1 TEORIZANDO SOBRE O PROCESSO DE EMPODERAMENTO DE
1.6 COMO ESTUDAR O EMPODERAMENTO DAS MULHERES
Os níveis de empoderamento e indicadores qualitativos que nos ajudam a medir se houve ou não empoderamento das mulheres estão conectados e dialogam com o referencial apresentado.
Enquanto feminista, entendo o empoderamento das mulheres como um processo de mudança individual conectado com o contexto social e que se relaciona com ações coletivas dentro de um processo político. Ao mesmo tempo, é um instrumento/meio de enfrentar a opressão de gênero e um fim em si mesmo, quando resulta na libertação das mulheres das amarras da opressão de gênero e da opressão patriarcal vigente nas sociedades contemporâneas.
Assim como Batliwala (1994) e Magdalena de León (2001), entende-se que o empoderamento das mulheres se integra em um sentido de processo individual, na conquista
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da autonomia, da autoconfiança, da autodeterminação, e coletivo, quando esta participa ativamente no grupo produtivo e/ou organizativo, na comunidade, experimentando a cooperação e a solidariedade entre elas e a comunidade. Um empoderamento que reconheça e não ignore o histórico e o político. O empoderamento das mulheres implica desestabilizar, alterar e destruir as estruturas sociais existentes com o objetivo de acabar com a ordem patriarcal que sustenta a opressão de gênero.
Por meio da pesquisa participante e da observação, investigo histórias de empoderamento, ao analisar as “histórias de vida” de 10 (dez) mulheres agricultoras para entender como se dá esse processo na trajetória de participação e a inserção nos espaços organizativos e produtivos promovidos pelo PGV. Observo e analiso como projetos e políticas públicas têm contribuído, criando condições para o desencadeamento de processos de crescimento pessoal (autoestima/autoconfiança/voz), social (poder de decisão, autonomia, decisões mais coletivas/compartilhadas e horizontais) e político (articulação em redes, papel mediador entre os grupos excluídos – as mulheres – e o governo e outras instância de poder – participação em conselhos municipais); e, principalmente, nas relações associativas comunitárias, exercendo cargos de direção, administrando e gerindo recursos como executoras de projetos governamentais.
Partindo do entendimento de que o empoderamento depende dos sujeitos e que ninguém se empodera sozinho, realizamos dois grupos focais com os grupos mistos (homens e mulheres) da Associação Comunitária e Cultural do Bariri, Rio Seco, Alto e Rio Quente de Cima (município de Ribeira do Amparo) e da Associação Comunitária dos Produtores Rurais de Baixa da Roça (município de Novo Triunfo), com o objetivo de ouvir o que pensam os homens sobre o empoderamento das mulheres e observar se, durante este processo, os homens também se empoderaram. Neste espaço grupal, procurei registrar indícios do empoderamento das mulheres no espaço público, ciente dos limites, das dificuldades, das tensões e conflitos gerados no âmbito familiar e na comunidade, procurando identificar avanços na igualdade de oportunidades que se pode observar nas relações de gênero.
Busco com o Quadro 1, formular uma matriz de indicadores para melhor pesquisar e analisar o processo de empoderamento das mulheres agricultoras familiares nos seus diferentes níveis (psicológico ou individual, grupal ou organizacional e de comunidade), procurando explicitar como os níveis de empoderamento se relacionam com os indicadores trabalhados nos próximos capítulos. É necessário esclarecer que, por falta de dados suficientes para analisar a renda, não me deterei na dimensão econômica das mulheres pesquisadas.
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Quadro 1 – Níveis e indicadores do processo de empoderamento
OBJETIVOS NÍVEIS DE EMPODERAMENTO INDICADORES PARA MEDIR O PROCESSO DE EMPODERAMENTO (Qualitativos)
- Identificar processo de empoderamento das mulheres agricultoras inseridas nos espaços produtivos e organizativos.
Psicológico ou
Individual - Participação e apropriação de conhecimentos; - Mudança na autoestima das mulheres/ sentimento de autovalorização;
- Integração na comunidade e reconhecimento junto ao grupo;
- Redefinição de normas e regras de gênero (mudanças no exercício dos papéis tradicionais). - Examinar como se dá o
empoderamento das mulheres agricultoras familiares nos espaços domésticos e públicos.
- Analisar de que forma e em que medida o processo de formação na área produtiva (agroecológica) e organizativa desenvolvido pelo PGV contribuiu para a autonomia e empoderamento das mulheres agricultoras nas associações e nas comunidades.
Nível Organizacional
(MICRO) - Habilidade para discutir e analisar;
- Estrutura interna e elementos de autogestão (Habilidades de gestão administrativo-financeira); - Atividades coletivas e sentido de Solidariedade (práticas solidárias);
- Ações por seus direitos;
- Satisfação entre os membros do grupo ou organização (crer em seus membros).
- Analisar de que forma e em que medida as estratégias de gênero do Estado empregada no Projeto Gente de Valor propiciam o processo de empoderamento pessoal, social e político das mulheres agricultoras.
Nível Comunidade/
estrutural (MACRO) - Consciência de pertencimento da comunidade; - Participação em instituições locais e ou regionais;
- Representação em conselhos municipais (saúde, educação, territorial e outros)
- Sensibilização a buscar recursos existentes (elaboração de projetos)
- Acesso a políticas públicas e a programas governamentais;
- Articulação em redes com outras pessoas, organizações e movimentos sociais; - Obtenção de segurança econômica (renda) Fonte: Elaborado pela autora como parte dos estudos desta dissertação
A partir do Quadro 1, observa-se, por um período (2009-2012), a participação das mulheres nas atividades (quais e quantas) e nos grupos (quintais, artesanato e associação); o grau de apropriação de novos conhecimentos; o desenvolvimento da consciência crítica, de novos potenciais, o exercício de novas tarefas, se elas se mobilizam para a ação; o exercício de cargos na associação ou no empreendimento produtivo; se participam de espaços de poder e de decisão sobre o grupo e sobre suas próprias vidas; e se estão em espaços de representações políticas; em que medida essas mulheres agricultoras rompem com a dominação (dos pais e maridos) para participarem das atividades do Projeto e se, no grupo, experimentaram a divisão de tarefas e de responsabilidades construindo novas relações entre as pessoas.
Além desses indicadores, surge a necessidade de observar outros aspectos no segmento social em questão, tomando-se assim algumas variáveis de ordem bioculturais – como o
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pertencimento a diferentes grupos étnicos/raciais e etários e variação no tamanho da prole –, e outras mais estritamente sociais, tais como profissão/ocupação, escolaridade, religião, orientação sexual, fase do ciclo de vida e situação conjugal.
No próximo capítulo, delineio o contexto social e político e faço um breve esboço de quem são as mulheres agricultoras pesquisadas e de como esse sujeito político, através da participação social e da capacidade das mulheres em se organizar e se mobilizar, pode transformar as estruturas sociais visando à redistribuição de poder.
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