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“Marcelo Rebelo de Sousa visitou as Ilhas Selvagens (…) o ponto mais a sul do território nacional (…) procedeu depois ao envio de postais que foram colocados no marco do Correio da Selvagem Grande, serviço público existente nesta ilha.” Página da Presidência da República, 30 de Ago. de 2016 "Es la mayor ampliación de la soberanía desde Cristóbal Colón", dice Luis Somoza Losada, coordinador del equipo de 13 personas —siete civiles y seis militares— que se ha encargado de apuntalar la ambiciosa expansión marina de España.” El Pais (Planelles, 2014), “There is no longer an outside to capital.” Hardt e Negri (2000, p. 102)

Se a par dos mecanismos de dilação temporal (pela canalização através do investimento a longo- prazo que defira os proventos e a sua entrada em circulação), de facto, os interruptores e as reafectações espaciais do capital constituem os escapes dilectos para a sobre acumulação, não se mantendo a sua paisagem fixa por muito tempo na medida da necessidade de constantemente reconfigurar o espaço de forma a gerir os inevitáveis bloqueios a que cada novo arranjo acaba por conduzir (Harvey, 2003, p. 94 e seg.s), transformando a cada etapa a escala geográfica dentro da qual a ordenação económica é definida, operando um processo de compressão espácio-temporal tendente a reduzir cada vez mais a

fricção da distância e gerando inevitavelmente contradições, desigualdades e armadilhas, então há razões para acreditar que esgotadas as vicissitudes do domínio financeiro pela agilização dos fluxos de capital, encontrados como parecem estar os limites sustentáveis e retribuíveis do crédito internacional e na condição da dificuldade em manter as vantagens competitivas do informacionismo pela ligeireza da circulação do conhecimento e pela dificuldade em garantir plenamente os direitos de propriedade intelectual que deveriam assegurar a diferenciação tecnológica, razões há para crer que o próximo spatial fix (Harvey, 2001a) significativo se possa traduzir num regresso às origens: à “redescoberta” da importância dos recursos naturais, da geografia e do território em sentido estrito, reintroduzindo a possibilidade da “colonização” como sua “captura”, através de duas direcções lógicas que permitem garantir a manutenção do crescimento rompendo com a aparente circunstância do mundo finito a que a globalização nos sujeitou: uma primeira através da disputa pelos leitos marinhos, efectivamente cerca de 70% da superfície planetária e até agora relativamente intocados e uma segunda na forma da exploração dos recursos extraterrestres (Dickens & Ormrod, 2010), mormente minerais, imediatamente da Lua e subsequentemente mediante uma extensão ao sistema solar envolvendo projectos tais a colonização de Marte, a captura e exploração de asteróides bem como hipoteticamente, segundo reconhecimento unânime, de alguns satélites de Júpiter que à partida reúnem condições para ser alvo de particular interesse, como os oceanos de Titã e a cobertura gelada de Europa (Vie, 2016).

Os indícios do primeiro passo podem encontrar-se no próprio espaço ibérico onde se observa que os sucessivos planos governamentais portugueses, visando fomentar “o regresso ao mar” - tais o “Plano Mar-Portugal”, a reiterada definição de uma “Estratégia Nacional para o Mar”52, a aprovação de

uma “Lei de Bases do Ordenamento e da Gestão do Espaço Marítimo” 53, da iniciativa do XIX governo

constitucional, segundo ditames mantidos pelo subsequente executivo que assumiu identicamente a aposta de duplicar o peso das actividades marítimas no PIB para 5% até 2020, fazendo do tópico, no dizer do respectivo Primeiro-ministro, um dos poucos temas sobre os quais o conjunto do espectro partidário reúne consenso (Lopes, 2016)54 - colidem com igual determinação do lado espanhol.

Assim, a aposta no “oceano como vector estratégico de desenvolvimento” e elemento “diferenciador”, feita coincidir com a invocação do alegado desígnio histórico de um país que tem de si a imagem de haver “dado novos mundos ao mundo” mediante a acção dos seus navegadores, demonstra reactividade face à ambição do país vizinho relativamente à qual ressurgem inusitados e aparentemente anacrónicos contornos de conflito geopolítico. Especificamente sobre a extensão das respectivas Zonas Económicas Exclusivas em que o arquipélago das Selvagens aparece como alvo de disputa (Sereno, 2014), compelindo a cíclicas visitas de altos dignatários portugueses, entre os quais os últimos quatro Presidentes da República, num esforço de contrariar idênticas acções simbólicas de desafio que por parte

52 Cf. http://www.cienciaviva.pt/img/upload/Estrategia_Nacional_Mar(2).pdf (versão 2006-2016) e

http://www.dgpm.mam.gov.pt/Documents/ENM.pdf (versão 2013-2020).

