• Nenhum resultado encontrado

Nas diversas sessões do Tribunal, realizadas até dezembro de 1758, os conselheiros debateram e deliberaram sobre algumas dúvidas que surgiram no decorrer dos trabalhos e que abarcaram a definição da jurisdição e a elaboração das instruções finais para o estabelecimento das vilas. Em relação à jurisdição, definiram como sendo a mesma da Comarca da Bahia que englobava as capitanias da Bahia, Sergipe de El Rei, Ilhéus e Porto Seguro e Espírito Santo. A dúvida originou-se ao indicar o responsável para transformar em vilas as aldeias de São João e de Patatiba, situadas na capitania de Porto Seguro, e as aldeias de Piritiba e dos Reis Magos, na capitania do Espírito Santo.

Ao analisarem essa questão, os conselheiros defrontaram-se com alguns fatores complicadores. Ambas as capitanias pertenciam à jurisdição eclesiástica do arcebispado do Rio de Janeiro. Este ainda não havia iniciado a execução das ordens relativas à substituição dos jesuítas por padres da Ordem de São Pedro e nem estabelecidas as vigararias nas das aldeias. Outro complicador envolvia as questões de jurisdição civil e militar, uma vez que as capitanias citadas eram subordinadas à jurisdição militar do governo da Bahia, mas, a capitania do Espírito Santo pertencia, pela jurisdição civil, à Relação do Rio de Janeiro e a de Porto Seguro à Relação da Bahia. Frente a essa constatação, foram levantadas as seguintes questões: como ficariam os problemas relativos aos padres jesuítas e aos bens da igreja? Os ministros poderiam erigir aquelas vilas enquanto não houvessem sido nomeados os padres regulares?205

Os limites territoriais e a abrangência da autoridade do vice-rei, como governante de todo o Estado do Brasil206, era outra complicação. As ordens reais não clareavam até onde o

Tribunal do Conselho podia “exercitar a sua jurisdição”. Indagou-se: a jurisdição do Tribunal deveria se estender a todo o Estado do Brasil ou, apenas, às comarcas que estavam sujeitas ao Governo da Bahia? A análise dessa questão resgatou uma dúvida levantada no

204 AHU_ACL_CU_005, cx. 139, Doc. 10701 [Avulsos, CD 17, 142, 02, p. 0250-0286] CONSULTA ... (De

agora em diante: AHU-Bahia, doc. 10701. CONSULTA, fl. ... (CD 17, 142, 2, p. ...).

205 AHU, doc. 10701. CONSULTA, fl. 64-66 (Avulsos, CD 17, 142, 2, p. 0282). 206 AHU, doc. 10701. CONSULTA, fl. 64 (CD 17, 142, 2, p. 0282).

encaminhamento das matérias do eclesiástico, tratadas pelo Tribunal da Mesa de Consciência. Se as ordens reais abrangeriam somente as aldeias sujeitas ao Arcebispado da Bahia ou todas do governo, ainda que no espiritual estivessem sujeitas a outros bispados, e se as reformas deveriam atingir as aldeias administradas pelas demais ordens religiosas ou apenas as administradas pelos jesuítas207.

Ao analisar as questões levantadas, o Conselho considerou a falta de pessoas capacitadas para execução das ordens. Frente a esse entrave aprovaram medidas a serem adotadas de imediato visando à continuidade dos trabalhos e, uma vez que não correspondiam ao cronograma traçado nas cartas régias e instruções, remeteram consulta ao rei208.

1. Foi confirmada a autoridade do Tribunal do Conselho para ordenar a criação das vilas ainda que o arcebispo não tivesse estabelecido as vigararias e nomeados os párocos. Portanto, poderia se criar as vilas nas aldeias das capitanias de Porto Seguro e do Espírito Santo adotando-se procedimentos específicos para orientar os ministros encarregados209.

2. Definiram que a jurisdição territorial do Tribunal Especial seria sobre a Comarca da Bahia e não a do Estado do Brasil, governado, em tese, pelo vice-rei, conde dos Arcos. 3. Sobre a dúvida se as ordens decretadas abrangiam todas as aldeias, mantiveram a

definição anteriormente assentada. Assumiram que, como era um ato de bondade de Sua Majestade, a liberdade era extensiva a todos os índios, embora a ação do Tribunal se limitasse, no período, aos aldeamentos administrados pala Companhia de Jesus da Comarca da Bahia. Posteriormente, todos os aldeamentos deveriam ser transformados em vilas ou lugares210.

No debate, os conselheiros lembraram à Mascarenhas que o mesmo já havia apresentado um mapa dos aldeamentos existentes na Comarca da Bahia. Essas informações reforçaram a deliberação de que a ordem real abrangia a todos os índios e a impossibilidade de os dois tribunais, com os poucos conhecimentos e falta de pessoas capacitadas, executarem as reformas ao mesmo tempo em todas as localidades. A elaboração do próprio mapa,

207 Ibidem.

208 AHU_ACL_CU_005, cx. 138, D. 10696 [Avulsos, CD. 17, 142, 02, doc. 0209-0222]. CONSULTA do

Conselho Ultramarino ao rei D. José sobre a inclusão nas Reais Ordens de todas as aldeias de índios que sejam administradas por outros religiosos, exceto as dos jesuítas. Anexo 2ª via.

209 AHU, doc. 10701. CONSULTA, fl. 65-69 (CD 17, 142, 2, p. 0282-0283). 210 AHU, doc. 10701. CONSULTA, fl. 67-68 (CD 17, 142, 2, p. 0282).

explicou Mascarenhas, foi resultado de um árduo esforço para obter as valiosas informações211.

O quadro reproduzido na Figura 7 foi elaborado pelo conselheiro Mascarenhas e anexado à consulta remetida ao rei. Destacam os treze aldeamentos administrados pelos jesuítas com a denominação, a população e identificação étnica. Situava os territórios às vilas, dioceses e capitanias que pertenciam e as novas denominações civis e eclesiásticas. Excetuando as denominações civis, foram identificados os demais 21 aldeamentos administrados pelos Capuchinhos Italianos, Carmelitas Descalços, Franciscanos e pelos clérigos do Arcebispado da Bahia. Quinze aldeamentos situavam-se na Capitania da Bahia, cinco em Sergipe de El Rei e dois na Capitania de Ilhéus, erroneamente identificados como sendo da Bahia (17 - Una do Cairu) e Porto Seguro (28 - Poxim). O referido mapa consta transcrito no Anexo 8 desta tese.

211 AHU_ACL_CU_005, cx. 138, D. 10696, fl. 6 [Avulsos, CD. 17, 142, 02, p. 0209-0222]. CONSULTA do

Conselho Ultramarino ao rei D. José sobre a inclusão nas Reais Ordens de todas as aldeias de índios que sejam administradas por outros religiosos, exceto as dos jesuítas.

FIGURA 7 - FAC-SÍMILE DO MAPA DE TODAS AS ALDEIAS SITUADAS NA COMARCA DA BAHIA,1758

Fonte: AHU, doc. 10701. CONSULTA (CD 17, 142, 3, p. 0581/0582). Anexo 42: “Mapa geral de todas as Missões [...]. Ba, 20 de dezembro de 1758”

Documentos relacionados