• Nenhum resultado encontrado

“A identidade desponta a partir do cemitério da comunidade, mas floresce graças à promessa de ressuscitar os mortos." Bauman (2001b, p. 151)

Como se viu, Turner oferece-nos uma tipologia das associações humanas em que grupos, organizações e comunidades se posicionam num nível intermédio e as últimas em particular constituem parte consuetudinária e nível dilecto da análise de redes, perceptivelmente porque admitem alguma comodidade no enquadramento dos fenómenos, permitindo, em primeiro lugar, a sua filiação na discussão, cara à teoria social, do advento da modernidade industrial, segundo a marca de água de Tönnies (2002) e de Simmel (1903), como proponente de uma alteração na morfologia social em que o modo de vida proximal e o horizonte da vizinhança rural cederam passo à vida urbana impessoal e à invenção do estado e da nação como sua expressão e “sociedade” politicamente organizada e, em segundo lugar, porque dentro das metáforas espaciais a que por facilidade de comunicação a Internet foi por desenho sujeita, os seus instrumentos e plataformas foram prefigurados e descritos como “sítios” e por extensão lógica “locais” de encontro onde, à semelhança do terreiro da aldeia, os indivíduos teriam a possibilidade de se encontrar numa espécie de feira contingente em que se trocariam e discutiriam interesses, a proximidade perdida se reintroduziria e as relações sociais recontextualizariam. Em que, em suma, os novos média constituiriam a nova vizinhança.

Perspectivar as formas de associação em rede, à semelhança de Rheingold (1993), como algo que facilita a formação de “comunidades virtuais” vem não obstante com um preço: o lastro histórico da sua definição em termos de distância euclidiana57 (consoante se viu apenas uma das diversas

57Derivado de um sobre empolamento de Tönnies, conquanto Weber tenha enfatizado o seu processo

constitutivo, aespacialmente, como vergemeinschaftung, orientação mútua derivada da partilha de um sentimento de pertença (Hepp, 2013, p. 101). Enquanto Schmalenbach nos legou explicitamente o conceito de comunhão

descontinuidades relevantes no processo de comunicação em rede) é geneticamente inadequado e em consequência é-se confrontado com infinita literatura justificativa, tendente a esticar, reformular, adaptar e recuperar um conceito inerentemente problemático e de difícil circunscrição58.

Cientes dos seus limites, existe em todo o caso um constructo de “comunidade” que se pode obter como desiderato comum das propriedades e requisitos atribuídos. Assim entre os elementos comuns às múltiplas definições de comunidade virtual (Baym, 2010, p. 73 e seg.s; Christensen & Levinson, 2003; Consalvo & Ess, 2011, p. 310 e seg.s; El Morr & Maret, 2012; Hara, Shachaf, & Stoerger, 2009; Jones, 1997, p. 107 e seg.s; Misra & Stokols, 2012; Papacharissi, 2011; C. Porter, 2004) incluem-se cumulativamente:

• Uma agregação de indivíduos (pelo menos três);

• comprometidos através da partilha de valores, interesses ou fins/objectivos comuns; • que levam à existência de interacções mediadas;

• num local ou espaço(s) tecnológico(s) próprio(s);

• traduzidas na partilha de informação, experiência e recursos;

• de forma suficientemente frequente para desenvolverem um sentido de permanência/constância; • e o sentimento de comungarem significados, uma história ou identidade que os leva;

• a aceitarem de forma tácita ou explícita a existência de expectativas e regras; • orientando-se por princípios que enfatizam a ajuda e o respeito mútuos; • de que individualmente admitem retirar benefício.

Contra a tese da “comunidade perdida” (Wellman, 1999) da sociologia clássica, numa nostalgia recorrente, igualmente tipificada por Putnam (2000), a análise de redes contrapôs assim a ideia de que a Internet a libertaria na forma da “comunidade virtual”, estando esta sujeitos a processos facilmente inteligíveis através da moldura do interaccionismo simbólico (Cohen, 1985) mediante uma deslocação da ênfase do papel da geografia para uma baseada na construção de um sentido de colectividade orientada por processos/projectos comuns, dando progressivamente lugar ao debate do individualismo em rede (Rainie & Wellman, 2012; Rheingold, 2012), cujo traço distintivo repousaria não tanto no abandono das “comunidades” nem sequer no seu reforçado “incremento” mas antes na velocidade com que os indivíduos puderam passar a alternar entre elas.

Assim, argumenta-se, ao invés de as “comunidades” fornecerem os referentes para a construção do projecto de vida, através das tecnologias de comunicação, os indivíduos passaram a ter maior facilidade em articular redes de relações pessoais satisfazendo através de cada uma as suas distintas necessidades transaccionais. De certa forma, a “comunidade” teria, nas redes digitais, perdido algo do seu carácter determinante (dado pela afinidade geográfica, sem grande hipótese de escolha) passando a ter um carácter eminentemente contingente, complementando um número limitado de laços sociais fortes com um número virtualmente ilimitado de laços fracos (Granovetter, 1973, 1983, 2003), cuja

(bund), como forma sociativa constituída entre estranhos, em mobilidade.

