AS TEORIAS DE REGULAÇÃO SOCIAL
2. O conceito e processo de formação das regras; 3 A importância dada ao poder.
1.1. Visão e conceito de sistema social
Reynaud (1994) não aceita falar de um sistema social, se entendermos que sistema social significa a existência de um modelo único ou pelo menos central, a partir do qual outros se determinariam por diferença4.
Existem, segundo este autor, sistemas ou quase sistemas que definem o conjunto da sociedade. Mas teremos de analisar se se trata de um sistema social ou de vários sistemas e em que medida ele comanda (controla ou regula) o conjunto dos sistemas subordinados. E acrescenta que, em todos os casos, entre o hipotético sistema global e os subsistemas sociais não só não pode haver uma relação simples de dedução (o sistema global comandaria rigorosamente ou “determinaria” todos os outros) como não há homomorfismo, porque a variedade dos sistemas o interdita (Reynaud, 1994: 26).
Trata-se de uma tese que se reclama do individualismo metodológico de Boudon5 e, conforme refere Favereau (1994: 173-182), esta tese obriga o economista a reflectir sobre situações globais de não coordenação, uma vez que a abordagem económica da regulação
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Segundo o Dicionário de Sociologia, sob a direcção de Cazeneuve (1982: 526), pode-se falar de um sistema social desde que se esteja na presença de um conjunto caracterizado essencialmente por três dimensões:
– um mínimo de interdependência entre os membros (indivíduos ou grupos) do sistema, o que significa que uma mudança num ponto acarreta mudanças em cadeia;
– um mínimo de regulações que presidam às relações entre os membros do sistema, o que significa que os seus vínculos obedecem a certas regularidades;
– um mínimo de consciência destas regulações por parte dos membros do sistema, o que significa que, no seu comportamento, cada um tem em conta tais regulações.
Depreende-se claramente que uma organização satisfaz todos estes critérios e constitui provavelmente o exemplo mais acabado de sistema social.
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O individualismo metodológico de Boudon adopta como princípio inicial que as análises sociológicas devem ter como primeiro objecto de observação, como unidade de referência os indivíduos e tirar todas as con- sequências sociológicas desse princípio, conforme refere Pierre Ansart (1990: 76).
utiliza um modelo explicativo centrado na sociedade como um todo, isto é, faz uma análise metodológica holista.
Reynaud rejeita, portanto, a ideia aceite pelas teoria de regulação económica de que a primeira realidade social é a sociedade ou a colectividade em geral e defende, em seu lugar, que será preferível analisar a vida social como uma multidão de pequenos sistemas que se influenciam mutuamente, mas que estão longe de formar um conjunto estável e coerente.
Esta tese de inexistência de um sistema social e de passagem do nível da empresa ao da sociedade global está claramente expressa em Les Règles du Jeu, conforme se deduz das seguintes citações:
“Il n’y a pas aucune raison de postuler l’existence d’un système social (Reynaud, 1994: 172). “Chaque système réel a une structure et un équilibre différents. Quant au système
social, il n’en a aucun, car il n’existe pas” (Reynaud 994:173). “La fiction du système social” (Reynaud, 1994:55, note 20).
“Entre cet hypothétique système global et les sous systèmes sociaux […] il n’y a pas d’ homomorphisme […] Il est tout à fait clair que l’on n’a guère le droit de parler d’un système social […] si l’on veut dire par là qu’il en existirait un modéle unique, ou du moins central a partir duquel les autres se définiraient par différence” (Reynaud, 1994: 26).
1.2. Natureza e formação das regras
A segunda diferença diz respeito à natureza das regras e à sua formação. Uma leitura do título Règles du Jeu (Reynaud, 1994), na acepção comum, poderia levar-nos a concluir que estas regras são regras dadas a priori, que os jogadores as conhecem e que o jogo definido é um jogo fechado, isto é, limitado pelas regras definidas, antes da partida começar.
Mas assim não é, pois esta interpretação não corresponde à concepção de regras que Reynaud sustenta e desenvolve. Seria redutor interpretar de igual modo o jogo como um jogo fechado, de regras pré - concebidas, porquanto se trata de um jogo aberto em que as regras não são dadas antes do jogo, mas, pelo contrário, são construídas e reconstruídas no processo de regulação.
Para a teoria da regulação social, as regras são o facto social por excelência. Estão na base do sistema social e não podem deduzir-se das interacções entre indivíduos, dos seus gostos, das suas preferências, dos seus interesses, das suas paixões (Reynaud, 1994:29).
Na perspectiva do autor, as regras são difíceis de definir, porque elas não são sequer separáveis da actividade que as cria e as mantém – a actividade de regulação,
caracterizando-se essencialmente por não ser um dado natural, mas uma construção social que só é estável se, e na medida em que os actores lhe atribuírem uma legitimidade.
No conceito de regra, definido por Durkheim, aquilo que define a regra e o que prova a sua realidade é o constrangimento que a regra exerce sobre o indivíduo e por isso as regras comportam um constrangimento exterior às decisões individuais e que pesa sobre elas.
Reynaud aceita esta ideia, embora a definição de regra não se reduza a esta ideia de constrangimento, como adiante veremos, quando referirmos a dimensão de compromisso e de negociação que a regra contém.
Assim sendo, a regulação não é consequência de um conjunto ou de um resultado de convicções comuns pré-estabelecidas, mas a elaboração de uma estratégia conjunta.
Ora, a teoria da regulação económica opõe a esta teoria da regra/constrangimento uma teoria de regras/contrato. Na perspectiva teórica económica, o aspecto do consentimento na conformidade à regra é sobrevalorizado e elimina-se totalmente o aspecto de constran- gimento, como refere Favereau (1995: 174-176).
