3 MULHERES AGRICULTORAS FAMILIARES NO PROJETO GENTE
4.2 OUVINDO OS FACILITADORES NO PROCESSO DE EMPODERAMENTO
Diferentemente das depoentes agricultoras, no caso dos técnicos, foi acordado com eles manter os seus próprios nomes. É muito importante, em projetos de desenvolvimento rural sustentável que incorporam o enfoque de gênero, a participação de profissionais, como agentes públicos, com sensibilidade para a temática das relações de gênero. Na perspectiva de poder reconstruir o olhar dos técnicos e da técnica do PGV, em relação à intervenção de gênero, fui ouvi-los através de entrevistas semiestruturadas.
O primeiro, Geraldo Gomes Varjão, é engenheiro agrônomo, 48 anos, heterossexual, casado, duas filhas, se autodeclara negro, é natural do município de Macururé (BA) e assume o cargo de chefe do escritório de Cícero Dantas. O segundo técnico, Adailton Conceição Carneiro, é formado em pedagogia, 40 anos, heterossexual, casado, dois filhos (um menino e uma menina), se autodeclara de descendência indígena, natural do município de Ichu (BA) e assume o cargo de chefe do escritório de Jeremoabo. A única técnica entrevistada, Rejane Magalhães Borges Maia, 41 anos, heterossexual, casada, duas filhas e três enteados, se autodeclara como negra, apesar de, na certidão de nascimento, constar cor
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parda e as pessoas falarem que ela é de ascendência indígena; nasceu no município de Cruz das Almas (BA); assume a chefia do escritório de Ribeira do Pombal.
Dentre as mudanças observadas na vida das mulheres agricultoras, confirmadas pelos grupos focais e pelos técnicos e técnica, destacam-se o aumento dos níveis de escolarização e a participação nas atividades produtivas geradoras de renda. Nas últimas décadas, observam-se mudanças mais amplas, como a diminuição do número de filhos, transformações de ordem demográfica e em aspectos relacionados à subjetividade das mulheres bem traduzidos pelo ideário em torno da “emancipação feminina”. Por outro lado, persiste uma divisão tradicional do trabalho doméstico que perpetua a sobrecarga das mulheres agricultoras, particularmente, em um momento em que cresce bastante a participação delas na produção agrícola como trabalhadoras remuneradas e, consequentemente, como provedoras das famílias.
Vale lembrar que feministas no mundo inteiro passaram a lançar um olhar crítico sobre esta forma de inclusão das mulheres nos projetos de desenvolvimento e a apresentar a noção pela qual o desenvolvimento só garante democracia de gênero se houver uma inclusão das mulheres como protagonistas destes projetos além de uma decisão conscientemente tomada de transformar as desigualdades existentes no acesso aos recursos, à tomada de decisão e ao controle sobre os resultados das ações previstas nos projetos de desenvolvimento com mecanismos claros para atingir este objetivo.
Mesmo em um universo relativamente pequeno de entrevistadas, há muitas histórias, diferentes trajetórias e possibilidades de viver a experiência de ser mulher, agricultora, mãe, artesã, professora, gestora, nos tempos de hoje. Este é um grande desafio para essas mulheres agricultoras, nordestinas, de baixa renda, de pouca escolaridade, formadas culturalmente para serem do lar, subordinadas aos seus pais e maridos.
A proposta de intervenção do Projeto Gente de Valor era uma proposta de desenvolvimento rural que incluía um conjunto de melhorias econômicas, culturais, ambientais, sociais e políticas, para o campo, das quais as populações envolvidas seriam protagonistas e teriam o apoio dos agentes de Extensão Rural (técnicos e técnicas). O enfoque de gênero está no objetivo geral: “melhorar as condições sociais e econômicas das comunidades rurais pobres, através do desenvolvimento social e econômico, ambientalmente sustentável, com equidade de gênero” (MOP72, 2008, p. 17). O “ambientalmente sustentável” estava diretamente relacionado a promover a construção do desenvolvimento rural com base
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nos princípios da Agroecologia. Esta escolha demandava um maior conhecimento teórico sobre vários conceitos e práticas metodológicas diferentes das realizadas na Extensão Rural tradicional (difusionista)73, que cumpria o papel de difundir tecnologias intensivas e preconizava uma agricultura baseada na monocultura, na exportação e no consumo de “pacotes” da Revolução Verde que vinha sendo executada pelo Estado.
