINGER, 2007, p. 11)

E assevera sua importância ao sublinhar que

A ciência é um empreendimento social e público, como tantos outros empreendimentos humanos, mas uma regra importantíssima do empreendimento científico é que todos os procedimentos sejam objetivos — feitos de tal forma que haja ou possa haver acordo entre juízes especialistas. Esta regra dá à ciência uma natureza distinta, quase remota, porque quanto maior a objetividade mais o procedimento se afasta das características humanas — e de suas limitações. (KERLINGER, 2007, p. 12)

O verbete ―objetividade‖ é assim definido por Abbagnano (2007):

2. Em sentido subjetivo: caráter da consideração que procura ver o objeto como ele é, não levando em conta as preferências ou os interesses de quem o considera, mas apenas procedimentos intersubjetivos de averiguação e aferição. Neste significado, a objetividade é um ideal de que a pesquisa científica se aproxima à medida que dispõe de técnicas convenientes (ABBAGNANO, 2007, p. 721)

Esse ―sentido objetivo‖ mencionado por Abbagnano corresponde à definição tecida por Kerlinger, que implica em um olhar de neutralidade sobre o objeto, colocando o pesquisador na posição de observador imparcial, na medida em que requer o afastamento das

características humanas e de suas limitações, isolando o procedimento científico em sua

―natureza remota‖ (KERLINGER, 2007). O pesquisador é, portanto, passivo.

Esse conceito de passividade do pesquisador conecta-se com a ideia de que é por meio dos sentidos e pela experiência, e não pela razão, que se apreende o mundo. David Hume postulou que a razão não possui qualquer papel criador:

Ousarei afirmar, como proposição geral, que não admite exceção, que o conhecimento desta relação (entre causas e efeitos) não se obtém, em nenhum caso, por raciocínios a priori, porém nasce inteiramente da experiência quando vemos que quaisquer objetos particulares estão constantemente conjuntados entre si. (...) Mesmo supondo que as faculdades mentais de Adão fossem inteiramente perfeitas desde o primeiro momento, ele não poderia ter inferido da fluidez e da transparência da água que ela o afogaria, ou da luz e do calor do fogo, que este o consumiria. (...) Nem pode a nossa razão, sem o auxílio da experiência, jamais tirar uma inferência acerca da existência real e de um fato. (HUME, 2004, p. 22)

Em outras palavras, os sentidos seriam o meio de apreensão do real. E os dados são o real, pois segundo este enfoque, o mundo é dado, e o pesquisador tem a certeza de que os seus sentidos apreendem o mundo exatamente como ele é. Logo, quando um observador recolhe dados de sua experiência, ele está capturando o real. O papel da estatística, nesse processo de apreensão, é de organizar racionalmente o real, de uma forma que pode ser descrita por meios matemáticos (e que, por serem matemáticos, são irrepreensivelmente exatos): constitui um

mediador racional que permitirá o entendimento do real. É neste ponto que encontramos a

chave para entender a sacralidade do discurso estatístico: é porque ele se apoia na

sacralidade dos dados.