Esta distinção entre constrangimento e contrato surge de forma clara no modo como cada teoria concebe cada um dos processos de regulação.
A regulação, segundo Reynaud, corresponde a actividades finalizadas dos actores sociais que se concretizam por passos realistas, isto é, a regulação real é um compromisso instável que resulta do confronto de duas regulações: a regulação autónoma e a regulação de controlo.
Sem prejuízo de aprofundarmos o que se entende por regulação autónoma e regulação de controlo, duma forma simplificada diremos que esta teoria de formação das regras foi elaborada a partir da análise de relações profissionais para compreender o conflito e a negociação e admite que as regras imperiosas, emitidas oficialmente, não são as únicas regras sociais.
Para o autor, numa organização podem produzir-se mecanismos de auto regulação funcional (regulação autónoma), distinta de uma regulação de controlo, que se exerce do exterior e no sentido descendente. O confronto destas regulações gera, em geral, um equilíbrio mais ou menos estável.
Sobre a natureza das regras o autor precisa que: “Les règles fondamentales, les règles du jeu
sont constitutives d’un jeu social […] Elles fixent les conditions nécessaires par appartenir à un système social.[…] Elles ne sont cependant pas purement instrumentales, puisque l’engagement dans un système social n’a pas un objectif rigoureusement prévu” (Reynaud 1995: 210).
Na perspectiva económica, a regra funciona como a solução do jogo, quando os dois parceiros jogam a sua estratégia óptima num quadro dado de jogos dinâmicos (Favereau, 1994:
174-176). Ou seja, no esquema de regras/contrato, as regras têm um caracter
instrumentista, o que significa que a teoria económica se esforça por predizer a regra que dois agentes económicos utilizarão, sem se preocupar com que o estes agentes têm a dizer sobre ela.
1.3. O conceito e a importância do poder
A terceira diferença é estabelecida pelo conceito de poder. Reynaud (1994) sustenta a tese de que as regras contêm uma relação de poder.
A regulação é uma relação de poder, no seio de uma empresa ou em todas as configurações em que um indivíduo ou um grupo tem capacidade de intervir no funcionamento, na organização ou na actividade de um outro grupo.
Trata-se de um conceito de poder assente na relação, teorizado por Crozier e Friedberg (1997), coerente com a construção de um teoria individualista de elos de subordinação numa sociedade democrática, oposta a uma abordagem holista de poder.
Segundo Crozier e Friedberg (1977: 57) poder é uma relação de troca, na qual pelo menos duas pessoas estão envolvidas. Nesta perspectiva, a noção de poder não se circunscreve apenas à relação entre A e B, mas é também o lugar de uma estratégia, onde o comportamento de A e de B estão submetidos à lógica das situações e aos contextos institucionais.
É uma relação instrumental, no sentido em que visa um fim e implica o empenho dos actores em utilizar e envolver recursos. É ainda uma relação recíproca, na medida em que a negociação exige troca e esta só é possível se as duas partes tiverem algo a empenhar, algo a compreender na relação. Mas é também desequilibrada, visto que, se ambas as partes têm os mesmos trunfos, a troca é igual e não há razão para considerar que uma das partes se encontra numa relação de poder relativamente à outra.
Neste conceito de poder, adoptado por Reynaud, este não é entendido como força, mas como capacidade de acção. O poder vai residir na possibilidade maior ou menor que o actor tem de aceitar ou rejeitar a proposta em jogo, aquilo a que Crozier (1977) chama margem de liberdade dos actores.
O poder está também em função da amplitude da zona de incerteza que a previsibilidade do próprio comportamento dos actores lhes permite controlar.
A teoria da regulação económica, segundo Boyer (1995) rejeita qualquer explicação pelo poder, por considerar a incompatibilidade dessa explicação com a eficácia.
Assim, enquanto na perspectiva sociológica: “Les rapports de pouvoir sont aussi des
rapports de régulation” (Reynaud, 1995:197-216) e” l’ exercice d’un pouvoir se traduit très généralement par l’ imposition d’une règle.” (Reynaud, 1990:330), a objecção
tradicional dos economistas assenta no seguinte raciocínio: ”Si la rélation de pouvoir n’est
pas efficace, elle sera suplentée tôt ou tard par une relation marchande – et si elle est efficace, alors la relation de pouvoir n’en est pas une puis qu’ elle se déduit de son efficacité.” (Favereau, 1994:175 note 6, citando a crítica de Samuelson a Marglin,1984). Em
síntese, na regulação social tal como Reynaud a concebe, as regras são uma construção social, que se definem na acção, em resultado de estratégias dos actores que interagem nos diferentes sistemas sociais.
A regulação traduz-se num conjunto de mecanismos de ajustamento que os sistemas sociais inventam para manter o equilíbrio e a negociação descobre ou inventa pontos de convergência de expectativas mútuas (Reynaud, 1995:212). Faz-se por um processo de negociação celebrando acordos. Os acordos conseguidos na negociação não representam um equilíbrio no sentido que este termo tem em economia, ou seja, um ponto de equilíbrio entre a oferta e a procura.
O acordo, do ponto de vista da regulação social, é quase um equilíbrio social6.
Neste caso, não se trata tanto de procurar encontrar objectivamente um equilíbrio, mas antes e sobretudo, uma convergência dinâmica de expectativas, em resultado duma participação pluralista e democrática.
Na perspectiva económica, a regulação é encarada globalmente, isto é, admite o princípio de que a sociedade é um único sistema social e visa encontrar um equilíbrio pelo ajustamento de variáveis económicas. A negociação faz-se perdendo ou ganhando, segundo regras conhecidas e definidas antes do jogo.