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ESCREVENDO E CONTANDO AS HISTÓRIAS DAS REITORAS

“Quanto mais refletidamente você retarda a redação de uma idéia qua [mantido do original] ocorre, mais maduramente ela se oferecera para você. A fala conquista o pensamento, mas a escrita o domina.” (BENJAMIN, 1995, p. 31)

A análise dos dados em pesquisa qualitativa é o processo de dar sentido a eles. Segundo Merrian (1998), dar sentido aos dados envolve a consolidação, redução e interpretação do que as pessoas disseram e daquilo que o pesquisador viu e ouviu.

Além disso, a análise de dados implica “um processo complexo que envolve um movimento de ‘ir e vir’ entre pedaços concretos de dados e conceitos abstratos, entre o raciocínio indutivo e dedutivo, entre a descrição e a interpretação” (MERRIAN, 1998, p. 178).

Esse processo também envolve questões éticas bastante delicadas já que, decidir aquilo que é importante nos dados, depende primariamente do pesquisador e que os dados foram por ele coletados e filtrados por sua posição teórica particular (MERRIAN, 1998). Assim, o trabalho de análise foi, para mim, uma busca constante de decidir o que era importante nos dados que coletei e a forma como eu iria expressar isso em texto.

De acordo com Merrian (1998), a análise de dados em pesquisa qualitativa deve iniciar enquanto o pesquisador está no campo, através de anotações, de observações e de reflexões sobre o que está se passando.

Neste estudo, iniciei a análise dos dados no mesmo momento em que comecei a coletá-los. As anotações que fiz quando conversei com o secretário-executivo da ACAFE, forneceram o conteúdo para uma análise preliminar, muito superficial e imparcial, é claro, do que eu ainda estava para encontrar. Mais tarde, depois de cada encontro com as reitoras, as anotações sobre as entrevistas e as observações que eu fazia sobre cada encontro se reuniam em forma de texto, que eu ia redigindo aos poucos. Esse processo facilitou para que eu fosse aos poucos me familiarizando com o fenômeno que estudava.

Ademais, a análise dos dados deve constituir-se de uma descrição básica de cada caso estudado e da análise cruzada dos casos, que é fundamental na construção do fenômeno estudado (MILES; HUBERMAN, 1994).

Apresentei a descrição de cada caso estudado no capítulo 4 desta tese, sendo que ela foi dividida em três categorias que emergiram dos dados: infância e juventude; escolha da profissão; e vida no magistério. Elas descrevem a construção da identidade e auto-estima das mulheres deste estudo ao longo de suas vidas; dão um panorama geral de quem são as mulheres que se tornaram reitoras em Santa Catarina. Nesta descrição, priorizei as histórias de cada mulher de forma isolada, de modo a ressaltar as diferenças em suas vidas, em suas histórias. Este capítulo serviria também como um guia para o leitor do capítulo 5, onde passo a dar ênfase nas similaridades das trajetórias, os pontos em que as histórias são parecidas.

A construção do capítulo 4 se deu em fase avançada da análise das trajetórias e de construção do capítulo 5, quando senti falta de conhecer mais profundamente e, ao mesmo tempo, sinteticamente a vida de cada mulher de uma forma única, separada, diferenciada. Procurei escrevê-lo de forma bastante livre, descrevendo as histórias que eu havia ouvido, trazendo excertos de suas narrativas até o ponto onde elas se tornaram professoras, deixando a questão do ensino superior em suas vidas para o capítulo 5.

No capítulo 5, apresentei as descobertas sobre a trajetória das mulheres que se tornaram reitoras, ou seja, as descobertas sobre o fenômeno estudado a partir da comparação constante dos dados das entrevistas (STRAUSS; CORBIN, 1998; MERRIAN, 1998), processo que detalho mais adiante. Essa análise foi feita com base nas transcrições das entrevistas, as quais foram feitas em um formulário específico (Apêndice D). Este formulário teria como finalidade organizar as transcrições das entrevistas e facilitar a análise dos dados. Desta análise surgiram 7 categorias e, embora minha intenção inicial não tenha sido de uma categorização muito rígida, este é um processo que facilita a análise dos dados.