53 Lei n.º 17/2014, de 10 de Abril, disponível por ex. em

http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?artigo_id=2081A0004&nid=2081&tabela=leis&pagina= 1&ficha=1&nversao=

54 Sobre a polémica que rodeia as Selvagens constitui ainda recurso valioso o blogue mantido por Pedro

do lado espanhol incluíram episódios de violação do espaço aéreo (evocativos do alvor da Primeira República e do ano de 1911 em que, coincidindo com a convulsão interna portuguesa, identicamente Espanha pretendeu tomar posse das ilhas para aí construir um farol, a pretexto da inacção do estado português e dos riscos para a navegação na aproximação às Canárias), desembarques seja de pescadores seja de activistas independentistas canários enquanto, ao mesmo tempo, junto das Nações Unidas, o governo espanhol apresentou uma reclamação de soberania sobre 296.500 Km2 do Atlântico, tida como “la mayor ampliación de la soberanía desde Cristóbal Colón” (Planelles, 2014), em que se incluem 10.000 Km2 adjacentes às ilhas portuguesas, sob o alegado pretexto destas serem rochas que não configuram condições de vida e por conseguinte não conferirem direitos e tendo como efectivo fundamento a cobiça suscitada pela descoberta de jazidas de hidrocarbonetos nas águas adjacentes na sequência de sondagens efectuadas pela Repsol.

Outro exemplo crasso é dado pelo conflito mantido em anos recentes por Pequim com os seus vizinhos sobre o controlo do Mar do Sul da China que o Império do Meio pretende reclamar como seu mar fechado, espoliando-os dos seus direitos históricos. Se na Macaronésia o pretexto é haver ilhas que o não são, no oriente a consolidação do poder chinês tem passado pela ampliação por aterro de ilhas que o não eram, tendentes à aquisição de direitos pelo facto consumado independentemente de e com manifesta indiferença pelo direito internacional em sentido contrário e em particular da recente deliberação do Tribunal Internacional de Justiça de Haia (Aneja, 2016; Economist, 2016).

No tocante ao segundo vector, a colonização do espaço exterior tem rapidamente vindo a passar dos domínios da ficção científica – malgré, através dos quais, em produções como The Martian, Armageddon ou The Moon, Hollywood e no último caso, explanando um cenário inteiramente verosímil de extracção de Hélio 3 do rególito lunar, a indústria cinematográfica britânica, têm contribuído para “preparar” e fazer penetrar a ideia na opinião pública - para os da efectiva aposta estratégica, augurando viabilidade e proventos no prazo de poucas décadas. De uma forma geral, a transição do milénio coincidiu com uma movimentação em que potências emergentes, tais a Índia, a Coreia do Sul e o Brasil e outras de ambição global, tais a China, apostam em concorrer com os E.U.A. A última, em particular, tem reforçado as somas colocadas no seu programa espacial (Xin, 2011) em cujo horizonte, sobre patrocínio do capitalismo de estado e mais recentemente mediante abertura ao sector privado (Chen, 2016) se inclui o estabelecimento de uma base lunar já em 2025-30 (Witze, 2013). Afinal, perenemente, “o movimento fluido sobre o espaço pode apenas ser conseguido fixando certas infra-estruturas físicas no espaço” (Harvey, 2003, p. 99), e a Agência Espacial Europeia ela própria apresentou recentemente planos e protótipos para uma “Base Shackleton” de presença no satélite contiguo (Stuart, 2015) mediante uma variante da técnica de impressão 3D que, segundo se garante, dependendo apenas da disponibilização de meios financeiros, reúne condições técnicas de execução no prazo de uma década.

Sessenta anos volvidas sobre o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik, em 1957, a corrida espacial volta assim à linha da frente da política internacional e uma vez debelada, a “última fronteira”, promete infinita elasticidade afigurando-se conforme um movimento de transição prognosticado entre dois marcos contemporâneos das relações internacionais: Preparing for the Twenty

First Century, de Kennedy (1993) e The clash of civilizations and the remaking of world order de Huntington (1996). O primeiro demonstrando implacavelmente a impossibilidade e a insustentabilidade por ausência de recursos do modelo de desenvolvimento actual e o segundo sugerindo um futuro feito de linhas de fractura entre blocos definidos por diferentes culturas políticas.

