5.6 CONTINUIDADES E DESCONTINUIDADES
5.6.3 Relação com o corpo
Companheiros, maridos, amantes, chefes, muitas vezes têm se prevalecido contra as mulheres ao longo dos tempos. Em muitos casos essa violência é física e barbariza a relação entre homens e mulheres. Ao longo da história, elas têm sofrido esse tipo de violência, que marca em seus corpos a diferença. Muitas vezes, o descontrole masculino provém da ansiedade pela constatação de sua incapacidade de exercer um poder irrestrito sobre o sexo oposto. Poder que considera seu por direito, concedido a ele no berço, por um modelo de dominação masculina onde as mulheres são vistas como um objeto a possuir, desprovido de anseios e desejos.
Mas a violência contra a mulher não é exercida apenas pelo “sexo oposto”, nem aparece somente sob a forma de agressão física. A agressão, muitas vezes, é simbólica e pode ser cometida pela própria mulher ou por outras mulheres, em nome do medo que a perda dos
supostos privilégios de um modelo de hegemonia masculina concede.
A agressão moral e/ou psicológica é tão devastadora quanto a física, e auxilia da mesma forma na manutenção de um sistema social e cultural repleto, ainda hoje, de desigualdades e injustiças. Ela reflete, tanto quanto agressão física, o domínio que se pretende ter sobre o corpo da mulher: o corpo que gera filhos, que trabalha, que dá prazer, que encarna a diferença e, por isso, um perigo ao outro, uma ameaça ao homem que sempre teve domínio, mesmo quando concedido pela própria mulher.
Esse domínio se dá de diferentes formas e pode ser sentido de formas muito mais sutis, na sociedade moderna. Os relatos das mulheres deste estudo deram indicativos de como, em alguns momentos, elas vivenciaram essas tentativas de dominação. Assim, alguns exemplos refletem, ao menos em parte, a forma como estas mulheres se relacionaram com seu próprio corpo ao longo do tempo.
Percebi que as reitoras de Santa Catarina souberam impor-se ao longo de suas trajetórias; proteger-se de diferentes formas contra as tentativas de domínio que foram lançadas contra si mesmas; seus corpos, seus trabalhos, seus sonhos, suas idéias. Essas dimensões não se dividem, mas se fundem na constituição de uma subjetividade possível, da possibilidade de se ver respeitada como um ser igual, embora diferente, que participa, que deseja, que sonha.
Sobre isso Diva deu um exemplo de quando estava numa reunião com outros reitores, todos homens e: “se a gente estivesse conduzindo um assunto, uma discussão, aí imediatamente os homens diziam: você pode secretariar? Secretarie, por favor! E eu dizia “Não! Não vou secretariar! Eu quero discutir! Secretarie o senhor”. (Diva)
Diva teve coragem. Coragem de negar um poder que se queria fazer sobre seu corpo, sobre si mesma. A resposta dela naquela situação legitimou sua participação. Se tivesse dito sim, poderia nunca ter sido respeitada. Ela disse o que ela queria fazer, o que estava ali para fazer, não aceitou imposições unilaterais. Ela não teve medo, qual acomete muitas mulheres por diferentes motivos.
As mulheres sempre aprenderam, desde muito cedo, a calar e a esquecer o próprio corpo, reprimindo a sexualidade, acatando papéis femininos e desapropriando-se de sua liberdade. Essa liberdade não se refere apenas ao sexo, mas especialmente a ele, assim como
de qualquer outra forma de expressão. Na civilização, esses comportamentos de repressão foram a via para que a humanidade pudesse emergir.
Embora muitos avanços tenham sido feitos, as mulheres de hoje certamente não se encontram totalmente livres de práticas que desde tempos imemoriais as aprisionam. Formas cada vez mais sutis de dominação foram criadas ao longo do tempo com objetivo de preservar uma situação que, até então, “deu certo”. A divisão injusta de papéis e de poder entre os gêneros ainda é uma forma aceita de violência que recai, de um jeito ou de outro, sobre a mulher, seu corpo, seu trabalho, sua vida.
As mulheres desse estudo enfrentaram tentativas implícitas e explícitas desse tipo de subjugação em suas vidas públicas, como no caso citado anteriormente por Diva: “Secretarie, por favor”. Situações como aquelas foram, na verdade, formas sutis e mascaradas de manter as mulheres “em seu lugar”, longe da discussão e das decisões. Elas tiveram que enfrentar tais situações, negar pedido como aquele que continha em si a violência que deveria tolhê-las, subjugá-las a trabalhos específicos, femininos.
Dentro de casa, na família, elas também aprenderam, ao menos em parte, a dizer “não”, a dividir de forma mais justa as tarefas que sempre impediram ou dificultaram suas vidas públicas. Aprenderam a salvaguardar seus direitos através da construção de uma relação com o cônjuge, o que lhes permitiu sua “auto-libertação” (Bernadete).
