CAPÍTULO II A PRAXIS DO TERMINÓLOGO NUMA OPÇÃO DE BASE CONCEPTUAL
2.3 Conhecimento especializado
2.3.1 Conhecimento explícito e conhecimento tácito
Consideremos agora algumas perspectivas sobre o conhecimento tácito e explícito, as quais, muito embora fora do âmbito da Terminologia, trazem aportes válidos para a praxis do terminólogo, no âmbito da sua interacção com o especialista
99 A ciência, na sua dimensão de saber argumentativo, despoletou um considerável dispositivo comunicacional, marcado por inúmeras tipologias de carácter oral e escrito. O conhecimento científico circula com base em meios de comunicação especializados (revistas científicas, seminários, workshops, relatórios, pré-publicações). Assim, o conhecimento científico deve ter um carácter público sendo o processo básico comunicacional não de troca, mas uma partilha.
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de domínio. Como é esperado qualquer uma das duas vertentes terá lugar na componente prática do nosso trabalho.
A descrição e a organização de uma determinada área do saber pressupõem que sejam consideradas tanto a dimensão explícita do conhecimento quanto a dimensão tácita, pois, tal como salientam Dam et al. (2005, p. 1), o conhecimento é simultaneamente um constructo consciente e inconsciente. Entendemos ser pertinente incidir sobre esta dualidade pelo facto de se defender que uma metodologia de base conceptual implica integrar no trabalho de inquirição do terminólogo a componente tácita do conhecimento da área de saber em estudo. Uriarte (2008, p. 4) distingue conhecimento tácito de conhecimento explícito do seguinte modo:
In general, there are two types of knowledge: tacit knowledge and explicit knowledge. Tacit knowledge is that stored in the brain of a person. Explicit
knowledge is that contained in documents or other forms of storage other than the human brain.
De que forma é possível explicitar estruturas de conhecimento que, muito embora existam, dentro de uma determinada comunidade de especialistas, não se encontram linguisticamente materializadas? Na verdade, a identificação sistemática de manifestações do conhecimento explícito de uma determinada área – por parte do terminólogo – será um empreendimento relativamente linear (ainda que trabalhoso), pois o texto de especialidade constitui - por excelência - o meio mais imediato de acesso a representações desse tipo de conhecimento e as metodologias de trabalho terminológico ancoradas em organização de corpora e na extracção terminológica constituem procedimentos fixados. Porém, não se poderá esperar o mesmo tipo de certezas e de resultados quando o investigador se propõe enveredar pela aventura de capturar conhecimento tácito, por duas razões fundamentais. Em primeiro lugar, porque este último (ao contrário do conhecimento explícito e sistematizado que se encontra materializado e formalizado em formatos textuais, pictóricos e diagramáticos) está mais ligado à individualidade e idiossincrasia do sujeito cognoscente, não sendo pois tão facilmente apreensível e mensurável. Esta constatação constitui aliás uma das bases fundamentais do quadro teórico de Novak et al. (2003, p. 213):
/…/ knowledge consists largely of a very personal, difficultly articulable and partly unconscious component, usually referred to as implicit or tacit knowledge. Accordingly, a key to the communication and shared use knowledge, lies in the
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structures perceivable and usable by others101.
Em segundo lugar, porque as metodologias para um trabalho terminológico ancorado em recolha de conhecimento tácito, assim como os procedimentos que sustentam a representação de conhecimento desta índole não se encontram ainda tão explicitamente delineados quanto se possa esperar. No caso português, merece destaque o recente trabalho de Silva (2014), por constituir uma reflexão ancorada numa vasta experimentação prática de metodologias sobre trabalho colaborativo com especialistas de domínio, com vista à validação. Mas deixaremos a exploração detalhada deste tema para o capítulo subsequente.
Refira-se, em todo o caso, num outro quadrante disciplinar que, como reconhece Schreiber (2008, p. 970), no Handbook of Knowledge Representation, há uma certa insuficiência de reflexão no que respeita à forma como as representações do conhecimento são obtidas:
Although this entire Handbook is devoted to the formal and symbolic representation of knowledge, very few if any of its chapters are concerned with how such representations are actually obtained. Many techniques have been developed to help elicit knowledge from an expert. These are referred to as knowledge elicitation or knowledge acquisition (KA) techniques. The term “KA techniques” is commonly used.
