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Alegria, responsabilidade e noites em claro: assumindo a reitoria

5.3 AS MULHERES E A CAMINHADA NAS/DAS INSTITUIÇÕES DE

5.3.4 Alegria, responsabilidade e noites em claro: assumindo a reitoria

“[...] aí, pensei, não vai acontecer. Mas deu certo! Então, a surpresa: agradável! [...] Foi uma coisa emocionante, me tocou profundamente. (Elvira)

As mulheres que foram ou são reitoras no ensino superior de Santa Catarina sabiam o que lhes esperava quando assumissem os cargos máximos de suas instituições.

Diva e Clarice antes de assumirem o cargo de reitoras já eram diretoras de faculdade. Por sua vez, quando Alda substituiu o padre Almir, sabia da responsabilidade, porém nunca tivera experiência em administração de ensino ou de qualquer outra organização. Para Bernadete, o maior problema em assumir a reitoria não se encontrava nos desafios que representava a crise administrativa e financeira da instituição, mas em enfrentar o poder da Igreja, que até então, dirigia a escola. Elvira possuía experiência administrativa desde muito cedo, já estava acostumada com os trâmites de sua instituição; assim, para ela, o que mais marcou sua entrada na reitoria foi mesmo a vitória inesperada da proposta que ela e sua chapa apresentaram.

Desde que entrou na universidade, Elvira sempre foi uma pessoa envolvida com “as coisas da universidade.” Participou das atividades de seu departamento, estando envolvida em

estágios e chefias. Participou da organização e administração das atividades do seu centro: o jornal e a revista. A eleição para representante do seu centro de ensino e pesquisa conferiu a ela maior visibilidade política.

Porém, mesmo com todo esse envolvimento, ser convidada para compor uma chapa e concorrer à reitoria era uma coisa “realmente inesperada”. Elvira disse que, diferente de tudo que aconteceu em sua trajetória, concorrer à reitoria não foi algo planejado:

Isso foi uma coisa! Eu jamais projetei tal cargo. Eu jamais, jamais, nunca! Participar de conselhos, isso e aquilo... mas isso (reitoria).... essa coisa vinha assim da atividade, do cotidiano. Já fazia parte de eu, como diz o meu marido: ‘de tu te meteres’! Mas a reitoria jamais, jamais havia passado pela minha cabeça! Não passava pela minha cabeça, nem de sonho... primeiro pelo convite, e eu disse: “Como? Por que eu?” (Elvira).

Elvira não entendia porque seu nome havia surgido para concorrer às eleições. Pensava: “Tem tanta gente envolvida com política, com poder, eu não tinha nenhuma relação política fora, nem nada, e assim, por que eu?”. Mesmo assim, pasma com o convite, aceitou, e se empenhou ao máximo na campanha, acostumada que estava em “meter-se em tudo”, como dizia seu marido. Não acreditava que fosse possível a vitória de suas propostas, mas, enfim, “deu certo”, e por isso ficou muito feliz. Realizada, emocionada pensou: “eu, mulher, que não sonhava com isso, [que] não trabalhei pra isso, nunca fiz nada pensando ‘um dia eu vou chegar lá’, consegui!” (Elvira).

Assumir a reitoria foi, para Elvira, algo que, como ela disse, “me tocou bastante, mexeu comigo realmente”. Foi algo que a fez perceber o quanto “a gente se subestima”. Ela continuou: “Nunca tive problema de auto-estima, mas eu fiquei vaidosa de mim mesma por ter chegado ali” (Elvira).

Mesmo com o que a reitoria representara, depois de tantos anos de luta e dedicação, Elvira alega que não mudou o seu jeito de ser: “meus valores, meus princípios... eu não abro mão das coisas e, na atividade administrativa, das coisas que eu acredito, dos meus valores, dos meus princípios.”.

Diva expressou muito bem o que Elvira deve ter sentido: ser mulher, lutar por aquilo em que se acredita e chegar a um cargo de tanta importância social. Diva contou que o momento da posse, imbuído de toda sua pompa, traz muita alegria e satisfação; porém, o mais importante não foi o instante isolado da posse:

Mesmo que tenha havido uma posse, um ato, uma posse, com pompa e circunstância, porque isso faz parte do aparato da universidade, essa pompa... mas você vai se sentindo reitora no momento em que você vai construindo os cursos, vai

atingindo objetivos que estão no projeto político-pedagógico, que estão na carta consulta. Você vai atingindo, você vai se sentindo. Talvez eu nunca tenha me sentido plenamente imbuída de todo o poder do cargo! Porque a responsabilidade sempre foi muito maior do que qualquer outro momento de êxito pra mim. (Diva).

