3 MULHERES AGRICULTORAS FAMILIARES NO PROJETO GENTE
4.1 GRUPOS FOCAIS: O QUE PENSAM OS HOMENS SOBRE AS MULHERES?
4.1.1 Sinais de mudanças nas relações de gênero
Os projetos orientados para a equidade de gênero demonstram que a mudança na autoestima dos participantes, homens e mulheres, é o resultado mais destacado, porém outras mudanças importantes têm desencadeado transformações positivas nas relações de gênero, familiares e comunitárias. O empoderamento das mulheres permite novas experiências emocionais para os homens, quando lhes possibilita se libertarem de estereótipos de gênero, segundo Léon (2001). Conforme um integrante das reuniões de Grupo Focal, houve algum reconhecimento de que os “direitos são iguais” entre homens e mulheres. Constatou-se, também, que a conduta dos homens em relação às mulheres vem em um processo de mudança, que eles estão mais conscientes e apoiam ou cooperam mais com suas companheiras, porém não todos e nem sempre. Vários trabalhos e atividades passaram a ser compartilhados e realizados conjuntamente, tanto por homens quanto por mulheres. Podemos observar isto no depoimento dos dois únicos homens do grupo do artesanato do fiapo, quando perguntei se eles sofrem discriminação e como se sentem ao fazer parte de um grupo de artesanato composto, em sua maioria, por mulheres:
– Aqui na comunidade, os homens sempre fizeram a rede, mas não rasgava o fiapo, que é coisa de mulher. Hoje, você já vê o homem numa ponta e a mulher na outra rasgando o fiapo. Agora quem dava o acabamento, o punho, era a mulher o homem só fazia o corpo da rede. O homem é trabalho pesado e o levezinho era coisa de mulher. Eles iam pra roça trabalhar e a mulher ficava rasgando o fiapo, não é coisa muito fácil, não é coisa de homem, mas hoje já é tudo igual. (Carla, Grupo Focal da Comunidade Bariri, 2013).
– Eu não ligo pra isso, cada qual leva sua vida como quer, eu não sou contra, não, quem é do outro lado, jamais eu vou ser [homossexual]. Eu espero que as pessoas abra
a mente, às vezes, as pessoas que nunca saíram pra ver o mundo, pra ver as coisas com outra visão, aí fala que isso aqui, “eu não vou fazer porque é de mulher fazer”. Antigamente, você não via uma mulher mandando no país, hoje estamos vendo [presidenta Dilma Roussef],
então, o cara tem que acordar; você não via uma mulher ganhar mais que um homem, hoje você vê um monte; casal que o homem vem tomar conta das crianças, ela ganha o dobro do
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que ele ganhava. A gente tem que acompanhar os ritmos, nem todos os ritmos... A gente tem que dividir as tarefas, vamos dizer que 78%, em casa, mas mulher manda demais. (Pedro, Grupo Focal da Comunidade Bariri, 2013).
As mulheres do grupo do artesanato do fiapo também falam das relações de gênero no grupo e em casa:
– Hoje, antes de começar a trabalhar, eles se combinam o que primeiro vai fazer, se vai limpar o galpão. Homens e mulheres no grupo trabalham igual. Apesar de ter nove mulheres e dois homens, na hora de varrer, passar pano, não tem isso aqui não, homem tem que fazer, é pra trabalhar todo mundo. (Regina, Grupo Focal da Comunidade Bariri, 2013).
A outra mulher diz que, em casa, na divisão do trabalho doméstico, as coisas não mudaram:
– Eu tenho que acordar e deixar tudo prontinho, porque se não, eu chego meio
dia e não tem. Tenho que deixar pronto. É difícil ele fazer, só assim, ele não critica não, eu vim. Ele me incentiva até eu vim, mas eu tenho que fazer tudo antes. “Você não sabia que ia sair porque você não fez? Faça antes, porque você sabia que ia sair”. (Penha, Grupo Focal
da Comunidade Bariri, 2013).
Também no Grupo Focal da Comunidade Baixa da Roça, as mulheres e os homens falam das divisões de tarefas e não parece ter havido mudanças:
– Eu trabalho mais no doce e ele nas coisas mais pesadas do quintal, mas eu
ajudo a ele. No início, ele não acreditava, a gente só levava pra vender 10 olhos de coentro; aí, ele foi vendo e foi gostando e foi crescendo mais. A gente não cresceu mais por causa da
[falta de] água. (Clara, Grupo Focal da Comunidade Baixa da Roça, 2013).