Primeiramente, quando as transcrições ainda estavam sendo feitas, iniciei uma análise rudimentar na qual fui codificando os dados em um formulário específico (Apêndice E), na

medida em que eu os transcrevia. Segundo Merrian (1998, p. 165) “uma vez coletados os dados é importante codificá-los com qualquer esquema que seja relevante ao seu estudo”.

Este processo antecedeu a categorização dos dados (análise cruzada) e sua importância está em dar início a uma análise rudimentar, de modo que não se percam detalhes, pensamentos e idéias a respeito do que se está analisando.

Então, imprimi as transcrições já pré-analisadas e codificadas para que eu pudesse fazer a comparação constante, ou seja, comparar os dados das 5 entrevistas procurando analisar conceitos que pareciam pertencer ao mesmo fenômeno nas diversas entrevistas. As codificações iniciais foram agrupadas ou, mesmo, eliminadas quando se tornaram sem sentido ou fora do foco da pesquisa.

Nesta etapa, cada sentença, frase e parágrafo foram sendo analisados e comparados com os de outras entrevistas de modo a identificar os fenômenos que pertenciam às mesmas categorias, as quais iam, então, sendo criadas (STRAUSS; CORBIN, 1998).

À medida que fenômenos particulares foram sendo descobertos, procurei agrupá-los. Este processo de agrupar conceitos que parecem pertencer ao mesmo fenômeno chama-se categorização (STRAUSS; CORBIN, 1998). Embora não fosse meu objetivo aprofundar a categorização em termos de propriedades e dimensões, elas acabaram emergindo dos dados e estão dispersas em cada categoria no texto final da análise.

Isso aconteceu, pois esta categorização foi feita a partir da comparação constante. Embora tenha sido concebido por Glaser e Strauss especificamente como meio para desenvolvimento da Grounded Theory, este método é compatível com a orientação indutiva da pesquisa qualitativa. A estratégia básica deste método de análise é a comparação constante dos dados (STRAUSS; CORBIN, 1998).

Na verdade, comecei a empregar esta técnica desde o momento em que eu tinha duas entrevistas transcritas. A primeira entrevista aconteceu em maio de 2007 e, a última, no mês de agosto do mesmo ano. Durante este período, fiz duas apresentações da análise preliminar que eu vinha fazendo para o grupo de pesquisa em liderança do qual faço parte.

A primeira apresentação ao grupo foi em Junho e a outra em Julho. Elas foram fundamentais para que eu fosse aprimorando a análise que, então, se iniciava e era, ainda rudimentar. Essas apresentações foram importantes, especialmente, para que eu percebesse como estava o meu envolvimento com o fenômeno estudado.

Na primeira apresentação para o grupo, notei que estava como que “apaixonada” pelo tema estudado e pela análise que vinha fazendo. Foi a primeira vez que percebi que eu precisava me “distanciar” um pouco do fenômeno estudado.

Em toda pesquisa qualitativa, a análise dos dados envolve um tornar-se familiarizado com os dados, porém, o pesquisador deve manter, de forma antagônica, um “estranhamento do familiar” (SPRADLEY, 1980; TAYLOR; BOGDAN, 1997).

Esse processo deve ser lento, mas quando fiz minha primeira apresentação ao grupo, notei que talvez estivesse acelerando esse processo de familiarização e sufocando o que poderia se tornar um bom entendimento do fenômeno em foco. Percebi que era o momento de me afastar da análise e da tentativa, sempre presente, de me familiarizar com os dados, ou seja, com o fenômeno estudado, a trajetória das reitoras catarinenses.

Eu já me sentia muito familiarizada com o fenômeno. Esse processo havia começado no meu primeiro contato com uma das cenas culturais do estudo: a associação de universidades que eu havia visitado. Eu sabia que esse processo era importante e que não devia se limitar ao final da pesquisa de campo, quando todos os dados já fossem coletados. Esse processo deve ter início quando se fazem as primeiras notas de campo (SPRADLEY, 1979).