Diva participou de quatro eleições, “momentos de muita glória, muita alegria, de muita partilha, de muita emoção!”. Deve ser por esse motivo, e por todas as coisas que construiu em sua trajetória, antes e depois de estar na reitoria, que acredita ter tido “uma vida riquíssima”. Atingiu um grau de satisfação que “poucos seres humanos conseguem ter! [...] mas toda essa sensação de prazer vinha imbuída de um enorme senso de responsabilidade!” (Diva).

Toda a satisfação que estas mulheres sentiram não as eximiu do senso de responsabilidade que veio imbuído com o cargo. “Preocupação” (Alda) parece ter sido a palavra que governou os seus sentimentos, quando se tornaram reitoras.

A preocupação que rondou as noites destas mulheres: “por que eu?” (Elvira); “será que eu vou dar conta” (Alda). Entre aceitar o convite que as levaria à reitoria e assumir as responsabilidades do cargo, muitas noites em claro foram passadas. Alda não foi exceção. Quem conhece uma pessoa como ela, não imagina que sozinha, de noite, chore como uma criança.

Alda assumiu a direção meio assustada, para ela foi quase uma imposição, ela fora “laçada pelo padre” que a introduzira no mundo do ensino superior. Como nunca fugiu das pedras do caminho, foi coragem o que a sustentou neste momento em que poderia simplesmente não aceitar o grande desafio de substituir o padre Almir na direção daquela instituição.

Alda chorou à noite e, no outro dia, enfrentou todos os desafios com a cabeça erguida. Para ela, “tudo foi acontecendo” muito de repente. E foi “sozinha, em casa, de noite, sem ninguém saber”, que chorou, dado o medo que sentia de assumir tamanha responsabilidade.

Para ela, assumir a reitoria significou preocupação: “No início e sempre!” No início, uma pergunta a assombrava nas madrugadas: “Será que eu vou conseguir?” Então, sentia medo e insegurança. Alda conta que, pouco depois dessa fase, já se “sentia mais segura pra tomar as decisões” e, mesmo assim, a pergunta não deixou de acompanhá-la por muito tempo: “Será que eu vou dar conta? Essa é a pergunta!” (Alda).

Acontece que quando foi “fisgada” pelo padre Almir, quando ele a colocou no seu lugar, Alda estava apenas há poucos meses no ensino superior: “Quando ele foi embora, no outro dia eu tinha que assumir, eu fui embora e passei a noite chorando! Passei chorando.” Contudo, ela não considerava importante ter ficado “chorando uma noite inteira antes, devido

à responsabilidade. Se eu tinha que fazer, eu tinha que fazer!” (Alda). Quando o sol raiava, Alda erguia a cabeça e seguia em frente, sempre com alegria e respeito pelas pessoas e pela instituição que representava.

Já Bernadete, quando assumiu a liderança, ela o fez no sentido pleno da palavra: não apenas candidatou-se à presidência da Fundação de sua instituição sob o apoio de seu grupo, como também assumiu – para si mesma – a liderança do pequeno grupo de professores leigos do qual fazia parte a muito tempo. Isso significava enfrentar a si mesma. Candidatar-se representou assumir que era uma líder, uma porta voz de seu grupo, das idéias e convicções de boa parcela dos funcionários e alunos de sua instituição que estavam descontentes com a situação em que a instituição se encontrava.

Como as outras mulheres, Bernadete também nunca teve interesse em ser diretora ou ocupar cargos administrativos de importância. Só queria continuar participando perifericamente dos conselhos e cumprir seu papel de professora na formação dos alunos. Ela estava quase se aposentando. Candidatou-se imbuída da responsabilidade que sentia pelo ensino superior. Sabia que, assumindo o cargo, teria de por em prática os velhos ideais do seu amigo, o padre João Maria: ultrapassar limites, acreditar no ser humano e no senso de igualdade e liberdade que a boa fé impetra.

A instituição passava por um momento crítico, uma vez que a situação financeira era péssima e a administração não tinha credibilidade interna, nem externa. A situação era agravada pelo fato de o MEC decidir que os cursos que tinham convênio com uma outra universidade da Região deveriam ser extinguidos, ou reformulados se quisessem continuar operando.

Assim, assumir a reitoria representou para Bernadete, mais uma vez, deixar que os outros a vissem, tornar-se “vidraça”, como ela mesma disse sobre o significado do cargo. Mas, para uma pessoa como ela, alguém que se considera uma pessoa tímida e que viveu “um processo de quase auto-libertação”, coragem parece ser a sua palavra de ordem, e a coragem a fez alçar guerra contra a Igreja.

