CAPÍTULO 2 – SURGIMENTO DAS NOVAS GRAMÁTICAS POLÍTICAS: O PROCESSO DE STATE
2.1 A gramática do corporativismo
2.1.1 As vertentes estatal e societal do corporativismo
É possível identificar pelo menos duas vertentes principais nos estudos corporativistas. No primeiro caso, o corporativismo está frequentemente associado aos países com atuação estatal baseada no autoritarismo, e às tradições patrimonialistas do Estado em relação à sociedade. Já na outra vertente, a ênfase seria dada ao protagonismo dos grupos sociais e à sua organização “espontânea”, que favorece a cooperação para sua representação em nível do Estado, que os reconhece e legitima. Existe, nesses termos, uma receptividade da literatura em assumir essas diferentes abordagens como produtivas para o estudo de diferentes realidades e tradições político-sociais. Schwartzman, por exemplo, aponta que o termo “corporativismo” tem sido usado na literatura para tratar de situações de participação restrita ou de monopólio de representação, nas quais determinados atores possuem uma posição privilegiada de acesso aos recursos de poder. Esses casos caracterizam sociedades organizadas de forma estamental, comumente associadas a propostas políticas de regimes autoritários, em particular os de inspiração católica conservadora. Entretanto, o autor reconhece que
é necessário distinguir os sistemas corporativos de tipo autoritário, baseados no ordenamento hierárquico da sociedade por um Estado forte, daquelas formas de corporativismo resultantes da reorganização de setores importantes da sociedade, após os efeitos devastadores da revolução burguesa.96
Tal classificação leva em consideração a existência de um Estado forte, que, na perspectiva adotada por Schwartzman, parece ser uma condição para a manifestação de relações corporativas no sentido tradicional do termo. Ele empreende uma análise que está mais interessada nas relações em que há cooptação política, mas considera o corporativismo uma característica do sistema por se tratar de uma herança da estrutura legal criada desde Vargas para o
96 SCHWARTZMAN, Simon. Bases do autoritarismo brasileiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1982, p. 52.
enquadramento e a representação de classes. O Ministério do Trabalho e o sistema previdenciário seriam exemplos bastante claros dessa intenção. Entretanto, para o autor, os sistemas de cooptação ocupam um lugar intermediário entre os sistemas corporativos e a política aberta de grupos de interesse.97 A cooptação política refere-se a um sistema com uma participação política débil e dependente. Um controle de sentido hierárquico (de cima para baixo) é exercido pelo Estado, que tem características patrimoniais. Se bem que o autor trata de chamar de neopatrimonial, pelo fato de se ter no Brasil um modelo em que se encontram características patrimoniais de relação Estado-sociedade, com traços marcantes de “modernidade” no sistema normativo estatal, produzindo o que se poderia chamar de “patrimonialismo burocrático” (ou neopatrimonialismo).
A relação entre cooptação política e representação já havia sido objeto de Schwartzman em trabalho anterior. Baseando-se na distinção entre sistemas de autoridade de tipo hierárquico e de tipo piramidal,98 o autor desenvolve uma análise sobre a relação entre Estado e sociedade. Schwartzman leva em consideração as formas de participação política mais típicas de cada um dos sistemas de Apter e verifica que os termos representação e cooptação assumem grande utilidade analítica. Enquanto o conceito de representação corresponderia a um tipo de articulação de interesses e vontades “de baixo para cima” (a fim de influenciar, dirigir ou mesmo comandar), a cooptação seria uma participação essencialmente situacionista e dependente. No Brasil, segundo o autor, predomina o padrão hierárquico de participação política, que é realizada por certo grau de cooptação da liderança política pelo centro de poder. Entretanto, a representação política, na qual há uma tendência de a sociedade civil controlar os seus representantes, também tem sido vigente no país. A preocupação central desse trabalho são as relações entre essas duas formas de participação, ou, em suas palavras,
97 SCHWARTZMAN, Simon. Bases..., op. cit., p. 53.
98 Proposto por David Apter em APTER, David. Notes for a Theory of Non-Democratic Representation, In: Some Conceptual Approaches to the study of Modernization, Prentice Hall Inc., 1968, recuperado em SCHWARTZMAN, Simon. Representação e cooptação política no Brasil.
verificar a tese de que a história política brasileira tem sido a de um conflito entre duas linhas primordiais de desenvolvimento, uma “de baixo para cima”, conduzindo aos esforços de representação política, e outra “de cima para baixo”, levando à cooptação.99
No decorrer da sua análise, Schwartzman argumenta que o Brasil apresenta um processo de desenvolvimento baseado em duas linhas diferentes que, em certa medida, são divergentes: haveria então o que chama de “a dualidade brasileira”. Esta dualidade é devida à dualidade entre as fontes econômica e política de poder, entre uma estrutura de poder hierárquica por um lado, e uma estrutura de poder contratual e piramidal, por outro.100 A primeira, representada pela economia ligada ao mercado internacional (baseada fundamentalmente no Estado de São Paulo). A segunda, gerada pelo centro do poder político (Rio de Janeiro apoiado em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, entre outros). O autor chama a atenção para o fato de a dualidade fugir à interpretação baseada numa perspectiva segundo a qual o regime político refletiria o sistema de produção, ou o poder político determinaria o que ocorre em outras esferas da sociedade. Assim, a história do Brasil pode ser descrita em termos das relações entre estes dois pólos e, reforça Schwartzman, é bastante claro que não se pode compreender a história política brasileira se esta contradição entre os pólos econômico e político de desenvolvimento do país não é posta no centro da análise.101
Voltando à distinção entre os “corporativismos” temos, por um lado, aqueles estudos nos quais os traços de um corporativismo de corte estatal são mais evidentes, pelo que se encontram referências ao corporativismo estatal. De outro lado, constitui-se uma abordagem conhecida como corporativismo societal, também denominada neocorporativismo. Assim, seria possível concluir, com base em Schwartzman, que
99 SCHWARTZMAN, Simon. Representação e cooptação..., op. cit., p. 15-7. 100 Idem, p. 21.
No primeiro caso, estamos diante de um Estado forte, com componentes neopatrimoniais bastante claros, e que é capaz de impor sua vontade e seu ordenamento à sociedade civil. No segundo, estamos diante de uma sociedade que se organiza a partir de situações de mercado, e estabelece limites e parâmetros claros à ação do Estado.102
2.1.2 Os estudos corporativistas latino-americanos nas democracias