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2. REVISÃO DE LITERATURA

2.4. Fatores a serem considerados no processo de resfriamento e/ou

2.4.4. Diluidores de sêmen de suíno

2.4.4.1. Componentes dos diluidores

2.4.4.1.8. Antibióticos

O processo de coleta do sêmen no varrão está longe de ser um procedimento estéril. Desta forma, ejaculados suínos, mesmo que recentemente coletados, tem contaminação bacteriana. Os efeitos negativos da bacteriospermia parecem ser concentração dependentes, afetando a qualidade e longevidade espermáticas in vitro, pré e pós diluição. Devido à natureza concentração dependente desta interação, tempo e ambiente são também componentes críticos na influência negativa que as bactérias podem exercer sobre os espermatozoides (Althouse e Lu, 2005).

Tendo em vista que a contaminação bacteriana é essencialmente inevitável quando se coleta o sêmen de um varrão, os antibióticos têm sido considerados constituintes essenciais na composição dos diluidores de sêmen que os envolve. Assim,

80 as primeiras fórmulas dos diluidores de

sêmen tinham poucas opções de antibióticos disponíveis, sendo que a maioria apresentava uma combinação de penicilina com estreptomicina. Atualmente, antibióticos mais efetivos de amplo espectro estão disponíveis, com os aminoglicosídeos sendo a classe mais popular de antibióticos usados nos diluidores comerciais, incluindo a gentamicina, neomicina e kanamicina (Gadea, 2003; Althouse e Lu, 2005). Martín-Rillo et al. (1994) levantaram a hipótese de que um dos fatores que poderiam aumentar o período de conservação do sêmen do varrão, armazenado a 15°C, seria a adição aos diluidores, não apenas de determinados antibióticos, mas sim de uma associação dos mesmos, capaz de potencializar a ação antibacteriana. De acordo com autores da Espanha, a associação de kanamicina ou gentamicina como um dos membros, demonstrou máximo efeito no controle de diferentes gêneros de bactérias do sêmen de varrões.

A maioria das bactérias contaminantes do sêmen é gram-negativa, com grande percentagem se originando da família Enterobacteriaceae (Althouse et al., 2000; Althouse e Lu, 2005). No entanto, mais de 13 gêneros de bactérias foram isolados do sêmen suíno contaminado, tanto do tipo entérico (Enterobacter cloacae, Escherichia

coli, Serratia marcescens) quanto não

entérico (Burkholderia cepacia, Alcaligenes

xylosoxidans, Stenotrophomonas [Xanthomonas] maltophilia) (Althouse et al., 2000). Demonstrou-se, em um estudo,

que estas seis bactérias responderam por 71% de todas as amostras de sêmen contaminadas, sendo que todas as bactérias contaminantes demonstraram resistência à gentamicina, ou seja, ao antibiótico mais comumente utilizado nos diluidores comerciais de sêmen suíno. Alguns gêneros de bactérias contaminantes produzem um ambiente acidificado; embora cepas de dois

gêneros (E. coli; S. maltophilia) tenham exibido atividade espermicida na ausência de ambiente ácido (Althouse et al., 2000). Pode-se afirmar, então, que as bactérias são componentes normais do ejaculado do varrão, existindo relatos de concentrações acima de 109 UFC/mL (Althouse et al., 2000; Althouse e Lu, 2005).

Em condições de monta natural, a contaminação de um ejaculado parece ter pouco efeito sobre a fertilidade (Althouse et

al., 2000). No entanto, quando tecnologias

são incorporadas ao manejo reprodutivo, como, por exemplo, o processamento do sêmen e IA, pode haver introdução de fatores que potencializam os efeitos lesivos das bactérias sobre os espermatozoides. Tal situação foi agravada pela crescente prática do uso de diluidores de longa duração (>4 dias), nos programas de IA. Tanto o grau de contaminação bacteriana durante a coleta e processamento do sêmen, quanto o tempo de armazenamento das doses, contribuem para os efeitos espermicidas das bactérias (Althouse et al., 2000; Althouse, 2008). As bactérias parecem exercer seus efeitos espermicidas diretamente (Auroux et al., 1991; Diemer et al., 1996; Althouse et al., 1998). Em experimentos controlados, demonstrou-se que a redução da motilidade e a indução da aglutinação espermática foi exibida em amostras de sêmen, após uma relação espermatozóide:bactéria de 1:1. Além disso, os efeitos da contaminação bacteriana no sêmen suíno não são imediatos, necessitando de 36 a 48 horas de armazenamento para que sejam observados (Althouse et al., 2000).

As bactérias são organismos muito resistentes e com alta capacidade de sobrevivência e adaptação a uma grande variedade de condições. Como os diluidores de sêmen são produzidos, especificamente, para nutrir e prolongar a viabilidade espermática in vitro, estes mesmos atributos o tornam um meio de cultura em potencial,

81 onde as bactérias podem prosperar

(Althouse e Lu, 2005).

Para minimizar os efeitos da contaminação bacteriana no sêmen diluído, uma alternativa seria o armazenamento do sêmen a temperaturas inferiores a 15°- 18°C, uma vez que nesta faixa de temperatura não há completo impedimento da multiplicação bacteriana (Weitze, 1990b). Com a queda da temperatura do meio, há mudança na fluidez da membrana plasmática acompanhando a queda da taxa de crescimento e metabolismo. Este fenômeno é usado para reduzir o metabolismo e induzir a dormência celular no sêmen diluído. Entretanto, de acordo com Althouse e Lu (2005), embora seja benéfico para a longevidade espermática, a redução da temperatura pode ser ainda mais benéfica para as bactérias contaminantes, uma vez que estas possuem o maquinário intracelular necessário para se adaptar a temperaturas mais baixas. Desta forma, todas as bactérias possuem sua temperatura ótima (To) para crescimento. Assim, quando são expostas a temperaturas acima desta To há aumento na fluidez da membrana plasmática, com concomitante alteração da função celular e queda no crescimento. Diante disto, quando se busca a eliminação das bactérias de um diluidor, esta adaptabilidade térmica pode se tornar um desafio, mesmo na presença de níveis adequados de antibióticos, ao qual estas são sensíveis. No geral, com a queda da temperatura, os níveis de antibióticos devem aumentar substancialmente. Supõe- se que a explicação para a mudança na sensibilidade bacteriana aos antibióticos se deva à alterações na permeabilidade da membrana e interações ligantes-receptores, temperatura dependente. Estudos recentes suportam haver necessidade da elevação da temperatura na sensibilidade das bactérias aos antibióticos utilizados nos diluidores. Um melhor entendimento sobre o comportamento bacteriano no sêmen diluído pode ajudar no desenvolvimento de

estratégias durante o processamento e armazenamento do sêmen, visando-se eliminar a contaminação de forma efetiva. Estratégias que considerem ser o crescimento bacteriano temperatura dependente, bem como um aumento da atividade antimicrobiana diante de elevações desta temperatura, são válidas para o controle efetivo da contaminação bacteriana (Althouse e Lu, 2005).

2.4.4.2. Controle da qualidade