Mas naquele período eu já havia realizado seis das nove entrevistas que fiz ao todo. Primeiramente, realizei uma entrevista com cada mulher selecionada, apenas com Bernadete tive que realizar dois encontros simultâneos, pois não conseguimos acabar toda a entrevista. Quando voltei para a segunda entrevista com ela, já trouxe novas perguntas, além das que faltavam para terminar a primeira entrevista. Neste momento, eu já dominava cada sentença do texto transcrito das gravações feitas e reconhecia com facilidade as narrativas de cada uma das reitoras.

Resolvi que era tempo de esperar, de estranhar o que se tornara por demais familiar. Quando apresentei os resultados parciais da análise novamente ao grupo, em julho de 2007, percebi que a análise estava engessada e que eu não tinha as tão desejadas respostas às minhas questões. Resolvi, então, retornar a campo para entrevistar novamente as reitoras já entrevistadas. Nada de novo havia surgido, parecia que a fonte havia se esgotado e eu não tinha encontrado as respostas que procurava.

Eu, inicialmente, achava que novas entrevistas não seriam necessárias e que eu só precisava aumentar minha sensibilidade teórica, “aquela qualidade pessoal do pesquisador que indica sua consciência do significado dos dados” (STRAUSS; CORBIN, 1998, p. 41).

Porém, decidi voltar a campo. A apresentação ao grupo foi fundamental nesse processo. No fundo eu acreditava que podia extrair mais conteúdo das entrevistas, mas a análise que eu havia feito estava tão cristalizada que eu precisava novamente voltar ao campo, o que foi essencial. Realizei mais três entrevistas.

Nessa época eu ainda escrevia o texto em terceira pessoa. Isso parecia me dar a sensação da distância necessária ao objeto de estudo. No início de setembro, viajei mais uma vez com minha família para a Alemanha. Meu esposo é engenheiro e viaja constantemente por todo o mundo para instalar máquinas, dar treinamentos ou participar de outros eventos com o objetivo de especializar-se em seu ofício. Decidi que dessa vez o nosso filho Thomas e eu iríamos junto. Não seria a primeira vez. Mas essa seria uma estadia mais prolongada com dois meses de treinamento para meu marido, tempo que eu considerei interessante para fazer uma releitura da análise que eu já havia feito e trabalhar com os novos dados coletados.

Mesmo nesta época, entre setembro e outubro de 2007, a análise continuava rígida e eu não conseguia contar as histórias das mulheres do jeito que imaginava apropriado. Esta situação só mudou quando, numa das diversas tentativas de descrever as categorias criadas, decidi mudar a forma como eu vinha escrevendo, a forma como eu expressava minhas interpretações. Isso aconteceu quando, numa das vezes em que buscava descrever o que estava analisando, escrevi em primeira pessoa. Era uma tentativa de narrar o que eu havia escutado – as histórias das mulheres que se tornaram reitoras – de uma forma inusitada para mim.

Aquilo me trouxe um sentimento de alívio. Finalmente conseguia escrever novamente, re-analisar os dados, contar as histórias ouvidas e pelas quais, desde o início, eu havia me familiarizado, para não dizer, apaixonado. Finalmente, eu conseguia extrair novos elementos dos dados e analisar aquilo que havia ouvido, visto e sentido. Eu acabara de dar uma forma nova ao texto, uma forma mais pessoal, que me permitiu uma reaproximação com aquilo que se tornara estranho para mim depois de um tempo.

A experiência de sentar-me diariamente em frente ao computador distante de tudo o que me era familiar – minha casa, minhas coisas, o nascer do sol no mar dos Ingleses – possibilitou o estranhamento de mim mesma e a aproximação com as histórias das mulheres. Na Alemanha, levantar todo dia muito cedo para poder trabalhar e ver o dia nascer – mas nem sempre o sol raiar – através de janelas envidraçadas que se abriam inteiras para uma paisagem totalmente diferente para mim, proporcionou-me o isolamento necessário para a contemplação dos dados que eu já tinha em mãos.

Creio que aquele período na Alemanha foi fundamental para que eu conseguisse aprimorar minhas interpretações acerca do fenômeno estudado. Foi um momento que me possibilitou a coragem de olhar para mim mesma e, a partir disso, ver os dados, interpretá-los, escrevê-los.

