2 OS FUNDAMENTOS DA TESE: LUZES PARA PODER VER MAIS LONGE
2.2 CONSCIÊNCIA HUMANA
“A redução do outro, a visão unilateral e a falta de percepção sobre a complexidade humana, são os grandes empecilhos da compreensão.” (EDGAR MORIN)
Antes de propormos um conceito para a expressão “Consciência Humana”, cabe definir de que modo consideramos a palavra Consciência neste estudo. Muitas são as significações
para esse termo tão amplo. Inicialmente, cabe dizer que não abordaremos o fenômeno da consciência exclusivamente por meio da perspectiva da biologia (DAMÁSIO, 2000), da consciência espiritual (WILBER, 1986, 2000, 2001, 2007), nem da moral (PIAGET, 1994) da consciência crítica (FREIRE, 1996, 2001) mas, sim, extrairemos, de cada um desses autores, aqueles significados que conduzem a uma formulação mais voltada às questões afetivas, culturais e sociais.
Para Sarmiento (2015), a palavra consciência não pode ser considerada apenas como um sistema informativo que emerge a partir do aspecto biológico, especialmente neurológico, mas que é, sim, influenciada diretamente por fatores sociais, morais e culturais. Nesse sentido, cabe transcrever a ideia de Wilber (2000, p. 163), que afirma que “a consciência não é meramente um fenômeno corpóreo, transcendental, mas está profundamente encaixada em contextos de fatos objetivos, de experiências culturais e de estruturas sociais.”
Complemento esse conceito a partir do proposto por Trevisol (2003), que considera a palavra consciência como um estado de espírito conhecedor, capaz de perceber o que está além do que se vê, de ouvir o que está além dos sons e de entender, para além de preconceitos, o real significado do que está sendo percebido. Essa capacidade não é inata, ela precisa ser desenvolvida e, para tanto, existe a Educação.
Antes de explicitar as condições necessárias para que o fenômeno da consciência seja caracterizado como humano, apresentaremos algumas teorias de base, para compreender a consciência em si. Busco descrever a consciência por meio de conceitos psicodinâmicos, construídos socialmente. Para Wilber (2001), a consciência pode existir em três níveis, os quais se estabelecem de acordo com aspectos individuais e coletivos.
[...] em cada um dos níveis de Consciência (sensório, mente, espírito) há um interior individual e coletivo, assim como um exterior individual e coletivo, o que nos possibilita, em cada nível de ser e de conhecer, uma experiência estética (EU), uma experiência ética (NÓS), uma “ciência” sobre os sistemas de fenômenos coletivos (ELE) [...] o caminho da preservação da vida é, sobretudo, uma questão de consciência [...] (WILBER, 2001, p. 39).
Esse mesmo autor, baseando-se em estudos dos aspectos psicológicos dos sujeitos, afirma que a consciência se manifesta no comportamento a partir das funções da percepção, do desejo, da vontade e da ação e que também possui facetas inconscientes, pois incluem corpo, mente, alma e espírito. Os estados da consciência, para esse estudioso, incluem o normal e o alterado, sendo que os modos incluem o estético, o moral e o cientifico. O desenvolvimento da consciência vai do pré-pessoal ao pessoal e ao transpessoal e, ainda, do subconsciente ao autoconsciente e ao superconsciente e do id ao ego. Os aspectos relacional e comportamental
da consciência referem-se à sua interação mútua com o mundo objetivo, exterior e com o mundo sociocultural dos valores e das percepções compartilhadas (WILBER, 2000, p. 15).
Wilber (2007) propõe que devem ser levados em conta os aspectos legítimos da consciência humana a partir de um modelo psicológico que inclua diferentes correntes sobre o desenvolvimento, desde a percepção até o autoconhecimento e as emoções, qualidades essas que são descritas por Goleman (1995) como pertencentes aos sujeitos considerados inteligentes emocionais, ou seja, aqueles que conseguem englobar seus conhecimentos, suas competências, habilidades e atitudes. Essa deveria ser considerada a verdadeira epistemologia do saber e que deveria ser mais bem trabalhada tanto na formação de professores quanto nas escolas, com os estudantes.
Em outro enfoque, Damásio (1996), um dos maiores estudiosos dos mistérios da consciência, tem buscado compreender as bases biológicas e o papel das emoções na formação da consciência tanto no que se refere à tomada de decisão quanto no sentido da moral. Esse autor busca compreender, ainda, as possibilidades de superação da dicotomia entre razão e emoção. Para tanto, ele procurou articular os aspectos sociais, a subjetividade e os processos neurobiológicos que, juntos, explicam a evolução do cérebro humano e a emergência da consciência e todas as suas representações e construções criativas e significativas. Deixa claro que “se a consciência não se desenvolvesse no decorrer da evolução e não se expandisse em sua versão humana, a humanidade que hoje conhecemos, com todas as suas fragilidades e forças, nunca teria se desenvolvido.” (p. 17). Além disso, esclarece que para que nos tornemos conscientes, precisamos construir um tipo específico de conhecimento. Em suas palavras:
A forma mais simples na qual esse conhecimento emerge é o sentimento de conhecer e, o enigma que temos diante de nós resume-se na seguinte questão: que prestidigitação possibilitou a aquisição desse conhecimento e por que ele surge primeiramente na forma de um sentimento? ( p. 219).
Perguntas como essa provocam importantes reflexões e nos levam a considerar a relação entre o conhecimento e o sentimento na formação e ampliação da consciência. Assim como Damásio, Maturana (1998) também enfatiza a importância das emoções para o favorecimento da aprendizagem, seja no nível cognitivo, seja no atitudinal. Esse autor descreve que a emoção fundamental e que torna possível a humanização do homem é o amor, pois ele é constitutivo da vida humana. “O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência que conotamos quando falamos do social.” (MATURANA, 1998, p. 23).
