• Nenhum resultado encontrado

Capítulo Dois – Sangue No Deserto

“De pé,” Rafiq disse, agarrando os pulsos dela, ajudando-a a ficar de pé em pernas trêmulas. Ele produziu pequenos cortadores de um dos bolsos dele e cortou a corda dura. Laurel esfregou a pele machucada e viu entorpecida enquanto ele fazia novos nós de forma que parecesse que ela tinha de alguma forma se soltado.

“Rápido.” Ele agarrou duas garrafas de suco de laranja em uma mão grande e o braço dela na outra e a apressou para subir.

“O vento deve mover areia suficiente para cobrir nossos rastros antes que eles voltem da entrega da primeira gravação. Ande exatamente nas minhas pegadas para que pareça os pés de uma pessoa, pra garantir.”

A mudança dos fatos confundiu-a tanto que Laurel tornou-se um brinquedo mecânico. Ela seguiu sem protesto, encaixando os tênis nas marcas deixadas pelas botas dele, atravessando a areia infinita no vento sussurrante e desconfortável.

“Você está bem?” ele chamou de volta depois de algum tempo.

“Sim!” ela gritou, ofegando com força. Ele tinha marcado um passo puxado.

Depois de vinte minutos entorpecidos eles alcançaram um profundo vale escondido. Rafiq escolheu seu caminho pra baixo do lado que estava se desfazendo, virando para oferecer a mão dele para que ela pudesse alcançar as partes íngremes. Ela tremeu enquanto o tocava, mas sabia que era provável que caísse se recusasse a ajuda dele. Ela ainda sentia os dedos dele no cabelo dela, no pescoço dela, nos seios dela. Ela queimava com confusão e medo, mas se resignou a segui-lo, esperando que o lugar fosse melhor que o bunker odioso.

Era mais confortável na base do vale e um pequeno córrego corria entre pedras e pedregulhos. Ele tirou o pedaço original de corda do bolso dele, suspendeu uma das rochas e escondeu a corda embaixo dela. Então ele rapidamente pegou com as mãos a água e bebeu.

“Você deve pegar isso,” ele disse, enxugando as mãos na calça e produzindo uma caneta e um bloquinho. Ele escreveu instruções para alguém desconhecido e Laurel assistiu, hipnotizada, enquanto a caneta corria pelo papel em um estranho roteiro cursivo. Ele deu à ela a pequena folha, então arrancou várias, as rasgou em pequenas tiras e as colocou para flutuar na água antes de retornar o bloquinho pro bolso dele.

“Ande somente sobre as pedras para não deixar rastro. A uma hora de caminhada daqui você achará uma casa e empregados. Dê isso para mulher.”

“Por que?” ela perguntou, ainda confusa e em choque.

“Porque você não está a salvo com Fayez e Nazim. Eles são ladrões e assassinos.”

“E você não é?”

“Não como eles,” ele disse sombriamente. Ele olhou pro relógio e jogou as garrafas de suco de laranja na direção dela. “Comece a se mover. Eu preciso voltar e ajeitar algumas coisas.”

E tão suave quanto um gato ele foi embora e escalou a parede quase vertical do precipício.

Laurel ficou parada perplexa, papel em uma mão, garrafas de suco seguras no corpo superaquecido na outra. Pelo menos o vale não era no vento cheio de areia pinicante, mas isso tornava a temperatura ainda mais alta.

Ela o seguiu com os olhos enquanto ele a deixava para trás. Ele escalou com uma facilidade enganosa, se pendurando de uma mão pra outra. Ela não tinha ideia de como ele conseguiu descer o vale, mal deixando uma marca. Daqui parecia impossível.

Enquanto ele alcançava o topo, ele virou e a encarou. “Beba!”

ele mandou e ficou parado com as mãos no quadril até ela enfiar o bilhete precioso no bolso do jeans e abrir uma das garrafas de suco.

Ele esperou mais alguns momentos até ficar satisfeito que ela tinha obedecido, então desapareceu.