Foi o momento que me permitiu de forma profunda entender como se dá aquela “ressonância entre o pessoal e o profissional” do qual fala Bateson (1984, p. 161), que é tanto fonte de erro quanto de insigths em um trabalho. Para esta autora, o pesquisador evita erros e distorções não tanto quando constrói um muro entre o observador e o observado, mas quando passa a observar o observador, ou seja, observar a si próprio: seus sonhos, suas imaginações, seus sentimentos. De acordo com Bateson (1984), é esta observação que permite entender a forma pela qual a observação e a interpretação foram afetadas por fatores pessoais, pela lente que filtra o olhar.

Esse tempo na Alemanha foi fundamental nesse processo, pois ali me senti estranha, estrangeira e soube melhor, então, como olhar as histórias que me haviam sido contadas a tempos atrás pelas reitoras. De acordo com Gagnebin (1982, p. 64), “A falta de auto-reflexão conduz de fato ao positivismo da interpretação, latente na pesquisa histórica burguesa: a certeza de que seu saber é unicamente ´científico´ leva o historiador a negligenciar o peso de seu próprio presente na análise.”

Nesta época, dei passos para trás, parei de escrever, reli as transcrições, ouvi trechos das gravações, me debrucei novamente na literatura que eu levara comigo; trabalhei por longas e escuras horas antes de meu filho acordar; chorei em Bremen Nord: foi quando me afastei de todas essas histórias mais uma vez. Um acidente me impediu novamente do ir e vir entre pedaços abstratos de texto para dar-lhes significado: meu filho de dois anos quebrara o fêmur em meio a uma simples brincadeira e passamos um mês em um hospital na Alemanha.

Quando retornei ao Brasil, no final de novembro, meu filho ainda precisava dos meus cuidados e da minha dedicação. Só em janeiro pude, verdadeiramente, retornar com o afinco e dedicação necessária ao texto já trabalhado por tanto tempo. Assim, quando me sentei frente ao texto, pela primeira vez, depois do acidente de meu filho, estranhei-o mais uma vez.

Essa distância, esse novo estranhamento foi essencial, pois foi devido a ele que agora eu pude ampliar a análise de cada categoria, aprofundando o que já havia escrito, melhorando a descrição dos conceitos criados. As histórias que levei comigo para a Alemanha em setembro já eram velhas histórias, e agora, o que me ajudava a contá-las, escrevê-las, era o referencial bibliográfico que eu havia incluído durante minha estada lá e outros que ainda fui incorporando ao trabalho nos meses de janeiro, fevereiro e março.

Neste recomeço eu não dominava mais o texto, nem sabia onde encontrar os dados que queria inserir quando ia escrevendo, aprofundando. Precisei esquecer as histórias para voltar a elas como quem encontra alguém pela primeira vez. Então voltei os passos, reli as narrativas, reescrevi trechos inteiros, tornei a categorizar, reduzir, escrever e descrever.

Durante esse tempo, vi poucas pessoas passarem pela pequena janela do LGR, onde trabalhei o verão de 2008 na construção do texto desta tese. Vi quero-queros levarem suas vidas em uma UFSC deserta naquele período de férias. Estrañei meu lar, meu filho e meu marido que nesta época viajara sozinho novamente. Tornei a escutar a poesia contida nas palavras das mulheres deste estudo e logo decidi que o trabalho estava pronto.

Nesse momento senti como é solitário o trabalho do pesquisador. Por mais que se busque compartilhar informações, dúvidas com colegas, com o seu orientador, o trabalho de análise e, em especial, a redação do texto final é um trabalho solitário em que os cuidados éticos e metodológicos precisam ser revisados, recobrados, redobrados.

Neste período, senti que chegara o tempo da dura separação, conforme sugerido por Goldberg (2004), o tempo de apenas rever o relatório final e me despedir das histórias destas mulheres. Era o momento da despedida, onde o certo e o errado desaparecem; nada está dado, as histórias destas mulheres não terminaram.