4. INDICADORES AMBIENTAIS COMO INSTRUMENTO DE SUPORTE À
4.4 ANÁLISE MULTICRITERIAL E O PROCESSO DECISÓRIO
Por envolver uma grande quantidade de informação, tendo que atender a di- versos grupos e interesses diversos, o processo decisório, envolvendo a gestão dos re- cursos hídricos, requer uma estruturação de diversos critérios e objetivos. Nesse sentido, VOOGD (1983) comenta que a análise multicriterial se enquadra como uma possibili- dade de investigação de um número de possibilidades à luz de múltiplos critérios e prio- ridades conflitantes, além de apoiar à tomada de decisão.
Nas três últimas décadas tem havido um aumento na consciência da neces- sidade de se identificar e considerar, simultaneamente, vários objetivos, ou critérios, na análise de soluções de problemas, sobretudo no estudo de sistemas ambientais (ZUFFO, 1998).
Um modelo de poucos objetivos dificilmente reflete as necessidades de um processo decisório que vise atender diversos interesses. Quase sempre os grupos que participam desse processo não têm as mesmas concepções e objetivos, não havendo assim uma única solução ótima para um só grupo, mas sim aquela que contempla o maior número de grupos.
Nesse sentido, para a elaboração de indicadores, um conjunto de observa- ções, dados e conhecimentos devem ser sistematicamente ordenados e condensados em uma informação chave. Assim, os indicadores devem ser agrupados para formar um sistema que sirva como base para avaliação do estado vigente e desenvolvimento do
sistema analisado. Em comparação com um sistema de relatório ambiental, os indicado- res ambientais25 são caracterizados por um maior nível de agregação (WALZ, 2000).
Em linhas gerais, a produção de informação para o processo de tomada de decisão implica numa síntese e agregação. Segundo WINOGRAD (2000), tal síntese é representada como uma pirâmide (Figura 17), na qual índices são resultantes da síntese máxima de indicadores, que se baseiam em dados primários ou em estatísticas derivadas de sua análise.
Figura 17 – Pirâmide de informação Fonte: Adaptado de WINOGRAD (1995).
BAKKES, et. al. (1994), mencionam que um índice pode ser considerado como um conjunto de parâmetros ou indicadores agregados ou ponderados que resultam de uma combinação de várias variáveis expressas de maneira única, resumindo grande quantidade de informação relacionada e atribuindo um peso relativo a cada um de seus componentes.
Os indicadores e índices, segundo WINOGRAD (1995), podem auxiliar a sintetizar um grande volume de informação técnica, definindo temas prioritários e me- didas necessárias, identificando problemas e áreas de ação, objetivos a serem fixados, metas de qualidade ambiental a serem alcançados, medição e divulgação de informações sobre tendências, evolução e condições dos recursos naturais.
25 É importante salientar que indicadores ambientais priorizam aspectos ambientais e consideram aspectos sociais e econômicos na medida em que esses se apresentam diretamente relacionados a eles. Seu uso, se- gundo BAKKES et. al. (1994), requer uma adaptação ou reavaliação, pois pode apresentar lacunas em relação a outros aspectos preponderantes e realçar aspectos de menos importância em relação ao fenô- meno estudado.
Entretanto, o uso de índices não é consensual entre os países e organismos internacionais. BAKKES et. al. (1994) descrevem o que seria a clássica dicotomia das visões em torno de índices. Uma visão defende que os dados devem ser disponibilizados na forma mais completa, mesmo que sua complexidade resulte numa limitação de uso devido à linguagem utilizada. E a visão oposta, que prefere dados da forma sintética, apesar das distorções possíveis devido ao processo de simplificação.
Quanto menos definidas forem as metas e objetivos, menos apropriado é o uso de indicadores agregados ou índices. Nesses casos, preferem-se dados e indicadores simples para identificar os problemas e áreas prioritárias. WINOGRAD (1995) estabe- lece uma relação entre escala, nível de informação e uso. A Tabela 30 apresenta os ca- sos em que o uso de indicadores simples ou índices são mais apropriados.
Tabela 30 – Relação entre escala, nível de informação e uso de indicadores
Escala Nível de
Informação Uso
Global Índices e Indicadores Agregados
Acompanhamento de temas prioritários e áreas com problemas.
Negociação e definição de políticas e ações. Regional/
Continental
Índices e Indicadores Agregados e Indicado-
res Simples
Identificação e acompanhamento de temas prioritários e áreas com problemas.
Definição de estratégias e ações.
Nacional
Índices e Indicadores Agregados e Indicado-
res Simples
Identificação e acompanhamento de áreas com problemas.
Definição de estratégias e ações.
Análise de causas, efeitos e respostas poten- ciais
Local Indicadores Simples Dados Analisados
Identificação de temas prioritários. Análise, acompanhamento e verificação de ações e res- postas.
Fonte: Adaptado de WINOGRAD (1995).
Para WINOGRAD et. al. (1995), esse processo deve ser realizado em dife- rentes níveis da sociedade, levando-se em conta diversos aspectos culturais, sociais, econômicos, institucionais, políticos e ambientais. Modelos tradicionais de tomada de decisões, focados em respostas para problemas percebidos isoladamente, acabam tor- nando-se parte do problema.
BAKKES et. al. (1994) mencionam a existência de três fases neste processo: a identificação do problema, o desenvolvimento de políticas para atacá-lo/solucioná-lo e
o monitoramento dos resultados. Para MOLDAN (1997) esse processo se estrutura de uma forma mais detalhada, em cinco estágios, conforme apresenta a Figura 18.
Figura 18 – Cinco estágios do ciclo de tomada de decisões Fonte: MOLDAN (1997).
Levando em consideração a necessidade constante do processo de tomada de decisões na gestão dos recursos hídricos, em específico em se tratando do uso agrí- cola das águas, percebe-se que há a necessidade de um processo dinâmico e cíclico. Trata-se de um processo que tome como fundamento um grande conjunto de informa- ções (características físico-naturais, econômicos- sociais, dentre outras) e que venha a atender uma gama variada de objetivos, fundamentos e interesses (previsões do arca- bouço legal e as recomendações institucionais). A análise de bacias hidrográficas, a par- tir do uso de multicritérios, se mostra aplicável nesse sentido, uma vez que possibilita a busca por atender diversos pressupostos, princípios, fundamentos e objetivos.
5. CRITÉRIOS DE ANÁLISE E CONSTRUÇÃO DO PAINEL DE INDICADO-