2 CONTEXTUALIZANDO A BUSCA DO EMPODERAMENTO DE
2.2 CONTEXTO POLÍTICO BRASILEIRO
2.2.1 Conceitos relevantes
Para assegurar coerência entre a reflexão e a proposta da pesquisa, é necessário retomar alguns aspectos relevantes. Em primeiro lugar, impõe-se uma retomada das raízes
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epistemológicas de conceitos como extensão rural, agricultura familiar, agroecologia, desenvolvimento rural e mulher.
O desenvolvimento rural, em uma perspectiva sustentável, se apresenta como uma alternativa crítica ao modelo de desenvolvimento econômico capitalista hegemônico. Ressaltamos que a crise deste modelo resultou em críticas, inclusive, ao modelo “tutorial” de extensão rural no qual “a ação do agente externo é orientada no sentido de introduzir ideias previamente estabelecidas sem a participação da população alvo de sua ação” (ALENCAR, 1990, p. 25). Dentro da CAR e, consequentemente, dentro do PGV, coexistiram e coexistem a extensão tutorial e a extensão participativa, apesar de a coordenação do PGV ter promovido momentos de debates para repensar o papel da extensão rural pública, isto foi insuficiente para avaliar e rediscutir a prática extensionista realizada pelo Estado, na perspectiva de desconstruir práticas e vícios autoritários dos técnicos e técnicas e efetivar mudanças.
Para que ocorram reais mudanças dentro do PGV e dentro da CAR, é preciso um longo tempo, para atingir uma extensão rural pública democrática e criativa em sintonia com o Plano Nacional de Extensão Rural do Governo Federal no qual a inclusão do caráter participativo foi como um pré-requisito para garantir a efetividade e a legitimidade das políticas públicas para a agricultura familiar. É necessário ressaltar que a categoria “agricultura familiar” é uma nova concepção teórica utilizada para caracterizar as unidades de produção, substituindo as categorias de análise utilizadas anteriormente como campesinato, pequena produção, agricultura de subsistência, entre outras que, segundo Rosangela Hespanhol (2000), perderam seu poder explicativo. Entende-se por “agricultura familiar” o conceito estabelecido na Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006, considerando-se agricultor familiar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:
I – não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II – utilize predominantemente mão-de-obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; III – tenha percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento, na forma definida pelo Poder Executivo; IV – dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família. (Art. 3º, 2006).
Então, agricultura familiar, a partir da década de 1990, como uma categoria de análise ainda é utilizada para:
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[...] designar genericamente as unidades produtivas, nas quais a terra, os meios de produção e o trabalho encontram-se estreitamente vinculados ao grupo familiar, deve ser aprendida como um reflexo das alterações recentes ocorridas na agricultura brasileira e que, em última análise, levaram a valorização do segmento familiar. (HESPANHOL, 2000, p. 2).
Porém, é na última década do século XX, que o emprego do conceito “camponês” é substituído, sem maiores reflexões, pelo conceito de “agricultura familiar”. Esta substituição de conceitos é aceita pela academia, pelo Estado e, também, pelos agricultores e seus sindicatos e movimentos sociais.
Mudanças foram possibilitadas pela crise do modelo de desenvolvimento econômico capitalista, produtivista, autoritário e fomentador da crescente desigualdade econômica e social, da concentração fundiária, do êxodo rural, da degradação ecológica, da contaminação por agrotóxicos e da insegurança alimentar nutricional, que se observa nas cidades e no campo; mudanças na visão de desenvolvimento que, por sua vez, alcançaram a extensão rural.
Ressalto que alguns técnicos e técnicas do Projeto trouxeram, em sua prática profissional no campo, no trabalho de extensão rural nos movimentos sociais e ONGs a perspectiva de Paulo Freire (1977), que se requer como “prática educativo-participativa” e não mais como transferência de conhecimentos. O diálogo é o ponto de partida para a partilha do conhecimento e a troca de saberes e experiências entre técnicos/técnicas e agricultores/ agricultoras, se torna uma prática fundamental na intervenção. A participação ativa de todos – homens e mulheres – enriquece o processo de aprendizagem e contribui para o reconhecimento do indivíduo enquanto ser coletivo, capaz de escolher e decidir sua própria vida para, neste processo, se perceber verdadeiramente cidadão ou cidadã.