Essas conceituações se encaminham para a expressão “Consciência Humana”, no sentido da qualidade das relações sociais, com uma diversidade de termos relacionados, sendo que as expressões “consciência moral” ou “consciência social” foram mais facilmente encontradas na construção do estado do conhecimento sobre o tema em questão, em especial quando se refere às relações com a escola.
As conceituações de Luria (1988) sobre a Consciência também contribuem para elucidar essas relações com o aspecto social pois, sendo formada pela percepção, memória, hábitos e pensamentos, mediados pela linguagem, é multideterminada por meio dessas informações sensórias que advém das relações do meio social. Para esse estudioso, Consciência significa, ainda, a “habilidade em avaliar as informações sensórias, em responder a elas com pensamentos e ações críticas e em reter traços de memória de forma que ações passadas possam ser usados no futuro com maior aptidão.” (p.196). Assim, chega-se ao conceito de que Consciência Humana compreende a capacidade psíquica de perceber e identificar os sentimentos próprios e alheios, de olhar, refletir e agir sobre o mundo com capacidade crítica e coerência, baseando-se nas virtudes do respeito e da solidariedade.
Conforme o que propôs Rey (2005, p. 60),
a consciência humana organiza-se, expressa-se e desenvolve-se na contínua processualidade do sujeito, que em suas complexas operações reflexivas, representacionais e construtivas logra articular elementos de sentidos muito diversos nos diferentes momentos da sua expressão.
Diante dessa conceituação, cabe refletir sobre a importância da busca do autoconhecimento a fim de identificar quais os elementos de sentido que são despertados em diferentes situações individuais e coletivas e que definem as idiossincrasias de cada sujeito frente às suas relações com o outro e com o mundo.
2.2.1 Ampliação da Consciência Humana
Para Freire (2008, p. 121), a ampliação da Consciência Humana se dá a partir do jogo dialético das relações homem-mundo, relações que se dão simultaneamente. Assim, o ser humano:
possui a propriedade de voltar-se sobre si mesmo e ser consciente de sua consciência. A sua ação ultrapassa o nível do simples reflexo da realidade, da resposta a estímulos externos, para ser reflexiva, alargando-se na reflexão crítica sobre os seus próprios atos e na capacidade de superação de suas contradições. O homem tem a propriedade de transcender a sua atividade: dá sentido ao mundo, elabora objetivos, propõe finalidades.
A partir da abordagem interacionista de Vigotsky (2000) a base para a compreensão do desenvolvimento humano se dá a partir da perspectiva sociocultural. Para esse consagrado autor, tudo inicia como um estado indiferenciado de atrações, afetos e sensações. Logo após o seu nascimento, o bebê conhece os estímulos que influem sobre ele, diferenciando coisas e pessoas; sendo que suas manifestações conscientes são muito primitivas. O bebê precisa tomar consciência de que alguém cuida dele para poder engajar-se no processo de comunicação emocional que é por ele considerada como a primeira formação sistêmica da Consciência Humana advinda desse caráter social da linguagem. Segundo ele, a linguagem constitui a origem das interações que compõem a consciência humana. Embora essa não seja a abordagem adotada para esse estudo, a ideia de que a linguagem dá base para a consciência é de fundamental importância, pois aproxima o mundo subjetivo do objetivo, ideia essa que pode ser esclarecida com base em Barreiro (2000):
A gênese da consciência humana pode ser explicada pela possibilidade de sua emergência a um nível de descoberta do mundo objetivo como ´forma de realidade´ oposta a um eu individual mas capaz de integrar-se: consciência--do-mundo x consciência-de-si. Nessa consciência-do-mundo inclui – na esfera de sua própria dimensão – uma consciência-do-outro, como realidade ´destacada de mim´, e colocada inicialmente em um mesmo nível. (p. 55).
Aproximando os conceitos apresentados acima, é possível compreender que a consciência se desenvolve pela integração entre os elementos da percepção, da ação, do conhecimento e da compreensão do mundo, levando a a uma maior elaboração mental, favorecendo a leitura da realidade e, assim, permitindo a articulação da ação/intenção/transformação. Sendo um dado sensível, a consciência nos leva a perceber o mundo, podendo ser considerada como o prelúdio de uma compreensão do mesmo, que pode conduzir às necessárias transformações sociais.
Este estudo pretende compreender não tão somente conceitos, mas os modos que a Consciência Humana pode ser ampliada, em especial no espaço escolar, sob a influência da pessoa dos professores nesse processo, tendo como princípio a humanização pela Educação e a necessidade das transformações da sociedade. Para darmos início a essa compreensão, destaco as ideias de Holanda (2014), para quem a ampliação da consciência humana também pode ser entendida como consciência espiritual, por meio da qual o professor poderá contribuir para os avanços necessários ao campo da Educação, e a Batalloso (2012, p. 163), que defende uma Educação que favoreça a ampliação da Consciência Humana deve ser
um processo ao qual se possa conjugar a condição de seres humanos que há em nós, seres que pertencem a uma mesma ‘nave planetária’, conjugar nosso caráter individual e singular que nos conduza para uma Educação humana amorosa e não-sectária, onde “[...] se condensam pensamentos, emoções, motivações, vivências e experiências presentes em nosso caminhar”.
Muitas vezes considerada unicamente pelo seu aspecto intelectivo, a consciência humana vem carregada de aspectos afetivos que são, de fato, os que levarão o sujeito a transformar-se a partir de sua atividade humana. Assim, o desenvolvimento da consciência humana deve ocorrer paralelamante ao desenvolvimento da autonomia, de forma gradativa e contínua.