A trajetória das reitoras em Santa Catarina foi permeada por pequenos encantos e grandes desencantos. Os significados desses encantos e desencantos são diferentes para cada uma delas. Eles nos mostram, a todo o momento, a diferença contida na igualdade, ou seja, a existência ímpar que cada reitora imprimiu em sua trajetória.
5.5.1 Grandes desencantos
Em suas trajetórias, as mulheres deste estudo encontraram muitas “pedras no meio do caminho”. Porém, essas dificuldades eram vivenciadas muito mais como elementos de desencanto, do que propriamente como barreiras que inviabilizaram seus trabalhos. Elas sofreram perdas, mas não deixaram de acreditar nos objetivos que traçaram.
Em alguns casos, as repressões que viveram foram sufocantes e quase as fizeram desistir, estagnar. Bernadete viveu intensos momentos de repressão, especialmente em casa, mas também quando estava na faculdade e, depois, como professora no ensino superior.
Porém, de alguma maneira esses momentos foram decisivos, pois representaram rupturas em sua vida, na reconstrução de sua identidade.
Bernadete fora criada para ser “um adereço, um ser para mera reprodução”. Não foi fácil para ela perceber essa repressão e superá-la. Teimar, desejar estudar, ir para a universidade, fazer filosofia... tudo isso foi fundamental para que pudesse ultrapassar esse grande desencanto: de sentir-se um ser para mera reprodução.
Muito mais cedo do que Clarice, que sentiu isso depois de casada e com filhos, Bernadete sofreu este desencanto dentro da própria casa paterna, onde pouco importava quem ela era, desde que cumprisse com os papéis que lhe haviam sido determinados. Não importava quem ela queria ser, seu destino já fora traçado: o casamento, filhos e os cuidados da casa.
Assim, a época da universidade foi essencial para Bernadete conhecer a si própria. Descoberta que se tornou visível para os outros, seguindo-se o reconhecimento, dos colegas e professores, por suas idéias. Mas logo viu solapados, pela ditadura, o direito de ser o que quisesse e de expressar-se sem medo. As crenças que levaram Bernadete à universidade foram “postas em xeque”. Foi um momento “sócio-político extremamente complicado” (Bernadete) que marcou sua vida, reafirmando valores e crenças:
[...] eu tive uma colega, não de curso, ela fazia Pedagogia e eu Filosofia, mas uma colega, uma conhecida... nós morávamos perto, em pensões [próximas] e ela desapareceu. Então, aquele momento, até hoje, nós sabemos que ela morreu, mas até hoje, ninguém sabe onde ela está... Sabe? Aquela coisa... de vez em quando, a gente pensa na Laura: ‘Nossa! Mas e a Laura?’ Sabe? Então, foi uma experiência que nos tivemos, não só eu... (Bernadete).
Um desencanto como esse não pode ser facilmente esquecido, mas Bernadete “voltou às boas”, como tantos outros. Por um tempo, esqueceu seus ideais. O casamento foi o novo espaço onde passou a lutar por sua identidade.
Um outro desencanto, comum e recente na vida de Diva, Elvira e Clarice, foi o de ter
que deixar a reitoria. Nas duas vezes em que estive com Bernadete ela ainda era reitora. Alda
também ocupava o cargo quando a entrevistei, mas já decidira que aquele seria seu último ano.
Elvira e Clarice perderam as eleições que garantiriam suas sucessões. Para as duas, foi muito triste a derrota, o fato de perderem a continuidade de seus trabalhos. Diva conseguiu a sucessão, mesmo assim, sentiu o impacto ao deixar de ser reitora, especialmente, como a desaceleração do cotidiano.
Elvira foi vice-reitora de 1992 até 1996. Em 1995, participou das eleições onde compôs uma chapa para sucessão da administração da qual fazia parte. Não venceu. Para ela foi um grande desencanto, pois estava consciente de que perdera o escrutínio em um único debate, quando não se comprometeu com uma reivindicação dos funcionários. O candidato rival, com esperteza, viu a oportunidade da vitória e comprometeu-se. Elvira saiu do confronto sabendo ter perdido a campanha: “Eu nunca me esqueço! As pessoas todas disseram: ‘jogaste a eleição fora!’ Isso foi em 95, em 96 acabou o nosso mandato.” Nessa época, chorou muito, ficou decepcionada, desolada com a derrota, com a ausência de sonhos pelos quais lutar.