Por muito tempo sua instituição permaneceu estagnada, atendendo apenas às necessidades da Igreja. Em 1998, havia o curso de Ciências Sociais, transformado em Filosofia em 1985, e alguns cursos conveniados com uma universidade da Região. Desde sua Fundação, em 1973, a escola era administrada sucessivamente por padres de uma congregação religiosa.

Assim, em meio às pressões do MEC e da prefeitura, que Bernadete resolveu se insurgir contra mais uma sucessão da administração. O prazo para as eleições já havia

expirado e a prefeitura cobrava da casa a ata da eleição, a qual não havia sido realizada “por

descuido da administração”. A escola fora criada nos moldes do sistema fundacional, típico de Santa Catarina. Por isso sofria interferências contínuas da municipalidade, além de outros problemas que são enfrentados pelas instituições privadas.

Nesta ocasião, o padre que era presidente da Fundação na ocasião e diretor da escola ligou para Bernadete dizendo:

Oh, vamos nos reunir rapidinho amanhã, porque precisamos fazer a eleição. O deputado Pedro Costa e Silva está pedindo a ata, senão ele não pode liberar recursos. E ele tá só me chateando, tá, tá, tá... então amanhã a gente faz uma reunião pró- forma, pra lavrar essa ata.” Isso seria no sábado, pois já era sexta à noitinha [quando ele ligou]. Aí eu disse: “isso não é assim... eu sinto muito, mas nós precisamos receber uma convocação, o assunto é sério, nós não vamos tratar mais assim, e queremos uma convocação com antecedência, tem que haver divulgação. (Bernadete)

Após essa conversa e por insistência do padre, ficou combinado que as eleições seriam feitas na segunda-feira seguinte, dois dias depois do telefonema. Com isso, o pequeno grupo do qual Bernadete fazia parte, que estava muito preocupado e indignado com a situação vivida, se articulou pela primeira vez, de modo a apresentar um candidato que disputasse as eleições. Fazia parte desse grupo “um aluno, dois ou três professores da casa, e um funcionário da prefeitura” (Bernadete). Eles faziam parte do conselho que decidiria a eleição.

Aquele final de semana foi de articulação do grupo e de grandes decisões. Bernadete contou que “frente a isso tudo, nós ficamos aquele final de semana todo: ‘E aí? Como é que vai ficar!?’”. A questão era: quem iria assumir a responsabilidade? Ninguém queria assumir, faltava coragem. Todos desejavam que Bernadete assumisse, mas ela disse:

[...] que não tinha interesse, que já estava praticamente aposentada. Os nossos planos [de sua família] eram de vir pra cá [Florianópolis], pois os nossos filhos estavam todos aqui. Mas eles me diziam: “não, mas a senhora não pode nos deixar”. Na verdade, na minha ótica faltou coragem das pessoas para enfrentar o que viria depois... (Bernadete).

Foi um fim de semana muito difícil. Ela o passou sem dormir, conversando com o marido e os filhos, pensando em tudo “o que viria depois”. Conta que decidiu junto com a família que assumiria a escola, mas que isso não aconteceria sem certas prerrogativas: “disse ao grupo: ‘bem, então, tá! Vou assumir nesse momento, mas é por pouco tempo. Porque é um momento crítico, mas vou assumir nas minhas condições’”.

A prefeitura lhe cobrava, implicitamente, que, uma vez tendo assumido a direção, ela deveria tomar medidas drásticas contra diversas situações irregulares e que causavam

problemas na instituição, especialmente demitindo funcionários que haviam sido contratados de forma ilícita ao longo do tempo.

O posicionamento de Bernadete, nessa hora, foi firme e sempre com vistas a um projeto de recuperação da credibilidade da instituição junto à comunidade: “Eu disse ‘não! Eu vou assumir, mas eu não vou demitir ninguém sem dar uma chance!’ Porque eu disse assim: ‘se nós deixarmos a população desacreditar, tá morto o projeto! Não vai haver nunca mais alguém que se proponha [a fazer isso]’”. Com essas palavras e com esse pensamento, Bernadete enfrentou, na segunda-feira, o maior desafio de sua vida: ir contra a vontade da Igreja.

Além do medo inerente de enfrentar aquela situação, e de todas as dificuldades e problemas administrativos e financeiros em que a instituição se encontrava, essa atitude renderia a ela também muita solidão. Ao vencer as eleições, Bernadete sabia que aquela decisão a prenderia novamente em sua cidade e que, por isso, ela passaria a viver sozinha: seus filhos já estudavam fora e seu marido, por conta de negócios da família, já viera morar em Florianópolis. Assim, a reitoria representou para ela, antes de mais nada, solidão.