~♥~

Ela escolheu seu caminho de pedra em pedra, tomando cuidado em não deixar nenhuma marca na areia entre elas. A respiração dela se

acalmou enquanto ela andava. Progresso era bem mais lento aqui.

Outra hora disso? Ela podia andar por tanto tempo? Ela abriu a garrafa novamente, saboreando o suco dourado azedo. Nada tinha sido tão gostoso antes. Ela bochechou ao redor dos dentes para umedecer a boca seca, e, então deixou descer pela língua e pela garganta sedenta.

Ela estava com muita sede – e certamente ele também deveria estar? Mas ele tinha deixado ambas as garrafas com ela. Um pequeno ponto de gratidão e admiração indesejável começou a surgir no cérebro dela.

Ela assumiu que ele pretendia repetir a longa marcha dele até o bunker. Ele talvez fosse um homem do deserto, mas ele ainda precisava de algumas mãos cheias de água.

Ela balançou a cabeça determinada. Ele era um porco, terrorista, sequestrador, nojento, ela se lembrou, enojando-se do repentino momento de preocupação que ela tivera para com ele.

Ele tinha a manuseado, algemado e a mantido presa contra a vontade dela. Ele se esfregou nela e tocou os seios dela. Ele a assustou quase até a morte com o vídeo dele. O bem estar dele não era digno de ser considerando. Ele tinha considerado o dela?

Ela perdeu o fio da meada por um momento enquanto se concentrava no caminho perigoso de pedras. Ela pulou um espaço mais largo do que o costumeiro e gritou alarmada quando derrubou a segunda garrafa de suco de laranja que ricocheteou de uma superfície dura pra próxima. Felizmente a garrafa era de plástico.

Ela conseguiu recuperá-la e quase mais importante, não deixou nenhum pedaço de vidro quebrado que podia revelar sua rota.

Seus pensamentos retornaram para Rafiq. Sim, ele tinha a manuseado, mas ele não tinha sido tão duro. Alguns machucados talvez, mas sem ossos quebrados ou sangue. Ele tinha de alguma forma protegido-a dos dois homens, apesar da arma e a faca terem sido aterrorizantes.

E ele tinha – talvez – a levado para algum tipo de segurança. Ou isso ou ele a deixara a deriva, sozinha e perdida no deserto em chamas, para andar por aí até cair de exaustão e morrer do calor e de sede. Talvez ele simplesmente tinha a desovado? Ele e os homens dele tinha conseguido sequestrar a mulher ocidental e

tinham as gravações que queriam; se ela agora era supérflua, isso teria os salvado do incômodo de matá-la.

Mas... a segunda garrafa de suco de laranja dera a ela um pouco de esperança. Por que ele teria dado duas a ela? Porque ele não bebeu a outra? Parecia que ele queria que ela vivesse.

Ela já havia há muito tempo bebido o último gole da primeira garrafa e seguiu o exemplo dele com a corda; esmagou debaixo do calçado, enroscou a tampa de volta para manter o objeto amassado, e, escondeu embaixo de uma rocha.

Ela olhou pro relógio dela. Quase 3:45. A família Daniels estava passando férias em um resort perto da praia de Kalal – e era esse o motivo pelo qual ela estava desenhando sozinha. Em qualquer outra semana ela estaria buscando os meninos de oito anos, Oscar e Jefferson, da escola na capital de Al-Dubriz, ou transportando a Mindy, de seis anos, para aulas de dança. Será que alguém tinha notado que a babá deles tinha sumido? Provavelmente não.

Um soluço inesperado sacudiu o corpo dela. Ninguém sequer estava procurando por ela! Poderia passar várias horas antes que alguém o fizesse. A trilha já estaria fria nesse momento, e as trilhas dos pneus no deserto, obliteradas pela areia constantemente em movimento. Talvez ninguém sequer pensasse em procurar até ver a gravação. A versão ‘tomada um’ - onde ela ainda tinha o boné de Maddie na cabeça e as algemas de metal que tinham sido colocadas ao redor do pulso dela na van.

