• Nenhum resultado encontrado

1 TEORIZANDO SOBRE O PROCESSO DE EMPODERAMENTO DE

1.4 NÍVEIS OU SUJEITOS DE EMPODERAMENTO

Silva e Martinez propõem três níveis de análise do processo de empoderamento, entendendo “por nível uma unidade de análise do agregado social que tem suas metas, recursos, processos, interações e um contexto em que está imerso, podendo ser indivíduos, organizações ou uma comunidade geográfica” (2004, p. 7).

Para efeito da nossa pesquisa, dialogo com o referencial de análise exposto por Rodrigo Horochovski (2006) sobre os níveis ou sujeitos do empoderamento, identificando elementos que caracterizam o processo de empoderamento em três níveis: indivíduos, grupos ou organizações e comunidades (estrutural ou político). É importante ressaltar que em cada um destes níveis experimenta-se processos de empoderamento em um ou vários contextos, que lhes oferecem maiores ou menores oportunidades de desenvolvimento.

O empoderamento individual ocorre mediante a participação dos indivíduos nos mais variados espaços de sociabilidade – no nosso caso específico, nos quintais produtivos, na apicultura, no beneficiamento de frutas, no artesanato, no corte e costura e na associação, espaços nos quais os indivíduos “são/se auto-percebem como detentores de recursos e de competências que lhes permitem influir nos e mesmo controlar os cursos de ação que lhes

53

afetam” (HOROCHOVSKI, 2006, p. 16). As pessoas percebem seus ambientes, sentem uma competência pessoal, provavelmente em decorrência da sua participação no processo de tomada de decisão, tomam consciência de sua própria capacidade de lutar pelos seus interesses e de influenciar outras pessoas. Ao tomar parte deste processo enquanto exercício de tomada de decisão, com uma participação ativa, o indivíduo passa a ter confiança em si mesmo para agir diante das adversidades e sentir que sua presença tem importância e, consequentemente, neste processo, ocorre algum grau de empoderamento pessoal.

Para Kleba (2009), no nível pessoal ou psicológico, um dos aspectos centrais é a percepção do sujeito de suas próprias forças e esta consciência leva à mudança de mentalidade resultando em um comportamento de autoconfiança. Seria importante, também, a percepção das próprias limitações, além das próprias forças. Ela alerta ainda para o emprego do conceito de empoderamento psicológico, por considerar que este revela uma perspectiva filosófica individualista no momento em que ignora e desconecta o indivíduo de seu contexto de inserção sociopolítica. Quanto ao empoderamento psicológico, este ocorre quando o indivíduo vivencia seu poder através de experiências vividas no seu cotidiano, em situações de carência ou de ruptura, quando reconhece seus recursos e possibilidades pessoais ou coletivas e também sua capacidade de enfrentar e sair , em seu cotidiano, de uma situação de impotência e ameaça.

Ressalte-se que esse processo de empoderamento individual pode ser ativado por animadores externos, como agentes sociais, ONGs, órgãos do Estado, empresas, que atuam como mediadores, tendo a função de facilitar o processo, provendo oportunidades para as pessoas exercerem o controle sobre suas vidas, propiciando que estas formem novos grupos empoderadores, em um processo solidário e continuado de formação cidadã.

Em nível individual, os processos de empoderamento das mulheres agricultoras familiares podem ser alcançados através da participação em organizações ou atividades comunitárias, ao integrar grupos de interesses (quintais produtivos, corte e costura, beneficiamento de frutas e artesanato), do aprendizado de novos conhecimentos e do desenvolvimento de novos potenciais e novas tarefas. O exercício de trabalhar em grupo com outras mulheres e homens, com objetivos comuns a serem atingidos e metas a serem cumpridas em um determinado espaço de tempo, já pode ter um potencial empoderador, na medida em que estas “desobedecem” seus pais ou maridos, rompem com a dominação para participarem das atividades do Projeto, e se cria uma disciplina e uma dinâmica de grupo que as levam a experimentar a divisão de tarefas e de responsabilidades construindo laços de confiança entre as pessoas envolvidas no processo que sofre influências diretas (positivas ou

54

negativas) do contexto social, uma vez que o empoderamento não é fruto do consenso, mas sim resultante de tensões e conflitos.

