CAPÍTULO III DESENHO DE UMA METODOLOGIA DE BASE CONCEPTUAL
3.3 Sobre a grounded analysis
Num contexto fundamentalmente qualitativo, consideraremos agora alguns aportes teórico-metodológicos que inspiraram opções do nosso desenho. Desenvolvida numa primeira etapa por Glaser & Strauss (1967), no âmbito da Sociologia116, a
grounded analysis é parte integrante do conceito de grounded theory. Entendemos ser pertinente tecer breves considerações face a esta teoria e ao método que dela emana, pelo facto de se tornarem visíveis alguns pontos de contacto com a análise conceptual levada a cabo em Terminologia, e em particular com o percurso metodológico que desenhámos para a primeira etapa de conceptualização (1. Caracterização e delimitação do domínio). Com efeito, o enfoque desta teoria nos procedimentos de conceptualização e no estabelecimento de relações plausíveis entre conceitos e conjuntos de conceitos (Fernandes & Maia, 2001, p. 54), foi um dos aspectos que suscitou a nossa atenção. A seguinte citação despertou particularmente o nosso interesse (Allan, 2003, p. 1):
Grounded Theory is a powerful research method for collecting and analysing research data/…/ A fundamental part of the analysis method in GT is the derivation of codes, concepts and categories117.
116 Radicada num estudo levado a cabo em contexto hospitalar, subordinado ao contexto de análise de doentes terminais. Esta primeira etapa era assumidamente marcada por uma epistemologia positivista (Fernandes & Maia, 2001) Houve, posteriormente, uma dissidência teórica, revelando os trabalhos posteriores de cada um dos investigadores perspectivas não convergentes, sendo a orientação mais tarde desenvolvida por Srauss & Corbin (1990) muito mais prescritiva e epistemologicamente orientada para o construtivismo (Fernandes & Maia, 2001).
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Sob pena de incorrer numa descrição demasiadamente simplista, mas globalmente caracterizadora da grounded theory, refira-se que se trata de um posicionamento teórico que visa, num primeiro momento, responder a questões marcadas pela complexidade social, assumindo explicitamente a responsabilidade interpretativa do investigador e reconhecendo a importância da integração polifónica das vozes estudadas e consultadas, pelo que, advertem Glaser & Strauss (1967, p. 169): use any material bearing in the area118. Este posicionamento materializa-se em procedimentos metodológicos que implicam da parte do investigador uma interacção e uma reanálise continuadas do objecto de investigação, a partir da codificação de categorias que vão emergindo como relevantes (Allan, 2003), na recolha de evidência teórica e empírica. Silverman (2011, p. 292) define grounded theory como: a method of qualitative119 inquiry in which researchers develop inductive theoretical analyses
from their collected data and subsequently gather further data to check these analyses. Na sua versão mais extremada este método é algo subversivo, no sentido em que infirma o pressuposto de iniciar uma investigação com uma hipótese de partida (Glaser & Strauss, 1967). Na esteira de Allan (2003), não subscrevemos tal premissa que aponta para: no preconceived ideas” when collecting and analysing data, pois - do nosso ponto de vista - definir um conjunto de princípios gerais que norteiem o trabalho facilita e delimita a recolha teórica e a recolha empírica.
Não obstante este ponto de afastamento face à nossa visão, identifica-se na proposta da grounded analysis um paralelismo interessante com a análise de texto para fins onomasiológicos. Em ambos os casos, há uma preocupação de depurar a informação linguística para aceder à informação conceptual. A grounded analysis pressupõe a construção de uma amostra teórica, seguindo um conjunto de procedimentos denominados codificação, sustentados numa análise comparativa escorada num processo indutivo e que implica uma progressão gradual, a qual vai permitindo uma focalização mais nítida do objecto de análise. Há, assim, um pressuposto quase errático, i.e., de deambulação (Allan, 2003, p. 1):
Grounded theory coding is a form of content analysis to find and conceptualise
the underlying issues amongst the ‘noise’ of the data. During the analysis of an
118 Sublinhado nosso.
119 Como sustentam Fernandes & Maia (2001, p.55), sendo fundamentalmente um procedimento qualitativo, pode incorporar igualmente dimensões quantitativas.
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interview, the researcher will become aware that the interviewee is using words and phrases that highlight an issue of importance or interest to the research. This is noted and described in a short phrase. This issue may be mentioned again in the same or similar words and is again noted120.
A título de exemplo, como se pode observar, há uma extracção de contextos linguísticos que são depurados com vista a apreender conteúdo conceptual:
Quadro 2: Exemplo de codificação por micro-análise (Allan, 2003, p. 2).
A codificação121 nas palavras de Strauss & Corbin (1990, p. 57) /…/ represents the operations by which data are broken down, conceptualised, and put back together in new ways122. Com efeito, um dos pontos de contacto que encontramos com o nosso trabalho é o facto de iniciarmos a investigação teórica sobre o conceito de <blended learning> cruzando, fundamentalmente, duas técnicas de recolha: realização de entrevistas exploratórias e a revisão da literatura, alternando momentos de recolha
120 Sublinhado nosso.
121 Codificação aberta, codificação axial, codificação selectiva (cf. Fernandes & Maia, 2001).
122 Os procedimentos de codificação e identificação de categorias são parte integrante do que que se designa por análise qualitativa de conteúdo pressupõe: /…/all sort of recorded communication (transcripts of interviews, discourses, protocols of observations, video tapes, documents.). (Mayring, 2000, p. 2).
Por outro lado, será relevante referir que existe um vasto leque de ferramentas informáticas de apoio à análise de conteúdo de tipo quantitativo, que podem auxiliar o investigador, numa escala sem precedentes a organizar, transcrever, ordenar e categorizar os dados, permitindo análises multiformes.
Nvivo e Nud*ist são exemplos de ferramentas dessa índole. Apesar da panóplia técnica e da instrumentação metodológica, prevalece sempre imperativo, em qualquer caso, o olhar do observador criterioso, crítico e inquisitivo.
©
Interview Text Codes
From my perspective Personal view
the main challenge is Assertion
in changes in technology Changes in technology or the product improvement Changes in product done by the COTS supplier. Assertion
Changes by Supplier
You Pronoun shift
can never guarantee that Assertion Uncertainty if you are buying several, Procurement they will all be the same. Product consistency
Necessary condition
Yes, Affirmation
when you come to buying PCs Procurement of hardware a lot of our products now are delivered with the
software already loaded on the PCs
Integrated products Hardware Software that causes you to go through an inspection. Extra work
Costs in human effort Costs in time
We weren’t happy, Dissatisfaction
it was costing us extra money. Costs in money Last year this part of Company Y organised a forum
workshop seminar on COTS,
Extra work
Action due to COTS shortfall and as part of that we did a survey of a number of our
projects on problems and issues with using COTS
Extra work
Implementation difficulty the short time that components become obsolete. Short time to obsolescence
“ ”
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teórica e de recolha empírica. Circunscrevendo a questão à temporalidade da nossa investigação, na primeira etapa, que mais adiante designaremos como exploratória e que, no domínio interno das propostas de Nuopponen (2011, p. 12) e de Costa (2012), é designada como etapa de familiarização com o domínio em estudo, percebemos, a título exemplificativo, que a compreensão do conceito de <blended learning> implicava o estabelecimento de inter-relações com <e-learning>, mas só a evolução cronológica inerente ao cruzamento da revisão da literatura com as entrevistas exploratórias, permitiu compreender que havia todo um cenário de conceitos a considerar: educação a distância, educação presencial, educação online, aprendizagem enriquecida por tecnologias e ainda outras modalidades emergentes.