Ela se suspendeu entre as rochas e conseguiu pegar a tampa da garrafa que ela tinha deixado cair. Ela gritou quando um lagarto magrelo brilhante azul esverdeado saiu da pequena sombra que a garrafa tinha jogado. Como qualquer coisa podia viver nesse calor incessante? E o que danado isso comia? Claro, havia aquele pequeno filete de água no chão do vale, mas não havia plantas ou insetos visíveis.

“E isso é um trabalho horrendo de camuflagem,” ela gritou para a criatura iridescente enquanto saía de vista entre duas pedras.

Qualquer coisa para distraí-la da situação desesperadora... qualquer coisa para fazê-la sentir que não estava sozinha no mundo.

De rocha para pedra para pedregulho. De pedregulho para pedra para rocha. Laurel continuou incansavelmente, grata pelos

estranhos poucos segundos quando ela ficou perto o bastante do banco suspenso, que proveu sombra do raio solar furioso.

Ela virou o pulso para checar o relógio novamente. 4:07. Por quanto tempo ela tinha lutado pelo vale miserável? Ele disse ‘uma hora de caminhada’ Na passada devoradora de deserto dele ou no passinho lento dela? Graças a Deus ela estava usando tênis ao invés das novas sandálias sem arreio. Esse pensamento a animou até 4:11, e então ela afundou em uma larga rocha ao lado de um pequeno filete e olhou demoradamente para a segunda garrafa de suco.

Ela sabia que devia guardar para depois, mas ela tremia de sede, calor e exaustão. Rafiq tinha bebido do pequeno filete – talvez isso fosse seguro pra ela também? Ela enfiou uma mão na água tépida e segurou uma pequena quantidade.

Ela cheirou. Nada. Ela provou. Nada. Ela engoliu. Benção! Ela enfiou a mão e engoliu mais várias vezes, então abriu a garrafa e engoliu o suco numa torrente gananciosa. Quando a garrafa estava vazia ela encheu do filete brilhante, atarraxou a tampa e continuou sua caminhada sentindo-se totalmente triunfante.

~♥~

Yasmina olhou ao redor da porta do quarto novamente, notando que sua hóspede inesperada finalmente tinha ficado quieta. Pobre garota – ela estava obviamente exausta. Por quanto tempo ela tinha caminhado? Onde o mestre tinha encontrado-a? E quanto mais tempo passaria antes dele chegar para explicar esse mistério delicioso?

Enquanto Laurel dormia e sonhava, Rafiq deitava exausto e desidratado no bunker. Ele lembrava de se virar para longe do topo do precipício quando viu a garota enfiar o bilhete dele no bolso do jeans dela. Ela abrira a primeira garrafa de suco e levou até a boca.

O sol cruel tinha iluminado os movimentos da garganta de mármore dela enquanto ela bebia. Ele imaginara passar seus lábios por aquela pele suave e cremosa. Preencher suas mãos ao redor dos seios pequeninos dela.

Mas não ainda. Por agora ele tinha feito tudo que podia e ela estava livre.

Ele procurou por uma pedra adequada. Algo do tamanho de um punho e pesada, esperando que fizesse o trabalho suavemente.

Enquanto ele voltava à longa marcha de volta pela areia que queimava, ele desejou que sua mente tornasse vazia e não sentisse dor, o corpo dele para continuar a se mover e ignorar a necessidade gritante de beber.

Algo molhado, gelado e refrescante.

Algo que fosse diluir a dor retumbante que pulava de orelha a orelha, e que provavelmente só ficaria pior em um futuro breve.

Ele contou as vezes que as botas dele batiam na areia. A cada vinte passos ele trincava os dentes e batia a ponta afiada da pedra contra a mesma parte da sobrancelha dela até o sangue fluir.