Outro conceito fundamental para um bom entendimento da concepção que norteou a intervenção do PGV no campo, para além de um modismo atual, é a agroecologia. Ela pretende apoiar a superação dos atuais modelos de agricultura e de desenvolvimento rural, que se baseiam no modelo da Revolução Verde os quais visam o aumento da produtividade agrícola e da lucratividade do agronegócio, pelo uso intensivo de fertilizantes químicos, agrotóxicos, máquinas e implementos agrícolas e pela especialização da produção vegetal e animal, modelo que, do ponto de vista socioambiental, já se mostrou insustentável, em particular, nos países considerados pobres. Em contraposição a este modelo da Revolução Verde, a agroecologia vem, a cada ano, se constituindo como uma alternativa para os agricultores e agricultoras familiares. A agroecologia tem sua base tecnológica na preservação dos recursos naturais, no manejo sustentável da biodiversidade, na diversidade produtiva, na
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autonomia das famílias e no respeito ao meio ambiente; valoriza o saber do agricultor e da agricultora, respeita sua cultura e suas experiências; supõe o diálogo e a interação entre eles e elas e os técnicos e técnicas. Nas palavras de Susanna Hecht, “é uma abordagem agrícola que incorpora cuidados especiais relativos ao ambiente, assim como aos problemas sociais, enfocando não somente a produção, mas também a sustentabilidade ecológica do sistema de produção” (2002, p. 26).
A agroecologia se propõe a ser um enfoque científico e, também, uma prática da agricultura que atua sobre os agroecossistemas com critérios de sustentabilidade. Segundo Hecht:
A agroecologia apenas recuperou uma herança agrícola que havia sido destruída pela agricultura moderna e, particularmente, pelas ciências agronômicas, que imbuídas, em muitos casos, de preconceitos de classe, etnia, cultura e gênero, haviam desprezado esse conjunto de conhecimentos e as pessoas que os produziam e repassavam. (HECHT, 2002, p. 22).
A implantação da chamada “agricultura moderna” veio com a estratégia de desqualificar os conhecimentos, os saberes e as formas tradicionais de agricultura praticadas, há séculos, pelos agricultores e agricultoras, nas diversas regiões do país. Esta estratégia, que ignora a cultura local e reforça os preconceitos de classe, étnico-culturais e de gênero, ameaça os agricultores e as agricultoras familiares e, sobretudo, desvaloriza o trabalho das mulheres agricultoras, colocando em risco as bases de vida, a saúde e a segurança alimentar de toda a família.
A agroecologia, ao contrário, trouxe em sua proposta a afirmação do protagonismo dos agricultores e agricultoras em sua diversidade – camponeses, quilombolas, outros povos e comunidades tradicionais do campo, inclusive indígenas – como elemento central na construção de um novo desenvolvimento rural e contribuiu para evidenciar o importante papel desempenhado pelas mulheres na sustentabilidade da agricultura. No entanto, ainda é preciso incorporar transversalmente à agroecologia a perspectiva de gênero, pois permanece o desafio de reconstruir a relação das mulheres do campo com os espaços produtivos e com os mercados locais. Isto implica em inclui-las na produção e na comercialização dos produtos com a perspectiva de um envolvimento consciente na gestão dos recursos, inclusive financeiros.
O Projeto Gente de Valor, por ser um projeto governamental, usa em sua abordagem o termo “agricultoras” e não “camponesas”. Há uma importante discussão em torno das razões dos usos destes diferentes conceitos no Brasil. Porém, aqui neste trabalho de
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pesquisa, usarei “agricultora” por estar analisando o empoderamento de mulheres a partir da intervenção de um projeto de governo que utiliza esta concepção.
A palavra “mulher” existe carregada de contexto histórico, marcada pelo machismo38 impregnado pela sociedade, tanto nos homens quanto nas mulheres. A mulher agricultora enfrenta, cotidianamente, o peso da diferença de gênero cruzada pelas diferenças de classe social, raça, etnia, geração, regionalidade entre outras, geradas pela associação de sistemas múltiplos de subordinação que estruturam os terrenos sociais, econômicos e políticos (CRENSHAW, 2002), tornando resistência e luta o ato de se organizar contra o sistema opressor e discriminatório que cria desigualdades pelas formas como se exercem e se combinam o racismo, o patriarcalismo e o capitalismo.
