5.6 CONTINUIDADES E DESCONTINUIDADES
5.6.2 Relação com o marido
Das cinco mulheres que se tornaram reitoras em Santa Catarina, apenas uma não se casou. As outras eram casadas com os mesmos maridos na época em que as entrevistei. Elas acreditam que a relação que estabeleceram com os maridos foi uma relação de apoio, amizade, respeito e companheirismo, o que foi fundamental em suas trajetórias: “acho que uma pessoa importante foi o meu marido, por ter me compreendido, por ter me apoiado, por ter se encolhido muitas vezes”. (Diva).
Em alguma medida, os maridos destas mulheres tiveram que ceder. Eles foram homens de seu tempo, foram criados com valores que lhes asseguravam e, até mesmo, exigiam certos comportamentos... masculinos. Mas eles aprenderam, elas também.
A relação que Bernadete construiu com o marido reflete “um processo de recuperação da auto-estima”, no qual estabeleceu igualdade em relação ao marido. Segundo Bernadete, as diferenças passam a não importar tanto quando há respeito num relacionamento.
Em seu casamento, ela buscou uma convivência: “[onde] não pode haver medo, [não pode] haver desconfiança.” (Bernadete). Bernadete acredita que conseguiu, ao longo dos anos, construir “[...] uma relação em casa muito boa em função dessa confiança recíproca, dessa vontade de entre-ajuda e não de superação, de mais valia”.
Esse tipo de relação, entre os esposos que se apóiam e se ajudam, foi construída através de sua continuidade, ou seja, da manutenção do matrimônio, mesmo que este tenha sido permeado por descontinuidades: elas brigaram, impuseram seus desejos e anseios, provocaram rupturas de valores, crenças, comportamentos e modelos esperados.
Mas, acima de tudo, as mulheres deste estudo desejaram a continuidade de seus casamentos, da família que constituíram. Isso foi muito importante para Elvira que, falando de seu marido, afirmou que ele sempre a estimulou. Considera que isso é “uma coisa boa que eu tenho na vida, é um marido que me estimula, que acompanha, que é um companheiro, que me motiva”. (Elvira)
A continuidade do casamento significou para elas estímulo, amparo e solidariedade, por parte de seus cônjuges; significou uma vida partilhada, construída a partir do equilíbrio entre as necessidades do casal, da família e dos desejos e escolhas de cada um.
Quando Clarice começou a trabalhar pela primeira vez, já com dois filhos, ela disse que “foi uma briga em casa!”, mas, de um modo ou de outro, seu “marido entendeu que seria
uma boa”. Com o apoio do marido, então, foi fazer um dos primeiros cursos de formação de professores de Jardim de Infância no Rio Grande do Sul, na década de 70.
Assim, posso dizer que a relação que as mulheres deste estudo construíram com seus maridos não foi uma relação que nasceu pronta, não foi algo que lhes tenha sido dado naturalmente ou culturalmente. Ao contrário, a relação de apoio e respeito com seus maridos foi construída em conjunto, a partir de acordos tácitos ou não, a partir de brigas sérias ou de brincadeiras, de longas conversas ou de papos curtos e imposições unilaterais que tenham exigido.
Nem sempre os seus desejos foram ouvidos e respeitados, eles nem sempre foram possíveis. Elvira, assim como Diva, desejava “sair pro mestrado e doutorado”, continuar seus estudos no exterior. Muitas vezes ela escutou de seu marido: “estás louca! Ir pra fora com duas crianças!”. Mas ela achou outros caminhos para seguir em frente. De qualquer forma, estas mulheres construíram seus espaços e, no fim das contas, avaliam que seus maridos foram peças centrais de suas trajetórias.
Elas fizeram escolhas, eles também fizeram as suas. Entre retrocessos e avanços, eles as apoiaram, aceitaram seus desejos, ajudaram em casa, pegaram filhos nas escolas, aceitaram a ausência de suas esposas. Aprenderam a compartilhar uma vida.
Isso não significa que tenha sido fácil, que tenha sido sempre tranqüilo a relação conjugal.
Um tempo depois de começar a trabalhar pela primeira vez, Clarice ficou grávida e largou o emprego de professora pela segunda vez. Algum tempo depois, já não estava mais de acordo com a situação e resolveu procurar outro emprego. Novamente, “ele achava isso um horror: eu com três filhos sair pra ganhar o salário que eu ia ganhar... mas enfim, ele sempre me respeitou e acho que isso é muito legal da nossa relação.” (Clarice)
A relação com o outro, o marido, muitas vezes foi de enfrentamento, de decisões e posicionamentos firmes por parte da mulher, como mostram os excertos a seguir:
E meu marido dizia assim: “como uma professora da faculdade de educação, eu até entendo que você tenha conhecimento e que esteja preparada. Agora, pra presidente de uma Fundação?! Nossa, uma Fundação cheia de problemas! Como aceitar? Você não tem estrutura, não tem conhecimento, você não está preparada”. Mas eu não queria saber... Eu estava tão envolvida com tudo que estava acontecendo na instituição que eu não queria saber se eu estava preparada, se não estava preparada.... (Clarice).
O meu marido sempre me apoiou, mas ficou de lado! Ele teve que renunciar a muitas coisas para que eu pudesse seguir. No meu casamento, eu fiz uma escolha: que foi a minha profissão. Eu, às vezes, até me envergonho de dizer isso. Mas fiz!
Eu optei por minha profissão. Como eu lhe disse, a vida é cheia de escolhas e essa escolha aí eu fiz. (Diva).
Os relatos apresentam mudanças nos papéis tradicionais de gênero e demonstram que foi possível, a estas mulheres, outra relação com o marido, que não aquela de total submissão. Os maridos fizeram um pouco o papel de mães. Por vezes, os relacionamentos destas mulheres com seus maridos romperam os estereótipos vigentes em suas épocas. Elvira afirma que seu marido “de alguma forma ajudava: a gente ia junto, ele me cobria em casa. Ele foi muito importante porque ele cobria a minha ausência” (Elvira).
Estas mulheres tiveram que se ausentar muito de casa, e seus maridos deram o apoio e suporte necessário para que isso fosse possível: “ele desempenhou bem esse papel na época, sem reclamar, numa boa mesmo!”. (Elvira)
Os depoimentos demonstram como a relação de apoio foi de crucial importância. No entanto, nada é gratuito nas relações de gênero, tudo é construído, feito de escolhas e posicionamentos.
A história destas mulheres poderia ter sido diferentes, caso a relação com seus companheiros tivesse sido construída em outras bases: desapoio, intrigas e falta de respeito, atitudes que ferem, que machucam, que humilham, que diminuem; falta de entendimento das diferenças que envolvem os gêneros; não aceitação da igualdade que existe entre os dois.
Estas atitudes que podem ser percebidas em diferentes tipos de relação refletem as diferentes formas como a mulher pode sofrer violências, nem sempre físicas, e também a forma como elas se relacionam com seus próprios corpos.