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O objeto de estudo: as sentenças clivadas

No documento Para a história do português brasileiro (páginas 168-172)

PERÍODO V2 por

2. O objeto de estudo: as sentenças clivadas

É comum a distinção entre sentenças básicas, neutras ou sentenças não-marcadas, e sentenças marcadas. As clivadas fazem parte do segundo grupo. As sentenças clivadas são geralmente vistas como um tipo relacionado com focalização, em que X é o foco nas estruturas “é / foi X que ...” / “X é / foi que ...”.

73 Diogo de Couto nasceu em 1542 e morreu em 1606. Talvez seja melhor identificá-lo como do século XVI. 74 Consideramos como do PC a documentação escrita entre os inícios do século XVI e fins do XVII. 75 Incluímos aqui a documentação escrita até os inícios do século XVI.

Os quatro tipos mais básicos de realização focal no PB atual, incluindo a sentença neutra, estão listados a seguir:

(4) a. (Maria (encontrou { João } )) (Sentença neutra )

b1. Foi o JOÃO que Maria encontrou (Clivada (It-cleft))

b2. Foi esse CD que Maria comprou

c1. O JOÃO é que Maria encontrou. (Clivada invertida)

c2. ESSE CD é que Maria comprou

d1. Quem Maria encontrou foi JOÃO (Pseudo-clivada (Wh-cleft))

d2. O que João quer comprar é ESSE CD.

e1. JOÃO foi quem Maria encontrou (Pseudo-clivada invertida)

e2. ESSE CD é o que o João comprou. (Kato et alii 1996)

O constituinte em itálico no exemplo em (4a) marca o foco informacional (ou foco largo), sobre o qual recai o acento nuclear. O foco pode ser apenas o objeto ou o verbo + o objeto ou a sentença toda, isto porque o foco largo tem a propriedade de se propagar da direita para a esquerda (Cinque 1990). O foco informacional responde a perguntas-Q cujo escopo pode ser o último elemento da sentença não-marcada ou qualquer constituinte que o contenha:

(5) A - O que o vizinho comprou? B - Ele comprou um Fiat novo.

(6) A - O que o vizinho fez ? B - Ele comprou um Fiat novo.

(7) A - O que é engraçado?

Por outro lado, os constituintes em caixa alta, nos exemplos em (4), indicam a posição do acento sobre o foco quantificacional, ou foco estreito76. É o foco quantificacional que se relaciona com as leituras semânticas de contraste, exclusividade e exaustividade. Desse modo, o constituinte em caixa alta identifica o valor (ou o referente) de uma variável X, a partir de um subconjunto exaustivo de elementos, contextualmente definido.

Observa-se que as orações clivadas e as pseudo-clivadas podem ter uma interpretação de foco informacional ou contrastivo, enquanto as pseudo-clivadas inversas e as clivadas inversas só podem ter interpretação de foco contrastivo. Os seguintes contextos ilustram estas possibilidades:

Resposta: foco informacional:

(8) A - O que é/foi que o vizinho comprou?

B - Foi O NOVO FIAT (que ele comprou). (Clivada)

O que ele comprou foi O NOVO FIAT. (Pseudo-clivada)

# O NOVO FIAT é que/o que ele comprou. ((Pseudo-)clivada inversa)

Resposta: foco contrastivo

(9) A - Seu vizinho comprou o novo Corola?

B - Não, foi O NOVO FIAT que ele comprou (Clivada) Não, o que ele comprou foi O NOVO FIAT. (Pseudo-clivada)

Não, O NOVO FIAT é que / o que ele comprou. ((Pseudo-)clivada inversa) Além dos tipos básicos apresentadas em (4b-d), outras possibilidades de clivagem são atestadas no PB (como também em outras línguas), como as apresentadas nos estudos de Modesto (2001)77, Kato et alii (1996) e Kato (1989):

(10) a. É a SUZANITA quem quer casar (Modesto 2001) (Pseudo-clivada extraposta) b. Quero é que VOCÊ VÁ PRA CASA (Kato et alii 1996) (Pseudo-clivada reduzida) c. MARIA que chegou (Kato 1989) (Clivada sem cópula)

76 Outros acentos secundários podem ocorrer, a depender do contexto. Observa-se que, em contexto apropriado, (4a) também pode ter uma leitura de foco estreito.

