3.3. UM CONCEITO TRANSVERSAL E TRANSTEMPORAL PARA A SUSTENTABILIDADE
3.3.2. O(S) CONCEITO(S) E SEUS ELEMENTOS
A sustentabilidade significa, na sua essência, considerar o futuro, devendo-se avaliar sua caracterização como um dever, como será implementada pela Administração e as inúmeras consequências daí advindas.
No entanto, essa afirmação não é suficiente para a aplicação prática da sustentabilidade, é necessário explicitar a sustentabilidade a partir de todos os seus elementos. Para tanto, serão indicadas algumas propostas doutrinárias consideradas de grande valia, basilares, para a presente investigação.
J. J. CANOTILHO elenca a sustentabilidade ao lado da democracia, liberdade, juridicidade e igualdade como um princípio estruturante do Estado Constitucional, afirmando ser um “princípio aberto carecido de concretização conformadora e que não transporta soluções prontas, vivendo de ponderações e de decisões problemáticas”161.
Distingue, ainda, a sustentabilidade em sentido amplo da sustentabilidade em sentido estrito, ou ecológica, sendo essa última um dos “três pilares da sustentabilidade”, ao lado da econômica e da social. Por fim, acerca do seu conceito, afirma que a sustentabilidade seria um
159 Sobre o tema, v. EVARISTO MENDES, Governança Societária e Justiça Intergeracional in Justiça
entre gerações: perspectivas interdisciplinares, Jorge Pereira da Silva e Gonçalo de Almeida Ribeiro
(Coord.), Universidade Católica Editora, Coimbra, 2017, p. 469 e ss.
160 CARLA AMADO GOMES,Consumo sustentável: ser ou ter, eis a questão in Revista do Ministério
Público n.º 136, Outubro-Dezembro 2013, José Manuel Ribeiro de Almeida (dir.), p. 54 e ss.
conceito “federador” que definiria, progressivamente, as condições da evolução sustentável162.
Esses aspectos são primordiais ao conceito da sustentabilidade. Extrai-se deles que a sustentabilidade ocupa uma posição central no Estado Constitucional e, acrescenta-se, também no plano supranacional, internacional e europeu – analisar-se-á todas essas perspectivas adiante por ocasião do estudo dos fundamentos jurídico-normativos da sustentabilidade.
São também indicados pilares da sustentabilidade (ou áreas ou dimensões de aplicação), bem como se afirma a sua finalidade de definir as condições de uma evolução sustentável. Esse é um ponto relevante, pois indica um elemento finalístico: a sustentabilidade é um estado ideal, atingido por estágios, num caminho progressivo para uma sociedade sustentável163.
KLAUS BOSSELMANN conceitua sustentabilidade sob o aspecto ecológico, considerando que somente essa estaria contida na essência do princípio da sustentabilidade, cujo conceito poderia ser definido como “o dever de proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos”.
As demais dimensões seriam parte integrante do conceito de desenvolvimento sustentável ecológico, de modo que se atinja desenvolvimento econômico, assente em justiça social, e ambos considerem o aspecto ecológico164. Assim, para KLAUS BOSSELMANN, o princípio da sustentabilidade perderia o sentido se seu núcleo não fosse reconduzido unicamente ao aspecto ecológico.
A presente investigação se alinha com o entendimento de que a sustentabilidade estaria assentada numa coordenação entre justiça social, desenvolvimento econômico e tutela
162 Cf. J.J.GOMES CANOTILHO, O princípio da sustentabilidade…, p. 9.
163 “Como os ideias de justiça e direitos humanos, sustentabilidade pode ser vista como um ideal
civilizatório tanto num plano nacional, quanto internacional” (tradução livre), cf. KLAUS BOSSELMANN, The principle of sustainability..., p. 9.
164 Cf. KLAUS BOSSELMANN, The principle of sustainability..., p. 53. Também priorizando a
sustentabilidade na dimensão ambiental (condições ambientais e dotação biológica da humanidade), v. JOÃO CARLOS LOUREIRO, Autonomia do Direito, futuro e responsabilidade intergeracional: para
uma teoria do fernrecht e da fernverfassung em diálogo com Castanheira Neves in Boletim da
Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vol. 86, Coimbra Editora, Coimbra, 2010, p. 39-
do ambiente165. Assim, a sustentabilidade atua como um elemento agregador de suas áreas de aplicação: deve haver uma concertação entre as vertentes.
Prosseguindo rumo à densificação do conceito de sustentabilidade, uma proposta que teria as características da transversalidade e da transtemporalidade, atribuindo um caminho para a operatividade da sustentabilidade é a de ANTÓNIO AMARO LEITÃO, segundo a qual ela seria "uma cláusula de regulação da utilização de recursos no tempo que implica limitação ao seu aproveitamento no presente, para garantir a sua disponibilidade no futuro com o fim de assegurar a continuidade de um certo sistema de valores/ideias de constituição material"166.
Seria transversal, pois ao mencionar “recursos”, o conceito não delimita qual seria a sua natureza, referindo-se, assim, a recursos como tudo o que é escasso, como recursos naturais, econômicos, sociais e culturais. Estariam aí contidas – ou no mínimo não excluídas – as dimensões da sustentabilidade.
O conceito é transtemporal, tendo uma clara preocupação diacrônica: haverá uma limitação à utilização de recursos no presente para assegurar sua disponibilidade no futuro. Há, assim, dois tempos em consideração, característica ínsita à sustentabilidade.
A referência à continuidade do sistema de valores e à ideia de constituição material demonstra uma estreita relação com a dignidade humana e com a justiça (intergeracional), referidas acima como um fundamento à sustentabilidade.