– Quem ajeita os quintais e as galinhas sou eu, a mulher não tem jeito. Ela já tem as tarefas dela, não é por ruindade, não. Cuida dos meninos e da casa. Eu já cuido da roça, do quintal e das galinhas também. Ela participa do grupo e faz o doce também. (Marcos, Grupo Focal da Comunidade Baixa da Roça, 2013).
São evidentes as desvantagens de gênero vivenciadas por essas mulheres, como também por outras mulheres em todo o mundo, ao considerarmos gênero como uma categoria na análise de uma série de desigualdades que atravessam a vida de homens e mulheres, enquanto relações de poder, principalmente quando se cruzam simultaneamente dimensões como classe, raça/etnia, idade/geração e regionalidade, entendendo-as como eixos fundantes da vida dos sujeitos sociais, e estas dimensões vão ganhar maior ou menor relevância a depender das formações histórico-culturais da comunidade em que os sujeitos se inserem. A esperança de mudanças na vida dessas mulheres e também dos homens parte do
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reconhecimento de que a identidade de gênero é uma variável cultural e socialmente construída sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres (SCOTT, 1995).
Apesar de pequenos, já percebemos alguns sinais de desconstrução dos padrões de comportamentos de menina e de menino estabelecidos ao longo de suas vidas, ao tentar desconstruir esta relação de dominação masculina que reside dentro da unidade doméstica, mas, também, em lugares de elaboração e de imposição de princípios de dominação, como a Escola, o Estado ou a Religião, principalmente ao se conscientizarem que podem transformar o estado atual da relação de forças material e simbólica entre os sexos. E as crianças e os jovens (homens e mulheres), na zona rural, são a esperança para a desconstrução dos padrões, pois o acesso à escola, a algumas tecnologias, à mídia e às informações propicia questionamentos e esperança de que realmente já há e haverá mudanças, desconstruções e reconstruções de relações de gênero igualitárias.
Um projeto de desenvolvimento rural como o PGV deve ter o compromisso de promover ainda mais atividades e ações que discutam as desigualdades, as causas e as consequências que atingem as crianças pobres da zona rural e, principalmente, as mulheres, especificamente as negras, índias, pobres e jovens da área rural. No depoimento de Maria das Dores, percebe-se que participar do Projeto contribuiu para as efetivas mudanças nas relações de gênero na sua vida e de seu filho:
– Contribuiu, mas eu acredito que a mulher, pra ela conseguir ser casada, ter filho e estudar, porque eu estudava casada, eu estudava, porque eu queria mesmo. Eu ia estudar, e ia estudar [como uma teima]. Eu sempre respeito; a gente conversava quando eu
tava casada, a gente conversava, se tivesse reclamação eu batia de frente, eu antenava e até hoje é o que eu digo: a mulher, a gente é mulher, tem que respeitar sim, mas tem que ter o respeito da outra parte. Se tem que estudar, o mundo que a gente está hoje, tem que fazer é ficar mais informada e, hoje, eu ainda quero estudar, quero fazer faculdade ainda. Eu sinto que o meu filho também me respeita por essa questão: quando eu pego um livro, ele pega outro, quando eu tô escrevendo, ele quer ler o que eu estou escrevendo, quando eu pego qualquer coisa, se for um caderno novo ele sempre quer escrever, pega meu caderno, pega tudo, eu acho que por eu ter estudado e passar pra ele a importância do estudo, eu acredito que ele vai continuar estudando, que ele sabe que eu gosto de estudar, e pra ele se preparar pro mundo, eu acho que eu contribuo muito pra isso, dando a minha força. (Maria das Dores, 31 anos).
Em sua luta diária para estudar e aprender, Maria das Dores busca cunhar seu espaço na sociedade, sair do estado de vulnerabilidade e invisibilidade a que a mulher negra
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está submetida. Ela vem escrevendo sua história pessoal com muita dificuldade, vem lutando contra este poder hegemônico da ordem de gênero patriarcal. Sua luta pessoal fortalece sua participação política e estimula o desafio da luta coletiva na perspectiva de mudanças nas relações de gênero, raça e de classe, na sua vida e na das mulheres que ainda se encontram em condições de vulnerabilidade, para que não permaneçam nesta condição como um destino social natural.
As associações e grupos buscam, com dificuldade, articular ações coletivas, internamente, na própria organização, e também têm tentado acessar recursos governamentais e na própria comunidade. Ressalta-se que, neste nível de empoderamento comunitário, estes sujeitos individuais e coletivos, apesar de demonstrarem relações mais horizontais e de união entre eles, vivem também disputas de interesses, discussões, tensões e conflitos por causa de recursos. É o que se observa na fala de Maria Amélia, quando pergunto se mudou algo na vida das mulheres que participaram das atividades do Projeto.