Portanto, executar essa proposta dentro da estrutura do Estado era e é um grande desafio, por exigir mudanças, também, nas ações de Assistência Técnica e Extensão Rural, por seu caráter social com forte conteúdo de mobilização e organização, por usar metodologias participativas, valorizar os saberes dos agricultores e agricultoras, trabalhar com enfoque de gênero, respeitar as diferenças culturais, buscar a inclusão das mulheres e o fortalecimento da agricultura familiar.
A dimensão social que foi trabalhada no Projeto abrange as dimensões produtiva e econômica e a forma como se organiza esta produção. Entendo, como Emma Siliprandi, que os processos de organização social são fundamentais para a extensão rural agroecológica no seu fazer produtivo, que valoriza a forma como se organizam os grupos sociais e a sua vida comunitária, e no qual
[...] o social não se restringe ao ‘assistencial’; aquele outro ‘social’ (saúde, educação, lazer, cultura etc.), que de certa forma sempre foi enfocado nas ações concretas da extensão, se for colocado em uma perspectiva estratégica de construção de sujeitos sociais autônomos, e livre do difusionismo em todos os seus matizes, passa a ser uma dimensão fundamental para uma proposta de Extensão Rural Agroecológica (2002, p. 40).
Essa proposta de Extensão Rural Agroecológica exigia dos profissionais de campo não só concordância com o discurso do Projeto, mas o rompimento com uma antiga prática e postura, uma vez que estes trazem consigo valores e visões de mundo marcadas pela ideia do difusionismo e da transmissão unilateral de conhecimentos, o que demanda dos profissionais contratados maior conhecimento, qualificação e compromisso para desenvolver o Projeto no campo.
Vejamos, agora, alguns depoimentos de técnicos sobre a questão da proposta de extensão rural agroecológica:
– [...] eu sinto que foi uma limitação minha e o projeto acaba tendo essa limitação por estar com profissionais que não tinham tanta qualificação nessa formação. [...]
73 O modelo de extensão rural oficial no Brasil cumpriu com o propósito de difundir tecnologias intensivas em capital e constituir-se em importante aporte a um modelo de desenvolvimento baseado na Revolução Verde.
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Então, eu acho, para estar no Projeto Gente de Valor, um projeto com esse perfil, a gente precisa ter experiências em todas essas temáticas que o projeto traz inclusive o da agroecologia, que eu acho fundamental porque a gente está acompanhando todos os grupos de produção. (Adailton, Jeremoabo, 2013).
– [...] eu vim do MPA [Movimento dos Pequenos Agricultores] e dentro a gente tinha o plano camponês, que o MPA, a linha dele é dentro dessa questão da agroecologia e não somente do adubo, do veneno, não, tudo que envolve aquele mundo ali dos agricultores e das agricultoras nas comunidades. E quando eu entrei no MPA, também, a formação de agrônomo lá em Cruz das Almas não te dá essa visão; pra mim foi importante a ida pro MPA, por isso abriu minha mente para um outro lado, para um lado crítico do sistema que a gente aprende dentro da faculdade. Eu lembro que, no MPA, a gente teve oportunidade de estar conhecendo e fazendo algumas práticas também na linha agroecológica, de trabalhar essas questões de gênero, do uso da não agressão à natureza, enfim, tudo que é relações homem – planta – mulher, tudo. (Geraldo, Cícero Dantas, 2013).
Essa proposta exige a mudança do modelo em que esses profissionais foram formados, de agentes de uma concepção desenvolvimentista que quer impor à repetição, aos agricultores e agricultoras, um conhecimento e uma técnica prontos e tidos como únicos e melhores, para um novo modelo, o de “agente de desenvolvimento”, que deve passar a ser o facilitador de um processo de organização centrado na autonomia das comunidades.
Antes de expor outros depoimentos dos técnicos e da técnica, torna-se necessário apresentar um perfil destes profissionais, assim, para um maior conhecimento dos agentes facilitadores entrevistados, o Quadro 3 apresenta algumas informações gerais sobre essa equipe.