No entanto, há duas considerações que precisam ser feitas. Uma primeira é que, como se pode imaginar, estabelecer limitações às gerações presentes de modo a assegurar que recursos estejam disponíveis no futuro para outras gerações é algo complexo.
Numa sociedade imediatista, se as pessoas têm dificuldade de poupar em favor delas próprias, imagine-se sacrificar seu bem-estar imediato em favor das gerações vindouras167. E seus representantes políticos, como dito, terão pouco interesse em aprovar leis que tenham essa finalidade, cujos resultados serão colhidos muito além de seus mandatos. Do mesmo
165 No sentido do texto, "(...) sustainability means a proportionally balanced pursuit of economical,
ecological and social targets, not only with regard to the presently living people but also the future generations", cf. MEINHARD SCHRÖDER, The concept of intergenerational justice..., p. 321.
166 Cf. ANTÓNIO AMARO LEITÃO, O princípio constitucional da sustentabilidade..., p. 417. 167 Cf. CARLA AMADO GOMES, Sustentabilidade ambiental: missão impossível..., p. 6.
modo, a administração não terá estímulos para tomar decisões difíceis, que trarão frutos somente no futuro, quando é cobrada no presente por seus administrados.
A sustentabilidade, assim, somente terá efetividade se for vinculante, não bastará que seja um imperativo ético. Resta, no entanto, verificar se ela tem conteúdo normativo no ordenamento jurídico que lhe atribua esse caráter.
A segunda consideração é que uma dificuldade poderá advir da aplicação prática desse conceito: como definir, em cada caso, qual será o grau de limitação no presente e qual será o montante de recursos que se pretende estejam disponíveis no futuro. Em outros termos, em cada situação, analisadas todas as variáveis envolvidas, qual será o nível de proteção que será assegurado às gerações futuras?
Esse será o problema a ser enfrentado na presente investigação, por ocasião do estudo do juízo de prognose168 da Administração acerca da sustentabilidade, mas, como um projeto político-jurídico, num ponto de vista mais amplo, pode-se afirmar que esse grau de restrição no presente dependerá das características de uma sociedade, do seu nível de riqueza, de aspectos sociais, em tudo lembrando bastante a taxa de acumulação e a regulação do princípio de poupança justa trazidos por JOHN RAWLS169.
Quanto maior for a riqueza e o grau civilizatório de uma sociedade, mais ela poderia, em tese, poupar recursos em favor das futuras gerações. Do mesmo modo, se a sociedade for mais pobre, essa restrição deveria ser menor, eis que o grau de esforço seria muito superior.
Por fim, uma ressalva em relação ao conceito apresentado por ANTÓNIO AMARO LEITÃO, quando se refere à sustentabilidade como uma “cláusula de regulação”. É que sua análise pode alimentar uma dúvida sobre se a sustentabilidade e o princípio da proporcionalidade, não apenas possuiriam uma estreita relação, mas também se confundiriam. A sustentabilidade possui uma orientação finalística: a tutela do futuro. Ela atua em dois tempos, envolvendo limitações no presente e a disponibilização de recursos no futuro para assegurar uma existência condigna às futuras gerações.
Essa dualidade temporal e o elemento regulatório da sustentabilidade acabam lembrando o princípio da proporcionalidade, em especial a proporcionalidade em sentido
168 Expressão de PAULO OTERO, Direito do Procedimento Administrativo..., p. 263. 169 Cf. JOHN RAWLS, Uma teoria de justiça.., p. 318.
estrito. Será que a sustentabilidade não seria, na realidade, um componente da proporcionalidade? Indo além, será que a sustentabilidade não se resumiria a um dever de análise da relação de custo/benefício sob um aspecto intergeracional?
Para responder a essa pergunta, que tem relação com a indagação acerca da própria autonomia da sustentabilidade, e que se considera uma das mais relevantes da presente investigação, será necessário, previamente, adentrar na sua natureza jurídica para compreender a sustentabilidade com maior profundidade. Considera-se importante, no entanto, já antecipar o problema que tem relação com a ideia da sustentabilidade como uma cláusula de regulação.
Por fim, entendida a sustentabilidade mais abstratamente como um dever de
consideração do futuro, pode-se extrair os seguintes elementos para a densificação do seu
conceito jurídico:
1) Elemento central: a sustentabilidade ocupa uma posição de relevo no ordenamento- jurídico constitucional, possuindo um caráter estruturante;
2) Elemento civilizatório: a sustentabilidade plena é um estado ideal, que é concretizado em níveis, que se implementarão num caminhar progressivo em direção à uma sociedade sustentável (evolução sustentável);
3) Elemento congregador: a sustentabilidade atua como um mecanismo agregador de suas dimensões: para seu atingimento, devem ser coordenadas a sustentabilidade ambiental, a sustentabilidade social (justiça social intra e intergeracional) e a sustentabilidade econômico-financeira;
4) Elemento finalístico: a sustentabilidade tem relação com a continuidade do sistema de valores e a ideia de constituição material, fundada na justiça intergeracional e na efetivação da dignidade humana;
5) Elemento regulatório: a sustentabilidade funciona como um mecanismo de alocação/limitação de recursos escassos;
6) Elemento diacrônico: a sustentabilidade atua regulando a utilização/disponibilidade de recursos em pelo menos dois “tempos” no presente e no futuro;
7) Elemento operacionalizador: a sustentabilidade, afeita aos casos difíceis, em geral, será implementada por decisões resultantes do balanceamento dos diversos interesses conflitantes.
Extraídos os elementos acima, ou seja, à luz do(s) conceito(s) da sustentabilidade, é o momento de investigar a sua natureza jurídica.