As propriedades que singularizam o conhecimento tácito, muito em particular, a sua dimensão inescapavelmente subjectiva, o seu carácter contextualmente- dependente, a sua componente intuitiva e conjectural, assim como a previsível dificuldade de o capturar, registar e divulgar, justificam – a nosso ver – a necessidade de contribuir para o aprofundamento da investigação deste tema (Uriarte, 2008, p. 5):
Tacit knowledge, therefore, is context-specific. It is difficult to formalize, record,
or articulate. It includes subjective insights, intuitions and conjectures. As
intuitive knowledge, it is difficult to communicate and articulate. Since tacit knowledge is highly individualized, the degree and facility by which it can be shared depends to a great extent on the ability and willingness of the person possessing it to convey it to others.
101Sublinhado nosso.
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Todavia, os dois tipos de conhecimento em foco evidenciam uma complementaridade mútua (Ibidem, p. 5):
/.../ unless we try to convert tacit knowledge to explicit knowledge, we cannot reflect upon it, study and discuss it, and share it within the organization – since it will remain hidden and inaccessible inside the head of the person that has it.
Como evidencia Silva (2014, p. 80), no processo de interacção com especialistas, a selecção, organização e o tratamento de textos que estes reconhecem como fontes de autoridade é relativamente confortável; todavia, a passagem para uma abordagem conceptual por via da discussão de conceptualizações, através do qual se analisa e discute um conceito e se converte conhecimento tácito em conhecimento explícito, exige uma forte preparação prévia da parte do terminológo e a planificação clara de um percurso metodológico. Parece, pois, ser consensual que a elicitação de conhecimento constitui um processo não isento de dificuldades, dado que pressupõe encontrar estratégias adequadas para aceder a representações internas dos especialistas de um determinado domínio, transformando-as em produtos apreensíveis aos sentidos e organizados de um modo preciso, claro e reutilizável (Vásquez-Bravo et al., 2013, p. 374). A elicitação implica, por isso:
/.../ acquiring and transferring the knowledge of human beings (as such it exists in the minds of experts in a specific domain), to an abstract and effective
representation, to organize it, to model it and finally to express this knowledge
in an understandable and reusable format through a formal representation102.
De acordo com Vásquez-Bravo et al. (2013, p. 375), o processo de conversão pressupõe três etapas:
Figura 7: Processo de elicitação do conhecimento (baseado em Vásquez-Bravo et al., 2013, p. 375).
102 Sublinhado nosso.
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Cada uma das etapas pode ser levada a cabo a partir de diferentes métodos e técnicas, selecionados em função do quadro concreto de trabalho. Como sustenta Roche (2012, p. 28), o conhecimento tácito raramente se encontrará descrito em textos, o que convoca a inevitabilidade da participação de especialistas:
/…/ creating the concept system is challenging. Especially because knowledge
which is often tacit and rarely described in scientific and technical documents,
needs to be explained, making experts’ participation in and contribution to work on terminology absolutely essential /…/.103
Para Coffey et al. (2002, p. 214), a elicitação do conhecimento pode assumir diversas formas, as quais têm uma relação de subsunção com duas grandes categorias: (1) a elicitação directa, que pressupõe a colaboração com o especialista de domínio; (2) a elicitação indirecta, que é efectuada através da identificação e do estudo de fontes de conhecimento:
Direct methods of knowledge elicitation are chosen from a variety of techniques
based upon interviews, analysis of familiar tasks, and so-called contrived (or
experiment-like) techniques104.
Em Terminologia, tal corresponderá à interacção com especialistas e à análise textual, respectivamente, o que tem como consequência que a praxis do terminológo se constitua com dois tipos de ordem distinta: uma conceptual e uma outra linguística. Como ficou já claro, a nossa opção metodológica passará tanto por uma como por outra via. Por agora importa reter que a elicitação directa convoca – necessariamente – um nível de interacção elevado e explicitamente estruturado com especialistas do domínio em estudo. Na perspectiva de Schreiber (2008), podem ser usadas diferentes técnicas de elicitação para capturar, analisar e modelizar conhecimento. Algumas delas pressupõem uma utilização mais directa do discurso outras implicam o recurso gráfico a grelhas, diagramas e mapeamentos:
103 Sublinhado nosso.
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Figura 8: Técnicas de elicitação (Schrieber, 2008, p. 943).
Essa combinação entre uma elicitação indirecta sustentada no texto e uma colaboração directa com especialistas, com vista à análise de um determinado processo de conceptualização e de representação de conhecimento exige um entendimento mais detalhado da natureza das interacções que o terminológo pretende estabelecer em prol dos objectivos do trabalho.