Um exemplo disso é o conflito gerado quando as mulheres teimam em querer participar das atividades organizativas e produtivas. Neste momento, começam a questionar as relações patriarcais existentes, principalmente na família, desencadeando uma verdadeira disputa de poder porque o seu empoderamento significa uma perda de poder dos homens, ou seja, a perda da posição privilegiada concedida, histórica e culturalmente, aos homens pelo patriarcado. Representa a perda desse poder dominante, desse poder sobre (que controla, de forma negativa), desse poder subordinador. Poder que controla a capacidade de se mover, a participação no mundo público, o acesso aos bens materiais, o direito a seus corpos e à sexualidade dessa. Poder que se reflete, muitas vezes, no abuso físico, em violação impune, em abandono e sem decisões consensuais afetando a família (LEÓN, 2001).

Para Batliwala (1994), nesse processo de empoderamento das mulheres, em meio às disputas de poder, os homens também são libertados, libertados do seu papel de opressores e exploradores. Olhando por outro lado, significa que os homens também se empoderam, do poder de forma positiva, do poder da solidariedade, quando começam a vivenciar as relações de gênero de outra forma, quando começam a desconstruir, no cotidiano, os estereótipos de gênero aprendidos com os ancestrais, tão difíceis de remover, quando tiram o duro fardo que a sociedade lhes deu de únicos provedores, de serem os únicos que têm a obrigação de sustentar a família.

O empoderamento organizacional, para Rodrigo Horochovski (2006), dialoga com o que descreve Perkins e Zimmerman (1995), sobre a organização como unidade de análise identificando seus objetivos e processos como um sistema organizacional. Para Horochovski é

o processo pelo qual as organizações formais – agências governamentais, empresas, organizações da sociedade civil – constituem mecanismos de compartilhamento do poder decisório e da liderança, de modo que as decisões sejam mais coletivas e horizontais. (HOROCHOVSKI, 2006, p. 17).

O nível empoderamento grupal ou organizacional, segundo Silva e Martínez (2004)23, diz respeito ao processo de fortalecimento das organizações sociais (comunitária, grupos de interesses, associações) que oferecem oportunidades de formação dos seus

55

membros, geram processos de liderança compartilhada, processos de tomada de decisões para atingir os objetivos e metas da organização como um sistema ou unidade, além de apoiar e desenvolver um sistema de comunicação eficaz entre seus membros, criando ambientes de troca de informações e recursos, a distribuição de papéis e responsabilidades de acordo com a capacidade de cada um, um modelo ou estilo de gestão adequada dependendo do crescimento e desenvolvimento organizacional. Todo esse processo gera uma dinâmica associativa entre os membros da organização construindo um sentido de confiança e de comunidade.

Tratar do nível organizacional do empoderamento implica em um processo de fortalecimento da organização (do grupo de interesse dos quintais produtivos ao grupo das associações comunitárias). Para tal, todos que participam têm de se sentir parte do grupo; de fato, é muito importante, para legitimar e fortalecer o grupo, esta noção de pertencimento, para o que contribuem as estruturas participativas de decisão compartilhadas. É necessário colocar em prática esses processos de liderança compartilhada, de capacitação de membros em função dos objetivos da organização, de tomada de decisões, a partir de sistemas de distribuição de funções e responsabilidades conforme a capacidade de cada um/a e a criação de mecanismos de intercâmbio de informações e recursos, ou seja, um modelo ou estilo de gestão adequada em função do crescimento e desenvolvimento da organização. Para que o grupo atinja seus objetivos comuns enquanto grupo, todos devem respeitar uns aos outros, ter confiança, tolerância e ser solidários uns com os outros. Desta forma, reduzindo o conflito de papéis, o sentido de comunidade é experimentado e a vida comunitária se torna melhor. Aqui o empoderamento das mulheres deve favorecer (e não dificultar) o empoderamento coletivo, comunitário (KLEBA, 2009).

