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5 TRAJETÓRIAS E EXPERIÊNCIAS DAS MULHERES AGRICULTORAS

5.1 GÊNERO E A INTERSECCIONALIDADE COM OUTRAS CATEGORIAS

Os relatos das mulheres entrevistadas trazem elementos relevantes para a discussão das dinâmicas das relações de gênero, classe, raça e geração: a infância na zona rural, a dificuldade para iniciar os estudos, a condição econômica e social, a discriminação racial, a relação com os pais e maridos, a participação em grupos produtivos e na associação. As histórias de vida são ricas de intersecções destas categorias que permitem analisar uma infinidade de intercruzamentos e esta articulação e sua dinâmica nos possibilitam compreender a vida social dessas mulheres agricultoras, permitem a identificação das relações de dominação que estruturam o contexto sócio-histórico como um sistema que interconecta as

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opressões de raça, classe e gênero, mas, inicialmente, precisam ser analisadas no seu entrelace e na sua potencialidade de se interceptarem, como expressa Crenshaw em sua discussão sobre o conceito de interseccionalidade:

A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as conseqüências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras. Além disso, a interseccionalidade trata da forma como ações e políticas específicas geram opressões que fluem ao longo de tais eixos, constituindo aspectos dinâmicos ou ativos do desempoderamento. (2002, p. 177).

Esse conceito é importante como uma ferramenta analítica para nos ajudar a compreender as formas de interação dessas múltiplas discriminações que marcaram as trajetórias e as experiências de vida das mulheres agricultoras pesquisadas. A noção de interseccionalidade possibilita entender como estas opressões operam e se estruturam dentro de uma “matriz de dominação”, na medida em que esclarece as maneiras como estas opressões interseccionais de gênero, classe, raça, etnias, geração, regionalidade e outras, ocorrem nas instituições sociais, como, por exemplo, na família e na associação comunitária, pensando no caso das mulheres agricultoras.

Scott (1995) define gênero como categoria analítica usada para designar as relações sociais entre os sexos e identificar as igualdades, as desigualdades e as diferenças existentes entre eles, o que nos ajuda no conhecimento das dimensões plurais e fundamentais da vida das mulheres agricultoras pesquisadas. O estudo de gênero possibilita uma releitura das explicações correntes, que atribuem a homens e mulheres lugares diferenciados no mundo, diferenças estas atravessadas e constituídas por relações de poder que irão conferir, historicamente, uma posição dominante ao homem. Também nos possibilita observar as mudanças na organização nas relações sociais ocorridas entre os homens e as mulheres, nas famílias e nas associações parceiras do PGV. Baseando-se nas diferenças percebidas entre os sexos, mostra como os sujeitos sociais estão sendo constituídos, cotidianamente, por um conjunto de significados impregnados de símbolos culturais, conceitos normativos, institucionalidades e a identidade subjetiva (SCOTT, 1995, p. 86).

A despeito da importância da categoria ontológica gênero para o entendimento da realidade desses grupos e contextos sociais, como é o das mulheres agricultoras, outras categorias relacionais, além de gênero, têm igual importância e, entre estas, destaca-se a de

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classe social, como uma categoria sobre-determinante. Analiticamente, a dimensão de classe é valiosa para entender o funcionamento de uma sociedade capitalista como a nossa e imprescindível para que possamos entender como a vida dos sujeitos é marcada pela sua relação objetiva com o mundo da produção. Pensar na desigualdade de classe implica em pensar na desigualdade de gênero, uma vez que ambas se imbricam.

A exploração das mulheres, na atualidade, se dá dentro de uma estrutura de classe marcada por severas desigualdades entre as mulheres, entre os homens e entre mulheres e homens. Além de gênero e classe social, outra categoria relacional importante para nossa análise, na trajetória de algumas destas mulheres agricultoras, é raça/etnia, importante para entender a interação entre desigualdades raciais, econômicas, sociais e as relacionadas a gênero. São dimensões fundamentais para evidenciar a importância do reconhecimento das diversidades de raça que diferenciam as mulheres e se intersectam com outras identidades e como essas intersecções contribuem para a vulnerabilidade alimentar, trabalhista, educacional, habitacional e da vida privada das mulheres agricultoras e de seu grupo familiar. Este contexto nos reporta à discussão levantada por Crenshaw (2002, p. 176) sobre “a discriminação interseccional difícil de ser identificada em contextos onde forças econômicas, culturais e sociais moldam o pano de fundo de forma a colocar as mulheres em uma posição onde acabam sendo afetadas por outros sistemas de subordinação”. As mulheres agricultoras foram e continuam sendo vítimas de uma sociedade desigual, não só por serem mulheres. Também por serem, em muitos casos, pobres, negras, rurais são colocadas em um lugar de inferioridade social no qual são mantidas, como se sua condição e posição fossem o resultado imutável ou natural da vida e não tivesse por detrás todo um aparato social hegemônico e opressor, muitas vezes invisível. É evidente que as características de raça e sexo das nossas entrevistadas trazem consigo sua origem, modos de agir, pensar e sentir específicos, que se manifestam em traços físicos marcantes de seu grupo racial e indicativos de seu lugar social.

