1 TEORIZANDO SOBRE O PROCESSO DE EMPODERAMENTO DE
1.1 CONCEITUANDO EMPODERAMENTO
1.1.1 Na perspectiva de desenvolvimento
Segundo Jorge Romano (2002), nos últimos anos, no debate ideológico em torno do desenvolvimento, o empoderamento é uma das categorias, dentre outras como capital
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social11, participação e direitos, presentes em discursos críticos ao desenvolvimento vigente que têm, de um lado, defensores de uma globalização regida pelo neoliberalismo e, de outro, grupos que argumentam que “a construção de um outro mundo é possível”.
Alerta Romano (2000) que a apropriação do tema “empoderamento” no discurso de órgãos governamentais, de organizações da sociedade civil, pelas agências de cooperação e organizações financeiras multilaterais, por exemplo, o Banco Mundial e o FIDA12, tem levado a um processo de despolitização do conceito, pois estes atores enfatizaram sua dimensão instrumental e metodológica, afastando a conotação mais radical e política pensada pelos movimentos feminista e negro. Nos últimos anos, as próprias agências de cooperação e organizações financeiras multilaterais, a partir das experiências práticas das instituições da sociedade civil, vêm adotando, progressivamente, na formulação de suas políticas e estratégias, a abordagem que se apoia na promoção de direitos humanos (civis, políticos, econômicos e culturais). Tanto no caso de empoderamento, como no campo de desenvolvimento, a noção de direitos passa a ser motivo de debate e disputa. Mas é importante ressaltar que as discussões sobre o enfoque do empoderamento no sentido de direitos humanos estão principalmente relacionadas às propostas de agências de cooperação. Este é o caso da proposta de intervenção do Projeto Gente de Valor na perspectiva de gênero.
Passaram-se mais de 50 anos da Declaração sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher das Nações Unidas (1967), mas muitos dos seus princípios ainda não se cumprem na sua totalidade. E, apesar dos progressos realizados em matéria de igualdade de direitos entre homens e mulheres, continua existindo considerável discriminação contra a mulher, o que impede sua participação ativa na vida política, social, econômica e cultural e constitui um obstáculo ao desenvolvimento completo das potencialidades da mulher, pois existe uma série de problemas comuns, econômicos e culturais que se traduzem em diferentes formas de discriminação, subordinação e opressão. A dificuldade de inserção da mulher em lugares específicos da sociedade civil, sobretudo no mundo do emprego, na atividade produtiva – em nosso caso específico, na área rural –, é um problema de natureza cultural, educativa e política. Exige-se o redobramento de esforços no sentido de superar preconceitos,
11 Capital Social uma das categorias utilizadas no Projeto Gente de Valor – um dos seus componentes é chamado Capital Humano e Social. “O capital social é constituído pelo conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de conhecimento e reconhecimento” (Ver: BOURDIEU, Pierre, Le capital social: notes provisoires. Actes de la recherche en sciences sociales, Paris, n. 31, jan. 1980, p. 2). Entendendo, assim como Bourdieu, para além do econômico, aplicando-o também a dimensões não materiais e simbólicas.
12 Este último, o FIDA, é o parceiro internacional (co-financiador) do Projeto Gente de Valor, através de um contrato de acordo assinado com o Governo do Estado da Bahia.
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abolir práticas tradicionalistas e eliminar restrições ligadas aos aspectos culturais ancestrais, difíceis de mudar. Neste contexto, a mulher sempre foi e continua a ser um pilar importante do desenvolvimento, embora, muitas vezes, de forma invisível.
Na década de 1980, têm início os estudos sobre as relações de gênero, com papéis específicos que envolvem não só as mulheres, mas, também, os homens. A mulher passa a ser promotora de mudanças e de luta, agente ativa de desenvolvimento do modelo de modernização conservadora. Só nos meados daquela década, começa-se a considerar a mulher como um pilar do desenvolvimento econômico pelos defensores das políticas neoliberais, mas de uma forma utilitarista, ao usarem os argumentos, antes apresentados como de exploração da mulher pobre, tais como trabalham mais, são mais confiáveis de investir e mais fáceis de mobilizar, então, como prova de eficiência; na medida em que as mulheres eram bem- sucedidas na administração e gestão dos recursos econômicos, passaram a ser consideradas como melhor investimento tanto econômico quanto político (BATLIWALA, 2013).
No paradigma do desenvolvimento humano, o princípio de empoderamento é o que o diferencia dos outros tipos de desenvolvimento, já que os homens e as mulheres estão em posição de exercer sua capacidade de escolher de acordo com suas ideias, seus desejos e de decidir sobre suas vidas. Contudo, para muitas agências e órgãos governamentais, o empoderamento das mulheres é visto como instrumento para o desenvolvimento, para erradicar a pobreza, para inseri-las nos espaços produtivos, para levá-las a participar de diferentes atividades de interesse coletivo, para a democracia etc. Nesta perspectiva, o processo de empoderamento é visto como estreitamente relacionado ao de participação, um elemento constitutivo das metodologias e estratégias que possibilitam processos de empoderamento. Mas, tendo as mulheres agricultoras a oportunidade de participar, de estarem presentes em todos os fatores promotores do desenvolvimento e de mudança social, saindo finalmente do reduto doméstico isto faz com que se materialize em seu cotidiano a igualdade de gênero. Isto implica dedicar uma atenção explícita às necessidades, interesses e perspectivas das mulheres trabalhadoras.
Apesar desse discurso na perspectiva de desenvolvimento ser participativo e de inclusão das mulheres, ele apresenta contradições fundamentais no uso do conceito de empoderamento, pois coloca ênfase nos aspectos individuais.
Uma das contradições fundamentais do uso do termo ‘empoderamento’ se expressa no debate entre o empoderamento individual e o coletivo. Para aqueles que o usam a partir da área do indivíduo, com ênfase nos processos cognitivos, o empoderamento se circunscreve ao sentido que os indivíduos
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se autoconferem. Tomo um sentido de domínio e controle individual, de controle pessoal. E ‘fazer as coisas por si mesmo’, e ‘ter êxito sem a ajuda dos outros’. Esta é uma visão individualista, que chega a assinalar como prioritários os sujeitos independentes e autônomos com um sentido de domínio próprio, e desconhece as relações entre as estruturas de poder e as práticas da vida cotidiana de indivíduos e grupos, além de desconectar as pessoas do amplo contexto sócio-político, histórico, do solidário, do que representa a cooperação e o que significa preocupar-se com o outro (LEÓN, 2001, p. 96).13
Segundo aponta León (2001), o processo de empoderamento deve estar atrelado ao gradual reconhecimento, por parte das mulheres, das estruturas de poder que estão presentes na vida dos indivíduos (na própria vida delas) e dos grupos (a que elas pertencem). Este reconhecimento motiva as mulheres e demais grupos excluídos a se mobilizarem para, juntos, alterarem as estruturas sociais existentes, isto é, para reconhecerem o imperativo da mudança e, quem sabe, abalar e, enfim, destruir a ordem patriarcal vigente nas sociedades contemporâneas.
Concordo com León (2001) quando afirma que o empoderamento inclui tanto a mudança individual como a ação coletiva, esta última, quase sempre, deixada em segundo plano na perspectiva de desenvolvimento, pois, embora seja importante reconhecer as percepções individuais, o empoderamento não pode se reduzir apenas ao individual de maneira que ignore o histórico e o político. Ela alerta que este empoderamento pode ser uma simples e mera ilusão se não estiver conectado com o contexto e não se relacionar com ações coletivas dentro de um processo político.