Segundo Silva e Martínez (2004), alguns autores diferenciam as organizações em empoderadoras (empowering) e empoderadas (empowered). As organizações empoderadoras favorecem e apoiam seus membros no processo de empoderamento individual e coletivo, enquanto as instituições empoderadas são aquelas que trabalham em redes, influenciam políticas, alcançam suas metas, desenvolvem formas para aumentar sua efetividade, enfim desenvolvem um processo de empoderamento organizacional que se concretiza em sua capacidade de se envolver em interesses sociais e políticos.

O empoderamento comunitário ocorre quando

Indivíduos e grupos de uma comunidade coletivamente formulam estratégias e ações para potencializar e obter recursos – sejam esses oriundos da própria comunidade ou oriundos de instituições públicas ou privadas – que lhe

56

permitam influenciar nas decisões que são de seu interesse. (HOROCHOVSKI, 2006, p. 17).

Para Kleba (2009), o empoderamento comunitário apresenta alguns fatores que se relacionam com o nível de empoderamento estrutural ou político. No empoderamento individual, estão presentes a autoconfiança e a autoestima; na mesoesfera social, estruturas de mediação nas quais os membros compartilham conhecimentos e ampliam a sua consciência crítica; por fim, no nível macro, há estruturas sociais como o estado e a macroeconomia. Então, ambos – o empoderamento comunitário e o estrutural – favorecem e viabilizam o engajamento, a corresponsabilização e a participação social na perspectiva da cidadania.

O nível comunitário do empoderamento é um nível mais complexo, pois resulta dos níveis individual e organizacional. Neste nível se reconhece a possibilidade de indivíduos coletivos desenvolverem competências para atuarem, no início, na comunidade (no local), desde as unidades domésticas, discutindo sobre questões de seu interesse, sem desconsiderar as lutas globais (nível macro). Durante este processo, a capacidade de analisar criticamente o meio social e político vai sendo adquirida e qualifica a ação política do grupo. Neste processo de conscientização política e cidadã, as pessoas, as organizações e as comunidades são empoderadas – isto significa que temos indivíduos empoderados e organizações voltadas para o empoderamento. Em outras palavras, são comunidades que participam igualitariamente, sem exclusões, defendem os seus direitos e os dos outros, interessam-se pelo bem coletivo, solidarizam-se com o semelhante, lutam pela inclusão social de modo a empoderar outros grupos, têm visão crítica sobre as injustiças sociais e econômicas, em nível local e mundial, e que respeitam o meio ambiente.

Ressalto que o empoderamento comunitário (estrutural) implica em promover a interação e o mútuo apoio entre os indivíduos e organizações, entre organizações governamentais e não governamentais e instituições da comunidade local. Esta cooperação mediante a troca de informação e experiência deve levar em conta todos os agentes envolvidos, na perspectiva do desenvolvimento de redes intersetoriais de organizações de modo a influenciar políticas.

Segundo Kleba (2009), os níveis de empoderamento são interdependentes, ou seja, na vida prática, não existe separação em níveis, na medida em que os indivíduos influenciam e sofrem influência de seu meio e que, para agir, reagir e interagir dependem de condições objetivas e subjetivas. De fato, a separação em níveis é apenas um recurso didático e avaliativo. O empoderamento é um processo, não existindo um estágio de empoderamento

57

absoluto já que é simultaneamente o processo e o resultado deste processo, o que dificulta a separação entre eles. Daí o desafio em levantar e discutir as diferentes perspectivas do empoderamento das mulheres agricultoras familiares a partir das lógicas que as constituem e do ponto de vista de seus atores e os impactos nas atividades sociais, políticas e econômicas das mulheres agricultoras, em função da participação delas nas associações produtivas comunitárias, sobre as relações de gênero tradicionais na família e na comunidade.