Clarice também perdeu a eleição, através da qual buscava a continuidade dos doze anos em que estivera à frente do ensino superior na sua cidade. Como Elvira, ela acreditava que ainda tinha contribuições a fazer.
Alda e Diva nunca perderam eleições, simplesmente decidiram a hora de abandonar o cargo. Diva deixou a reitoria depois de 14 anos, quando decidiu que não iria mais disputar eleições para o cargo. Alda dirigiu por 29 anos a mesma instituição e também decidiu quando seria a hora de parar.
Porém, não só a perda do cargo foi um desencanto para elas. Algumas situações durante seus mandatos também as desencantaram muito. Elas se sentiram traídas. Em nome de suas causas pelo ensino superior, enfrentaram pessoas que pensavam de forma diferente, precisaram criar discórdia com pessoas que queriam apenas defender interesses pessoais. As professoras sofreram muito, nesses momentos:
Também tive muitas traições! Interesses próprios, pessoas que me desencantaram demais, que pensaram primeiro em si! Isso faz parte da sua história e da sua caminhada, você tem que conviver com esses desencantos também! Isso também aconteceu bastante dentro da universidade. É muito difícil. (Diva)
As reitoras enfrentaram a ira de pessoas que se sentiram lesadas com os processos de transformação que elas estavam implantando: “Quando você está arrumando um processo jurídico dentro da universidade, por exemplo, num plano de carreira, às vezes você, sem querer, prejudica pessoas [...] que vão a litígio.” (Diva).
Esse tipo de coisa entristeceu as mulheres deste estudo, fizeram-nas se perguntar “será que tudo isso vale à pena?” (Diva), mesmo que acreditassem ter feito tudo que fizeram pelas pessoas de suas comunidades, pelo ensino superior.
Mas, se por um lado houve decepções com colegas, por outro, foram muitas as pessoas que as cercaram e lhes trouxeram alegrias, pequenas alegrias. Elas tiveram muitos amigos
com quem compartilharam idéias e sonhos, ajudando a construir suas vidas e um pouco do ensino superior em Santa Catarina.
5.5.2 Pequenas alegrias
O prazer de construir, de pertencer a um grupo com os mesmos ideais, de ter interferido positivamente na trajetória de outras pessoas; a surpresa de ver suas ações beneficiarem a quem nem imaginavam foi o que trouxe grandes alegrias para as mulheres deste estudo.
O crescimento e o amadurecimento das instituições das quais faziam parte representou um partilhar sem fim, que possibilitou que suas vidas fossem permeadas por “pequenos grandes sucessos.” (Diva).
Todas as mulheres, ao falarem das alegrias em suas trajetórias, não citaram prêmios ou condecorações que, provavelmente, tenham recebido; não se lembraram de momentos
glamourosos que o cargo de reitora certamente lhes proporcionou, mas sim, de pequenos
encantos vividos através do reconhecimento de seu trabalho na comunidade:
E uma das grandes características que me traz grande satisfação é quando eu tenho notícias de alguém que foi meu aluno no primário. Que eles me reconhecem e eu, muitas vezes, não os reconheço, e às vezes, até em entrevistas que eles dão na televisão, eles fazem referência a mim e isso já passou há mais de 30 anos. (Alda).
Bernadete expressou sua satisfação ao citar os inúmeros depoimentos que recebeu ao reencontrar “pessoas que a gente efetivamente sente que ajudou!” (Bernadete). Bernadete é muito espiritualizada, dessa maneira, para ela é importante tomar conhecimento de que colaborou em caminhadas pessoais e profissionais. Ela foi um elemento fundamental na tarefa de construção do ensino superior em sua cidade. Por isso, sente que cumpriu o seu papel e se considera feliz em ter abdicado da tranqüilidade que a aposentadoria lhe proporcionaria, caso não tivesse assumido seu posto.