Embora todas sejam “mulheres” e possam participar de um “grupo de mulheres”, o PGV as trata como se todas fossem iguais, mesmo sabendo que são mulheres de raças, etnias e gerações diferentes. As ações desenvolvidas, as atividades produtivas estimuladas e a forma de trabalhar não tinham especificidade para contemplar esta diversidade de mulheres – índias, negras e brancas – muito menos para as jovens ou idosas. Elas são diferentes entre si, porém, todas sofrem preconceito por serem da roça e discriminação por serem mulheres, não sendo tratadas igualmente como os outros indivíduos.
Scott diz que “os indivíduos não serão tratados com justiça (na lei e na sociedade) até que os grupos com os quais eles são identificados sejam igualmente valorizados” (2005, p. 13). A experiência do PGV leva a concordar com ela e a reconhecer que existem tensões, mas, também, pontos de interconexões entre igualdade e diferença, entre direitos individuais e identidades grupais. A luta das mulheres tem que ser coletiva, se pretende superar o preconceito e a discriminação, pois se estes permanecerem em nossa sociedade é porque se continua a utilizar critérios diferentes para avaliar os indivíduos, dando mais atenção aos
status econômico, político e social dos grupos, ignorando outras identidades tão importantes quanto estas.
O Projeto Gente de Valor por não dialogar com o acúmulo das teorias feministas ainda trabalha com uma proposta geral do enfoque de gênero, ao tentar ignorar a força política da categoria “mulher” e não reconhecê-la como uma identidade de estratégia política de sobrevivência pessoal e coletiva. Claudia de Lima Costa argumenta que, apesar das críticas à política de identidade e das questões relativas ao “essencialismo estratégico”39, o feminismo
38 Segundo o Dicionário Aurélio, o machismo é a atitude ou comportamento de quem não aceita a igualdade de direitos para o homem e a mulher.
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atual, com toda a sua diversidade de discursos, reconhece a “mulher” como uma categoria histórica e heterogeneamente construída e fundamenta sua análise nas práticas cotidianas das mulheres e nas resistências destas em relação às especificidades histórico-discursivas. A categoria “mulheres”, apesar de ser volátil e dependente do contexto conjuntural, é utilizada para articular as mulheres politicamente (2002, p. 67).
Vivemos em uma sociedade baseada nas relações de poder. A realidade na sociedade rural se baseia em valores patriarcalistas e o princípio masculino ainda é tomado como parâmetro universalizante. As mulheres, com o papel de reprodução, se tornam submissas e responsáveis pela esfera doméstica. Hoje, porém, já é possível identificar na sociedade rural que este processo de naturalização vem se desconstruindo: já não é tão forte como no passado.
Nos últimos anos, observa-se que o empoderamento da mulher na sociedade rural tem tomado a atenção de grande parte da esfera pública, tanto que, para celebrar o Dia Internacional da Mulher, em 2012, dada a importância do papel das mulheres rurais em todos os países, a ONU Mulheres, entidade específica das Nações Unidas, escolheu o tema “Empoderamento das mulheres rurais – Acabar com a fome e a pobreza”.
O Projeto Gente de Valor se insere nesta concepção e, em suas ações, parte do reconhecimento do papel desenvolvido pelas mulheres agricultoras, da importância do seu trabalho na economia rural local, concentrado nas atividades voltadas ao autoconsumo familiar, nas tarefas domésticas, no cuidado com os filhos, na criação de pequenos animais, na horticultura, no cultivo e resgate das plantas medicinais, no zelo pelo jardim, no manejo da caatinga e na produção da lavoura. Por outro lado, percebe-se que as mulheres agricultoras na Bahia ainda são discriminadas e oprimidas e têm dificuldades ou são excluídas de participar ativamente de projetos de desenvolvimento rural com a perspectiva sustentável. O PGV, em sua proposta de intervenção, incorpora a participação das populações excluídas do desenvolvimento, participação que se dá na formulação e condução das políticas públicas voltadas para o campo. Deste modo, possibilitou a inclusão das mulheres agricultoras nas atividades de produção agrícola e nas associações comunitárias previstas no Projeto.
É o que se pretende verificar através da análise dos dados sobre a participação das mulheres no Projeto, como se deu a promoção e a efetivação de direitos, de cidadania, de oportunidades para transformar as relações desiguais de poder presentes no meio rural.
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