Os técnicos e a técnica do Projeto Gente de Valor têm um papel importante no processo de empoderamento, em especial, aqueles que vieram de uma militância dentro das organizações da sociedade civil. Enquanto agentes externos, funcionam como simples catalisadores iniciais no processo, já que a responsabilidade maior cabe aos sujeitos (as próprias mulheres). Sobre isto, afirma Romano:
Não é algo que pode ser feito a alguém por uma outra pessoa. Os agentes de mudança externos podem ser necessários como catalizadores iniciais, mas o impulso do processo se explica pela extensão e a rapidez com que as pessoas e suas organizações se mudam a si mesmas. (2002, p. 6).
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Quadro 3 – Perfil dos técnicos e da técnica do Projeto Gente de Valor da Região Nordeste da Bahia
Fonte: Pesquisa de campo – outubro a dezembro de 2013.
NOME
(fictício) Sexo
Idade (
anos
)
Cor Orientação Sexual Estado Civil Filhos No Município Origem/ Religião Profissão Cargo no PGV/Responsável Escolaridade
Adailton Conceição Carneiro
M 40 Branco Heterossexual
casado 2
Rural Católico Pedagogo Chefe do Escritório de Jeremoabo Técnico do Componente Capital Humano e Social Superior Geraldo Gomes Vargão M 48 Negro Heterossexual casado 2 Rural / Macururé Católico Engenheiro Agrônomo
Chefe do Escritório de Cícero Dantas Técnico do Componente Produtivo e de Mercado Superior Rejane Magalhães Borges Maia F 41 Negra Heterossexual casada 2 Urbana / Cruz das Almas Espírita Engenheira Agrônoma
Chefe do Escritório de Ribeira do Pombal
Técnica do Componente Produtivo e de Mercado
Mestra Água e Solos (UFBA)
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Os profissionais com formação interdisciplinar devem atuar como catalisadores, facilitadores do processo de empoderamento das mulheres camponesas, incentivando sua participação em atividades que lhes proporcionam condições de mudanças em relação a sua consciência individual e coletiva e a conhecer seus direitos e capacidades. Desta forma, as pessoas e suas organizações podem construir sua própria autonomia e sua inclusão nas políticas sociais, tornando-se parte decisiva deste processo. Para os técnicos e a técnica assumirem este papel, era preciso entender a proposta de intervenção com enfoque de gênero do Projeto Gente de Valor. Na contratação dos profissionais que iriam trabalhar no projeto, havia como recomendação conhecer e já ter trabalhado com gênero. À pergunta se já haviam trabalhado antes com o enfoque de gênero, os dois técnicos e a técnica entrevistados, assim responderam:
– No MPA, essa questão de gênero, também, eu acho que é muito parecido com o
projeto, você via muito falar disso, gênero, você tem que ter homens e mulheres. As próprias pessoas dentro do movimento também não tinham essa discussão, não sabiam. Ah, tem um projeto do MDA, e tem que vê essa questão de homem, mas era quantidade, eu via muito quantidade. Tanto é que a equipe tinha que ter a mulher, ah, tem que ter, mas não é coisas profundas. Como até hoje eu acho que também não é dentro do projeto [o PGV]. Tem muito
além disso aí, mas assim mesmo, você, como era também da equipe técnica e tinha aquele item ali gênero, aí você despertava para entender e ler. (Geraldo, Cícero Dantas, 2013).
– Nunca trabalhei com gênero. Na verdade, eu nem sabia o que era gênero. Eu vim para esse projeto e quando eu entrei aqui eu via muito falar “precisamos falar nas relações de gênero”... Meu Deus, o que é isso? Gênero, a gente aprendia homem, mulher, na escola– meu Deus – homem, mulher, tá. Eu entrei no projeto sem entender nada, não tinha
ouvido falar de gênero, eu, na verdade, eu era uma mulher que reproduzia os papéis, reproduzia essa questão muito forte do que é ser homem e o que é ser mulher, o que é pra homem fazer, o que é pra mulher fazer. Eu tinha isso muito concreto na minha cabeça de como era e, pra mim, para eu chegar aqui, foi um processo para eu desconstruir e entender que eu também, enquanto mulher, eu podia. Eu cheguei aqui, eu era técnica também do projeto e eu ficava, e tive muito conflito aqui no projeto, eu tive muita vontade de ir embora várias vezes. Eu não entendia, eu não fui uma pessoa que veio de movimentos, de militância, então, não tinha essa compreensão, eu não tinha essa visão crítica muito do mundo, eu vivia muito no meu “mundo de Alice” e naquela vida que não era tão tranquila, mas que eu já tinha aceitado que era pra mim, que era aquilo ali mesmo, que eu tinha que viver daquele
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jeito mesmo e eu não tinha nenhuma visão do que era gênero quando eu cheguei aqui no projeto, nenhuma. (Rejane, Ribeira do Pombal, 2013).