O resultado deste rearranjo espacial que, descontado o optimismo, não parece estar fora do cenário do altamente provável no final do presente século, permanece largamente incerto e os desafios que coloca são de facto civilizacionais. Menos, como se possa pensar, pelas implicações culturais da (im)probabilidade imediata de encontrar vida alienígena ou sequer indícios dela, mas sobretudo pelo desequilíbrio de poder, desafios éticos, desregulação e mais do que certa desigualdade que promete introduzir no sistema mundo conforme o conhecemos.

De facto, os primeiros esforços de regulação dos recursos extraterrestres, de cunho marcadamente idealista, à semelhança do “Tratado dos Princípios Governando as Actividades dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Exterior” de 1967 e do “Acordo da Lua” de 1979, designando- a sob auspícios das Nações Unidas como “herança comum da humanidade”, aberta a todos, porém inapropriável por um estado ou indivíduo em particular, revelam-se insuficientes e formidavelmente lacónicos quanto à regulação da sua exploração comercial (Dunk & Tronchetti, 2015, p. 760 e seg.s).

O direito internacional público, é sabido, ostenta a particularidade de ser aplicado ou ignorado pelos estados com relativa impunidade sob condição de garantia de força suficiente, conquanto o voluntarismo da protecção coactiva a torne efectivamente arbitrária, sendo marcado mais pela realpolitik do que pela ética. A resistência pragmática à vinculação aos acordos internacionais (o Acordo da Lua por exemplo, regista apenas 15 ratificações, nenhuma das quais por parte das efectivas potências espaciais), correspondente à manutenção de um não surpreendente espirito de directório em que a omissão é desejada e a regulação vista como empecilho, sobretudo quando os investimentos em causa são colossais e mais do que nunca os estados cooptam investidores privados para quem a recuperação do velho princípio empreendido pelos exploradores portugueses, traduzido na imposição de padrões com as insígnias da coroa enquanto reclamação de soberania sobre os novos territórios, de acordo com o qual “o primeiro a chegar toma posse”, parece conveniente. Afinal, “no passado apenas três motivações conduziram as sociedades a gastar o tipo de capital em projectos especulativos ambiciosos: a celebração de um poder divino ou real, a busca do lucro e a guerra” (Tyson, 2012, p. 22) e entre outras a motivação para a ambiciosa aposta da China pode muito bem implicar as três: o prestígio, o dinheiro e o conflito.

Se os reptos de Kennedy estabelecendo o objectivo de colocar um americano na Lua antes do final da década de 1960 e de Reagan quanto à iniciativa “Guerra das Estrelas” foram etapas marcantes na galvanização do império americano contra o império soviético, que já não teve condições de responder à última, hoje, a corrida espacial chinesa parece estar em inevitável rota de colisão com o poder norte-americano com a diferença de que correntemente este não parece ter já nem a vontade política nem os meios financeiros para lhe reagir, condenando cada vez mais a NASA a perder a sua liderança (Kruesi, 2014); da mesma maneira que se torna crescentemente difícil ao poder marítimo

norte-americano proteger os seus aliados perante os avanços chineses no mar do Sul da China.

Os indícios remetem, por conseguinte, para a reiterada importância do cálculo geopolítico e para a globalização económica como estado transitório de um período histórico vigente entre o fim do mundo bipolar da guerra fria e um mundo marcado pela competição multipolar e de alguma forma para o “informacionismo” como estrutura de sentimento que perante a história poderá muito bem vir a desempenhar o papel por vezes atribuído à impregnação pelo cristianismo na dissolução do império romano: com a promoção da deslocalização de factores e a ideia de uma economia baseada no conhecimento efectivamente a funcionar como abertura das fronteiras aos “bárbaros” e à submersão do Ocidente sobre o peso do número das suas hordas. Para um movimento que esgotado o endo recupere a estratégia do exocolonalismo.