Na trajetória das mulheres entrevistadas apresentadas a seguir, fica evidente que a estrutura e a ação do pensamento patriarcal e conservador, discrimina, dificulta e inviabiliza as lutas e conquistas profissionais das mulheres. Muitas como elas também enfrentam o racismo imbricado com o sexismo. Colette Guillaumin (1994) diz que o reconhecido parentesco entre racismo e sexismo repousa, em primeira análise, em analogias evidentes entre eles. O desprezo com que são considerados as raças não brancas e o sexo fêmea, – a inferioridade social em que uma e outro são mantidos pela divisão social do trabalho vigente, a precariedade econômica que decorre disto, a segregação espacial e temporal são fatos na

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vida das mulheres agricultoras e também das mulheres de suas famílias. Luiza Bairros sinaliza que apesar de as mulheres passarem pela mesma opressão sexista, racista e de classe, elas experimentam e vivenciam a opressão de maneira diferente, dependendo da posição que elas ocupam na matriz de dominação:

A experiência de opressão sexista é dada pela posição que ocupamos numa matriz de dominação onde raça, gênero e classe social interceptam-se em diferentes pontos. Assim, uma mulher negra trabalhadora não é triplamente oprimida ou mais oprimida que uma mulher branca na mesma classe social, mas experimenta a opressão a partir de um lugar, que proporciona um ponto de vista diferente sobre o que é ser mulher numa sociedade desigual, racista e sexista (1995, p. 459).

Essa reflexão nos leva a entender que os pertencimentos dos sujeitos podem ser reconfigurados a depender da combinação de gênero, classe, raça, de idade e geração ou de outros diferentes sistemas de opressão.

Como as outras categorias sociais referidas acima, a categoria idade/geração também se expressa no marco das relações de poder. Em articulação intricada com gênero, raça, classe e outras dimensões fundantes de relações sociais, percebe-se que a categoria idade/geração tem uma grande complexidade analítica e se projeta, ao mesmo tempo, natural e socialmente. As idades constituem importante fator de análise da vida social, já que as ações do Estado definem a inclusão e exclusão do indivíduo segundo sua condição etária, através do aparato jurídico e das políticas sociais. Portanto, as idades são institucionalizadas, política e juridicamente, e usadas como mecanismo de classificação e separação dos indivíduos, como podemos observar nos dados apresentados na pesquisa. Idade e geração são, pois, importantes fatores de organização social com posições e situações definidas.

O sentido de geração empregado por Alda Britto da Motta e por outros pesquisadores se baseia nas teorias de Karl Mannheim77: que “designa um coletivo de indivíduos que vivem em determinada época ou tempo social, têm aproximadamente a mesma idade e compartilha alguma forma de experiência ou vivência” (2004, p. 350). Nos relatos das histórias de vida, as mulheres agricultoras revelaram uma ampla gama de experiências e vivências geracionais, quando foram entrevistadas e estimuladas a fazer um exercício de memória, lembrar fatos de sua vida e de suas experiências individuais geracionais, compartilhando um momento histórico de suas vidas ou de suas antepassadas.

77 Karl Mannheim, filosófo e sociólogo judeu nascido na Hungria (Budapeste) apresentou e desenvolveu a “sociologia do conhecimento” como uma disciplina acadêmica, através da crítica do conceito de ideologia de Karl Marx.

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Ao compreender as gerações como “coletivos de indivíduos” que, inicialmente, pensam sua experiência na sociedade de forma individualizada, percebo que este processo se materializou nos encontros realizados com elas e nos grupos focais. O pertencimento geracional é um processo que se revela construído dentro do grupo, na medida em que as mulheres foram “puxando pela memória” considerando a transmissão geracional de valores, as etapas do ciclo de vida reprodutivo e produtivo. A princípio, cada uma trazia as suas lembranças do passado as quais foram se constituindo, no progredir dos relatos, não mais como de indivíduos, mas de um coletivo. Elas foram se percebendo naquela geração retratada não só por terem idades aproximadas, mas, também, por terem vivido fatos semelhantes ou por estarem sendo identificadas no discurso, nos eventos lembrados pelo grupo ou, ainda, por outro fato que elas testemunharam ou de que participaram pessoalmente acerca de algumas temáticas em que mulheres e homens estão envolvidos, e isto favorece o entendimento de uma série de mudanças e permanências em suas vidas ao longo de suas trajetórias.