– Mulher, começaram a costura, mas eu mesma só fui dois dias, além da
distância, não tinha onde colocar as máquinas direito. Aí ficava um pouquinho aqui [na comunidade] outro pouquinho acolá [na outra comunidade], e para formar um grupo tem que
ser tudo num lugar só. Também, teve umas demandas de umas pessoas e eu me afastei. [...] as máquinas vieram todas, tem até a máquina de estampa, estão todas aí. Tenho certeza que ia à frente, é que o caso, é que o grupo se desuniram. [...] a gente está no grupo, uma quer de um jeito outras querem de outro, não tem aquele acordo. Se nunca tiver um acordo nunca vai pra frente. [...] Atrapalho foi das pessoas mesmas, que não se entenderam. Falta de entendimento das pessoas. Ou alguém querendo passar a perna um no outro. É porque sempre tem um que quer ser mais do que os outros, coisas que quando a gente está num grupo não pode ser. (Maria Amélia, 50 anos).
Maria Amélia continua falando das dificuldades e mostrando a disputa entre as mulheres do grupo de corte e costura das comunidades de Raso Pintado e Fazenda Pedrinhas, pela posse dos equipamentos e onde iriam ficar:
– Eu percebi, além da dificuldade de ir também, outra coisa também, porque
ficaram tudo lá na outra comunidade, nada nessa daqui. Apesar que a gente foi quem primeiro iniciou a formar a associação, mas ficou tudo prá lá. E a gente dizia: “Gente, pelo amor de Deus, divide alguma coisa pra cá, porque fica só lá?”. Quando a gente queria trazer alguma coisa pra cá, os de lá diziam: “Se for lá, eu não vou, se for pra lá, eu não vou”. “Aí a gente é obrigado a sair de lá e vim pra cá, e vocês não podem ir para lá também, por quê?”.
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Aí a gente já foi desgostando por causa disso, também. Falta de conscientização das pessoas.
(Maria Amélia, 50 anos).
Vejamos o que diz Maria da Paz, que faz parte do grupo da comunidade Fazenda Pedrinhas, sobre o grupo de corte e costura:
– As outras, ficou naquela coisa “Eu já aprendi, não quero mais participar do
grupo, não”, algumas falaram por fora. É tanto que, aqui, o aluguel, eu acabei falando um dia numa palestra que teve aqui ao CRAS se responsabilizou de pagar o aluguel, R$ 40,00 reais o aluguel dessa casa. Só que o cartão de energia, eu acabei brigando com o menino, brigando é maneira de falar, pagando a energia. E fica tudo aqui e cuida tudo aqui, nada disso me pertence, isso aqui pertence à associação, eu até falo para o pessoal, nada disso aqui é da gente, a gente sabe disso, mas se a gente também abandonar a associação, pode vim uma atuante [e] pode levar para onde quiserem se a gente correu atrás de tudo isso, a gente tem que trabalhar por isso. (Maria da Paz, 32 anos).
Nos depoimentos a seguir, verificamos as estratégias e ações coletivas de poder envolvendo os grupos e as associações através da articulação em rede com outras pessoas, organizações e movimentos sociais; na participação em instituições locais e ou regionais; e também na representação em conselhos municipais:
– A associação percebeu que o grupo precisa de capital de giro. Eles produziram
50 almofadas no mês, para não ficar esse estoque aí sem movimento, a associação compra, aí paga o artesão e depois a associação vai vender para tirar o capital. Porque têm vezes que esse produto fica muito tempo estocado e eles ficam sem circular o dinheiro. Mas a almofada não, o que fizer vende. Então, eles precisam do capital, a associação e o grupo precisa organizar os dois para fazer parceria e ter tipo o capital de giro. Como se fosse uma cooperativa. (Carla, Grupo Focal da Comunidade Bariri, 2013).
– A nossa cozinha é provisória, é uma área de reunião, aí a gente se reuniu para fechar o quarto que serve para reunião da Pastoral da Criança, da associação, vamos fazer? Com que dinheiro? Então, fiz um orçamento com as meninas: quanto custa, custa tanto, e para cada associado é x, tirando o telhado e as paredes do lado, tudo foi os associados. Essas outras coisas, fogão, o que tem na cozinha, foi os associados. (Clara, Grupo Focal da Comunidade Baixa da Roça, 2013).