DAS MORFOLOGIAS DE SOCIALIDADE E

SOCIABILIDADE EM REDE

“Desta decomposição dos grandes relatos (…) segue-se o que alguns analisam como dissolução do vínculo social e passagem das colectividades sociais ao estado de uma massa composta de átomos individuais lançados num absurdo movimento browniano. Isto não é relevante, é um caminho que nos parece obscurecido pela representação paradisíaca de uma sociedade ‘orgânica’ perdida.” Lyotard (1989, pp. 40-41) “Na era do espectáculo interactivo que hoje permeia cada aspecto da nossa cultura, o que foi adicionado ao Espectáculo é a ilusão da agência administrada através das novas condutas tecnológicas.” O’Neill (2009, p. 155)

Nos capítulos anteriores norteámo-nos por uma perspectiva eminentemente macroscópica, tentando enquadrar a evolução do panorama mediático recente, mormente em torno da generalização das tecnologias da comunicação e localização, nas suas implicações institucionais e relações de foro estrutural com os modos de produção e desenvolvimento e com as grandes questões da teoria social, tais os sentidos de espaço e de tempo. Este exercício constituiu, a nosso ver, uma condição necessária para o esforço que empreenderemos doravante que consiste numa aproximação a como, a um nível micro, o indivíduo efectivamente integra e é integrado por estas tecnologias no dia-a-dia, com impactos na construção da sua identidade que, como processo social, implicam igualmente avaliar a forma como socialidade e sociabilidade55 são perseguidas no seio de ambientes comunicativos que configuram

dinâmicas grupais e organizacionais de vocação meso recuperadoras do debate sobre o que constitui uma “comunidade”, conceito problemático cuja percepção eminentemente emotiva da alegada ameaça deu mais recentemente lugar à discussão sincrética do individualismo em rede e de como se retira partido das tecnologias de comunicação ubíquas para a mobilização do capital social, insistindo-se porém numa oposição comunidade-rede feita em termos eminente instrumentais que limita a sua acuidade e finalmente nos hão-de conduzir à opção por Pierre Bourdieu, através dos seus conceitos de doxa, habitus e campo social, por Fredric Jameson, mediante a sua crítica da cultura pós-moderna como supérflua e presentista, e por Scott Lash, através da sua crítica da modernidade reflexiva, como autores passíveis de enquadrar a cultura digital contemporânea enquanto estrutura de sentimento de um tempo cujas formas não podem ser compreendidas como puros actos de deliberação racional, envolvendo igualmente processos alternados de diferenciação, desdiferenciação e naturalização que impregnam a vida social do espirito do espectáculo como conforme o espirito da organização económica; na pior hipótese como forma de montagem e dissimulação do poder caracteristicamente pós-industrial e na melhor enquanto

55 A distinção entre os substantivos “socialidade” e “sociabilidade” é subtil e melhor compreensível por

referência à respectiva forma adjectiva, como qualidades do que é “social” e “sociável”, respectivamente. Assim, do nosso ponto de vista, enquanto a "socialidade” é uma característica de espécie correspondente ao conjunto de comportamentos que permitem aos indivíduos transcender a sua condição individual e participar numa dinâmica de grupo, a “sociabilidade” é função de uma inclinação ou competência eminentemente individuais em procurar e se envolver com maior ou menor sucesso no dito comportamento (se se quiser em manter uma performance bem sucedida em termos da ordem da interacção, goffmanianamente, ou ainda em saber mobilizar a socialidade). Complementarmente, recorrendo a Simmel (1949), é possível distinguir as duas em função dos fins, assim enquanto a socialidade se definiria pela procura da interacção social como meio e instrumento para algo, a sociabilidade caracterizar-se-ia pela busca da interacção social como fim em si própria, constituindo a “forma lúdica” da primeira. Cf. por ex. Amirou (1989) e Jovchelovitch (2011)

algo potenciador de formas de reflexividade estética, habilitadoras de uma espécie de bricolage da identidade construída não de forma solipsista mas em função de renovadas formas de lazer comunitário. Comunidades de sentimento em que o mimetismo preponderaria sobre o cognitivismo e o utilitarismo estrito e o afecto se reencontraria em função de novos regimes de prática e pertença. Ou, na veia da sociologia germânica, comunidades comunicativas como configurações de comunitarizações transmediáticas, translocais, inerentemente imaginativas e escaláveis (Hepp, 2015, p. 205 e seg.s) perante cuja conceptualização a tradicional noção de “comunidade”, definida sine qua non pela proximidade, imediatamente se revela desajustada, arvorando um “moinho de vento” com que alguns insistem em se digladiar.

4.1 DAS FORMAS DE ASSOCIAÇÃO POSSIBILITADAS PELA TECNOLOGIA