• Nenhum resultado encontrado

Alguns tipos de processos de gramaticalização

No documento Para a história do português brasileiro (páginas 112-117)

A EVOLUÇÃO DO SE REFLEXIVO EM PORTUGUÊS NA PERSPECTIVA DA GRAMATICALIZAÇÃO

3. Alguns tipos de processos de gramaticalização

Em Vitral (2005), testamos a metodologia resumida acima, tomando como objeto empírico o percurso da forma verbal ter. Esse é o nosso primeiro tipo de processo de gramaticalização, porque, ao distinguir no emprego de ter, as funções f.Lex e f.Gra, isolamos formas distintas, como os exemplos abaixo o mostram:

(3) f.Gra: Ele tem comprado bugingangas. f.Lex: Ele tem um carro novo.

Em (3), no nível sintagmático, o item ter é seguido de itens de categorias distintas, isto é, um sintagma verbal quando é classificado como f.Gra; e um sintagma nominal quando é classificado como f.Lex. Este fenômeno mostrou-se um teste confiável para nossa metodologia, na medida em que conseguimos documentar o incremento do emprego da forma ter como auxiliar e sua conseqüente redução enquanto verbo lexical.

É preciso estar claro nesse ponto que, já que o uso de ter lexical continua um recurso produtivo da língua, ocorre, como efetivamente encontrado, incremento global dessa forma, isto é, somados seus usos enquanto f.Lex e f.Gra.

Há, no entanto, um segundo tipo de processo de gramaticalização no qual depara- se com formas iguais. Trata-se da análise de gramaticalização dos verbos modais, isto é, querer, dever e poder, examinados por Vianna (2000). Observemos o exemplo seguinte:

(4) Ele pode encontrar a Maria.

A oração em (4) pode ser analisada como uma oração simples – e, nesse caso, teríamos o modal funcionando como auxiliar, o que pode ser definido como f.Gra; ou como uma oração composta, isto é, encontrar a Maria seria analisada, de acordo com a nomenclatura tradicional, como uma oração subordinada objetiva direta reduzida de infinitivo, o que caracterizaria o modal como f.Lex. Podemos também extrair de (4) o significado epistêmico, isto é, o de “probabilidade”, que gostaríamos de associar com f.Gra e o significado agentivo, ou seja, o de “capacidade”, que caracteriza f.Lex. Colocado em outros termos, haveria a seguinte distribuição das funções f.Gra e f.Lex de acordo os tipos de complementos que exigem:

(5) f.Lex: modal seguido de [CP] Onde: [CP] = Sintagma Complementizador f.Gra: modal seguido de [VP] [VP] = Sintagma Verbal

Como se vê, então, as ocorrências modal + [CP] e modal + [VP] podem apresentar, superficialmente, formas iguais. A diferença estrutural que caracteriza as duas funções, que é aparente, ou sintagmática, no primeiro tipo de processo de gramaticalização, só será obtida, no caso dos modais, através da aplicação dos Critérios Sintáticos mencionados acima, ou seja, quando o fenômeno em análise envolver formas iguais, será preciso examinar a produtividade do comportamento sintático do item I enquanto caracterizador das funções f.Gra e f.Lex. Ou seja, através de teoria sintática, determinar-se-á que distribuição sintática evidencia o comportamento do item nas funções f.Gra e f.Lex e com que freqüência esse comportamento ocorre.

No caso dos verbos modais, por exemplo, os aspectos sintáticos considerados foram os seguintes: a) ausência (ou redução) de material interveniente, isto é, vocábulos separando o modal do infinitivo; b) a possibilidade de alçamento de clítico, alojando-se à esquerda do modal na estrutura modal + infinitivo; e c) a impossibilidade de negar o

infinitivo separadamente. Esses aspectos sintáticos permitiram distinguir o comportamento dos modais enquanto verbo lexical e enquanto verbo auxiliar. Como dissemos, uma teoria sintática, que, no nosso caso, é a Gramática Gerativa, deve ser empregada de forma a justificar essas decisões. Assim, considerando que, enquanto classificado como auxiliar, o modal toma um sintagma verbal como complemento, não se espera a presença de material interveniente (ou em quantidade muito reduzida; por exemplo, certos advérbios); prevê-se que o clítico possa alçar devido à ausência de Barreiras (cf. Chomsky (1986)); e o fato de haver uma oração simples não permite a negação independente do verbo que está no infinitivo.

Esperou-se assim encontrar, comparados os períodos, (1º) redução de material interveniente; (2º) maior ocorrência de alçamento de clítico e (3º) redução da negação do verbo que está no infinitivo. Em relação à primeira e à terceira expectativas, fomos correspondidos, mas não em relação à segunda: o alçamento do clítico aumentou considerando-se os períodos arcaico e moderno, contudo, no período contemporâneo, esse fenômeno diminuiu consideravelmente. Esse problema mostra a complexidade da nossa tarefa, já que comparamos dados do português europeu nos dois períodos iniciais com dados do português brasileiro contemporâneo. Uma hipótese para tratar dessa questão é que, em lugar de falar de “desgramaticalização”, preferiu-se cruzar nossos resultados com o fato, documentado na literatura, de haver, no dialeto brasileiro, queda acentuada do uso de clíticos acusativos.