77 Modesto trata casos de inversão dos tipos abaixo como casos de pseudo-clivadas, mas nossa análise para essas estruturas é distinta.

Existem ainda, no PB, outras construções com é que, mas que não são exemplos de clivadas, pois não se pode derivar, a partir delas, os efeitos de contraste e/ou exclusividade. Assim, é que pode ocorrer em construções dos tipos exemplificados em (11) abaixo, estabelecendo um foco informacional.

(11) a. A - Por que você está mancando?

B - É que meu pé tá doendo (é que explicativo/causal)

b. A - O que aconteceu?

B - É meu pé que tá doendo (é que apresentador)78 B’ - É que meu pé tá doendo (é que apresentador)

Realizações de é que desses tipos foram excluídas da análise.

As línguas humanas apresentam variações quanto às possibilidades de realização do foco contrastivo por movimento do constituinte focalizado ou por clivagem, ou seja, nem todas as estratégias estão disponíveis para todas as línguas79.

Lambrecht (2001:20-21) apresenta contrastes translingüísticos ilustrativos (mas não exaustivos) das possibilidades de variação na marcação do foco contrastivo e informacional, como os seguintes (caixa alta indica constituinte acentuado, focal)80:

Foco contrastivo:

(12) Contexto: Is your knee hurting? (Seu joelho está doendo?)

a. No, my FOOT hurts. / No, it’s my FOOT that hurts (SV/it-cleft) b. Nein, mein FUSS tut weh. (SV)

c. No, mi fa male il PIEDE. / No, è il PIEDE che mi fa male (VXS/it-cleft) d. Non, c’est mon PIED qui me fait mal (it-cleft)

e. Não, o meu PÉ tá doendo. /Não, o meu PÉ que tá doendo (SV/que-cleft) Não, é o meu PÉ que tá doendo. (PB) (it-cleft)

Não, o meu PÉ é que tá doendo (it-cleft inv.)

Assim, a depender do contexto, as línguas podem apresentar variação em relação ao tipo de estratégia possível para indicar o foco contrastivo: (i) mudança da estrutura

78 Cf. Casteleiros 1979.

79 Acredita-se que a variação está diretamente relacionada com as escolhas que cada língua faz em relação ao seu léxico e aos traços gramaticais que o caracterizam.

prosódica em inglês, em alemão e em PB (SV em lugar de SV)81; (ii) inversão da ordem canônica entre sujeito e predicado (VXS em lugar de SVX, em italiano)82; (iii) it-cleft, opcional em inglês, em italiano e em PB, mas obrigatório em francês 83.

Para as respostas listadas a seguir, segundo um contexto como o apresentado em (13), observam-se diferentes possibilidades de realização do foco informacional (ou sentence-focus, segundo Lambrecht 2001):

Foco informacional:

(13) Contexto: Why are you walking so slowly? (Por que você tá andando tão devagar?)

a. My FOOT hurts. (SV)

b. Mein FUSS tut weh. / Mir tut ein FUSS weh. (SV / OVS) c. Mi fa male um PIEDE. / Ho un PIEDE che mi fa MALE. (VS / have-cleft) d. J’ai mon PIED qui me fait MAL (have-cleft) e. Meu PÉ tá doendo / Tô com meu PÉ doendo/ (SV / estar-cleft) É que meu PÉ tá doendo (É QUE-apresentativa) Como se vê, os exemplos em (13) também apresentam variação formal, tendo como constante só o acento sobre o local da dor (ou seja, meu pé): (i) em inglês, em PB e em alemão, a ordem prosódica inversa, com acento no sujeito (SV); (ii) em alemão também é possível a ordem XVS, com o objeto fronteado; (iii) inversão da ordem sujeito-predicado em italiano (VXS); (iv) construção HAVE-cleft, opcional em italiano,

obrigatória no francês falado84; (v) construção ESTAR-cleft em PB e ainda a É QUE- apresentativa.

No documento Para a história do português brasileiro (páginas 168-172)