– Eu, como sou diretora [a presidente Maria dos Prazeres], eu participo duas vezes no mês na sede com a diretoria executiva. A participação na Cooperacaju, eu vou pra reunião de um ou dois dias em Ribeira de Pombal e aqui na comunidade é uma vez por mês com os associados. Participo do Território, da Pastoral da Criança [que] tá sempre fazendo
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reuniões e encontros e se reúnem com outros municípios – Cícero Dantas, Banzaê e Novo
Triunfo – e aproveitamos para vender doce lá. Eu participo do Conselho de Saúde de Novo
Triunfo. E, o ano passado, do Conselho de Ação Social. E participamos da Igreja Católica. Vendemos doces no tríduo. O padre apoia, compra doces e montou barraquinha para nós vender na festa da igreja. Também participo do Conselho da igreja todo mês. (Maria dos Prazeres, Grupo Focal da Comunidade Baixa da Roça, 2013).
Os grupos constroem seus caminhos independentes do Projeto Gente de Valor. Tecem parcerias dentro da comunidade e tentam construir outras na região. O grupo das mulheres dos doces, que fazem parte da Associação Comunitária dos Produtores Rurais de Baixa da Roça, constrói redes e parcerias com Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Novo Triunfo e de Cícero Dantas e tem conseguido acessar programas governamentais e projetos, como é o caso do Gente de Valor e da Fundação Banco do Brasil, que financiou a minifábrica de beneficiamento de castanha de caju. O grupo de mulheres dos doces elaborou um projeto para concorrer ao edital lançado pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Reforma Agrária, Pesca e Aquicultura (SEAGRI) em parceria com a Superintendência de Políticas para as Mulheres (SPM) e a Secretaria do Trabalho Emprego Renda e Esporte (SETRE). O projeto foi contemplado, conforme publicado no Diário Oficial do Estado, porém, até a data da realização do Grupo Focal, os recursos ainda não tinham sido depositados na conta da associação. Esse projeto visa a compra de rótulos, saquinhos plásticos e embalagens para os doces. Apesar de os recursos não terem chegado, as mulheres não ficaram esperando, pois não podiam perder a safra das frutas, continuaram o trabalho de beneficiamento e fabricação dos doces e conseguiram comprar os rótulos e as embalagens com o apoio do Projeto Gente de Valor, que contribuiu com uma parte destes recursos, mas a maior parte foi proveniente da solidariedade, mobilização e articulação delas com a associação e a comunidade. Nos depoimentos abaixo, observamos a construção da teia de articulações e parcerias:
– Tivemos projetos da Fundação Banco do Brasil, Gente de Valor e agora
estamos aguardando o da SPM. O povo já tava querendo desistir dessa associação porque não saía nem projeto. Aí foi que chegou o Gente de Valor com gosto de gás pra trabalhar com as famílias, aí é que nós juntemos e conseguimos o que queremos. E ainda tem mais, não para aqui, não. E com esse projeto das mulheres do beneficiamento dos doces estamos esperando também recurso da Seagri que não saiu ainda. O pessoal da agricultura vem fazendo reunião. Na comunidade, não existe um transporte para carregar as pessoas. A unidade de castanha não tem esse transporte para trazer o material do produtor, tem que
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trazer a jegue, a cavalo, então, nós tamos vendo isso aí. Até um trator para carregar e fazer algumas atividades que ele possa fazer sem prejudicar o solo. Porque aqui, nós tamos na areia e qualquer carro fica atolado e o trator não fica. Estamos lutando pra ver se a gente consegue, estamos lutando porque não é assim, não. Não é fácil conseguir, estamos lutando pra vê se consegue. (Maria dos Prazeres, Grupo Focal da Comunidade Baixa da Roça).
– Com a Fundação Banco do Brasil, conseguimos a unidade, que não sabia para
onde ela ia [não tinham definido onde colocar a unidade] e, junto com o sindicato,
conseguimos trazer para a comunidade. E agora, tamos aí. Funcionamos ainda pouco porque as famílias precisam ainda de um estudo. Porque eles têm o conhecimento de associativismo e não cooperativismo. É um pouquinho diferente, é quase igual, mas não é igual, tem uma coisa diferente. Então, eles não tão ainda aprendendo o que é esse negócio de cooperativismo, mas nós tamos conseguindo com a Fundação e o SEBRAE, que vai fazer um trabalho, que não fez ainda por estar fazendo por unidade, primeiro em Banzaê, este ano, e em 2014, aqui. Também se o SEBRAE não ajudar, que ele tem muito conhecimento, se ele não ajudar sobre cooperativismo, a gente vai ficar assim... a gente trabalha uma semana por mês, aí é pouco. (Maria dos Prazeres, Grupo Focal da Comunidade Baixa da Roça).