– Com a minha experiência posso dizer que não; eu tinha uma reflexão muito superficial, muito vaga. Acho que aprendi um pouco, queria que tivesse espaço para aprofundar mais. Acho, assim, o pouco que dialoguei contigo, em algumas atividades e materiais que foram socializados, acho que isso me ajudou, porque tento assim entender um pouco mais. Não estou dizendo que hoje eu tenho uma formação à altura que o projeto esperava em relação ao enfoque de gênero, acho que preciso muito, porque não tive uma formação específica. Eu ganhei muito com o projeto, até dialogando contigo pessoalmente, você contribuiu muito comigo até no nosso bate-papo, nas conversas de bastidores com outras pessoas também... detalhes que está tão impregnado que a gente já traz desde a nossa infância, da nossa criação. (Adailton, Jeremoabo, 2013).
Pelos relatos, pode se perceber que um dos primeiros desafios para concretizar a proposta de equidade de gênero do Projeto é ter profissionais com sensibilidade, conhecimento e compreensão sobre o que é gênero e como trabalhar este enfoque no universo de desenvolvimento rural. Nos depoimentos, observa-se, depois desses anos da execução do projeto, o que eles entendem por gênero:
– Eu entendo que gênero, acima de tudo, além de ser essa igualdade de
oportunidades pra ambos os sexos, eu entendo que, além disso, já fundamentado em alguns matérias que eu cheguei a ler, eu entendo que é a capacidade, principalmente das mulheres, de questionar o modelo que está aí, fazer as intervenções na sua estrutura, nos espaços sociais, políticos, questionar esse modelo dentro do próprio espaço doméstico, debater mais, dialogar [sobre] a relação com o esposo, com os filhos. Acho que, hoje, essa questão do
preconceito, a questão do machismo, a gente percebe que não é um, a questão só do homem– entendeu?–, a gente sabe que a mulher sempre foi vítima do processo, mas tá muito forte a mulher com essa carga e formação que ela recebe e acaba disseminando, eu diria, essa formação machista nas meninas e nos meninos, a gente já cresce com essa cultura enraizada do machismo, isso é muito forte. (Adailton, Jeremoabo, 2013).
– Hoje eu tenho uma visão de gênero muito baseada pelo o que eu li, mais no NEIM74, que também me ajudou muito; na verdade, eu já fazia o trabalho, mas, na verdade, eu ainda não tinha trazido pra dentro de mim, não percebia, como hoje eu percebo, quanto
74 O NEIM tem realizado, na modalidade de educação a distancia (EAD) cursos para o público externo à UFBA, dentre estes, o curso de Especialização em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça (GPP-GER) do qual a técnica Rejane chegou a participar do primeiro módulo.
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que as mulheres sempre foram massacradas e fragilizadas; hoje eu percebo, muito claramente, hoje eu tenho uma visão muito crítica. [...] Então, hoje, a gente está num país que a gente tem uma mulher presidenta, mas, assim eu tenho o cuidado do olhar de gênero
sem ser muito feminista, porque também ela é uma mulher que está ali no poder, ela vai ser
criticada, ela é a melhor... não é isso, hoje eu entendo sobre gênero e relações, são oportunidades iguais para homens e mulheres, sem limitações. [...] Eu ainda tenho, eu
trabalho muito em não colocar muito o feminismo, porque às vezes eu acho que fica muito forte, eu não tenho nada contra as feministas, não, mas eu tenho muito esse cuidado de não ficar no extremo. [...] Eu vivenciei essa coisa, eu aprendi como a sociedade prega, e
para eu desconstruir me deu um trabalho, imagina essas mulheres que ficaram anos naquele massacre, pra você tentar desconstruir é problemático, mas hoje, as relações de gênero, eu vejo muito assim gênero em relações de oportunidades pra homens e mulheres. Quando eu cheguei no projeto, eu via muita oportunidade de acesso, de ter que ter uma mulher ali dentro, hoje eu já tenho outro olhar, de ter uma mulher, mas que ela também tenha poderes, que ela saiba tomar decisões, que ela tenha aquele olhar que ela também pode e também percebo muito ainda, muitas limitações, maridos que se acham donos das mulheres, vejo muitas coisas ainda que eu fico às vezes triste, poxa como é difícil desconstruir e como vai ser difícil fazer com que essas mulheres, as filhas, não reproduzam os mesmos papéis, está muito na reprodução... Então, eu acho que tem que trabalhar muito com a juventude, muito com a educação, pra ir tentando desconstruir, porque, pra mim foi a educação que veio me trazendo essa desconstrução, essa leitura, essa oportunidade de aprendizado, foi quem me trouxe esse olhar de tentar desconstruir. (Rejane, Ribeira do Pombal, 2013).
