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5. CAMINHOS PARA O DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVEL

5.3. Compreendendo o termo sustentabilidade e suas dimensões

O uso do termo sustentabilidade, de acordo com a perspectiva ambiental, foi aplicado como conceito tangível, a partir de 1980, por Lester Brown, Presidente da Earth Policy Institute e fundador do World Watch Institute (GOULART, 2011). O adjetivo sustentável, do qual deriva o termo sustentabilidade, passou a ser usado, principalmente, com a publicação do relatório “Nosso Futuro Comum” da Comissão Brundland em 1987, consensuado por 172 países, e consagrado em 1992, por ocasião da singular Conferência da Eco 92, conhecida como Rio 92, que apontou a sustentabilidade como a possível solução para os complexos problemas nas relações entre ambiente e desenvolvimento (VEIGA, 2010).

O termo sustentabilidade, de maneira geral, vem sendo utilizado de forma indiscriminado pelas pessoas, por uma grande maioria de profissionais do ensino, da pesquisa e extensão, e massificada pela mídia (escrita, falada e televisionada). Segundo Masera et al. (2000), há uma gama de definições sobre a sustentabilidade, as quais vão desde as mais específicas e precisas até as mais nebulosas. Assim sendo, é necessário apontar de qual sustentabilidade o trabalho enfoca, pesquisa e defende quando procura apontar caminhos para

o desenvolvimento rural sustentável.

Com base no exposto, vários pesquisadores têm abordado que a palavra sustentabilidade tem sido empregada de forma genérica, fragmentada a fim de caracterizar durabilidade de determinada atividade, vista apenas de um dos lados do prisma. A norueguesa, Gro Harlem Brundtland, quechefiou a Comissão Brundtland em 1987 na elaboração do famoso Relatório Brundland,em entrevista no dia 22/03/2012, após 20 anos da elaboração do Relatório, e 25 anos depois da conferência do Rio, destacou que o termo sustentável, usado à época, derivado para sustentabilidade, tem sofrido abuso (BRUNDTLAND, 2012).

Para Altieri (1989, p. 60; 1999, p. 62), “[...] a sustentabilidade se refere a capacidade de um agroecossistema de manter a produção por longo tempo, face a distúrbios ecológicos e pressões socioeconômicas no longo prazo.” Ainda, para o autor, a sustentabilidade inclui pelo menos três critérios: i) manter a capacidade produtiva do agroecossistema; ii) preservação da diversidade da flora e fauna; e iii) capacidade do agroecossistema de se auto manter.

Sustentabilidade, segundo Altieri e Nicholls (2000), refere-se a um conjunto de preocupações sobre as atividades realizadas no espaço rural, concebido como um sistema econômico, social e ecológico. Outra abordagem de Altieri (2000) quanto a sustentabilidade é que representa

“[…] la medida de la habilidad de un agroecosistema para mantener la producción a través del tiempo, en la presencia de repetidas restricciones ecológicas y presiones socioeconómicas. La productividad de los sistemas agrícolas no puede ser aumentada indefinidamente. Los límites fisiológicos del cultivo, la capacidad de carga del hábitat y los costos externos implícitos en los esfuerzos para mejorar la producción imponen un límite a la productividad potencial. Este punto constituye el «equilibrio de manejo» por lo cual el agroecosistema se considera en equilibrio con los factores ambientales y de manejo del hábitat y produce un rendimiento sostenido. Las características de este manejo balanceado varían con diferentes cultivos, áreas geográficas y entradas de energía y, por lo tanto, son altamente “específicos del lugar.” (ALTIERI, 2000, p. 24).

equilíbrio dinâmico entre as dimensões: econômica, social e ambiental. Enquanto que Masera et al. (2000), complementa que o conceito de sustentabilidade deve levar em consideração os seguintes atributos51: produtividade não decrescente e resiliente; adaptabilidade a novas condições econômicas e biofísicas; distribuição equitativa dos custos e benefícios; e autoindependência, para que se possa manter sua identidade e valores. Na ótica de Gliessman et al. (2007), sustentabilidade consiste no

“[…] enfoque integral y holístico hacia la producción de alimentos, fibras y forrajes que equilibra el bienestar ambiental, la equidad social, y la viabilidad económica entre todos los sectores de la sociedad, incluyendo a comunidades internacionales y atravéz de las generaciones. Inherente en esta definición es la idea de que la sostenibilidad tiene que extenderse no sólo globalmente, si no también por un tiempo indefinido.” (GLIESSMAN et al., 2007, p. 13).

Baroni (1992), destaca que o termo sustentabilidade é bastante dinâmico, complexo, que parte de um sistema de valores, com foco na manutenção dos recursos naturais e da produtividade a longo prazo. Apesar dos diferentes entendimentos sobre o conceito, há consenso de que a sustentabilidade implica na necessidade de reduzir a poluição ambiental, eliminar os desperdícios e diminuir o índice de pobreza.