A noção de “trajetória” é entendida por Pierre Bourdieu (1996, p. 292) como “uma série de posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente ou mesmo grupo de agentes, em espaços sucessivos”. Esta abordagem nos permite, a partir do sujeito, situar acontecimentos biográficos individuais e coletivos e seus deslocamentos no espaço social. Trabalhar trajetória de vida traz a possibilidade concreta de reconstrução do passado (a infância, a adolescência, a migração, por exemplo, para São Paulo, o emprego de doméstica e a experiência das mulheres no PGV), das fases da vida a partir dos relatos das mulheres, levando em consideração a descontinuidade e as rupturas ocorridas tanto na vida individual como coletiva. Através do trabalho sobre estas trajetórias e suas vivências, pretendo analisar a mobilidade social, os processos de empoderamento das mulheres agricultoras; observar os níveis de empoderamento individual, organizacional e de comunidade e perceber se e como eles se articulam, focando nas situações familiar, escolar e profissional (no grupo produtivo e na associação) e se se identificam a um grupo social do qual são elementos constitutivos; resgatar o caminho e o percurso da vida dessas mulheres antes e durante o Projeto Gente de Valor; e, também analisar as mudanças sociais, de situação econômica, nas atividades profissionais por elas desenvolvidas, nas relações de gênero, de classe, de raça e de geração, pois remetem sempre a uma relação mais coletiva em torno de pertencimentos sociais partilhados por vias institucionalizadas, na associação ou na família.

Ao reconstruir, na investigação, as trajetórias individuais das dez mulheres agricultoras, trabalho com a ideia de “curso de vida” (life course), pois, segundo Elizabete Bilac (1991, p. 83), “o indivíduo é a unidade básica de análise, buscando-se alcançar a família

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pela interseção das trajetórias individuais”. Procura-se, assim, entender, através dos relatos biográficos (mais subjetivos), os comportamentos individuais para compreender os períodos da vida dos sujeitos, em uma visão mais complexa e elaborada, articulados à reconstrução dos percursos mais institucionais (estruturas objetivas), assim como na dinâmica e interação familiar. Ao refletir sobre as relações sociais que se materializam no cotidiano e na história de vida dessas mulheres, no âmbito do Projeto Gente de Valor, identifico matizes de gênero, classe social, raça e geração na constituição de identidades e sociabilidades. Observa-se que gênero, raça, geração e classe social, como categorias relacionais ou da experiência concretamente vivida, contribuem para explicar melhor as diversas trajetórias de vida percorridas socialmente por diferentes homens e mulheres.

Como são relações de poder, este aspecto não pode escapar à análise. Mulheres agricultoras com experiências e trajetórias diversas tiveram de se organizar e se articular para lutar pelos seus direitos e interesses comuns, pelo reconhecimento de seu trabalho e pela afirmação de sua identidade de mulheres e de mulheres agricultoras. Este foi, e continua sendo, o modo que encontraram para superar as dominações de toda ordem e viverem com maior plenitude a vida. O “paradigma do curso da vida” (SIMÕES, 2004, p. 1) precisa ser analisado sob uma perspectiva dinâmica, pois existe uma fluidez entre as fases que nos ajuda a entender as inter-relações entre a trajetória pessoal e a estruturação histórica e cultural experimentada por essas mulheres no passado, no presente e nas suas expectativas futuras.

Por fim, a noção de “experiência”, que é fundamental na investigação do processo de empoderamento das mulheres agricultoras entrevistadas. Na pesquisa, utilizei a definição desenvolvida por Joan Scott (1999, p. 28), segundo quem “não são os indivíduos que têm experiência, mas os sujeitos é que são constituídos através da experiência”. O conceito ajuda a pensar as semelhanças e diferenças de vivências das mulheres agricultoras no interior das categorias sociais como gênero, classe, raça, geração e outras. Seguindo este caminho, percebe-se que o conceito articula a vida social dos sujeitos (individual e coletivo), a experiência vivida e sentida por elas com o conjunto de práticas e representações simbólicas em torno do “mundo real” em determinadas circunstâncias históricas. Portanto, é fundamental historicizar as experiências das mulheres agricultoras, observar os níveis de empoderamento individual, organizacional e de comunidade, dando mais atenção aos acontecimentos que se cruzam e se repetem, perceber se e como eles se articulam no processo de empoderamento destas mulheres, dependendo das singularidades de cada contexto.

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