Nesses dois casos, partimos da identificação de uma f.Lex e a cotejamos com uma f.Gra. Tudo se passa diferentemente com o terceiro tipo de processo de gramaticalização que destacaremos. Nesse terceiro tipo, que é a análise de gramaticalização da forma se, da qual nos ocupamos neste trabalho, o recorte do percurso envolve, já num primeiro momento, a identificação de uma f.Gra que se expande na língua, assumindo outras f.Gra, ou, em outras palavras, são inovações que, a partir de uma forma gramatical, geram outras formas “mais gramaticais”. Assim, tomando como ponto de partida seu uso como reflexivo, oriundo do pronome reflexivo latino SE, acusativo e ablativo, que, por sua vez, se vincula à raiz indo- européia *SE-, que significa “à parte, separado, para si”, de acordo com Romanelli (1975:169), se expande-se na nossa língua de maneira a formar a chamada construção passiva sintética e, posteriormente, a construção com sujeito indeterminado (cf. Said Ali (1950,1966), Maurer Jr. (1951); Naro (1976); Nascimento (1984); Nunes (1990)). Observem-se os exemplos:

(6) a. João barbeou-se.

b. Construíram-se duas casas naquele lote. c. Vive-se bem no interior.

Note-se que, no caso do se, as “saídas” geradas pela gramática interna são, como no caso de ter, formas distintas, mas isso não se dá num nível exclusivamente sintagmático, ou seja, não é na linearidade estrita dos itens que as captamos: inclui a averiguação das relações de concordância e da transitividade dos verbos.

Podemos considerar, assim, que a partir de sua raiz indo-européia, que realiza uma função lexical, se, já no latim, desempenha uma função gramatical, como pronome reflexivo, que, posteriormente, se expande, em nossa língua, em duas outras funções gramaticais, isto é, como apassivador e como índice de indeterminação do sujeito. É preciso dizer, no entanto, que esses três usos não esgotam a trajetória dessa forma que é, como veremos a seguir, bastante complexa e permitir-nos-á desenvolver certas questões concernentes ao ciclo da gramaticalização proposto por Hopper e Trauggot (1993).

Vejamos a seguir os corpora utilizados e a análise de gramaticalização da forma se, que se baseou nos dados de Lima (em elaboração).50

4. Os corpora

Atento às diretrizes que determinam a escolha de textos que devem compor os corpora para uma análise de gramaticalização (cf. Vitral (2005)), Lima (op. cit) selecionou os textos abaixo. É interessante observar a necessidade de haver variação dos gêneros dos textos para que seja disponibilizado o maior número possível de ambientes semânticos. Ora, dependendo do fenômeno em análise, o uso de um único gênero pode gerar um ambiente propício para o aparecimento, em número elevado, do item em análise com uma acepção específica, o que camuflaria os resultados.

Utilizamos a separação dos textos por período, de acordo com a literatura consultada (Mattos e Silva (1989)), isto é, os períodos arcaico (séculos XIV ao XVI), moderno (XVII e XVII) e contemporâneo (séculos XX e XXI). Considerou-se, por outro lado, sem discussão, que há uma continuidade em vários níveis entre o português europeu e o brasileiro, que é suficiente para tomarmos como válidas as comparações entre os períodos. Essa tomada de posição não é sem problemas, como veremos na discussão da queda de produtividade do pronome se no período contemporâneo.Vejamos agora os textos selecionados:

Período Arcaico

Período Moderno

Código Texto Descrição Datação No de

palavras CDJ Crônica de D.João Trecho da

Crônica do Rei D. João 1437/1450 9.746 TLL Livro de Linhagens Trecho do livro de

Linhagens Meados século XIV. 6.907 VER Vereações do Funchal Atas/Câmara de Vereadores Funchal - Portugal 1485 e 1486 7.901 PED Conselhos de Duarte Cartas de Dom Pedro e do Conde Arraiolos 1426 a 1434 9.438

Código Texto Descrição Datação No de

palavras

CJB Cartas dos primeiros

jesuitas do Brasil Cartasinformativas 1550 9.738

TTB Tratado da terra do Brasil Gândavo Texto de caráter informativo 1550 9603

AVE Aves Ilustradas (Novelistas e contistas portuguesas) Texto moral e fabulas para religiosos nos mosteiros 1738 10.925

COB Cultura e Opulência

do Brasil Tratado sobrecomo conduzir

um engenho de cana

1711 10.383

SES Carta de Sesmaria ao Coronel Matias Barbosa Documentos cartoriais de Barra Longa - MG 1736-1786 6.942

Período Contemporâneo

No documento Para a história do português brasileiro (páginas 112-117)