A sustentabilidade que será utilizada neste trabalho enfoca a multidimensionalidade e a complexidade dos agroecossistemas englobando o estudo dos aspectos sociais, econômicos e ambientais (MASERA et al., 2000; GALVÁN-MIYOSHI, 2008; LÓPEZ-RIDAURA, 2008).

Sachs (1997), destaca cinco dimensões de sustentabilidade: social, econômica, ecológica, geográfica e cultural. O autor não aponta as dimensões política e ética, mas acrescenta a dimensão geográfica.

Utilizando Caporal e Costabeber (2002, 2004) e Gliessman (2002), podemos elencar as diferentes dimensões, como se segue:

 A dimensão ambiental ou ecológica representa a base que sustenta e estrutura a vida, bem como a reprodução das pessoas e demais seres vivos. Portanto, qualquer estratégia de intervenção necessita ter em mente o emprego de uma abordagem holística e enfoque

51 No processo de avaliação da sustentabilidade os atributos representam os aspectos básicos que deve cumprir

um sistema de manejo dos recursos naturais para que possa ser sustentável, ou seja, são as qualidades de um conjunto de variáveis consideradas como pilares para avaliação dos agroecossistemas (MASERA et al., 2000).

sistêmico envolvendo todos os elementos do agroecossistema. De acordo com Sachs (1997), a preocupação maior nessa dimensão refere-se aos impactos antrópicos sobre o meio ambiente cuja deterioração deve se manter em nível mínimo. Para tanto, deve-se reduzir a utilização dos combustíveis fósseis, diminuir a emissão de poluentes, adotar políticas de conservação dos recursos naturais, substituir a utilização dos recursos não-renováveis pelos renováveis e aumentar a eficiência em relação aos recursos utilizados.

 A dimensão social consiste em um dos pilares básicos da sustentabilidade, pois a preservação e a conservação dos recursos naturais são imprescindíveis, uma vez que se faz necessário o uso equitativo dos produtos gerados no agroecossistema, a distribuição de rendas e de bens, bem como a igualdade de direitos à dignidade humana. Para Bellen (2006), essa dimensão tem como base o bem estar52 dos humanos e os meios utilizados para aumentar sua qualidade de vida. Outro olhar para essa dimensão é apontado por Sachs (1997), que a percebe como distribuição equitativa da renda, para que haja diminuição das atuais diferenças sociais.  A dimensão econômica é imprescindível, pois, permite à família ter acesso aos bens e serviços para que tenham uma vida digna. Essa dimensão está diretamente relacionada com a social. A lógica da exploração dos recursos naturais de forma racional indica que a busca do aumento da produtividade e da produção não deve ocorrer a qualquer custo, pois a exploração será insustentável, com grandes danos ambientais. Portanto, não é possível separar a dimensão econômica da social. Segundo Bellen (2006, 2010), a teoria econômica assume que o meio ambiente é fonte de recursos infinitos, cuja crise surge quando a demanda sobre o meio ambiente ultrapassa seus limites. Ainda segundo o autor, “os economistas tendem a ser otimistas em relação à capacidade humana de se adaptar às novas realidades ou circunstâncias, e resolver problemas com sua capacidade técnica” (BELLEN, 2006, p. 34).

 A dimensão cultural representa a necessidade e a importância de se respeitar a cultura local em qualquer intervenção, pois os saberes, os valores locais dos agricultores precisam ser entendidos e utilizados como ponto de partida nos planejamentos de desenvolvimento rural, isto é, as ações a serem implementadas não devem ser impostas, mas sim construídas. Conforme Sachs (1997), essa dimensão é a mais difícil de concretizar, pois está relacionada ao caminho da modernização sem o rompimento da identidade cultural. Fernandes e Sampaio

52 Bem estar refere-se ao acesso das pessoas aos serviços básicos, água limpa e tratada, ar puro, serviços medico,

(2008, p. 92), ressaltam a importância desta dimensão quando escrevem que o “[...] o desenvolvimento deve revelar os valores, as crenças e diferentes modos de vida, sobretudo de comunidades tracionais, configurando-se numa proposta paradigmática não só de cunho científico como também de cunho cultural.”

 A dimensão política diz respeito aos métodos e estratégias participativas capazes de assegurar o resgate da autoestima e o pleno exercício da cidadania, atuando como força geradora para a continuidade das ações de longo prazo dos projetos de desenvolvimento sustentável.

 A dimensão ética requer o fortalecimento dos princípios e valores que expressam a solidariedade intra e inter geracional com respeito à preservação do meio ambiente e a fraternidade nas relações entre os homens.