As mulheres deste estudo não se renderam, ao menos totalmente, à docilidade, à utilidade que seus corpos podiam ter numa sociedade machista, autoritária. Buscaram o resgate ou a construção de suas auto-estimas; não se contentaram com os papéis que lhes foram reservados, impuseram condições, disseram “não” às tarefas que lhes impediriam outras possibilidades.
Elas batalharam por espaços dentro do casamento, como já mencionei anteriormente. Elas foram “moças casadouras” (Bernadete), cujo maior desejo foi “casar, ser feliz pra sempre!” (Clarice). Mesmo assim, souberam dizer “faxina não é comigo!” (Clarice). Elas souberam construir uma relação onde seus maridos foram verdadeiros “companheiro[s]” (Elvira); dividindo as tarefas do lar, aceitando o destaque que a trajetória das esposas foi delineando. Bernadete, também, viveu em sua vida um processo de auto-afirmação.
Nunca aceitaram facilmente a troca da liberdade pela utilidade implícita que ser mulher e pertencer a um homem só pode significar. Nunca se renderam totalmente aos “privilégios” que suas classes sociais lhes reservavam. Isso não significa que tenham se rebelado, virado as costas para tudo aquilo que a mesma situação lhes possibilitava.
Alda sentiu todo o carinho e o calor da família reunida em uma sala de estar na leitura de muitos livros. Ela também pulou o muro, escondida do pai, para dar aula em uma escola vizinha; tomou banho de rio e bateu nos meninos. Enfrentou o pai, quando não quis trabalhar com ele na empresa da família.
Mas a educação do corpo, quase sempre, se dá por vias subterrâneas, sutis, como nas propagandas, nas leituras, nos cuidados, na escola. Alda sentiu o peso de possuir formas esbeltas, quando, na escola, os colegas lhe diziam: “pau de virar tripa!”. Mas isso não dizia nada dela; ela era outra pessoa. Alda refugiou-se nos livros.
Clarice passeou pelos campos, comeu pão com rapadura e realizou o sonho do casamento e de ter filhos. Também passou por três cesáreas e uma grave cirurgia. Contou com sua mãe e construiu uma relação de amizade com o marido. Sentiu-se frágil, perdeu-se de si mesma quando descobriu que tudo o que importava para os outros era: “quem é o teu marido?” (Clarice). Descobriu que isso não dizia quem ela era, descobriu que não era uma propriedade, que ela tinha uma identidade que precisava ser reforçada. Sua saída: o trabalho. Começou a dar aulas para crianças, parou por um tempo e, depois, tornou-se professora no ensino superior, mostrando como a vida de uma mulher pode ter caminhos, muitas vezes, interrompidos, onde é necessário equilibrar diferentes e diversas relações.
Por outro lado, os relatos de Diva mostram outras vias pelas quais o poder sobre o corpo da mulher ocorre. Vias subterrâneas nem sempre identificadas. Como para as outras mulheres deste estudo, tornar-se reitora, ser uma líder no meio acadêmico, fez com que Diva conhecesse os significados mais sutis do trabalho gerencial: a fluidez, a velocidade, a fragmentação; o corre-corre, o estar no limite, mudanças rápidas e constantes que, quando muito, deixam apenas rastros fugazes no tempo e no espaço.
Nesse ritmo, de uma forma ou de outra, elas sentiram o peso de certos imperativos: manter-se saudável, manter-se bela. Clarice demonstrou como algumas vezes se culpou por não ter tempo para cuidar de si, em meio ao trabalho que a universidade lhe exigia. Ela também se culpou por não conseguir manter certos cuidados com sua imagem, manter-se bonita e saudável: “eu faço academia, mas logo desisto, ai começo ioga e paro... então, eu não consigo ter uma rotina!” (Clarice).
O relato indica os contrapontos vividos pelas mulheres, mas também pelos homens, em posições de liderança: ritmos acelerados exigem, em contrapartida, práticas corporais que vão num outro sentido, de desaceleração, de relaxamento para que se possa tolerar o ritmo do trabalho.
Diva também passou por isso: “Eu nunca consegui fazer uma academia de ginástica mais do que um mês! Às vezes, eu pagava seis meses e ia só um mês! Eu sempre fui relapsa comigo mesma, sempre me senti assim! Mas acho que é o preço que você paga. Eu acho assim, um homem público, um profissional, paga esse preço!” (Diva).
Esses relatos mostram, em alguma medida, o preço que as mulheres, assim como os homens, precisam pagar com seus próprios corpos para chegar ao poder. Os relatos sugerem que hoje em dia, não basta ser eficiente para ser um executivo, é preciso ser saudável e estar em forma para ter poder.