Sua cabeça pulsava. A língua dele presa no céu da boca. As pernas se movendo no automático. Mas pelo menos, uma vez que ele sangrara, ele podia parar a tortura auto-induzida. Ele lambeu a pedra limpando-a, rindo com o gosto metálico do próprio sangue, deslizou-a dentro de um bolso e continuou andando com o mesmo passo incansável.

Finalmente o bunker apareceu. Uma grande onda de alívio passou por ele – a van ainda não tinha voltado.

Ele passou o dedo na sobrancelha. O sangue tinha secado no calor feroz. Ele retirou a pedra do bolso e bateu no mesmo lugar tenro até a crosta abrir e sangrar novamente. Então ele se inclinou e enterrou a pedra e os cortadores bem fundo na areia. Ele amassou o buraco – o vento terminando o esconderijo em alguns minutos.

Com uma prece silenciosa de agradecimento, ele cambaleou a última dúzia de passos e caiu na sombra do bunker. Ele virou a cadeira de madeira, passou os dedos na sobrancelha e passou um caminho de sangue em uma das pernas.

Esperava que isso os enganaria.

Ele checou os nós derretidos na corda laranja e transferiu um pouco de sangue para lá também, querendo que parecesse como se ela de alguma forma tivesse tido dificuldade para se libertar.

Então ele caiu no colchão e esperou, desesperado para beber, mas sabendo que ele devia parecer zonzo e desorientado para que

seu teatrinho fosse bem sucedido. Nazim e Fayez eram espertos e soldados experimentados; difíceis de enganar.

Um tempo indeterminado depois ele ouviu a van deslizar para parar. Ele tensionou enquanto botas batiam nos degraus. Ele não tinha ideia do quanto sua ferida na cabeça pareceria ruim. Ruim o suficiente para ser convincente, ele esperava.

Nazim foi o primeiro a entrar. “Como foi a puta Americana? Vale a pena termos nossa vez?” Os olhos dele passearam pelo bunker meio escuro. “Ela se soltou?”

“Livre mas morta,” Rafiq disse roucamente. “Ela não consegue sobreviver lá fora.”

“Você foi muito generoso com seus nós.”

“Eu queria ela responsiva – hábil para se mover um pouco para mim.”

“Mas ela escapou?

“E me bateu com aquilo.”

Fayez ajeitou a cadeira, passando o dedo pelo sangue escuro.

Ele se abaixou e tocou a ferida de Rafiq. “Nada mal,” ele disse com um pouco de simpatia. Ele colocou as mãos de lado e as correu pelo corpo de Rafiq, ostensivamente para ver se havia outras lesões. Rafiq sabia que ele estava sendo revistado.

“Bebida...” ele gemeu.

Nazim deu a ele um suco de laranja mas não se importou em tirar a tampa para ele. Suspeita gélida brilhou nos olhos dele.

Ela agarrou duas garrafas e correu,” Rafiq murmurou. “Em direção de Akajar. Eu a segui um pouco, assim que consegui. Ela nunca vai sobreviver. Ela está morta, com certeza.”

Fayez checou o caixote das bebidas. Três sucos faltando e a Coca Cola intacta. Os números batiam.

Rafiq lutou com a tampa. Fayez teve pena dele e abriu. Rafiq praticamente inalou o suco. Fayez deu outro pra ele.

“O primeiro telefone está na emissora de TV?” Rafiq perguntou quando conseguiu falar mais facilmente.

“Na caixa de correspondência e a campainha foi tocada como você instruiu.”

“Então nós fomos bem sucedidos. Agora tudo que temos que fazer é esperar para eles cederem.”

“E se nós não conseguirmos produzir a garota?”

“Você sabe que eles vão levar um tempo e tentar negociar. Será daqui a muito tempo antes que nós devamos nos preocupar. Isso não foi um problema antes.” Ele sorriu – dentes incrivelmente brancos na pele escura. “Carregue as coisas. Nós vamos ficar separados por enquanto. Vamos pra casa. Eu quero ver o noticiário hoje à noite.”