CAPÍTULO IV – AS REVISTAS NO MEIO DIGITAL: ESTUDO DE CASO
3. Estudo de caso: Veja.com
3.3. Conclusões com base nas categorias de análise
Nesta descrição do site Veja.com, é possível notar aspectos relacionados ao webjornalismo e à narrativa multimídia, tais como:
- Memória: nas áreas de “Busca”, “Acervo Digital”, “+ Recentes” e “+ Vistos”;
- Personalização: quando a revista oferece o serviço de assinatura de feed, seu aplicativo social e, ao final de cada matéria, nota ou reportagem, a área “Recomendados para você” – que oferece quatro notícias de acordo com o perfil usuário, ou seja, relacionadas a outros conteúdos que ele já acessou;
- Interatividade: é possível comentar todas as notícias (mediante cadastro prévio), bem como compartilhá-las e recomendá-las em sites de redes sociais;
- Instantaneidade: o site é atualizado 24 horas por dia e 7 dias por semana. Sua equipe se reveza em plantões aos finais de semana e também há jornalistas atuantes durante as madrugadas;
- Hipertextualidade: todas as notícias apresentam links que direcionam o usuário para outros textos, vídeos e/ ou galerias de fotos relacionados, seja no decorrer da própria notícia, abaixo (“Leia também” e “Recomendados para você”) ou ao lado;
- Multimidialidade/ Convergência: além dos hiperlinks acima citados, há também os recursos de áudio, vídeo e imagens, o que caracteriza esse tópico. Além disso, há cerca de seis áreas com textos e links com chamadas para o usuário assinar a revista, o que significa optar por receber a versão impressa em casa ou, então, baixar a edição da semana pelo tablet. Sendo assim, a Editora Abril utiliza-se do site da publicação para, também, angariar assinantes, tendo em vista que o conteúdo do site é diferente do das versões impressa e para tablet;
- Narrativa multimídia: ao clicar nas matérias do site de Veja, é possível identificar características multilineares, multiformes, multissequenciais e paratextuais, já que os textos são “interrompidos” por hiperlinks e recursos de áudio, vídeo e imagens. Sendo assim, ele também apresenta a arquitetura da pirâmide deitada proposta por Canavilhas (2003).
Na descrição, foi possível demonstrar que há adequação do conteúdo exclusivo do site de Veja às características do webjornalismo e da narrativa multimídia, sem, no entanto, que isso interfira na versão impressa da revista. Segundo Graieb (2013), “a revista é o ponto de referência do site para os grandes assuntos de política, economia, sociedade e cultura. O ponto de vista é o mesmo”. Sendo assim, o site segue a mesma linha editorial da revista, respeitando, no entanto, as particularidades do meio.
No que se refere às características do jornalismo de revista, o site de Veja, conforme já explicitado, acompanha a mesma linha editorial proposta pela publicação impressa. Sua periodicidade, no entanto, segue a lógica dos veículos on-line, que trabalham com a instantaneidade. A sua presença em sites de redes sociais e as oportunidades que oferece para comentários aproximam os leitores – característica bastante intrínseca ao veículo revista.
O design do site segue a linha gráfica da revista impressa e utiliza fotos de agências de notícias em sua maioria, seguindo os padrões dos grandes portais de notícias. “Discute-se a criação de uma identidade visual mais forte nas diversas plataformas. Mas isso não significa integrar layout, porque a navegação em computadores, tablets e smartphones tem regras próprias de eficiência, usabilidade etc” (GRAIEB, 2013).
Nos conteúdos especiais, os textos se mostram mais analíticos, entretanto, o site de Veja também possui notícias mais diretas, com textos curtos e objetivos – atributo particular do webjornalismo.
Por fim, o público da revista se diferencia em alguns aspectos do público do site. De acordo com o Publiabril, os leitores estão dispostos da seguinte maneira (tabela 2):
Fonte: Publiabril
A tabela mostra que o público masculino é maior no site. Ao mesmo tempo, leitores da classe social A leem mais a revista on-line do que a impressa. Pessoas com mais de 50 anos acessam mais o site e leitores entre 25 e 34 anos consomem mais a revista. Dessa maneira, pode-se compreender que há uma ligeira diferenciação de público entre a revista impressa e o site de Veja – e o mais curioso é a questão da idade, demonstrando que há um futuro promissor para a revista impressa. Segundo Graieb (2013), existem “pesquisas qualitativas cujos dados usamos com cautela. Elas indicam que o leitor compreende que são meios com dinâmicas diferentes, conteúdos diferentes, mas uma mesma linha editorial (aquilo que tenho chamado de ‘ponto de vista’)”.