Para ela, ter participado da reconstrução de uma casa de ensino superior fez com que sentisse ter cumprido “efetivamente a tarefa da [sua] existência, aquilo que nos foi legado neste curto período de vida nos foi dado aqui.” Deste seu ponto de vista, ser educadora implica na grande responsabilidade de ser canalizadora do acesso ao conhecimento. Ela considera reconfortante olhar no rosto das pessoas e ver
[…] a gratidão, a felicidade estampada, o bem-estar estampado e o reconhecimento por aquilo que a gente pode deixar como educador. Aliás, todo ser humano, no sentido de ajudá-las não só como pessoas, mas como profissionais. Então, bastante alegria sou diariamente recompensada por esses depoimentos, tanto externos quanto intuídos, às vezes, num gesto, num abraço, num olhar você tem isso muito diariamente. (Bernadete).
Diva e Elvira também têm essa sensação de que “cumpriram sua missão”, ajudando a outros em suas formações. Elas receberam gratidão e reconhecimento, mesmo quando só ajudaram de forma indireta, ao colocarem em prática suas crenças e concepções a respeito do ensino superior: “esse é um momento importante: quando você sabe que você é importante na própria vida dessas pessoas! Na capacitação na construção de cada um!”. (Diva)
Elvira também sentia isso quando ouvia das pessoas: “‘em tal momento, você me ajudou nisso, ou aquilo.’ Mas eu nem lembrava... ‘você lutou por isso, fez aquilo...’ Sabe? E eu não fiz aquilo pensando naquela pessoa...” (Elvira).
As atitudes dessas mulheres ajudaram a muitas pessoas e isso fez a diferença para elas: “Isso é muito mais forte do que os momentos da ritualística, muito mais pomposos e que naturalmente me deram muita alegria, mas as alegrias maiores foram aquelas que eu consegui lá no campus!” (Diva).
Alegrias foram descobertas nos momentos das pequenas vitórias do dia-a-dia, sem
glamour ou reconhecimento. E, também, alegrias foram vividas nas grandes vitórias
representadas pelas inúmeras conquistas no caminho de construção e reconstrução das instituições que dirigiram, nos momentos em que “fomos vencendo estas etapas todas. Quando nós ganhamos o nosso primeiro computador, que veio das apreensões da Polícia Federal! Gente que alegria!” (Alda).
Além disso, os momentos de maior alegria de suas trajetórias foram no “processo de implantação e reconhecimento da própria universidade” (Clarice), nos momentos em que conquistavam coisas que nem haviam imaginado. Foram “momentos nó ou momentos síntese, onde você consegue um credenciamento da universidade, onde você consegue isso, onde o ministro assina, com todos os senadores e deputados e o Governador de Santa Catarina presentes. Então esse é um momento culminante!” (Diva).
Se por um lado, a alegria dos caminhos foi marcada pela reitoria, por outro, o lar foi fonte de constante satisfação. As “coisas da casa” (Elvira): curtir os filhos, os amigos, sobrinhos reunidos ao redor da mesa para comer, jogar papo fora, ter conversas sérias, tudo isso fez parte de suas vidas: “[...] eu curto uma casa, adoro a minha casa, adoro reunir pessoas,
amigos, não sei como eu fui reitora, porque eu não gosto de falar em público, não gosto de fotografia.” (Clarice).
Elas se preocuparam com suas famílias, com seus amigos e companheiros: “E a minha preocupação é se tudo está sendo bem feito... se está tudo organizado e se minha empregada está bem. Porque ela é muito importante pra mim! E graças a Deus, ela é uma pessoa muito alegre!” (Alda).
O lar foi, para essas mulheres, algo indissociável de suas carreiras e motivo de grandes mudanças. O lar foi o lugar de preservar a tradição, as crenças e os costumes, o palco de continuidades e descontinuidades muito importantes, algumas das quais descrevo a seguir.