– Gênero, pra definir assim em palavras eu não sei se conseguiria. Eu vou dar um exemplo que eu tento construir com minha companheira também, de um respeito mesmo, de uma relação entre seres, não de homem e de mulher e definir porque de homem e de mulher, mas de seres que tem que se respeitar o outro, assim em termo de vontade do que quer fazer, de não passar por cima do outro, de diálogo mesmo, de conversar, assim, como eu tento também fazer... Eu tenho duas filhas também, eu fico preocupado também com vai ser elas numa sociedade que eu conheci e que não mudou. Como será tentar que elas tenham uma mentalidade futura, quando tiver um companheiro, um homem ou uma mulher, que seja o que elas escolherem como companheiro? Que tenham isso, que procure o respeito de dialogar, que tenha o direito de pensar, de discutir com o outro, de não necessariamente ser uma imposição. Sem você impor o que você pensa sobre o outro, entendeu, você definir assim
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pra mim, se resume nisso, no respeito, na questão de você não querer se impor sobre o outro.
(Geraldo, Cícero Dantas, 2013).
Os depoimentos mostram que as perspectivas de gênero e seus atores se entrecruzam. Percebe-se como é difícil para esses técnicos e técnica trabalhar a questão de gênero no cotidiano, sem primeiro desconstruir dentro de cada um deles e dela as questões culturais, familiares, religiosas e outras aprendidas ao longo de suas vidas. A equipe não conseguia pensar gênero dentro de uma lógica de relações em que tudo vai acontecendo de forma interconectada entre sexo, classe, raça, etnia, idade, geração, origem e orientação sexual. Esses agentes não conseguiam compreender a interseccionalidade dessas relações plurais e como sexo e gênero operam na realidade e aí se imbricam.
Percebe-se, materializado nas palavras de Rejane, a técnica, um conceito de gênero na perspectiva de desenvolvimento puramente analítico, dissociado da política do feminismo. Por isto, apesar de Rejane estar em um processo de desconstrução de seus valores e crenças culturais, a sua abordagem de gênero, na prática, ainda enfatiza as divisões sexuais e a imposição de papéis masculinos e femininos e não desafia e questiona as relações de poder entre os sexos nem os modelos dominantes de desenvolvimento que fortalecem os privilégios masculinos e mantêm o surgimento destes papéis. Acredito que o “medo” que esta técnica e outros técnicos têm do “feminismo” é, justamente, por este colocar em debate a separação entre o público e o privado, afirmando, ao longo de sua trajetória de luta, que “o pessoal é político” e, principalmente, pelo fato de contestar, social e politicamente, aspectos considerados incontestáveis: a sexualidade, a família, a divisão sexual do trabalho doméstico, entre outros (BUARQUE, 2003).
Apesar das dificuldades enfrentadas por esses agentes públicos para desenvolver o Projeto, eles afirmam ser importante trabalhar a perspectiva de gênero em um projeto de desenvolvimento rural sustentável:
– Sem dúvida, mais do que importante é fundamental. Eu acho que o Gente de Valor serve, não é um modelo perfeito, mas serve como uma referência para um outro projeto. Eu fico pensando: “rapaz, que maravilha foi o Projeto Gente de Valor, no meio desse sertão nosso, nessa região semiárida, tão forte essa cultura machista, a concentração de poder, de poderes autoritários na própria comunidade, na associação, enfim no espaço