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Comunidade ou sociedade

No documento Psicologia Facil - Ana Merces Bahia Bock (páginas 63-65)

O SUJEITO E A COLETIVIDADE

6.5 Comunidade ou sociedade

Neste início de século, constatamos – novamente – a emergência de pequenos grupos, que buscam instituir um estilo de vida e organização das relações, pautados pela proximidade, pelas trocas e, principalmente, pelo compartilhamento de ideias e crenças comuns. Um

exemplo é a comunidade do Daime. Ao mesmo tempo, os jovens que se conectam virtualmente com vários pontos do planeta a partir de determinado interesse (seguidores de um artista) também se nomeiam comunidade. E, também, quando as forças de segurança ingressam em um território da cidade para tentar erradicar a criminalidade (polícia pacificadora no Rio de Janeiro, polícia comunitária em São Paulo ou em Salvador), afirmam que estão entrando na comunidade e seus moradores também se referem ao seu território de convivência como tal.

São situações bastante diferentes às quais o termo/conceito se refere na atualidade. Em sua origem, a comunidade se caracteriza por ser pequena, pela proximidade física/geográfica, pelas relações de ajuda mútua e segurança dos cidadãos e, ao mesmo tempo, por uma

vigilância maior e maior homogeneidade entre seus membros, por um ritmo de vida regulado pela natureza, como nas comunidades camponesas ou de artesãos. A garantia de segurança com seu preço de “menor liberdade”, mas as pessoas querem ambas!

O desenvolvimento do capitalismo moderno levou à substituição do entendimento natural da comunidade de outrora (dos camponeses, artesãos), seu ritmo regulado pela natureza e pela tradição, por outra rotina, planejada artificialmente e coercitivamente imposta e monitorada. O melhor exemplo é a linha de montagem, da “organização científica do trabalho”. Taylor

máquina que determina o movimento e não sobra espaço para a escolha pessoal, iniciativas, cooperação. O resultado que visa a produtividade é a rotinização do processo de produção, a impessoalidade da relação trabalhador-máquina, a homogeneidade das ações, o que se

caracteriza como OPOSTO ao ambiente comunitário, conforme destaca Bauman.12

Posteriormente, na linha do tempo, o sucesso industrial passou a ser associado ao “sentir- se bem” dos trabalhadores. Em lugar de confiar plenamente nos poderes coercitivos da

máquina, apostava-se nos padrões morais dos trabalhadores, em sua piedade religiosa, na generosidade de sua vida familiar e na relação de confiança patrão-empregado. As cidades- modelo construídas em torno das fábricas tinham a finalidade de recompor, reproduzir esse ambiente e mentalidade, considerando seus efeitos positivos na produtividade do trabalhador. Essas “cidades” ou vilas estavam equipadas com moradias decentes, com capelas, escolas primárias, hospitais e confortos sociais básicos – todos projetados pelos donos das fábricas. A aposta era na recriação da comunidade em torno do lugar de trabalho e, assim, na

transformação do emprego na fábrica numa tarefa para “toda a vida”. Essa proposta visava retirar o caráter desumanizante da máquina e recuperar/preservar algo da relação paternal (entre aprendiz e mestre) e do espírito de comunidade. Uma ideia que não prosperou, embora essa tendência tenha sido novamente proposta por Mayo; ou seja, fatores como atmosfera amigável, atenção do gerente e principalmente a ideia/sentimento de que “estamos todos no mesmo barco” (lealdade à empresa) são importantes na produtividade. A fábrica fordista tentou uma síntese entre essas duas tendências.

Bauman afirma que guardamos – no senso comum – o termo comunidade para situações positivas/“coisa boa”; seu significado e as sensações associadas à palavra são “um lugar confortável, aconchegante” que envolve a vida da pessoa. E sociedade (o modo como está organizada e funciona) é um termo usado para quando queremos atribuir as origens e

determinações de situações precárias, difíceis que a pessoa vive. Em síntese, “para quem vive em tempos implacáveis – competição, desprezo pelo outro… – a palavra comunidade evoca tudo aquilo do que sentimos falta”.13

Considerar os diferentes modos de organização que as pessoas “escolhem” e/ou de que participam – no caso, sociedade e comunidade – revela as mudanças ao longo da História e, ao mesmo tempo, a coexistência dessas diferenças no momento atual. Ou, desde a década de 1960, no modo como os jovens propunham uma organização social mais “libertária” (a comunidade hippie) ou desde antes, como as comunidades indígenas e as tribos africanas. Essa discussão permite tornar mais óbvio como a construção de um modo de organização da coletividade – comunidade ou sociedade – produz diferentes estilos de vida, rotinas,

expectativas quanto ao comportamento do outro e referências para o próprio comportamento e crenças.

No caso dos diferentes usos do conceito de comunidade na atualidade, o que é comum em sua diversidade são os traços identitários – uma crença, um ritual, uma região de moradia, um interesse comum. E essa identidade-nós se revela na identidade-eu de cada membro da

coletividade, independente da proximidade física. No caso da polícia, sua proposta

comunitária significa a permanência em um território no sentido de que a população local a assimile como parte desse território e estabeleça relações de proximidade e confiança.

Considerações finais

Para concluir, voltamos a Norbert Elias, que no capítulo “Mudanças na balança nós-eu”, escrito em 1987, afirma que:

[…] é um erro aceitar sem questionamento a natureza antitética dos conceitos “indivíduo” e “sociedade” […] estas palavras não existiram sempre (pelo menos não com a conotação que lhes damos hoje) […] no caso do conceito INDIVÍDUO […] atualmente, a função principal do termo “indivíduo” é expressar a ideia que todo ser humano do mundo é ou deve ser uma entidade autônoma e, ao mesmo tempo, que cada ser humano é, em certos aspectos, diferente de todos os demais, e talvez deva sê-lo […] é característico da estrutura das sociedades de nossa época que as diferenças entre as pessoas, sua identidade-eu, sejam mais altamente valorizadas do que aquilo que elas têm em comum, sua identidade-nós. A primeira suplanta a segunda.14

Elias analisa as mudanças históricas que permitiram que saíssemos de uma condição social de identidade-nós para uma identidade-eu. A formação do Estado-nação, como o grande

organizador, centralizando cada vez mais o poder e o controle da vida de todos e, ao mesmo tempo, relacionando-se de forma indireta com eles (por meio de instituições e organizações sociais), vai individualizando a sociedade e fortalecendo a identidade-eu.

E esse é um tema para um próximo capítulo.

Atividades complementares

1. Imagine que você está sozinho(a) na frente do espelho de seu quarto se arrumando para um

No documento Psicologia Facil - Ana Merces Bahia Bock (páginas 63-65)