58 De facto o conceito de “comunidade” é particularmente impreciso em Sociologia, não reunindo

consenso quanto ao seu significado (Bryant & Peck, 2007, p. 455). Perspectivando as relações sociais em linha na óptica do interaccionismo simbólico, Fernback (2007) por exemplo é levado a admitir que de tão abusado o seu significado se diluiu e converteu num paliativo fetichizado de que toda a gente fala sem saber exactamente do que trata a ponto de se ter tornado inútil na pesquisa sociológica. Kendall (Consalvo & Ess, 2011, p. 309 e seg.s), por seu turno, no que constitui provavelmente a sua meta-crítica mais bem-sucedida salienta que mais do que uma descrição objectiva de um tipo de associação humana o conceito de “comunidade” é um repositório de bagagem emocional e quase uma meta normativa de sociabilidade, invocando empatia, afecto, apoio, interdependência, consenso e valores partilhados.

passibilidade de promoverem fluxos de informação seria decisiva em processos sociais como a busca de emprego e a necessidade de auto-actualização.

Nesta visão (Wellman, 2001), em que os média surgem como elemento estruturante da vida social59, as comunidades porta-a-porta teriam sido sucessivamente sucedidas por comunidades lugar-

a-lugar, em que a tecnologia de comunicação dominante era o telefone fixo, ligando agregados, lares e locais de trabalho para, na idade da Internet e das comunicações móveis, portáteis e miniaturizadas, darem finalmente lugar a comunidades pessoais (Rainie & Wellman, 2012, p. 122 e seg.s) feitas de comunicações pessoa-a-pessoa, admitindo-se que “Nas sociedades em rede (….) cada pessoa está intimamente conectada a diversas redes, portanto cada qual possui uma ‘comunidade pessoal’“ (Larsen, Urry, & Axhausen, 2006, p. 16).

Esta morfologia social é em larga medida percepcionada como acompanhando uma tendência geral para a modernidade reflexiva (Beck, Giddens, & Lash, 1994; Giddens, 2001). Admite-se, nesse caso, que o indivíduo tem um posicionamento estratégico e escolhe as redes e amizades com quem socializa em função dos interesses e papéis sociais que particularmente desempenha e que, numa época que as pessoas se tornaram mais móveis e em que os referentes identitários como a nacionalidade, a classe e os valores familiares tendem a declinar, nas palavras de Ulrich Beck, “a ética da auto-realização individual (…) é a tendência mais poderosa nas modernas sociedades. A ser humano capaz de escolher, decidir e moldar que aspira a ser o autor da sua própria vida, o criador de uma identidade individual, é a característica central do nosso tempo” (Hutton & Giddens, 2001, p. 165).

Castells (2009, p. 116 e seg.s), por seu turno, situa o advento do individualismo em rede no contexto da transformação cultural experimentada por um mundo globalizado, caracterizada pela tensão entre dois pares de pólos opostos: individualismo e comunalismo de um lado e globalização e identificação do outro. O seu entrecruzamento geraria assim quatro padrões ou tendências culturais dominantes no mundo contemporâneo: o consumismo de marcas (produto da relação entre individualismo e globalização), o individualismo em rede (fruto da relação entre individualismo e identificação), o cosmopolitismo (produto do encontro do comunalismo com a globalização) e o multiculturalismo (fruto do cruzamento entre comunalismo e identificação).

Cruzando perspectivas, se, consoante a formulação dos contornos da “questão da comunidade”, “de facto, o que está em jogo é por um lado a forma como a estrutura alargada dos sistemas sociais afecta a composição, estrutura e conteúdos dos laços interpessoais e por outro como a natureza das comunidades em rede afecta os primeiros, em que se encontra embebida” (Wellman, 1999, p. 2), a realidade perfilada pelas tecnologias da comunicação é um acréscimo mais do que uma substituição em que o denominador comum da globalização – o seu factor operativo – é sobretudo constituído pela homogeneização das metas de consumo (Ritzer, 1993, 2005a, 2010a, 2011; Ritzer & Jurgenson, 2012),

59 Em que se enfatiza as affordances tecnológicas e se tenta "compreender a vida em termos de média" ao invés

“dos média em termos de vida” (Lash, 2006), inflacionando a importância do objecto de estudo e corporizando um mediacentrismo criticado entre outros ainda por Morley (cf. acima, p. 51) e por Couldry, por vezes aplicando retroactivamente preocupações da comunicações online - por exemplo empolando a importância do conhecimento do contexto nas chamadas por voz para “definir a identidade” (op. cit., p.239) dos interlocutores, quando, na verdade, o grosso destas é mantido com indivíduos de antemão conhecidos.

prosseguidas individualmente numa lógica de emulação e de competição pelo prestígio que na acepção de Lefebvre reproduzem na vida quotidiana as formas estruturais, colonizando o espaço social e para Baudrillard (1981) encontram nos espaços virtuais formas dilectas de prossecução da economia política do signo, facilitando a sua disseminação e valor de troca.

Intimamente associado às marcas e à acção das corporações multinacionais, que condicionam a atribuição de significado às opções de consumo através do branding, o individualismo em rede surge como vivência dominante da socialidade na sociedade hiperligada. Através dele os indivíduos “não se retraem no isolamento da realidade virtual. Pelo contrário, expandem a sua sociabilidade fazendo uso da abundância de redes de comunicação ao seu dispor, selectivamente, construindo o seu mundo cultural em termos das suas preferências e projectos, modificando-os de acordo com a evolução dos seus interesses e valores pessoais” (Castells, 2009, p. 120).