Há equipes diferenciadas de jornalistas para a publicação impressa e a on-line, provando que ainda há profissionais dedicados a elaborar materiais para cada plataforma, distintamente. Para Graieb (2013), as redações não são integradas, entretanto, “o site produz eventualmente textos para o papel ou cede repórteres para apurações especiais. Repórteres e editores da revista costumam oferecer colaborações ao site quando percebem que a informação não vai chegar inédita ao fim de semana, e também quando viajam”.
De acordo com o editor executivo de Veja, integrar as redações do impresso e do
on-line é um caminho para corte de custos, entretanto, em sua opinião, há riscos para a
É preciso tomar muito cuidado antes de expor um produto bem sucedido como Veja ao risco. De todos os meios impressos, creio que a revista semanal é o mais difícil de traduzir para a internet. A reportagem da internet pode ser uma primeira versão ou um laboratório para aquilo que o jornal vai mostrar no dia seguinte. O fluxo de fechamento da revista mensal deixa o jornalista mais livre para eventualmente produzir para um site. A rotina da revista semanal é pesada, porque é preciso acompanhar de perto vários assuntos antes de fazer a seleção final daquilo que vai para a gráfica. Além disso, há um compromisso com a exatidão, com a análise, com a qualidade do texto e do acabamento, que não pode jamais ser quebrado. Costumo dizer que qualquer legenda de uma revista como Veja leva uma semana para ser feita – o que é um exagero, mas não uma completa inverdade. O timing do jornalismo de internet e de revista semanal é conflitante, e isso é algo que sempre esteve na balança (GRAIEB, 2013).
Por fim, é possível notar que a revista utiliza-se de sua presença na internet para anunciar sua versão impressa – que completou 45 anos de existência em 2013. Essa atitude de certa forma referenda o site, já que o vincula a uma revista de renome no campo comunicacional brasileiro. Assim, verifica-se que a produção jornalística é adaptada a cada plataforma a que se propõe e que ainda não ocorre uma integração de afazeres por parte dos profissionais de ambas as redações. Entretanto, os mesmos conteúdos podem estar presentes tanto no on-line como no impresso, desde que se respeitem as características de cada meio. Vale ressaltar que os jornalistas do site, mais do que conhecimentos relativos ao webjornalismo associado às características do jornalismo de revista, precisam saber sobre o manuseio do publicador, a produção e a apresentação de vídeos, assim como a edição de fotografias.
Por estar diretamente relacionado a uma revista impressa que circula há décadas no mercado editorial brasileiro, o site de Veja não deixa “suas raízes” de lado e usa essa ligação, praticamente de mãe e filho, para dar credibilidade aos seus conteúdos na rede. Ao mesmo tempo, tanto o site quanto as versões de Veja para tablets e smartphones ratificam a ideia de que a presença de uma publicação impressa em multiplataformas digitais é não mais uma tendência, mas uma necessidade exigida pelo atual mercado.
CAPÍTULO V – CAMINHOS PARA NOVAS PRÁTICAS EDITORIAIS E MODELOS DE NEGÓCIOS PARA REVISTAS
“As revistas traduzem o espírito do tempo” Fabricio Marques de Oliveira (2013, p. 277)
As revistas no cenário da sociedade em rede e da incorporação das mídias digitais no dia a dia das pessoas se encontram em um momento de adaptação e, ao mesmo tempo, de busca por inovação, tanto no que se refere à área comercial (novos modelos de negócios) quanto no que diz respeito às práticas editoriais influenciadas pelas características do webjornalismo e do novo leitor (prossumidor/ interagente) que vêm se estabelecendo. Como apresentamos ao longo deste estudo, há ideias inovadoras sendo testadas em todo o mundo como forma de manter mercado e desbravar novos negócios, mas nada ainda se revela como concreto, apesar de surgirem tendências que têm se mostrado estáveis.
Para compreender quais os melhores caminhos a seguir, é preciso considerar a essência de cada produto jornalístico. Entretanto, existe a necessidade de se levar em conta os percursos já trilhados, reconhecer suas vantagens e falhas, e aprimorá-los.
Neste capítulo, vamos expor o que mostram alguns estudos sobre o mercado de revistas atual e o que preveem pesquisas e pesquisadores sobre o futuro das revistas. Em seguida, indicaremos possibilidades de novas práticas jornalísticas e de modelos de negócios a serem aplicados neste tipo de publicação, com base no que já foi mencionado ao longo desta pesquisa e no que apontam as tendências.